quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Estudo do Apocalipse (os selos)






                                           Professor Mauricio Berwald

Chegamos agora a três séries de julgamentos: os Sete Selos (caps. 6—7), as Sete Trombetas (caps. 8—11) e as Sete Taças (caps. 15—16). A escola de interpretação histórico-contínua (historicista), encontra nisso um retrato de suces­sivos ciclos de julgamentos durante essa época. Provavelmente, uma melhor perspectiva seria entendê-los como ciclos concêntricos de julgamento, descrevendo basicamente a mesma coisa, mas com figuras simbólicas diferentes. Como sempre, o número sete indica inteireza. É importante observar que o sétimo selo desemboca nas sete trombetas e a sétima trombeta desemboca nas sete taças. Assim, as três séries estão intimamente liga­das umas às outras.

Os sete selos têm sido chamados de “Cenário da História de Sofrimento”. Arrepiamo-nos ao pensar nos julgamentos que sobrevirão a este mundo farto de pecado.


O Primeiro Selo: Conquista (6.1,2)


Quando o Cordeiro abriu o primeiro selo do rolo, João ouviu como em voz de tro­vão (1). Essa era a voz alta de um dos quatro animais (“criaturas viventes”).

Os primeiros quatro rolos formam uma série. Cada um é introduzido por um chama­do em alta voz de uma das quatro criaturas viventes, seguido do aparecimento de um cavalo e um cavaleiro. Uma sugestão definida então é dada quanto ao que ele simboliza.
Vem e vê deveria ser apenas “Vem!”. As palavras E vê não estão no melhor texto grego, aqui ou nos versículos 3, 5 e 7. Alguns escribas evidentemente entenderam isso como um chamado a João para vir e ver o que iria acontecer. Fausset comenta: “É mais provável que seja o clamor dos redimidos ao seu Redentor: “Vem liberta a criatura em agonia da escravidão da corrupção”. O sentido correto provavelmente é o que Simcox apresenta: “O sentido completo da frase é que cada uma das criaturas viventes, alternadamente, convoca um dos quatro cavaleiros”.

A abertura do primeiro selo revela um cavalo branco; e o que estava assen­tado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso e para vencer (2).

Num primeiro momento, o significado disso parece óbvio: o cavaleiro do cavalo bran­co é Cristo (cf. 19.11-16). Esse é o ponto de vista de Lange. Ele escreve: “O triunfo isolado de Cristo, como apresentado aqui, tem se prolongado através do Triunfo da Igreja; ele aparece como uma formação de hostes vitoriosas em cavalos brancos”. Fausset concor­da com isso. O mesmo ocorre com Lenski, que identifica o cavaleiro como a Palavra de Deus e acrescenta: “O portador, o cavalo, é branco, que é a cor de santidade e do céu”.

Mas o contexto parece não permitir essa interpretação. Swete diz: “Uma visão do Cristo vitorioso seria inapropriada na abertura de uma série que simboliza derrama­mento de sangue, fome e pestilência. Em vez disso, temos aqui a figura de um militaris­mo triunfante”. Semelhantemente, Love diz: “Por isso, uma vez que guerra, fome e morte são resultados de uma conquista, o ‘branco’ aqui deve ser a vitória, não de pureza, mas de uma conquista egoísta e luxuriosa”. Erdman apresenta um ponto de vista um pouco diferente: “O primeiro representa os períodos de paz concedidos, na providência de Deus, sob o Império Romano, e a ser repetido diversas vezes na história do mundo”. Foi a conquista romana que trouxe paz.

O Segundo Selo: Guerra (6.3,4)

Dessa vez o cavalo é vermelho (4). O significado disso é claramente indicado pelo que segue. O cavaleiro do cavalo vermelho recebeu poder para que tirasse a paz da terra e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada — simbolizando uma grande destruição. Claramente, o vermelho representa um imenso derramamento de sangue.

O Terceiro Selo: Fome (6.5,6)

O terceiro cavalo era preto (5). O cavaleiro tinha em suas mãos uma balança. O simbolismo disso é imediatamente explicado: Uma medida de trigo por um dinhei­ro; e três medidas de cevada por um dinheiro (6). A medida era pouco mais de um litro, que era “a média diária de consumo de um trabalhador”. Um dinheiro era um denarius, que, pelo que tudo indica, representava o salário de um dia (Mt 20.2). Isso significava que o preço da fome era tão alto que levaria tudo que um homem ga­nhasse só para alimentar a si próprio, se comesse trigo. Por outro lado, ele poderia comprar três quartos de cevada — a comida das pessoas pobres — e ter o suficiente para uma família pequena.

À proclamação de preço é acrescentada uma admoestação: e não danifiques o azeite e o vinho. Esse seria o azeite de oliva e suco de uva fermentado. Swete observa: “Trigo e cevada, óleo e vinho, formavam a dieta básica da Palestina e da Ásia Menor”.

O significado provável dessa advertência é explicado por Charles. Ele escreve: “De­vido à falta de cereais e à superabundância de vinho, Domiciano emitiu um édito [...] que nenhuma vinha nova deveria ser plantada na Itália, e que a metade das vinhas nas províncias deveria ser destruída”. Mas Suetônio registra o fato que o decreto imperial causou um alvoroço tão grande nas cidades asiáticas que ele precisou ser revogado. Em vez disso, foi imposto um castigo para aqueles que deixassem de cultivar as suas vinhas! Charles acha que João está aqui registrando um protesto contra essa atitude egoísta: “Consequentemente, ele prediz uma época difícil, em que os homens terão azeite e vinho em abundância, mas sofrerão da falta de pão”. É possível que o decreto de Domiciano tenha sido o motivo das palavras aqui.

O Quarto Selo: Morte (6.7,8)

Agora aparece um cavalo amarelo (8). A palavra grega é chloros, que significa um “verde descorado”. Swete comenta: “encontramos essa palavra na Ilíada de Homero (vii. 464) para “pálido de medo”. Swete comenta: “O cavalo ‘descorado’ ou ‘pálido’ é um símbo­lo de Terror, e seu cavaleiro uma personificação da Morte [...] com quem segue — quer no mesmo ou num outro cavalo ou a pé, o autor não para de dizer ou mesmo de pensar — em seu companheiro inseparável, o Hades”.

Mas havia um limite para o estrago do ceifeiro severo, a Morte, e o celeiro avarento, O Hades. Eles têm poder para destruir a quarta parte da terra. O tempo do julgamen­to final ainda não havia chegado.

Os dois algozes matam usando quatro métodos: espada [...] fome [...] peste [...] (a palavra grega evidentemente significa “peste” ou “pestilência” aqui e com frequência na LXX) [...] feras da terra. Há uma referência óbvia a Ezequiel 14.21: “Porque assim diz o Senhor JEOVÁ: Quanto mais, se eu enviar os meus quatro maus juízos, a espada, e a fome, e as nocivas alimárias, e a peste”. Os termos gregos são os mesmos nas duas passa­gens, em que apenas a ordem dos dois últimos é invertida. Feras selvagens multiplicam-se e tornam-se mais ferozes em tempos de fome e pestilência.

A visão dos quatro cavaleiros em abrir os primeiros quatro selos encontra um para­lelo impressionante em Zacarias 6.1-3. Ali o profeta vê quatro carros puxados por cava­los que eram respectivamente vermelhos, pretos, brancos e grisalhos e fortes. Aqui um dos cavalos é branco, os outros vermelho, preto e verde pálido, respectivamente. Como Swete observa: “O Apocalipse toma emprestado somente o símbolo dos cavalos e suas cores e em vez de colocar os cavalos em cangas diante dos carros ele coloca um cavaleiro em cada um deles em quem o interesse da visão é centrado”.

Qual é a aplicação desses primeiros quatro selos? Representando a interpretação preterista, Swete encontra aqui o militarismo e a obsessão pela conquista que era característica do Império Romano daquela época, repetida com frequência na história desde então.

Típico daqueles que defendem a interpretação historicista, Barnes entra em mais detalhes. O primeiro selo representa um período de prosperidade e conquista com uma duração de cerca de 90 anos depois que o Apocalipse foi escrito (i.e, até 180 d.C.). Basean­do-se em grande parte no livro Decline and Fali ofthe Roman Empire (Declínio e Queda do Império Romano) de E. Gibbon, Barnes descreve esse período com grandes detalhes. O segundo selo representa os 92 anos após o assassinato de Commodus em 193 d.C., quando não menos de 32 imperadores e 27 pretendentes mantiveram o império em um estado de guerra civil constante. O terceiro selo simboliza um período de impostos opres­sivos e restrições severas à liberdade do povo. Barnes aplica o quarto selo ao período que vai de 248 até 268d.C., quando a espada, a fome e as pestes, de acordo com Gibbon, causaram a morte da metade da população do império.

A interpretação futurista entende que esses selos se referem a julgamentos terríveis sobre a humanidade no fim dessa era. Por exemplo, Kuyper diz que “o que está sendo apresentado aqui precede o final imediato de todas as coisas, a vinda do Anticristo e o retorno do Senhor”.

O Quinto Selo: Martírio (6.9-11)

A abertura do quinto selo revelou debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram (9). Não há aqui criaturas viventes nem uma voz clamando: “Vem”. O significado dessa mu­dança é observado por Swete: “Com o quinto selo, a Igreja vem a luz, em relação à sua perseguição e sofrimento [...] A quebra do quinto selo interpreta a época da perseguição e mostra sua relação com o plano divino na história”. Não precisa de muita imaginação para constatar que isso poderia se aplicar igualmente à perseguição romana aos cristãos (preterista), às várias perseguições de verdadeiros crentes ao longo da era da Igreja, especialmente pela igreja católica romana (historicista), e também aos mártires da Grande Tribulação no final desta era (futurista). Concordar com uma dessas teorias não exclui­ria sua verdade em relação às outras. A posição sensata aparentemente é aceitar todas as interpretações dessa passagem como válidas e significativas.

Debaixo do altar é talvez uma referência ao fato de que o sangue da oferta pelo pecado deveria ser derramado “à base do altar do holocausto” (Lv 4.7). “O altar em estu­do aqui é o correlativo do Altar do Holocausto, e as vítimas que foram oferecidas sobre ele são os membros mortos como mártires da Igreja, que seguiram seu Cabeça no exemplo da sua morte sacrificial”.

A linguagem da última parte desse versículo é semelhante à linguagem em 1.9, que encontra eco novamente em 12.11, 17; 19.10; 20.4. A repetição de por (dia, por causa de) sugere duas causas do martírio. Essas testemunhas fiéis eram mortas por causa da sua confissão no único e verdadeiro Deus, em contraste com o politeísmo e adoração ao imperador daqueles dias, e do seu testemunho de Jesus como o único Senhor e Salvador. O Martírio de Policarpo relata que pouco antes desse venerável bispo ser morto em 156 d.C., ele foi impelido pelo pro cônsul romano a salvar a sua vida ao fazer duas coisas: 1) “Jure pelo nome de César [...] e diga: ‘Fora com aqueles que negam os deuses”; 2) Desonre a Cristo”. A resposta de Policarpo tem sido citada com frequência: “Oitenta e seis anos o servi e Ele nunca me tratou injustamente. Como posso agora blasfemar contra meu Rei que me salvou?”.

Há muitas advertências na Palavra de Deus de que o martírio pela fé vai novamente se tornar comum no fim dos tempos. Precisamos orar pelo mesmo espírito de coragem que foi mostrado pelos antigos mártires da Igreja.

As almas debaixo do altar clamavam (aoristo, somente uma vez) com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra (10). Dominador não é o termo comum kyrios, masdespotes (cf. déspota). Esse é um título para Deus na Septuaginta e duas vezes no Novo Testamento (Lc 2.10; At 4.24). Ele também é usado para Cristo duas vezes (2 Pe 2.1; Jd 4). Aqui não está claro se o termo é empregado para Deus ou para Cristo. As palavrasverdadeiro e santo são usadas para Cristo em 3.7.

O clamor por vingança tem causado uma certa consternação nos cristãos atuais. Mas Swete nota que “a santidade e verdade do Supremo Mestre requer o castigo de um mundo responsável pelas suas mortes. As palavras somente afirmam o princípio da re­tribuição divina, que proíbe o exercício da vingança pessoal”.

Para cada mártir foi dada uma veste branca (stole, sing.) simbolizando pureza e vitória. Essa palavra grega é encontrada outra vez em 7.9, 13-14. O termo repre­senta uma roupa longa que era um tipo de um símbolo de status. Essas vítimas do martírio eram, na verdade, vencedores. Foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seusconservos e seus irmãos que haviam de ser mortos como eles foram. Sua espera será um repouso e será por um período curto. Quando os propósitos de Deus estiverem com­pletos, virá o fim.

O Sexto Selo: O Fim dos Tempos (6.12-17)

O primeiro sinal do fim que pode ser observado é um grande tremor de terra (12). Esse aspecto provavelmente é um eco de Ageu 2.6-7 (LXX): “Porque assim diz o SE­NHOR dos Exércitos: Ainda uma vez, daqui a pouco, e farei tremer os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca; e farei tremer todas as nações”. A última frase sugere que a referên­cia não é somente a um terremoto físico, mas também a revoluções raciais, políticas e sociais. É interessante observar que terremoto é seismos e “farei tremer” é seiso.

Outros terrores são indicados: e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue. Essa citação é semelhante à de Joel 2.31: “O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR”.

Outros fenômenos são observados: E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte (13). A linguagem é a de Isaías 34.4: “E todo o exército dos céus se gastará [...] e todo o seu exército cairá como cai a folha da vide e como cai o figo da figueira”.

A sentença que omitimos dessa citação de Isaías: “e os céus se enrolarão como um livro” é similar à próxima frase de Apocalipse: E o céu retirou-se como um livro que se enrola (14). O autor acrescenta a seguinte predição: e todos os montes e ilhas foram removidos do seu lugar. Sempre haverá uma discussão se essa linguagem deve ser entendida literal ou figuradamente. Mas por que não as duas formas? Como no caso de 2 Pedro 3.10-12, a idade atômica abriu os nossos olhos para o fato de que uma linguagem tão severa, há muito tempo taxada como uma expressão poética de uma ima­ginação fértil, pode se cumprir com uma exatidão horrível.

Nessa visão terrível dos últimos dias, João viu homens de todas as camadas da sociedade (são mencionadas sete classes), de reis a escravos, se esconderem nas caver­nas e nas rochas das montanhas (15). Eles diziam aos montes e aos rochedos para que caíssem sobre eles (cf. Os 10.8) e os escondessem do rosto daquele que está as­sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro (16). Que paradoxo impressionante: a ira do Cordeiro! Alguém disse que a ira de Deus é o amor de Deus represado pela desobediência do homem, até que seja emanado no julgamento justo.


O motivo de procurar se esconder é claro: porque é vindo o grande Dia da sua ira; e quem poderá subsistir? (17). Já ocorreram muitos dias do julgamento de Deus sobre o pecado e homens pecaminosos. Mas o grande Dia da sua ira — uma combina­ção de “o dia do Senhor” (Jl 2.11, 31. Zc 1.14) e o “dia da ira do Senhor” (Sf 1.15,18; 2.3) — ainda está por vir. Excederá em muito qualquer coisa de que se tem notícia.
(fonte comentario biblico Normam r. Champlin)


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