quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Estudo do apocalipse (igreja de Tiatira)


                                        IGREJA DE TIATIRA



                        Professor Mauricio Berwald

No grego, Thuateíra. Tiatira ficava cerca de trinta e dois quilômetros a suleste de Pérgamo, em uma estrada na planície aluvial entre os rios Hermo e Caico. Tanto nos dias da liderança de Pérgamo sobre a Ásia Menor, como posteriormente, quando a política internacional atraiu os romanos para a grande península, essa cidade derivava sua riqueza e influência do fato de que era um ponto central de comunicações. Essa cidade foi fundada por Seleuco I, um dos generais de Alexandre, o Grande. Foi Seleuco I quem, de todos os seus herdeiros, herdou o território mais extenso. O reino de Seleuco ia desde além de Antioquia da Síria até o vale do rio Hermo, onde suas fronteiras chegavam bem perto das de Lisímaco, o qual mantinha nas mãos parte do antigo litoral jônico da Ásia Menor. Seleuco implantou ali um grupo de veteranos desmobilizados de Alexandre. Esses macedônios deveriam formar uma barreira contra todas as tentativas de perturbar as suas fronteiras.

Em 282 A.C., rebelou-se Filetero, e foi fundado o dinâmico estado de Pérgamo, destinado a perdurar por um século e meio. O novo estado era uma área tampão entre Seleuco e Lisímaco. Porém, um estado fundado sob tais circunstâncias não podia ser militarmente alerta; e Tiatira, um posto avançado na estrada para o oriente, impedia qualquer agressão possível que partisse do leste. A história do lugar, alinhavada, precariamente, com base em ruínas e moedas, sugere que Tiatira, em suas sempre flutuantes fronteiras, com frequência, mudava de mãos, ao sabor da sorte nas armas das forças sírias ou de Pérgamo, que faziam avançar ou recuar as fronteiras.

Tiatira, tendo de desempenhar permanentemente esse inevitável papel de posto militar avançado, não contava com uma acrópole poderosa, como se dava com Sardes e com Pérgamo. A cidade ficava em uma pequena colina. E só era valiosa, estrategicamente falando, porque uma confiante força de defesa, ali postada, era capaz de quebrar o ímpeto de qualquer assalto hostil, enquanto que uma defesa mais decisiva era organizada mais atrás. Esse dever militar impunha sobre aquela vulnerável cidade um estado de prontidão. Seus habitantes sabiam enfrentar o perigo e lutar, sem dependerem de qualquer defesa natural, mas contando exclusivamente com a sua coragem pessoal. A religiosidade refletia ali essa atitude de dever. Os soldados macedônios que a princípio foram ali estabelecidos, adotaram a adoração a um certo herói local, que lhes servia de patrono, e que aparece nas primeiras moedas cunhadas ali, representando um guerreiro montado, armado de machado de guerra. E isso talvez explique o simbolismo do Cristo ressurreto, na carta apocalíptica de João.

As tropas romanas apareceram com toda a sua força na Ásia Menor, após terem derrotado a sírio Antíoco, em 189 A.C., quando então a região passou, permanentemente, para o controle romano, quando o último dos monarcas de Pérgamo, intuindo os rumos da história futura, doou o seu reino à nascente república, em 133 A.C. Juntamente com a tranquilidade da «paz romana», houve a aceitação da cidadania romana. Sob o imperador Cláudio, Tiatira começou a cunhar novamente as suas próprias moedas, após um lapso de nada menos de dois séculos. A abundância dessas moedas cunhadas em Tiatira, que continuaram sendo produzidas até o século III D.C., sugere um vigoroso comércio. A primeira pessoa a se converter a Cristo, sob o ministério de Paulo, foi Lídia, uma mulher de Tiatira, que vendia panos de púrpura em Filipos, a centenas de quilômetros longe de sua terra natal. A tinta púrpura ou carmesim, dos tecidos vendidos por Lídia, era uma manufatura local, extraída das raízes da planta chamada garança, um rival mais barato que o corante fenício, extraído de um molusco, o murex.

A prosperidade comercial atraiu uma minoria judaica respeitável para Tiatira, pois os judeus, antes dedicados às atividades agrícolas, começaram a se interessar pelo mundo dos negócios e do comércio, no exílio. De fato, esse tipo de atividade haveria de tornar-se uma das marcas registradas dos filhos de Israel, na dispersão. Famosos artigos de exportação, de Tiatira, eram tecidos e vestes tingidos, além de armaduras de bronze. Uma moeda de Tiatira exibe Hefesto, o ferreiro divino, a moldar um capacete na bigorna. E a palavra grega chalcolibanos, «bronze polido» em nossa versão portuguesa (ver Ap 1:15 e 2:18), pode ter sido um nome comercial próprio de Tiatira, usado para emprestar certo colorido local à carta do Senhor Jesus à igreja cristã ali localizada. Realmente, é possível que as atividades comerciais fossem a questão crucial dos problemas dos cristãos da cidade. Não têm sido encontradas inscrições em grande quantidade, mas as poucas que ali têm sido descobertas falam em trabalhadores em lã, linho, couro e bronze, além de oleiros, padeiros, tintureiros e comerciantes com escravos. Cada um dos grupos profissionais contava com a sua guilda particular, como a dos ourives de Éfeso.

As epístolas de Paulo aos crentes de Corinto servem de clara indicação de que as guildas comerciais, com sua exigente vida social, com seus ritos pagãos e com suas festas periódicas, haveriam de ser problemas sérios para os cristãos fiéis que, por motivo de consciência, quisessem repelir a licenciosidade do mundo ao redor deles.

Era difícil alguém se abster das festividades das guildas sem perder alguma coisa no mundo dos negócios, em termos de aceitação e prestígio social. Por outro lado, ajustar-se a tais costumes era expor-se à licenciosidade dos ritos pagãos, que assinalavam os banquetes das guildas. Aquela seção da Igreja cristã, com ritos de sua pureza, buscava alguma forma de transigência. Estamos falando sobre os nicoláitas. Parecem ter sido liderados por uma habilidosa mulher, a quem João apodou de Jezabel. Esse apelido foi escolhido deliberadamente, com base no casa­mento de Acabe, rei de Israel, com Jezabel, filha do rei de Tiro. Esse casamento fora um compromisso, com o intuito de fomentar o comércio entre Samaria e os fenícios. Tal matrimônio foi um grande desastre, conforme Elias demonstrou. João, autor do Apocalip­se, denunciou essa mulher, proferindo contra ela uma horrível condenação: «Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações e vos darei a cada um, segundo as vossas obras» (Ap 2:22,23).

Uma inscrição encontrada por Ramsay, em Tiatira, mostra que ali, nos festejos públicos, as mulheres eram segregadas dos homens. Portanto, que as vítimas daquela pervertida mulher a abandonassem, deixando-a cair na condenação que inevitavelmente lhe sobreviria.

Essa forma de heresia estava destinada a tornar-se generalizada na Igreja antiga, conforme a última carta de João, III João, o demonstra. Talvez esse tipo de heresia tivesse começado em Tiatira. E a exortação da carta do Senhor Jesus aos crentes de Tiatira, conclui como segue: «Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as cousas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão somente conservai o que tendes, até que eu venha» (Ap 2:24,25).

O simbolismo existente nessa carta a Tiatira é local e muito chama à atenção. Em Apocalipse 2:18, Cristo aparece como quem tinha «os pés semelhantes ao bronze polido». Ora, o bronze era um dos produtos mais conhecidos de Tiatira. A promessa de Cristo, nos versículos 26 e 27, também reflete a natureza militar dessa cidade. Jezabel é uma personagem extrema­mente simbólica, desde o Antigo Testamento, falando em transigência e apostasia, por amor ao comércio, devido a sociedade firmada com um poder pagão.


CARTA À IGREJA DE TIATIRA, 2.18-29

1.      Destinatário (2.18a)

Cerca de 65 quilômetros a sudeste de Pérgamo ficava Tiatira. Era uma cidade da Lídia, perto da fronteira com a Mísia. Construída por Seleuco I, fundador da dinastia dos Selêucidas, ela foi povoada pelos veteranos das campanhas de Alexan­dre, o Grande, na Ásia. Em torno de 190 a.C., Tiatira foi tomada pelos romanos. Embora tivesse um centro comercial próspero, era muito inferior ao de Éfeso, Esmirna, e Pérgamo. Charles observa: “A carta mais longa foi dirigida à cidade menos importante das Sete Cidades”. Evidentemente, havia judeus ali, porque Atos 16.14 menciona “Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus”. Parece que na época ela era uma prosélita convertida ao judaísmo.

A igreja em Tiatira evidentemente era pequena. Fala-se que ela desapareceu no fim do segundo século.

2.      Autor (2.18b)

O autor dessa carta se identifica como o Filho de Deus, uma frase encontrada somente aqui no livro de Apocalipse. Jesus reivindicou esse título durante o seu tempo aqui na terra (Mt 11.27; Lc 10.22) e aprovou Pedro por professá-lo (Mt 16.16,17). Foi por causa dessa afirmação que Jesus foi condenado pelo Sinédrio (Mt 26.63; Jo 19.7).

Cristo é descrito como Aquele que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao latão reluzente. Encontramos aqui um eco de 1.14,15. A adequação da caracterização dupla é expressa da seguinte forma por Swete: “Essa menção dos olhos que flamejam com indignação justa e os pés que podem pisotear os inimigos da verdade prepara o leitor para o tom severo da declaração que se segue”. Erdman se expressa de forma ainda mais sucinta: “Assim, ele é capaz de penetrar nos segredos de todos os corações e ele tem poder para castigar e subjugar”. Esses olhos flamejantes penetram e descobrem todo engano da hipocrisia. Nas Escrituras, o latão frequentemente é o símbo­lo do julgamento.

3.      Aprovação (2.19)

As palavras desse versículo na KJV obviamente estão incorretas, porque apresen­tam uma lista começando e terminando com tuas obras — uma repetição sem significa­do. Além disso, o melhor texto grego traz fé antes de serviço. A RSV apresenta uma tradução correta: “Conheço as suas obras, o seu amor, a sua fé, o seu serviço e a sua perseverança, e que suas últimas obras excedem as primeiras”. A New English Bible traz: “Vocês agora estão fazendo ainda melhor do que no princípio”.

Cristo tinha elogiado a igreja de Éfeso pelas suas obras. Mas a igreja de Tiatira estava um passo à frente. Ela é cumprimentada pela sua caridade. A palavra grega é ágape e sempre deveria ser traduzida por “amor”. Caridade representa os caritas da Vulgata latina, a Bíblia oficial da igreja católica romana. Hoje, caridade significa um espírito de tolerân­cia ou dar aos necessitados. Ágape é um termo muito mais rico do que isso. As pessoas do mundo também podem ser filantrópicas ou tolerantes. Mas ágape é o amor divino implan­tado no coração humano e que flui em um serviço abnegado e sacrificial aos outros.

A palavra grega pistis pode significar ou fé ou “fidelidade” (NEB). Não se sabe exatamente qual das duas palavras se tem em mente aqui. Talvez a melhor saída é permitir os dois significados (cf. Phillips, “lealdade”).

Serviço é diakonia. Beyer diz que essa palavra significa “qualquer ‘realização de serviço’ feito com amor genuíno”. Lenski define diakonia como “serviço voluntário para o benefício e a ajuda daqueles que precisam dele e realizado liberalmente”.

Paciência (hypomone) significa mais do que o suportar passivo de privações ou provações. Essa palavra significa, na verdade, uma constância ou persistência (“perse­verança”, NASB) positiva.

Devido à prolongada censura que se segue, é surpreendente que uma aprovação tão entusiástica é dada a essa igreja. Swete comenta: “É digno de observação que nessas cartas às igrejas o elogio é apresentado com mais liberalidade, se é que pode ser feito com justiça, quando segue a censura; diz-se mais acerca das boas obras das igrejas de Éfeso e Tiatira, do que das igrejas de Esmirna e Filadélfia, em que não se encontra falta alguma”.Essa característica está de acordo com a psicologia sadia, que aconselha a dizer tudo que é positivo antes de se chamar a atenção das faltas da outra pessoa.

4.      Censura (2.20-23)

A primeira parte do versículo 20 deveria ser traduzida da seguinte forma: “No en­tanto, contra você tenho isto: que você tolera a mulher Jezabel” (RSV, NASB). A tole­rância do mal era o pecado constante da igreja de Tiatira. Jezabel é provavelmente um nome simbólico — “Essa mulher, Jezabel”. A referência é obviamente à esposa de Aca­be, que seduziu os israelitas a adorar Baal (1 Rs 16.31). Também são mencionados suas “prostituições” e “feitiçarias” (2 Rs 9.22). Uma vez que alguns manuscritos e versões antigas trazem “tua mulher Jezabel” (i.e., “tua esposa Jezabel”), Grotius (século dezessete) sugere que o autor fala da esposa do bispo de Tiatira. Mas essa noção é hoje quase uni­versalmente rejeitada. Duesterdieck diz que se tem “uma mulher específica em mente; não a esposa de um bispo, nem uma mulher que é, de fato, chamada Jezabel, mas uma determinada mulher que diante da ambição de ser uma profetisa tinha aprovado as doutrinas dos nicolaítas e por esse motivo foi escolhida a nova Jezabel”. Isso provavelmente representa a opinião da maioria hoje.

Não era incomum ter uma profetisa na Igreja Primitiva (cf. At 21.9). No Antigo Testamento, diversas mulheres recebem esse título (e.g., Miriã, Débora,Hulda). O único lugar no Novo Testamento em que prophetis (fem.) ocorre é Lucas 2.36 (Ana).

A falsa profetisa de Tiatira estava sendo tolerada para que ensine e engane os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria. Es­sas duas coisas são atribuídas aos seguidores de Balaão (e nicolaítas?) em Pérgamo (v. 14).

Tiatira era conhecida pelas suas inúmeras associações comerciais. Isso gerava um problema especial. Charles escreve: “Agora, visto que a participação de alguma dessas associações [...] não significava essencialmente nada além de participar de uma refeição em comum, que era dedicada indubitavelmente a algum deus pagão, mas que era exatamente por isso sem sentido para o cristão iluminado; beneficiar-se desse tipo de participação era considerado em certos círculos liberais algo bastante justificável.

Por razões comerciais ou sociais, parecia quase imperativo pertencer a alguma asso­ciação. Mas, acredita-se que essas reuniões comerciais frequentemente acabavam em orgias e bebedeiras. Por isso, a referência à prostituição. Essa profetisa estava defen­dendo uma atitude moral e religiosamente liberal.

Evidentemente, uma advertência peremptória foi dada a essa Jezabel, mas ela ti­nha se recusado a se arrepender (v. 21), i.e., mudar sua opinião e caminhos. Portanto, o Senhor deve lidar com ela severamente. Por causa da sua prostituição Ele a colocaria numa cama (22). Essa expressão é somente uma de muitas, que mostram a tendência de João, que, embora escrevesse em grego, pensava em formas hebraicas. Referente a essa frase, Charles escreve: “Se a traduzirmos literalmente para o hebraico, descobriremos que temos aqui uma expressão idiomática hebraica [...] ‘ficar preso à cama’, ‘ficar doente’ (Êx 21.18): consequentemente, ‘colocar numa cama’ significa ‘colocar num leito de enfermidade”.

E sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, deve provavelmente ser entendido como um paralelismo hebraico. Adulteraramprovavelmente significa adul­tério espiritual. Mas a porta da misericórdia continua aberta — se não se arrepende­rem das suas obras. Arrependimento genuíno sempre coloca o julgamento de lado.

Recusa contínua de se arrepender resulta em mais castigo severo: E ferirei de morte a seus filhos (23). Provavelmente, seus filhos significa: “sua descendência espi­ritual, como distintos daqueles que foram enganados por um tempo”. Ferirei de mor­te é um hebraísmo típico. Ele significa “matar” (ARA, NVI).

Essa seria uma advertência para todas as igrejas. Elas saberão que eu sou aquele que sonda as mentes e os corações (cf. Jr 11.20; 17.10). Mentes(palavra grega somente encontrada aqui no NT) literalmente significa “os rins”; isto é, “os movimentos da vontade e afeições”. Corações na psicologia hebraica referia-se especialmente aos pensamentos. O olhar do Onisciente penetra até o mais profundo do intelecto, emoções e vontade do homem.

O julgamento divino sempre é justo. Cada um receberá segundo as suas obras (cf. Rm 2.6).

5.      Exortação (2.24,25)

Há uma palavra de conforto aos restantes que estão em Tiatira (24) — talvez a maior parte dos membros — e que não aceitaram a doutrina(ensinamento) de Jezabel, e não conheceram [...] as profundezas de Satanás. Para os gnósticos do segundo século, a expressão “as coisas profundas” era uma frase favorita. Eles reivindicavam um conhecimento esotérico que era desconhecido pelas pessoas não iniciadas.

Duas interpretações têm sido apresentadas acerca das profundezas de Satanás. Uma é que os nicolaítas escarneciam do restante dos cristãos como aqueles que não conheciam as coisas profundas de Deus; mas essas, na verdade, se referiam às coisas profundas de Satanás. A outra diz que os seguidores de Jezabel, na realidade, se vanglo­riavam em conhecer as profundezas de Satanás. “Esses falsos mestres entendiam que o homem espiritual deveria conhecer as coisas profundas de Satanás e que ele deve­ria tomar parte da vida pagã da comunidade. Duas das características mais salientes dessa vida pagã eram suas festas sacrificiais e suas práticas imorais.” Muitos gnósticos de épocas posteriores afirmavam que, visto que toda a matéria é má e somente o espírito é bom, não importa o que alguém faça com o seu corpo; sua alma continua pura. As duas interpretações acima podem ser aplicadas às doutrinas de mestres imorais de Tiatira.

Como dizem significa “como as chamam”. Paulo falou dos mistérios profundos da verdade divina (cf. Rm 11.33; Ef 3.18). Esses falsos mestres estavam distorcendo essa ideia.

Para aqueles que permaneceram leais à fé, Cristo declarou: outra carga vos não porei. Provavelmente, isso esteja relacionado com o versículo 25: Mas o que tendes, retende-o até que eu venha. Charles interpreta isso assim: “Definitivamente, domi­nem (kratesate) com firmeza as tarefas incumbidas a vocês, e afastem-se completamente das festas sacrificiais dos pagãos e das perversidades morais que praticam”. Ele acha que outra carga se refere aos decretos apostólicos de Atos 15.28. Mas muitos comenta­ristas questionam isso. Parece duvidoso que esses decretos ainda seriam mencionados numa época bem posterior.

6.      Recompensa (2.26-28)

À frase recorrente ao que vencer (26) é acrescentado aqui: e guardar até ao fim as minhas obras. Swete observa: “Em Tiatira, a batalha precisava ser vencida pela adesão resoluta às ‘obras de Cristo’, i.e., à pureza da vida cristã, em oposição às ‘obras de Jezabel’ ”?

A recompensa prometida é: eu lhe darei poder (exousia, autoridade) sobre as nações. O Cristo glorificado compartilhará a sua autoridade com seus seguidores fiéis. A linguagem dessa cláusula e o que segue no versículo seguinte são tirados de Salmos 2.8-9, que era interpretado como um salmo messiânico pelos judeus do século I a.C., de acordo com Salmos de Salomão (uma obra apócrifa).

A palavra regerá (27) literalmente significa “pastorear”. Assim, a vara de ferro se refere ao cajado do pastor, com a ponta de ferro para torná-la uma arma adequada con­tra os inimigos ou animais selvagens. Os ímpios são comparados com vasos de oleiro que serão quebrados. Embora essas palavras possam ter alguma aplicação à influência da Igreja no mundo atual, é óbvio que o seu cumprimento final aguarda o retorno de Cristo. Como também recebi de meu Pai é um eco de Salmos 2.7 e Atos 2.33.

Na declaração dar-lhe-ei a estrela da manhã (28), há uma expectativa de 22.16: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã”. A maior recom­pensa que qualquer cristão vitorioso pode receber é o próprio Cristo. Sua presença será o céu em sua glória mais elevada.

7.      Convite (2.29)

Nas três últimas cartas, esse convite precedeu a promessa ao vencedor. Nessa e nas três cartas seguintes ela segue a promessa.

Alguém sugeriu (Pulpit Commentary) que essa carta revela “A Ira do Cordeiro”: 1) Sua realidade (v. 18); 2) Sua severidade (vv. 22-23); 3) Sua omissão (v. 21); 4) Sua justiça (v. 20); 5) Sua discriminação (vv. 24-25).


Antes de o Senhor Jesus censurar o anjo da igreja em Tiatira, passa a destacar-lhe as qualidades. Aliás, Tiatira, conforme já adiantamos, era tão rica em obras quanto Éfeso. Além disso, fizera-se elogiável pelo amor que consagrava a Deus. No entanto, ainda não havia alcançado o padrão de Filadélfia.
 Amor. O amor de Tiatira era maior do que antes, mas ainda não era perfeito. Sua imperfeição não estava em amar os maus; residia no aquiescer ao mal (1 Co 13.6,7). O amor que tolera o erro, ainda desconhece o que é certo. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado de Jezabel e a abominação dos que, com ela, fizeram-se repugnantes aos seus olhos.
 Serviço. Obreira incansável, Tiatira vinha notabilizando-se no serviço a Cristo em favor dos santos (Ap 2.19). Evangelizava, socorria os mais necessitados e tudo fazia por expandir o Reino de Deus. Imitando a apostólica Jerusalém, erguia-se como exemplo para as demais igrejas. Todavia, seu amor carecia de perfeições (1 Co 13.1-13).
 Fé. Por suas obras, Tiatira demonstra a sua fé (Tg 2.18). Uma fé, aliás, que não se limitava a um mero assentimento intelectual (Tg 2.19). Sua confiança em Deus era bem fundamentada. Tinha forças não somente para realizar o impossível, mas para mostrar uma perseverança que ousava além dos limites humanos.
 Paciência. A paciência é a virtude que nos capacita a suportar o insuportável (Rm 5.4). Sabemos que, juntamente com a luta, o Senhor vem com o escape sempre oportuno (1 Co 10.13). É por isso que o anjo de Tiatira mantinha-se perseverante e calmo.
 Abundância em obras. O anjo da igreja em Tiatira jamais se mostrou remisso. Trabalhando e esforçando-se cada vez mais, foi elogiado por Cristo por serem as suas últimas obras mais abundantes do que as primeiras (Ap 2.19). Se as primeiras eram boas, as últimas tinham a marca da excelência.


                       JEZABEL, E AS PROFUNDEZAS DE SATANÁS

Não obstante suas inigualáveis virtudes, o anjo da igreja em Tiatira foi reprovado por Cristo por estar tolerando uma mulher que, dizendo-se profetisa, encontrava-se a desencaminhar os fiéis à idolatria e à prostituição.
 A Jezabel de Tiatira. Idólatra e adúltera. Assim era a mulher de Acabe conhecida entre as tribos hebreias. Por causa de sua reputação, ela serviu para nomear a profetisa que, em Tiatira, induzia os homens ao adultério e à apostasia. Curiosamente, Jezabel, em hebraico, significa casta, mas em nada diferia ela de uma rameira (2 Rs 9.22).

 O ministério de Jezabel. Jezabel apareceu em Tiatira com uma nova doutrina que, em essência, era a velha mentira do Diabo (Gn 3.1-5). Apresentou um ensino novo, uma unção nova e, quem sabe, até um método novo de crescimento da igreja. Nos bastidores, era tudo isso conhecido como as profundezas de Satanás (Ap 2.24). O que parecia uma nova revelação era, na verdade, o engano antigo e caduco que levou nossos pais à ruína (2 Co 11.3).Além de profetizar, Jezabel ascendera à categoria de mestra na igreja (Ap 2.20). Profetizando e ensinando, seduzia a todos com a sua doutrina. Como lhe fora possível tamanha ascensão sobre o ministério? Não havendo ninguém que lhe barrasse os passos, ela transtornou todo o redil e comprometeu a ortodoxia e a pureza da igreja.
 A obra de Jezabel. Através de seus ensinos e profecias, a perversa Jezabel induz alguns homens à idolatria e ao adultério (Ap 2.20). Muita vigilância. Não são poucos os que, sob o manto de uma espiritualidade afetada e caricata, desviam os fiéis a práticas vergonhosas e abomináveis.
Cuidado com o rebanho que o Senhor lhe confiou (At 20.28,29). Zele pela sã doutrina e pelos bons costumes. Jamais permita que o lobo lhe devore as ovelhas, utilizando-se de seu púlpito (1 Tm 1.3; 4.16).Em sua misericórdia, Deus concedeu um tempo de arrependimento a Jezabel e aos que com ela pecaram (Ap 2.21). Buscaram eles o favor do Senhor? Não temos o desfecho dessa história. Apesar de estarmos em plena era da graça, o Deus do Antigo Testamento não mudou. Se Ele puniu a Acã, não deixou impunes Ananias e Safira.

Busquemos, pois, no Deus de amor, a perfeição de nosso amor. Não basta amar mais do que antes, é urgente amar como nunca: perfeita e integramente. O perfeito e íntegro amor, embora suporte os maus, não pode tolerar o mal; apesar de amar o pecador, não pode indultar o pecado.A cidade de Tiatira estava localizada a aproximadamente sessenta quilômetros a nordeste de Pérgamo. Era um importante centro industrial e comercial da região de Lídia. Na época em que o livro do Apocalipse foi elaborado, essa cidade estava em grande desenvolvimento e ainda viriam dias mais prósperos. Era também a sede de um grande número de associações de mercadores, inclusive daqueles que trabalhavam com vários metais. O nome da cidade aparece apenas uma outra vez no Novo Testamento, como a cidade natal de Lídia, uma cristã vendedora de tecidos de púrpura na cidade de Filipos (At 16.14).

A descrição de Jesus, com ‘os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao latão reluzente’ (2.18) tem sido, há muito, entendida como referência à florescente indústria de metais de Tiatira. Uma descrição semelhante aparece duas outras vezes no Apocalipse (1.14,15; 19.12; cf. Dn 7.9). Essa impressionante imagem lembra o quarto homem, ‘semelhante ao filho dos deuses’ que se colocou no fogo, ao lado de Sadraque, Mesaque e Abedenego (Dn 3.25). O leitor se lembrará que esses três homens se recusaram a inclinar-se perante a estátua de um outro imperador com alusões à divindade — e que Deus os livrou” (ARRINGTON, F. L.; STRONSTAD, R. (Eds.). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 1.ed., RJ: CPAD, 2003, p.851).



                                    Jezabel é julgada.
  
Apesar de todas as coisas boas que Jesus disse sobre a igreja em Tiatira, Ele tem contudo outras contra ela. O problema em Pérgamo parece ter se originado de pressões vindas de forças pagãs (‘o trono de Satanás’ 2.13), de fora da igreja. Mas o problema em Tiatira foi iniciado e fomentado por uma mulher apóstata, membro da igreja. No lugar de ‘aquela mulher’, alguns antigos manuscritos trazem ‘sua mulher’, que poderia significar ‘sua esposa’, ou seja: esposa do pastor. Qualquer que seja o caso, o pastor e a igreja toleravam-na porque a consideravam profetisa. Jesus, entretanto, a chama Jezabel.

Na realidade, ela é pior do que a Jezabel do Antigo Testamento, esposa do rei Acabe, que tentou substituir a adoração ao Senhor, em Israel, pelo culto a Baal, buscando fazer deste um deus nacional. Esta Jezabel, que se diz profetisa, colocava suas palavras e ensinamentos acima dos de Cristo e dos apóstolos. Não somente ensinava que era lícito, aos olhos de Deus, cometer adultério espiritual — participar das adorações idolatras e imorais — como também seduzia, com muita perspicácia, os crentes que realmente procuravam servir ao Senhor, e que lhe eram fiéis. Note que Jesus chama a estes de ‘meus servos’. As boas coisas que Jesus disse da igreja poderiam ser ditas sobre eles. Contudo, estavam agora sob a influência das profecias e ensinos desta Jezabel. Dando-lhe atenção, tornaram-se vítimas.
As profecias devem ser testadas pelas Escrituras; não podem estar baseadas num único versículo, ou metade num versículo aqui e a outra noutro lugar. As profecias devem estar de acordo com os grandes ensinamentos da Bíblia. Os que pertencem ao corpo de Cristo devem julgá-las (1 Co 14.29). Assim, à medida que nos aprofundamos no conhecimento das Escrituras, o Senhor mesmo iluminará nossos corações e mentes, concedendo-nos sua maravilhosa luz.

Jesus já havia tratado com esta Jezabel, e lhe dado um período de tempo (‘espaço’) para que se arrependesse. Mas ela não se arrependeu de sua fornicação — o adultério moral e espiritual. Ela não mudou suas atitudes básicas, e ainda ensinava que a mistura da verdadeira adoração com práticas e adorações pagãs não constituíam qualquer pecado” (HORTON, S. M.Apocalipse: As coisas que brevemente devem acontecer. 2.ed., RJ: CPAD, 2001, pp.40,41). fonte CPAD





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