quarta-feira, 2 de novembro de 2016

VISÕES DE CONSOLO APOC 14.











A primeira visão novamente é proléptica, antecipadora (veja 10:7; 11:15), e retrata o destino do povo de Deus que foi preservado durante a grande tribulação, mas que tinha sido vítima da cólera da besta. João os vê no Reino messiânico. Esta visão somente se concretiza nos capítulos 20-22, mas João gosta de relatar a seus leitores visões antecipadoras do que virá no fim, para fortalecê-los para as experiências duras que estão à sua frente.

1   Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil tendo nas frontes escrito o seu nome e o nome de seu Pai. João muda da profecia sobre a besta e os que levam a marca dela sobre a mão ou a testa para os redimidos, que trazem a marca de Deus. Apesar de terem sido vítimas da besta por se recusarem a adorá-la, sua salvação está assegurada. Em certo sentido isto é uma repetição da visão da grande multidão em 7:9-17, que passou pela grande tribulação e agora está diante do trono e do Cordeiro. A presente visão reafirma a sua vitória final, apesar do martírio infligido pela besta.

A última vez que vimos o Cordeiro ele estava diante do trono, no céu (7:9); aqui ele está na cidade santa, Sião ou Jerusalém. É possível que devamos entender o monte Sião simbolicamente, como lugar de libertação e vitória. O Salmo 2 promete que o ungido de Deus será colocado no “meu santo monte Sião” (Sl 2:6), e continua a promessa de vitória com as palavras: “Proclamarei o decreto do Senhor: Eleme disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:7). O Novo Testamento encara a res­surreição do Messias como o cumprimento desta promessa (At 13:33; Hb 1:5; 5:5). Por esta razão é possível que o monte Sião deva ser enten­dido espiritualmente, como a vitória dos santos.

Porém é mais provável que o monte Sião signifique a vitória escatológica que, de acordo com o Apocalipse, consiste na nova Jerusalémque desce de Deus (21:2). A Sião ou Jerusalém antiga frequentemente é definida no Antigo Testamento como a sede do governo de Deus na terra e o centro da sua vitória final. “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos” (Jl 2:32). No Novo Testamento, todavia, Sião se tornou “a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hb 12:22), não mais uma cidade terrestre, mas de cima (Gl 4:26). Jerusalém-Sião é a morada celestial do próprio Deus; não é mais uma cidade terrestre onde se pensa que ele mora. Na terra ele mora nos templos vivos dos corações do seu povo (Ef2:21-22). Quando vier o fim, todavia, as pessoas não deixarão a terra para voar até a Jerusalém celestial; esta é que vem a eles, descendo do céu, e Deus vai morar no meio dos homens.

Os cento e quarenta e quatro mil são o mesmo grupo que foi selado em 7:9-17; como naquela passagem, eles representam aqui a totalidade dos redimidos. Muitos intérpretes insistem em que duas características deles — castidade e primeiro fruto (v. 4) — os destacam como grupo especial de crentes, mártires ou celibatários. Mas estas palavras, não exigem que sejam interpretadas assim; Os santos que sofreram martírio no capítulo anterior estão agora na Jerusalém celestial, definitivamente salvos.

2.      João ouviu uma voz do céu, mas ele não diz de quem. Parece que ela vem da presença de Deus. A voz do Cristo glorificado era “como voz de muitas águas” (6:1). Os músicos são diferenciados dos quatro seres viven­tes no v. 3; parece que eles são exércitos de cantores celestiais. Sua voz se amplia em um poderoso crescendo.

3.      Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra. Em 5:9 são os vinte e quatro anciãos que cantam um cântico novo, louvando o Cordeiro que tinha resgatado a humanidade com seu sangue, para reinarem seu Reino. O cântico deste versículo também fala de redenção, porque só quem foi redimido da terra pode aprendê-lo. Como em 5:9 os anciãos entoam o novo cântico mesmo sendo um hino de redenção, assim também este cântico novo é entoado pelos anjos, mas foi composto principalmente para os redimidos.

4.      São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. A palavra grega traduzida “castos” é a mesma que significa “virgens” (parthenoi). Muitos intérpretes pensam que estas palavras identificam os cento e quarenta e quatro mil como uma classe especial de cristãos que levaram uma vida de autonegação e pureza especial, abstendo-se do casamento e se tornando celibatários. O sentido básico de parthenoi parece apoiar este ponto de vista. Mas isto seria uma violação de toda a teologia bíblica. A Bíblia nunca considera as relações sexuais pecaminosas ou profanas. Relações sexuais são sem excessão encaradas como um elemento importante do relacionamento humano; na verdade, são um dom de Deus. Ser casto ou evitar profanação sexual sempre está em contraste com relações sexuais ilícitas. O Novo Testamento recomenda o casamento, e as relações sexuais são parte essencial do casamento (1 Co 7:4ss.). É ver­dade que Paulo afirma que muitas vezes os ministros cristãos podem desincumbir-se com mais eficácia das suasresponsabilidades ficando sol­teiros (1 Co 7:32-34), mas não por encarar o sexo como algo profano; somente porque o relacionamento familiar traz consigo outras respon­sabilidades.

A palavra “casto” (ou “virgem”) pode se referir à condição espi­ritual, não somente a relações físicas. Inácio saúda seus irmãos “suas es­posas e filhos, e as solteiras (parthenoi) chamadas de viúvas” (Inácio aos Esmirneanos, 13:1). Quanto à sociedade, estas mulheres tinham estado casadas e eram agora viúvas; mas espiritualmente elas eram virgens. Paulo também usa esta palavra para os que são casados: “Tenho-vos preparado para vos apresentar como virgem pura (parthenon) a um só es­poso, que é Cristo” (2 Co 11:2). Esta interpretação encontra apoio no fato de que João em diversas ocasiões fala da idolatria da besta como porneia — prostituição (14:8; 17:2, 4,18:3,9; 19:2). Esta ideia tem um pano de fundo extenso no Antigo Testamento, onde a apostasia do Deus de Israel, para adorar os deuses dos cananitas, constantemente é chamada de adul­tério. Por esta razão concluímos que os 144.000 são virgens e puros no sentido de terem se recusado a se manchar, participando da prostituição que é adorar a besta, mantendo-se puros em relação a Deus.

São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro. Este grupo é casto e puro, mas este é seu traço negativo; o lado positivo do seu caráter é que eles são leais ao Cordeiro; eles o seguem, mesmo que seja para a morte. Isto é discipulado perfeito e sem hesitação. Assim como o caminho de submissão perfeita à vontade do Pai levou o Cordeiro à sua morte sacrificial na cruz, ser discípulo dele pode bem levar a compartilhar da sua cruz (Mt 10:38; Mc 8:34). Eles seguem o Cordeiro porque não pertencem a si mesmos; eles foram redimidos — comprados para Deus, às custas do sangue do Cordeiro (5:9).

Como redimidos eles são “primícias para Deus”. Esta palavra não está totalmente livre de dificuldades, porque geralmente ela designa uma parte do todo. As primícias eram os primeiros frutos da colheita, aos quais seguiriam muito mais. A palavra grega é usada com este sentido falando da ressurreição de Cristo; ele é a primícia da ressureição de todos os santos; ele é a primeira etapa do que os santos são o todo (1 Co 15:20, 23). Este significado sustentaria o ponto de vista de que os 144.000 são um grupo escolhido de cristãos, em contraposição aos crentes como um todo. Mas este significado de nenhuma maneira é obrigatório. “Primícias” pode significar todo um grupo, com vistas à sua consagração total a Deus. Neste sentido os cristãos são chamados de “como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18). Do mesmo modo diz Jeremias: “Israel era consagrado ao Senhor, as primícias da sua colheita” (Jr 2:3). A nossa passagem não contém nenhum pensamento no sentido de que es­tes redimidos são um primeiro grupo de pessoas, seguido da salvação dos demais. Na verdade Deus quer a salvação de toda a raça humana, mas só os redimidos são os que de fato se entregam a ele; assim, a ênfase do ter­mo está na entrega e consagração dos redimidos.

5.      E não se achou mentira na sua boca; não têm mácula. O termo “sem mácula” é usado no Antigo Testamento para os sacrifícios limpos, em condições de serem oferecidos a Deus. Aqui os redimidos pertencem a Deus, numa dedicação sem falhas. A natureza particular desta dedicação impecável é que neles só há verdade: “Não se achou mentira na sua boca”. Em Israel os redimidos eram os que “não proferem mentira, e na sua boca não se acha língua enganosa” (Sf 3:13). Honestidade perfeita era uma das características do servo do Senhor (Is 53:9). Os redimidos são, como o seu Senhor, absolutamente sinceros e sem malícia (1 Pe 2:22).

Chamada ao arrependimento (14:6-7).

6.      Vi outro anjo voando pelo meio do céu. Já falamos que o capítulo catorze consiste de uma série de visões pouco relacionadas entre si, antecipando o fim. Depois de ver os redimidos finalmente salvos, João ouve um anjo exortando todos a que se arrependam enquanto há tempo, antes que venha o julgamento final e seja tarde demais. Não está claro por que o anjo é “outro”, a não ser que entendamos que o novo cântico no céu (vv. 2- 3) foi entoado por exércitos de anjos. Ele voava no meio do céu, no zénite, onde todos poderiam vê-lo (veja 8:13). A mensagem do anjo era para os que se assentam sobre a terra — a expressão costumeira de João para pessoas não regeneradas (veja 3:10; 6:10; 8:13, etc.). Este anjo não fala a crentes, mas a incrédulos. Sua mensagem é um evangelho eterno. O artigo definido ausente representa uma dificuldade. Levou muitos comentadores a verem aqui uma mensagem especial que será pregada em relação à vinda do fim. Um estudioso contemporâneo nosso acredita que isto se refere a um ministério angélico especial, no tempo do fim, que resultará em um grande movimento de salvação entre os gentios? Mas é possível entender o anúncio do fim como uma parte das boas novas — um evangelho anunciado aos profetas. Aos adoradores da besta e aos que não querem se arrepender, o anúncio do fim não é evangelho; representa castigo e julgamento. Mas o anúncio do fim é boa nova, porque representa a consumação do plano divino de redenção. Talvez não devamos fazer tanto caso da omissão do ar­tigo definido. Paulo fala do evangelho de Deus (Rm 1:1) sem o artigo definido.

7.      Dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas. À luz da proclamação do anjo de que o fim está próximo, todos os homens são exortados a que se arrependam. Ainda não é tarde demais; o julgamento final ainda não veio; ainda há tempo para se arrepender e encontrar misericórdia diante de Deus. Para a frase “dai-lhe glória”, veja observações a 11:13; ela implica claramente em arrepen­dimento.

Deus é descrito mais em termos de juiz e criador. Os habitantes da terra ficaram maravilhados com os poderes manifestos pela besta e seu falso profeta (13:12-14); o anjo os lembra de que se haverão com alguém que é mais poderoso que a besta — aquele que é a origem de todas as coisas no céu e na terra.

A queda de Babilônia (14:8).

8.      Seguiu-se outro anjo, o segundo. A chamada ao arrependimento, à vista do julgamento iminente, é seguida de um anúncio angélico que an­tecipa a queda de Babilônia. Isto é semelhante ao anúncio antecipado da vinda do Reino de Deus (11:15; 12:10).Babilônia era o grande inimigo de Israel nos tempos do Antigo Testamento (Is 21:9; Jr 50:2; 51:8), e aqui representa a capital da civilização apóstata dos últimos dias, o símbolo da sociedade humana organizada política, econômica e religiosamente em oposição e desafio a Deus. Babilônia foi personificada pela Roma do primeiro século (1 Pe 5:13); na literatura apocalíptica judaico-cristã Babilôniapassou a ser um nome simbólico para Roma (Oráculos Sibilinos V. 143, 159, 434, Apocalipse de Baruque 11:1; 67:7). O vinho da fúria da sua prostituição (veja 18:3) combina duas ideias: o vinho usado para em­bebedar e seduzir a relações sexuais ilícitas, e “o vinho da cólera de Deus” (v. 10). Babilônia enganou e seduziu todas as nações pela atração e fas­cinação da sua riqueza e da sua luxúria; mas esta taça de prazer sensual transbordará, transformando-se na taça da cólera de Deus. A queda de Babilônia, anunciada aqui, está descrita em 17:1-18:24.

O castigo dos adoradores da besta (14:9-12).

A chamada universal ao arrependimento segue-se uma promessa de castigo para aqueles que não quiserem se arrepender. Qual será o destino dos que persistirem adorando a besta? O que acontecerá àqueles que não se comovem com a lealdade dos mártires, que selam seu testemunho fiel de Jesus com seu sangue? Esta visão responde a estas perguntas.

9-10. Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo, em grande voz: Se alguém adora a besta e a sua imagem, e recebe a sua marca na fron­te, ou sobre a mão, também este beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira. Temos de recordar mais uma vez que por trás das manifestações da ira de Deus contra a civilização rebelde, nas pragas das sete trombetas — e no futuro imediato dos sete flagelos — havia um plano de misericórdia: fazer com que as pessoas se arrependessem, enquanto havia tempo. Os que irreversivelmente se decidiram pela hostilidade a Deus têm de se tornar ob­jetos da ira divina antes que o Reino de Deus seja estabelecido. É inima­ginável que pessoas que odeiam o Messias de Deus e participam da per­seguição ao povo de Deus entrem no Reino de Deus. O reinado perfeito de Deus e a instituição do seu governo no mundo inclui a necessidade de que aqueles que se recusam a se submeter a este governo sejam julgados.

Duas palavras são usadas para descrever o julgamento de Deus: cólera (thumos) e ira (orge). Não podemos fazer uma distinção muito grande entre as duas palavras, mas orge é o tipo de ira que parte de uma disposição já tomada, enquanto que thumos representa uma ira mais passional. Na maior parte do Novo Testamento é usada a palavra orge para a ira divina; fora do Apocalipse thumos aparece só uma vez (Rm 2:8). Na Bíblia grega as duas palavras frequentemente aparecem juntas, para intensificar a realidade da ira de Deus.

Em qualquer caso, a ira de Deus não é uma emoção humana; é a reação preestabelecida da sua santidade à pecaminosidade e rebelião humanas. Enquanto Deus em sua ira não purificar o mundo de todo mal e rebelião seu Reino não pode vir. Por isso, no sentido mais amplo do plano de Deus para o homem, sua ira é necessária, correlata ao seu amor e à sua misericórdia. Dois dos principais temas do Apocalipse são a obs­tinação dos homens diante da salvação que Deus oferece, manifesta em sua submissão à besta, e o julgamento de Deus que tem de atingi-los. João enfatiza no Apocalipse a ira de Deus mais que qualquer outro livro do Novo Testamento (14:8, 10,19; 15:1, 19; 19:15). Porém não é de maneira inconsequente que seu evangelho, que expressa o amor de Deus mais que qualquer outro, também insiste: “Quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (João 3:36). Paulo inicia sua mais elaborada declaração sobre o evan­gelho da graça com as palavras: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens” (Rm 1:18; veja Rm 3:5; 12:19; Cl 3:6). Qualquer interpretação da mensagem do Novo Testamento que não inclua a ira de Deus está atenuada e mutilada.

O vinho da ira de Deus é “preparado, sem mistura, no cálice da sua ira”. Literalmente seria: “misturado sem mistura”. Era costume dos antigos misturar temperos e ervas ao vinho para lhe dar mais sabor, e “mis­turar vinho” até se tornou sinônimo de “servir vinho” (Sl 75:8). Mas o vinho da ira de Deus também é sem mistura, forte; será sorvido sem atenuação. As duas palavras são usadas de maneira semelhante nos Sal­mos de Salomão, onde Deus “lhes misturou um espírito de loucura, e lhes deu de beber uma taça de vinho não dissolvido” (8:15).

E será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. Este é o significado da taça da ira de Deus. O lago de fogo e enxofre será o lugar definitivo de castigo da besta e do falso profeta, e de todos que não tiverem seu nome escrito no livro da vida do Cordeiro (20:10,15). Como a descrição da cidade celestial, também estas palavras têm de ser entendidas simbolicamente, como uma realidade temível e derradeira que ninguém pode descrever. A palavra comumente usada para o lugar dos perdidos, no Novo Testamento, é geenna ou Gehenna, enquanto o mundo dos mortos intermediário é hades (sheol, no Antigo Testamento). Geenna não aparece no Apocalipse; hades aparece quatro vezes, usado quase como sinônimo de túmulo (1:8; 6:8;20:13,14). Nossa versão traduz tanto geena como hades por “inferno”, confundindo muito a situação; ambos têm significado bem diferente.

Geenna vem do hebraico ge-hinnom, que significa “Vale do Hinom” e se refere ao vale que passava ao sul de Jerusalém onde, nos dias da monarquia, judeus apóstatas adotaram as práticas cultuais da Palestina e queimaram crianças em honra a Baal e Moloque (2 Rs 23:10; 2 Cr 28:3; 33:6; Jr 32:35). Por isto o vale do Hinom se tornou tradicionalmente para os judeus um sinônimo de destruição pelo fogo. Jeremias vê o vale transfor­mado em vale da Matança (Jr 7:31-32; 19:5-6), no dia da vingança. Nosso Senhor também usou esta figura para descrever o destino dos maus. Ad­vertiu seus ouvintes que empregassem todos os meios necessários para remover os obstáculos e evitar este destino: “É melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno (geenna), para o fogo inextinguível” (Mc 9:43). Em outra ocasião Jesus descreveu o destino dos perdidos como sendo separação eterna de Deus e do seu Cristo (Mt 7:23; 25:12).

Não podemos compreender tudo que está implícito na afirmação de que os maus serão castigados “diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro”. Jesus disse que negaria diante de Deus e dos anjos aqueles que o negassem (Mc 8:38; Lc 12:9). A literatura apocalíptica judaica contém um detalhe que falta no Apocalipse, que os maus serão castigados na presença dos santos (Enoque 48:9). O ponto central parece ser, como Beckwith sugeriu, que a presença do Cordeiro, agora triunfante e vi­torioso, seria o fator mais doloroso do sofrimento dos perversos, porque como adoradores da besta eles tinham combatido o Cordeiro junto com esta.

11.    A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem, e quem quer que receba a marca do seu nome. Este versículo nos lembra de outro grupo, os vinte e quatro anciãos, que “não têm descanso nem de dia nem de noite, proclamando” louvores e adoração a Deus (4:8). A duração eterna do castigo dos maus não é novidade no Novo Testamento. Jesus tinha falado do castigo eterno dos perversos (Mt 25:46), e advertiu acerca do inferno de fogo, onde “não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga” (Mc 9:48).

12.    Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus. À vista do castigo certo da besta e dos que a adoram, João insere uma exortação à perseverança por parte dos que irão sofrer às mãos da besta. A “fé em Jesus” é um genitivo objetivo e não pode ser traduzida ‘ ‘fé de Jesus”.

A bem-aventurança dos mártires (14:13).

13.    Então ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham. Os santos são exortados à perseverança, mas são também assegurados da bênção que há em sua morte. Esta bem-aventurança — preferida dos cris­tãos diante da morte — vale primeiramente para os que sofrerão martírio, não para os santos em geral. Mas não precisamos entender que os outros cristãos não podem se alegrar com esta bênção. O mesmo descanso é prometido aos mártires em 6:11. A palavra “desde agora” não quer dizer que os outros santos não são bem-aventurados, mas que os que em breve cairão por mão da besta são os felizes de Deus, contrariando todas as aparências externas. No Senhor todos os crentes morrem, assim como também vivem em Cristo (1 Co 15:18; 1 Ts 4:16). Isto não identifica um grupo de cristãos especial. O Espírito Santo confirma e explica a bem-aventurança: os abençoados descansarão. A palavra grega traduzida “fadigas” significa trabalhar até à exaustão. A perseguição pela besta levou os santos ao fim das suas forças. Mesmo assim eles morremno Se­nhor, e suas obras, seus feitos, os acompanham além-túmulo. Estas obras são sua perseverança, sua obediência aos mandamentos de Deus e sua fé em Jesus mencionadas na bem-aventurança anterior.

A colheita (14:14-16).

João encerra seu interlúdio com duas visões: uma da colheita dos grãos e outra da vindima da ira de Deus. A primeira retrata o julgamento escatológico, com referência especial para o ajuntamento dos justos, na salvação; a segunda retrata a condenação dos perversos. Estas duas visões pressupõem que a luta final e espiritual entre Cristo e o Anticristo já terminou e que os homens tomaram sua decisão; lealdade a Cristo nem que seja até à morte, ou adoração da besta. As duas visões dão um retrato dramático antecipado de como será o destino destes dois grupos. O cum­primento das visões só ocorre nos capítulos 19-20.

14.    A maneira natural de entender o semelhante a filho de homem que João vê é que ele é o Messias que volta, o próprio Cristo; e é difícil evitar esta conclusão. A ideia do “semelhante a filno de homem” remonta à visão da vinda do Reino de Deus em Dn 7:13, onde um semelhante a filho de homem foi apresentado ao Ancião de dias, recebendo um reino eterno, para que todos os povos e nações o servissem. Jesus também falou do papel do Filho do Homem no julgamento final, que ele comparou a uma colheita (Mt 13:37ss.); e comparou ainda a missão escatológica do Filho do Homem à separação dos justos dos perversos (Mt 25:31ss.). João tinha antes com­parado o Jesus exaltado a um semelhante a filho de homem (1:13). Con­siderando que Filho do Homem é um termo usado com frequência para o papel escatológico de Cristo, e também que o termo Filho do Homem no Novo Testamento nunca é aplicado a anjos, temos de concluir que se trata aqui de uma visão de Cristo que retoma.

A objeção a isto é que esta figura celestial inicia a colheita à ordem de “outro anjo” (v. 15); e seria considerado impróprio se Cristo começas­se a colheita somente depois de um anjo lhe ordenar isto. Esta objeção, no entanto, não é fatal, porque muitas vezes no pensamento apocalíptico anjos fazem o papel que poderíamos atribuir ao Messias. Na parábola do trigo e do joio o Filho do Homem semeia a boa semente, mas os anjos são os trabalhadores na colheita (Mt 13:37, 41); estão, porém, sob as ordens do Filho do Homem. Na parábola da rede os anjos são os pescadores que separam os maus dos justos (Mt 13:49). No capítulo que pode bem ser considerado chave no livro do Apocalipse, retratando a luta espiritual que se desenrola por trás da história, Miguel e seus anjos obtêm a vitória sobre o dragão (12:7ss.), apesar de em todo o Novo Testamento a vitória sempre ser conquistada por Cristo. O relacionamento entre Cristo e seus anjos é um mistério que não podemos resolver, mas é evidente que ele é íntimo. De maneira que não pode haver objeção grave ao fato de que um anjo está comandando a colheita.

O Filho do Homem está sentado em uma nuvem branca. No Apo­calipse a cor branca tem um significado simbólico e está sempre rela­cionada com as coisas de Deus (veja nota a 6:2). A nuvem branca é re­manescente da nuvem brilhante que foi vista no monte da Transfiguração (Mt 17:5). Geralmente são mencionadas nuvens com a volta de Cristo (Mt 24:30; 1:7). A coroa de ouro simboliza triunfo, a foice afiada serve para fazer a colheita.

15.    Outro anjo saiu do santuário. Isto mostra que o anjo está saindo da presença de Deus, trazendo uma mensagem do próprio Deus. O anjo é somente mensageiro. A expressão “outro anjo” é frequente no Apocalip­se e nem sempre pode ser bem definida (veja 7:2; 8:3; 14:6). A seara da terra é um símbolo bíblico frequente para o julgamento final (Jr 51:33; Os 6:11, Mc 4:29, Mt 13:39). Geralmente a ideia engloba tanto os maus como os justos. No presente contexto, e já que a visão seguinte está relacionada à colheita (vindima) dos perversos, é difícil evitar a conclusão de que a colheita do cereal se refere em especial aos justos, apesar de este fato não estar em destaque. A figura da colheita para recolher os que devem entrar no Reino de Deus (Mt 9:37s., Lc 10:2, Jo 4:35-38) reforça esta ideia.

A seara da terra já secou, está madura. Estas palavras trazem a ideia de que a história se desenrola sob a soberania de Deus, contrário ao que parece aos homens. A história e os acontecimentos humanos não são determinados por um destino cego e sem sentido, que não leva a nada. Deus vela sobre a história, e em sua sabedoria divina virá a hora em que a humanidade estará madura para o julgamento. A história não está sem controle; na hora de Deus serão colocados os pingos nos is.

Algumas versões (RV, NEB) traduzem a palavra grega para “secou” por “mais que madura”, mas isto é desnecessário. A ideia simplesmente é que chegou a hora de colher, que não pode ser adiada.

16.    E aquele que estava sentado sobre a nuvem passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada. Cristo pode usar os anjos como instrumentos (veja acima), mas quem ceifa é ele. A colheita é descrita nos capítulos 19-20.

vindima (14:17-20).

Não há dúvidas sobre o significado da segunda visão da consu­mação; ela retrata em traços claros e vívidos o julgamento dos perversos, como se fosse uma colheita de uvas.

17.    Então saiu do santuário, que se encontra no céu, outro anjo, ten­do ele mesmo também uma foice afiada. Um anjo é quem faz a colheita das uvas, mas ele sai do santuário, ou seja, da presença de Deus, servindo como anjo de Deus. Em Mt 25:41 o Filho do Homem é quem envia os per­versos para o seu castigo, acompanhado dos seus anjos; no Apocalipse o julgamento final é uma expressão da ira do Cordeiro (6:16), apesar de ser mais descrito em termos de ira de Deus (14:10; 16:19; 19:15).

18.    Saiu ainda do altar outro anjo, provavelmente do altar do incen­so, que foi antes mencionado em conexão com as orações dos santos (8:3s.). Somos lembrados mais uma vez da eficácia das orações do povo de Deus na terra, mesmo perseguido, orando que o fim venha logo. As orações dos santos estão para ser respondidas, por fim. Se, porém, a alusão é ao altar do sacrifício, então entra em questão o clamor das almas debaixo do altar por justiça (6:9ss.) — uma oração prestes a ser respondida. Em qualquer caso o pensamento básico é o mesmo. Não é dada nenhuma ex­plicação para o fato de que o anjo tem autoridade sobre o fogo: talvez uma referência ao fogo do altar, possivelmente porque o fogo, com frequência, é associado a julgamento.

A figura da colheita de uvas aparece em outras passagens da Es­critura como sinal de juízo. “O lagar eu o pisei sozinho. ... Pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo” (Is 63:3). “Lançai a foice, porque es­tá madura a seara; vinde, pisai, porque o lagar está cheio, os seus compartimentos transbordam; porquanto a sua malícia é grande” (J13:13).

19.    Então o anjo passou a sua foice na terra e vindimou a videira da terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus. Este versículo deixa claro que a colheita das uvas significa julgamento e não salvação. Em 19:15 a mesma colheita é tarefa do Messias que “pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-poderoso”. Não há problema no fato de a tarefa judicial do Messias ser retratada aqui como tarefa de um anjo.

20.    E o lagar foi pisado fora da cidade, que não é especificada e provavelmente não pretende ser. A cidade simboliza Deus morando no meio do seu povo — talvez seja a nova Jerusalém — e a ideia é que o jul­gamento cairá sobre os perversos no momento em que são expulsos da presença de Deus. É possível que haja aqui uma vaga alusão à batalha escatológica de Jl 3:2, 12. A figura muda de repente do pisar das uvas para um massacre militar. A quantidade de sangue que correu literalmente é inconcebível; mil e seiscentosestádios é uma distância de uns trezentos quilômetros — todo o comprimento da Palestina. A figura mostra toda a terra de Israel inundada de sangue de um metro e meio de altura. A ideia é clara: o julgamento é radical, destruindo qualquer vestígio de maldade e hostilidade contra o reinado de Deus.

Os três capítulos anteriores foram um interlúdio entre as sete trombetas e os sete flagelos. A sétima trombeta, ao soar, anunciou o período do fim (10:7); mas quando ela soou, ela que seria o terceiro ai, não veio nenhuma praga ou castigo; em vez disto temos uma visão que mostra an­tecipadamente a vinda do Reino de Deus. Já que a sétima trombeta não traz nenhuma praga, apesar de ser o terceiro ai, e “com estes se con­sumou a cólera de Deus” (15:1)., Estas pragas somente são derramadas “sobre os homens portadores da marca da besta e adoradores da sua imagem” (16:2) e têm, como as sete trombetas, o propósito indireto de colocar as pessoas de joelhos diante de Deus, na última oportunidade de arrependimento (16:8).
( Bibliografia G. Ladd, COMENTARIO DO APOCALIPSE,1980)notas .Normam R, Champlin, comentario do apocalipse.).



Nenhum comentário:

Postar um comentário