quarta-feira, 2 de novembro de 2016

As sete intervenções de Deus AP 12





Este capítulo parentético do Apocalipse é grandemente antecipatório. Os capítulos 14 a 16 descrevem as preparações para o juízo messiânico, e oferecem uma mistura de cânticos, soluços, música e miséria, alegria e julgamento, glória e perdição, céu e inferno. O capítulo 14 contém uma intervenção divina, repetida sete vezes, de graça e julgamento e constitui-se resposta ao clamor do remanescente: “Por que te conservas ao longe, Senhor? Por que te escondes em tempos de angústia?” (Sl 10:1). O clamor “Quanto tempo, ó Senhor?” tantas vezes repetido encontra resposta, um acorde sensível em nossos próprios corações, ao pensarmos no morticínio, na miséria e angústia dos nossos dias carregados de pecado e pejados de guerra. Será que Deus jamais mostrará a mão? As forças da iniquidade serão vitoriosas para sempre? Entregou Deus os seus santos à vontade do inimigo? Quando intervirá ele?

Este capítulo prova que o dia de Deus chegará. As rodas da justiça de Deus podem parecer andar lentamente, mas rodam com segurança total. A colocação deste capítulo é ideal, pois serve como prelúdio indispensável aos juízos medonhos e providenciais de Deus. Os capítulos 12 a 14 formam um episódio de interesse dramático—uma única profecia ligada. Os capítulos 12 e 13 descrevem os feitos do dragão e das bestas. A verdade caiu nas ruas; o sangue dos santos flui livremente como água; desafio aberto a Deus está na ordem do dia. O bem está quase banido da terra (Sl 4:6) e a fé desapareceu (Lc 18:8). A cena profética inteira se tornou em “playground” de Satanás.

Mas no capítulo 14 respiramos mais livremente. O segador divino está às portas. A iniquidade horrível da terra está prestes a terminar. Aparecendo entre as trombetas e as taças, o capítulo 14 toca o dobre da morte dos governadores arrogantes, blasfemos e cruéis dos homens. O fardo acumulado de angústia e tensão agora se desfará dos corações do povo perseguido de Deus.

Como um todo o capítulo contém um contraste entre o Cordeiro e os judeus selados, entre as nações e o anticristo, entre os seis anjos e seus anúncios e entre as duas foices e sua colheita.

Os Cantores e seu Cântico (14:1-5)

Estes quatro versículos apresentam-nos uma das cenas mais admiráveis do Apocalipse. Uma visão clara e de alegria, a calma depois da tempestade: da tirania da besta ao triunfo do Cordeiro! Esta deveras é uma transição bem-vinda. Agora examinemos os santos, estes que já não estão expostos à tribulação mas sentam-se em posição de realeza.

Seu Salvador

Dá-se preeminência ao Cordeiro no Monte de Sião, em torno de quem se reúne esta multidão que canta. O livro do Apocalipse é essencialmente um Livro do Cordeiro. Nosso Senhor é descrito desta forma umas 27 vezes. E é como o Cordeiro que foi morto que ele é visto. Por causa de suas cicatrizes, terá a soberania. Neste capítulo temos uma visão antecipatória da vinda de Cristo em poder. O cordeiro sangrento agora está a caminho da vitória. Seus escolhidos foram como cordeiros no meio de lobos, e o rebanho fora afligido pela “besta selvagem”. Mas venceram mediante o sangue do Cordeiro, e agora encontram-se felizes ao seu lado.

Sua Localização

Esta multidão distinta encontra-se em pé no Monte Sião, o local escolhido para a sede do reino terrestre e glorioso de mil anos de Cristo e seus santos. O Cordeiro deixou sua posição no trono e agora se encontra no monte Sião. Aqui é o local do poder real, da intervenção de Deus em graça, da soberania de Deus, tudo com respeito a Israel. “Sião” é mencionado somente uma vez no Apocalipse e é um termo extremamente interessante. Como certo escritor expressou: “Das 110 vezes que Sião é mencionado, 90 são em termos do grande amor e afeição do Senhor por ele, de modo que o lugar tem grande significação.” Para o judeu, Sião é rico em recordações sagradas (Is 2; Sl 2:6). Finalmente o reino de Deus está no monte Sião, e cercando-o estão os que ele comprou como súditos leais e amáveis!

O Número Deles

Afirma-se o número específico dos remidos. Temos outras 144.000 pessoas, e a pergunta que se faz é: “Quem são estes cantores selados?” É esta grande multidão o mesmo grupo de 144.000 do capitulo 7? Certo expositor sugere que o grupo do capítulo 14 representa somente uma porção da grande seara dos santos redimidos da Tribulação—uma “primeira prestação” marcada por serviços espirituais elevados. Similaridades entre estes dois grupos podem ser notadas. Em ambos os grupos o número, 144.000, é o mesmo. Ambos os grupos estão no monte Sião, são selados sobre as frontes e estão felizes e livres de aflição.

A repetição do número, entretanto, não prova que estes dois grupos são o mesmo. Walter Scott sugere: “Os 144.000 aqui apresentados são de Judá; uma companhia similarmente numerada de todo o Israel (7:4) forma uma visão separada. . . são judeus que mantiveram firmemente o direito de Deus e do Cordeiro; agora publicamente são possuídos por eles. . . 144.000 santos judeus que ocupam o lugar de liderança no reinomilenial da terra.” 144.000 indica o número e a plenitude governamen­tal.

Seu Selo

Em contraste com os 144.000 do capítulo 7, que são selados como “servos de nosso Deus”, este número espantoso de 144.000 do capítulo 14 são selados nas frontes com os nomes do Cordeiro e o de seu Pai. O selo, é claro, representa o sinal de posse e a garantia de preservação. De seu “lindo distintivo de bênçãos”, WilliamNewell sugere que proclamou sua posse, exibiu seu caráter e anunciou seu destino.

É evidente que o selo destes confessores de Cristo está em contraste com a marca da besta em cada um dos seus adoradores. “Ocorreu-nos”, diz Newell, “que a presença do selo celeste nas frontes dos remanescentes do capítulo 7 em diante evidencia aos homens que Satanás é forçado a procurar quebrar sua influência ao exigir o selo oposto nas frontes dos seus devotos. Isto pode ser verdade especialmente ao refletirmos que Deus preserva (como em 9:4) os que têm seu selo, das misérias a que outros estão sujeitos.”

Seu Cântico

As vozes do céu que João ouviu eram como as vozes de muitas águas e a voz de um grande trovão. Assim como a voz de Deus, também é a voz dos coristas celestes, que estão de acordo com os do monte Sião. A multidão que canta ao som da harpa nos céus e o grupo preservado de Judá formam um grande coro. Harpas, associadas com cântico (5:8; 14:2; 15:2), proclamam o louvor em coro dos redimidos e das hostes celestes. O cântico e a harpa misturam-se tão lindamente que a referência que se lhes faz é de uma voz majestosa como a de muitas águas e poderosa como um grande trovão.

O cântico que os harpistas celestes conheciam, que somente os podiam aprender, é chamado de um cântico novo. O cântico velho estava relacionado com a criação: “Quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo” (Jó 38:7). Este cântico novo tem como tema central a redenção. E é por isso que se refere a ele como o cântico de Moisés e do Cordeiro. Deus e o cântico velho são unidos. O Cordeiro e o cântico novo são ligados. Os modos de Deus lidar com poder com Israel, combinados com sua graça presente para com eles e para conosco, parece ser o pensamento do cântico de Moisés e do Cordeiro (15:3).

A. R. Fausset, comentando a respeito deste cântico novo, diz: “O cântico é de vitória após o conflito com o dragão, a besta e o falso profeta; nunca foi entoado antes, pois conflito tal não havia sido empreendido antes; portanto, era novo: até agora o reino de Cristo na terra tinha sido usurpado. Eles entoam o cântico novo em antecipação da posse que Cristo há de tomar de seu reino comprado com o sangue juntamente com seus santos.” A palavra no grego é “cantam”, indicando cântico contínuo.

Não devemos nos esquecer de que os 144.000 regozijam-se porque foram “comprados dentre os homens”. Temos a frase dupla “compra­dos da terra” (um lugar pecaminoso) e “redimidos dentre os homens” (uma raça pecaminosa). Algumas versões usam “comprados” ou “resgatados” em lugar de “redimidos”. Esta alta posição é privilégio dos 144.000 por terem sido comprados e não por terem sido vitoriosos sobre a besta. Os anjos não podem entoar este cântico novo, pois não sabem pessoalmente o que é sair da grande Tribulação e ter as suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro (7:14).

Sua Separação

Em 14:4, 5 temos uma descrição maravilhosa do andar e do testemunhar desta parte vitoriosa de Judá, que emergiu da grande Tribulação e agora está de pé em triunfo com o Cordeiro no monte de Sião, a sede da realeza e da graça soberana. Eles passaram por uma prova terrível. A corrupção mais vil, idolatria aberta, vanglória orgulhosa, blasfêmia ousada e maldade declarada os haviam cercado, mas, como os judeus deSardes, estes 144.000 emergiram com vestes não contaminadas.

Eram virgens. Devemos compreender isto no sentido espiritual (Mt 25:1), em contraste com a igreja apóstata (14:8), que espiri­tualmente era uma “prostituta” (17:1-5); Isaías 1:21 contrastado com 2 Coríntios 11:2; Efésios 5:25-27. “Não se contaminaram com mulheres” significa que não foram desviados da fidelidade ao Senhor pelos tentadores que conjuntamente constituem a prostituta espiritual. William Newell sugere que são “nazireuscompletos para Deus no tocante à sua relação com as mulheres”. Mas esta interpretação confinaria este grupo definido a homens somente. A linguagem não dá a entender que os 144.000 representam os que viveram e andaram em pureza espiritual num ambiente entregue a tudo o que era vil? Haviam-se conservado “não contaminados com o mundo”. Amor virginal— afeição não dividida do coração pelo Cordeiro—era sua enquanto o restante do mundo seguia a besta. Eles tinham uma separação, completa e incondicional, de seu ambiente pecaminoso. Eram almas virgens, vestidas de pureza sem mácula.

Seguiam o Cordeiro. Proximidade com o Cordeiro no monte Sião foi sua recompensa adequada pela lealdade a ele enquanto estiveram na terra. Ao seu redor encontravam-se os que se desviaram após da besta e do seu profeta, mas a obediência dos 144.000 foi tão completa e inquestionável quanto sua separação do mundo. Seguindo o Cordeiro em sua rejeição, agora partilham de sua realeza. “Seguir” está no tempo presente, que indica uma obediência contínua.

Eram as primícias. Embora linguagem similar seja usada com referência a igreja, não devemos confundir as “primícias” aqui com os santos redimidos que formam a nova criação. “Primícias para Deus e para o Cordeiro” são palavras do reino e não meras palavras de salvação. “Comprados dentre os homens”, esses 144.000 formam uma compra séria—uma promessa—dentre os homens para o reino do céu na terra. São uma amostra da sega completa e final.

Eram sem engano. Maravilhas mentirosas e falsidades caracteriza­ram os dias do anticristo. “A mentira” (que Satanás é Deus e que a besta é o seu Cristo, e que portanto devem ser adorados) foi acreditada em geral, mas nas bocas dos 144.000 não se encontrou mentiras. Foram verdadeiros em palavra e ação. A despeito de feroz perseguição confessaram o verdadeiro Messias (1 Jo 2:21-27) e permaneceram verdadeiros à sua Palavra.

Eram irrepreensíveis. Na conduta externa e modos na presença dos homens, estes santos na terra não tinham faltas. Várias versões omitem as palavras “perante o trono de Deus”. Este epítome adequado e condensado da vida e do caráter prático refere-se à sua vida na terra. Em todos os seus caminhos recusaram-se a conformar-se com os éditos da besta. Com referência à sinceridade de sua fidelidade ao Cordeiro, eram irrepreensíveis. Não eram em si mesmo absolutamente irrepreensíveis, mas eram considerados como tais à base da justiça do Cordeiro, em quem somente confiaram e a quem fielmente serviam e seguiam. Que alegria esse remanescente é para Deus e para o Cordeiro!

O Primeiro Anjo e Seu Evangelho (14:6, 7)

Chegamos agora ao testemunho público de Deus por seis anjos contra o reino do anticristo, e ao julgamento que ele merece e que lhe sobrevirá em breve. O termo “outro anjo” implica nova direção no drama que se desenrola, eventos estes que se sucedem com cada anjo (7:2; 8:3, 13; 10:1). Este anjo-evangelista em particular foi visto “voando pelo meio do céu”, o que significa estar ele à vista e ao alcance da voz das pessoas na terra. Um anjo anterior, “voando pelo meio do céu” anuncia alegria. Este anjo voador é um mensageiro da misericór­dia e mostra graça no juízo. Representa o último chamado ao arrependimento aos habitantes da terra.

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Não devemos esquecer-nos de que este anjo não proclama um anúncio de castigo, mas um evangelho, que significa boas-novas. Ele anuncia as boas-novas do reino eterno de Cristo, que começará imediatamente depois do juízo das forças malignas (anunciado como iminente em 14:7). Embora os pregadores do evangelho do reino sejam judeus convertidos, anjos são comissionados a fim de providencialmente apressar a declaração das boas-novas durante os últimos dias da semana profética.

Em linguagem inequívoca este anjo poderoso insta com o povo a que se volte da besta para Deus. Chegou a hora do juízo divino, e os homens devem arrepender-se de sua grande idolatria se não desejarem suportar a ira das taças. Apresenta-se um chamado urgente ao temor de Deus, que é o princípio da sabedoria, e dar glória a ele e não à besta e à sua imagem. O criador de todas as coisas pede, pela última vez, a fidelidade humana. Assim como a raça humana é descrita sob designa­ção quádrupla—nações, tribos, línguas e povos—assim também a criação aqui é relacionada em quatro termos—céu, terra, mar e fontes de água.

Uma Grande Audiência

O anjo que voa no céu prega seu evangelho por toda a terra, e todos os tipos de pessoas ouvem a sua mensagem. Se há uma resposta geral à mensagem angelical não sabemos. Mas o Senhor declarou que alguns estão de tal modo entregues à rejeição de Deus que não creriam ainda que alguém ressuscitasse dos mortos e lhes fosse levar a mensagem da graça. Um grande pregador como Noé teve pouco êxito em admoestar as multidões do juízo vindouro. Mudos aos seus apelos, continuaram a viver suas maneiras corruptas até que veio o dilúvio e levou-os a todos.

O Segundo Anjo e a Queda da Babilônia (14:8)

A preeminência de anjos neste capítulo indica possuírem eles um papel maior na economia providencial e governamental tanto antes do reino milenial de Cristo, como durante ele. Em 14:8 apresentasse-nos um prefácio dos acontecimentos prestes a sobrevir. E um anúncio preliminar e preparatório do juízo descrito nos capítulos 17 e 18. A destruição de Babilônia está sendo celebrada no céu, onde o juízo é tratado como se já tivesse sido realizado.

A intensidade da frase repetida “caiu, caiu” não é mero hebraísmo, mas fala de um julgamento duplo. Tanto como sistema assim como cidade, Babilônia deve ser destruída. Do ponto de vista celestial a Babilônia já caiu, embora seu castigo real ainda não tenha ocorrido.

O babilonismo, como mostraremos em maiores detalhes mais adian­te, representa um vasto sistema que escraviza os cristãos professos. Caracteriza-se por orgulho mundano, idolatria e adultério espiritual. A razão da queda da Babilônia está nas palavras “a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição”. O vinho da ira de Deus é a consequência de sua prostituição. Por ter ela embebedado as nações com o vinho de sua prostituição, ela própria embebedar-se-á com o vinho da ira de Deus. Temos aqui a realização última de Isaías 21:9: “E eis aqui agora vem uma tropa de homens, cavaleiros de dois a dois. Então ele respondeu e disse: Caiu, caiu Babilônia; e todas as imagens esculpidas de seus deuses são despedaçadas até ao chão.”

Willam Newell chama a atenção para os três assuntos distintos desta frase espantosa: vinho, ira e prostituição. O vinho da Babilônia: “Na mão do Senhor a Babilônia era um copo de ouro, o qual embriagava a toda a terra; do seu vinho beberam as nações; por isso as nações estão fora de si” (Jr 51:7). A ira da Babilônia: “Pois assim me disse o Senhor, o Deus de Israel: Toma da minha mão este cálice do vinho de furor, e faze que dele bebam todas as nações, às quais eu te enviar” (Jr 25:15). A prostituição da Babilônia: “Porque todas as nações têm bebido do vinho da ira da sua prostituição, e os reis da terra se prostituíram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias” (Ap 18:3). Os reis da terra se prostituíram com ela. O calor branco da ira de Deus, contido através dos séculos, agora está prestes a ser desencadeado sobre a corrupção acumulada.

O Terceiro Anjo e o Castigo (14:9-12)

A sorte terrível dos adoradores da besta, como anunciada nestes versículos, é medonha ao extremo. Juízo sem igual em sua severidade, e proporcional à culpa e iniquidade horrível abertamente praticadas, agora está prestes a sobrevir. Com uma grande voz este terceiro anjo declara o tormento sem fim de todos os que seguiram a besta.

Adoração da Besta

Seis vezes no Apocalipse a adoração da besta, que é a encarnação do diabo, é descrita como sendo dirigida à sua imagem. Cristo veio como “o resplendor da sua [de Deus] glória e a expressa imagem do seu Ser” (Hb 1:3). Mas agora tormento sem alívio sobrevirá aos que deliberadamente escolheram o falso Cristo de Satanás, o qual ordenou que todo o povo da terra adorasse sua imagem. (A palavra original para “o tal” é “ele também”.) Retribuição justa e inevitável será individual. A justiça retributiva será distribuída para cada pessoa que segue a besta e leva sua marca.

A Ira de Deus

Circunstâncias amenizadoras nenhumas serão permitidas. Com uma grande voz, para que todos ouçam, o anjo declara que a ira derramada resumo que será ampliado com detalhes nos capítulos que se seguem. Introduzindo este parágrafo, Walter Scott diz: “O juízo judicial está prestes a varrer a terra culpada com a vassoura da destruição e limpá-la do mal. A ceifa e a vindima são as figuras familiares empregadas a fim de expressar as lides finais de Deus. A primeira é juízo discriminatório, a última, ira que nada perdoa. Na ceifa o trigo é separado do joio. Na vindima, o joio está a sós na cena profética e forma os assuntos da justa vingança do Senhor.”

O Ceifeiro da Ceifa

O Ceifeiro celeste a quem João viu, sem dúvida era o Senhor Jesus Cristo, chamado de “o Filho do homem”. É com este título que Cristo lida com o estado de coisas na terra e julga os ímpios (Mt 25:31-33; Jo 5:22-27). Por causa de sua relação com a raça humana, Cristo exerce todas as características que lhe dão direito ao domínio uni­versal.

Ao introduzir a visão do Ceifeiro, João usa outro “eis”, uma vez que assuntos de interesses incomuns vão ser tratados. O primeiro objeto a atrair o apóstolo foi uma nuvem branca, muito comum nas terras junto ao Mediterrâneo. Esta nuvem era semelhante à nuvem brilhante da transfiguração de Cristo (Mt 17:5). Nuvens simbolizam a presença divina (Ez 10:4; Ap 10:1). O branco é uma cor predomi­nante no Apocalipse, e indica a pureza e a justiça absoluta do Ceifeiro em suas ações.

Sentado em uma nuvem branca está o Criador de todas as nuvens. Fazendo dela sua carruagem, ele parte para sua tarefa sombria. O sentar-se sobre a nuvem sugere juízo calmo e deliberado. Sem pressa desnecessária o Ceifeiro sega sua colheita.

A coroa de ouro sobre sua cabeça é uma grinalda de vitória, e não seu diadema de Rei. A vitória completa de Cristo é descrita com detalhes em 19:11-21, quando muitas coroas lhe circundarão a fronte. Suas coroas de ouro sugerem sua dignidade real e seus direitos—“como que umas coroas semelhantes ao ouro” (9:7)—mas a coroa de ouro de Cristo expressa a justiça divina em ação de vitória e não é coroa de imitação. Divinamente conferida, seu Possuidor exerce a autoridade real.

A foice afiada na mão do Ceifeiro celeste é simbólico de seus direitos sobre a sega. A lei mosaica proibia ceifar no campo do vizinho. Cristo, com uma foice, traz a implicação de que colherá o campo sobre o qual tem autoridade. A foice “afiada” indica que a ceifa será rápida e completa. É significativo que o emblema nacional da União Soviética seja o martelo e a foice, ambos os quais ela usa com efeito temível no colher uma seara para seu credo comunista sem Deus. Mas Deus ainda usará seu martelo—sua Palavra (Jr 23:29)—a fim de esmigalhar as hordas da Confederação que vem do norte (Ez 38; 39; Ap 19:15). Então sua foice colherá a seara do juízo.

Outro anjo, diferente dos já mencionados, sai do templo e clama por ação imediata da parte do Ceifeiro. Este anjo não dá ordens ao Filho do homem; ele é somente um mensageiro anunciando ao Filho do homem a vontade de Deus Pai, em cujas mãos se conservam os tempos e as estações. Cristo estivera esperando tal mensagem e agora a ouve (Hb 10:12, 13; Sl 2:7-9). Deus é despertado para a ação, e o anjo sai do templo; o Semeador do juízo está prestes a vencer a terra. O templo e o trono, frequentemente usados no Apocalipse, representam a presença e autoridade de Deus.

A Seara Está Madura

O Filho age prontamente, pois a seara está madura, ou “mais do que madura” ou “seca”. Diz-nos WilliamNewell: “A palavra grega usada aqui é a mesma empregada para a figueira de Marcos 11:20; em Lucas 23:32 usa-se a forma adjetiva: o que se fará no seco? Significando o último e terrível estado de Israel.”

“E chegada a hora de ceifar” é uma declaração cheia de presságio que nos leva aos profetas do Antigo Testamento, que descrevem o tempo da sega de trabalhadores mais do que maduros da iniquidade no final do período do domínio gentio. Jl 3:13 diz: “Lançai a foice, porque já está madura a seara; vinde, descei, porque o lagar está cheio, os vasos dos lagares transbordam, porquanto a sua malícia é grande.” Isto só pode significar que os que estão maduros não são os santos maduros para a glória, mas os iníquos que estão mais do que maduros para o juízo.

Ceifeiros da Seara

Uma curta sentença é suficiente para descrever o fim terrível de tudo de que os orgulhosos se gabam—“e a terra foi ceifada”. E que ceifa! É a espantosa segunda vinda do Rei dos reis em seu grande dia de ira.

O Filho do homem usa os anjos como seus reais ceifeiros (Mt 13:39), e eles agem rapidamente em seu trabalho de ceifar. Usa-se o processo da separação: observa-se a discriminação entre o trigo e o joio, entre o peixe bom e o ruim. Não há execução de castigo nesta ceifa, pois esse será realizado na vindima. Esta ceifa é de juízo discriminatório antes do estabelecimento do reino. Embora descrito como um único ato de ceifar, estes acontecimentos cobrem considerá­vel período de tempo e emprega várias agências de Deus.

O Sexto Anjo e a Vindima (14:17-20)

Há dois anjos na visão da vinha da terra e seu julgamento. Em 14:17 há o anjo do templo com sua foice afiada. De conformidade com a descrição dada do Filho do homem em 14:14, este “anjo da vingança” significa a associação dos anjos com Cristo em sua obra judicial. Assim temos o anjo que “saiu do altar” (14:18).

Não se diz que tipo de altar. Se representar o altar de bronze (o altar do juízo), então a ideia é de juízo puro e sem mistura—juízo divino sobre a vinha da terra (Dt 32:31-35). Mas se o altar representa o altar do incenso (8:3-5, 9:13), então há uma ideia diferente. Sobre este altar foram oferecidas as orações dos santos acompanhadas de incenso, que fazem descer o juízo de fogo de Deus sobre seus inimigos. O clamor das almas dos mártires sob o altar (6:9) agora vai ser completamente atendido. O falso profeta realizou grandes maravilhas e fez descer fogo do céu, mas agora o anjo do altar, tendo poder sobre o fogo, move-se contra todos os ímpios da terra. Agora há o joio para ser lançado na fornalha do fogo (Mt 13:40-42).

O assunto do juízo é “a vinha da terra”, porque suas uvas não são o que o Criador esperava que fossem, a despeito de sua cultura cuidadosa. A expressão “vinha da terra” abrange todo o sistema religioso na visitação vindoura da ira de Deus. As uvas da apostasia largamente difundida são “uvas silvestres” e devem ser transformadas em “uvas da ira”. No grande lagar da ira de Deus devem ser jogados tanto os judeus apóstatas como os gentios. Este é o dia da vingança de nosso Deus, e não se mostrará misericórdia (Is 63:1-3; Jr 25:15, 16; Jl 3). Cristo, a Vinha verdadeira, lida com as uvas da iniquidade produzidas depois de séculos de cultivo. Tais uvas estão completamente maduras para o fogo. A frase “estão maduras”, como empregada em 14:18, significa “chegou ao seu apogeu”.

“Fora da cidade” indica a esfera onde deve derramar-se a vingança mais completa de Deus. Jerusalém é a cidade e o vale de Josafá (onde a batalha do Armagedom deve ser encetada) fica logo fora da cidade. “Multidões, multidões no vale da decisão!” (Jl 3:14). “Fora da cidade” pode também implicar que a cena do derramamento de sangue de Cristo e do seu povo também será o palco de juízo divino sobre todos os que rejeitam a Cristo.

Há algo de macabro na descrição que João nos dá dos rios de sangue humano que chegam aos freios das bocas dos cavalos por uma distância de 322 quilômetros. “Saiu sangue do lagar” é linguagem simbólica testificando do terrível morticínio dos ímpios quando o Senhor os pisar em sua fúria. Manifestando seu poder, Deus pisará vastas multidões até que se transformem em postas sangrentas. A besta e o falso profeta, juntamente com todos os seus iludidos seguidores e adorado­res, serão exterminados para sempre.

Ao observarmos os movimentos dos exércitos opostos em nossos dias, parece que o Oriente em breve se transformará em um importante teatro de guerra. De todos os lados de Israel forças tremendas tomam posição. E tal ajuntamento de forças precursor do que acontecerá quando o Libertador de Israel esmagar as nações da terra envolvidas em batalha? Sem dúvida a terra está-se tornando madura para a vindima de Deus em sua forma mais forte, e ao vermos esse dia aproximar-se é imperativo que previnamos os ímpios a fugirem da ira futura. Hoje é ainda o dia da graça, e enquanto o julgamento tarda, devemos instar com os ímpios ao nosso redor a que se reconciliem com Deus. 

(Bibliografia M. Wilcock.comentario biblico do apocalipse,2000, NORMAM R. CHAMPLIN, COMEN. DO APOCALIPSE).


  

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