segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Comentario do Apocalipse as taças da ira (1)




 Sete Taças Ap 15:1—16:21



Chegamos agora a dois capítulos de espanto excepcional. Tendo examinado os instigadores da horrível iniquidade da terra, passamos agora ao juízo terrível das taças. Castigos severos e finais estão prestes a ser infligidos em sucessão aguda e rápida. Assim como o pecado alcançou seu clímax com o homem da iniquidade como já vimos em ebdareiabranca, também agora os juízos de Deus hão de cair do Deus do juízo sobre uma terra culpada. Nos capítulos que agora examinamos temos detalhes concernentes aos juízos de Deus que precedem seu grande dia de ira. Como veremos, o derramar da sétima taça completa a ira de Deus.


O preparo (15:1-8).

1. Vi no céu outro sinal grande e admirável, sete anjos tendo os sete últimos flagelos, pois com estes se consumou a cólera de Deus. A palavra traduzida “sinal” significa milagre ou aparição maravilhosa, como em 12:1,3. Com o simbolismo das sete trombetas João retratou uma série de castigos divinos, na forma de pragas e tormentos, para acordar a humanidade para a verdadeira realidade de Deus. Esta série agora alcança seu clímax; com os flagelos das sete taças, Deus terá derramado total­mente sua cólera no contexto particular das pragas que antecipam o jul­gamento final. O significado destas palavras não é que a ira de Deus acabou; a besta, o falso profeta e todos os que persistirem na maldade ainda serão lançados no lago de fogo, na manifestação derradeira da cólera de Deus contra o pecado. Temos de tomar estas palavras em seu contexto escatológico particular: a cólera de Deus durante a grande tribulação é uma tentativa de fazer com que os adoradores da besta se in­clinem diante da soberania de Deus.

2. Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo, e os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome. Instantes antes das últimas pragas João tem uma visão proléptica dos que venceram a besta. Estes são os santos-mártires mortos pela besta por sua perseverança sob perseguição, sua obediência firme aos mandamentos de Deus e sua fé em Jesus (14:12). Eles venceram a besta por meio do seu martírio, pois nem na morte eles negaram o nome de Jesus. Recusaram adorar a besta, in­clinar-se diante da sua imagem (13:15), e receber o número do seu nome. Apesar de a besta tê-los morto, foram eles que a venceram, permanecen­do fiéis a Jesus; frustraram o propósito dela. Temos de presumir que a perseguição dos santos pela besta continua durante o período dos sete flagelos.

Não há razão suficientemente forte para não interpretarmos o mar de vidro como sendo aquele que estava diante do trono de Deus (4:6). O pensamento central deste simbolismo é que estes vencedores da besta es­tão diante do trono, na presença de Deus. A besta pensou que os venceria matando-os; mas sua morte somente os transportou da terra para o céu. A vitória final foi deles. O mar de vidro mesclado com fogo provavelmente é um símbolo de que este período é de julgamento dos que vivem na terra; pode também se referir à perseguição sangrenta pela qual os ven­cedores passaram. As harpas de Deus que eles tinham em suas mãos são outro símbolo da sua vitória. Harpas expressam louvor e adoração a Deus (5:8; 14:2); os vencedores expressam sua alegria pela vitória cantando hinos de louvor.

3. E entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. Os exegetas estão discutindo se isto quer dizer que eles estão cantan­do dois cânticos ou somente um. Gramaticalmente parece que eles estão cantando dois: um de Moisés e outro do Cordeiro. Pelo contexto a ideia é que os vencedores cantam um hino de triunfo, que tanto os santos do An­tigo Testamento como os do Novo sabiam cantar, porque todos cantam da libertação pelo mesmo Deus. Talvez o cântico de Moisés seja o da liber­tação do Êxodo, quando os israelitas louvaram a Deus por tê-los tirado do Egito. O cântico do Cordeiro, no contexto, não é um hino de salvação pes­soal; é um hino pela libertação do ódio e da hostilidade da besta. Da mes­ma maneira como Deus libertou Israel do Egito, mesmo derramando pragas sobre os egípcios, ele também libertou os santos de adorar a besta, derramando seus juízos sobre os que a adoram.

O hino não fala de redenção espiritual, mas exalta os poderosos feitos de Deus. Isto forçosamente inclui os meios que Deus usa para manifestar sua cólera contra os que perseguiram os santos. O hino está quase totalmente expresso em linguagem do Antigo Testamento, porque Deus é o Deus que liberta o seu povo. Suas obras são grandes e admiráveis (veja Sl 92:5; 111:2; 139:14). Ele é o Senhor Deus, Todo-poderoso, à luz de quem os poderes da besta têm limites. Seus caminhos, mesmo permitindo que os santos sofram, são justos e verdadeiros. Ele é realmen­te o Rei das nações. A versão “Rei dos santos” (ARC), é de um texto gre­go mais recente e não tem muito apoio. Outra versão possível é “Rei dos séculos” (IBB). Neste tempo de grande tribulação, quando parece que a besta tem poder ilimitado para executar seus propósitos demoníacos con­tra os homens e perseguir os santos — na hora mais escura da história da humanidade, quando parece mesmo que Satanás é o deus deste século (2 Co 4:4), os mártires cantam um hino de louvor a Deus, reconhecendo que ele é o Deus vivo e verdadeiro. Eles exaltam o nome de Deus porque, ao contrário de evidências externas, ele é de fato o Rei, de todas as nações e todas as épocas, inclusive durante o tempo de martírio. Este hino é uma das expressões de fé mais comoventes de toda a literatura bíblica.

4. Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? pois só tu és santo; por isso todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos. Fora do contexto estas palavras podem ser interpretadas no sentido de salvação de todas as nações. Nas cartas de Paulo também há trechos correspondentes que soam a salvação universal, tirados do contexto. É plano de Deus “fazer convergir nele todas as coisas” (Ef 1:10). “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2:10-11). E “por meio dele recon­ciliasse consigo mesmo todas as coisas que sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1:20). Afirmações como estas, porém, devem ser compreendidas dentro do plano bíblico. A Bíblia está sempre olhando no futuro para um dia em que Deus reinará na terra, cercado somente pelos que têm seu prazer em adorá-lo. “Todas as nações que fizeste virão, prostrar-se-ão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome” (Sl 86:9). “Irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó. ...Ele jul­gará entre os povos” (Is 2:3-4; cf. 66:23). “Desde o nascente do sol até ao poente é grande entre as nações o meu nome” (Ml 1:11). É esta a meta do Apocalipse: estabelecer uma cidade onde todas as nações encontrarão cura (22:2). Isto não significa salvação universal: somente que o Reino de Deus será constituído de uma união de pessoas de todas as nações, que ale­gremente se entregam para adorar e cultuar a Deus.

É digno de nota que os mártires não cantam de si mesmos nem de como venceram a besta: eles estão ocupados totalmente com a soberania, além disto não há nenhum vestígio de vingança pessoal contra os inimigos que são atingidos pelo castigo divino.

Os atos de justiça que se fizeram manifestos são as sentenças ju­diciais de Deus em relação às nações, de misericórdia ou de condenação. Para Babilônia e seus habitantes que adoram a besta elas significam ira de Deus; mas as pessoas reconhecerão que “verdadeiros e justos são os teus juízos” (16:7).

5. Depois destas coisas olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do testemunho. As sete últimas pragas estão por começar, e são retratadas pelo esvaziar de sete taças que estão na mão de sete anjos que vêm da presença de Deus. O santuário de Deus já apareceu algumas vezes no Apocalipse. João viu, em uma visão proléptica, o santuário de Deus no céu aberto, com a arca da aliança (11:19). Isto foi para lembrá-lo da fi­delidade de Deus às promessas de sua aliança. Aqui a fidelidade de Deus também exige o julgamento do mal.

Este versículo mistura duas referências históricas: a tenda do testemunho, no deserto, e o templo que mais tarde foi construído em Je­rusalém. O tabernáculo no deserto era chamado de “tabernáculo do tes­temunho” (Êx 38:21; Nm 10:11, 17:7; At 7:44). Ele se tornou modelo para o templo, quando este foi construído em Jerusalém, e o templo, por sua vez, foi usado como modelo para a habitação de Deus no céu.

6. E os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do santuário, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos ao peito com cintas de ouro. Geralmente João não descreve a aparência dos muitos anjos que aparecem em seu drama escatológico. A vestimenta destes anjos tem o ob­jetivo de destacar o esplendor destes seres celestiais. Não há razão para pensar que as cintas de ouro indicam funções sacerdotais.

7. Então um dos quatro seres viventes deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias de cólera de Deus. Os quatro seres viventes estavam perto do trono de Deus (4:6); isto é a maneira simbólica de dizer que os sete flagelos estavam integralmente autorizados por Deus. Taça era um prato raso usado para beber e derramar libações. A mesma palavra é usada para as taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, nas mãos dos vinte e quatro anciãos (5:8). Pode haver aqui uma alusão deliberada às taças que contêm o incenso da oração. As orações dos san­tos têm a função de trazer sobre o mundo a manifestação derradeira da justiça e da ira de Deus. A ênfase na eternidade de Deus — aquele que vive pelos séculos dos séculos — lembra que, apesar de parecer que o mal domina os acontecimentos da história humana, Deus é eterno e ninguém pode se interpor aos seus planos, nem mesmo a maldade satânica e demoníaca.

8. O santuário se encheu de fumaça, procedente da glória de Deus e do seu poder, e ninguém podia penetrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos. No Antigo Testamento quando Deus se manifestava aos homens ele costumava aparecer em uma glória tal que ninguém podia ficar de pé diante dele. “Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo” (Êx 40:35). Os sacerdotes não conseguiram entrar no templo de Salomão quando este foi dedicado, porque a glória da presença divina enchia a casa (1 Rs 8:10). Quando Isaías teve a visão de Deus no templo, cercado de serafins, os fundamentos da construção tremeram à voz divina e o Santuário se encheu de fumaça (Is 6:4). Ezequiel caiu sobre sua face quando teve a visão do templo cheio da glória do Senhor (Ez 44:4). A ênfase não é tanto sobre a impossibilidade de se aproximar de Deus, mas sobre sua majestade e sua glória, em comparação com tudo que é humano e mundano.

Há certas semelhanças entre as pragas trazidas pelas sete taças e as trazidas pelas sete trombetas, e ambas as séries têm semelhanças com as pragas do Egito. As pragas das sete taças, no entanto, são bem mais in­tensas e devastadoras. As pragas das primeiras quatro trombetas atingem primeiramente o ambiente do homem e não tanto a este próprio, mas o primeiro flagelo atinge os homens diretamente. Temos de ver estas pragas no contexto da luta titânica entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, retratada com traços tão vívidos no capítulo 12. Estas pragas não são a expressão da ira divina contra o pecado em geral, mas são o castigo por más ações individuais. A ira de Deus é derramada sobre aquele que quer frustrar o plano divino para o mundo — a besta — e sobre os que são leais a ela.

Entre os primeiros seis selos e o sétimo houve um interlúdio, e tam­bém entre as seis primeiras trombetas e a sétima. Nesta terceira série não há interrupção; o sétimo flagelo é a destruição de Babilônia, que veremos na próxima lição — a capital do império do Anticristo. O que o sétimo flagelo anuncia é descrito em detalhes nos dois capítulos seguintes. Estes flagelos são a resposta de Deus ao último e maior esforço de Satanás para derrubar o governo divino.




            Então começa a ira do Cordeiro.


 A ira de Deus

Sete anjos e sete pragas formam os meios de expressão da ira de Deus. A expressão “ira de Deus” ocorre seis vezes no Apocalipse (14:10, 19; 15:1, 7; 16:1, 19), é deveras medonha e devia infundir terror nos corações de todos os não-salvos da terra.

“Sete anjos” (distintos dos sete anjos altamente honrados e relacio­nados com as trombetas) saem do santuário (15:6), a residência imediata de Deus e dos anjos. Do santuário de outrora saíram os sacerdotes como ministros da graça. Agora os anjos emergem dele como ministros do juízo.

O tabernáculo do testemunho é uma frase sugestiva. Para Israel este era o símbolo da presença de Deus e de sua provisão para seu povo. Agora, porém, a santidade de Deus exige castigo do ímpio, e portanto, temos as “testemunhas” do juízo, segundo a natureza de Deus contra a besta e contra todos os inimigos de seu povo. David Brown diz: “Aqui entra em campo, de maneira adequada, o tabernáculo do testemunho, onde a fidelidade de Deus vinga seu povo com juízos sobre seus inimigos; juízos que estão prestes a se desencadear. Precisamos dar uma olhada no Santo dos Santos a fim de compreender a mola secreta e o fim do trato justo de Deus.”

Estes sete anjos estão vestidos de maneira condizente com o caráter justo de sua missão, e também de maneira que se parece com o Senhor (1:13). Comparando com 19:8 descobrimos que o linho puro indica justiça, enquanto os cintos de ouro, à altura do peito, (não na cintura) sugerem a obra do juízo compatível com a natureza santa de Deus.

As “sete últimas pragas” sugerem finalidade e término, e assim a aparição do número sete é especialmente adequada. Chegamos ao ciclo final da visitação do juízo. É claro que as taças não trazem o fim da ira divina, como já vimos em ebdareiabranca, uma vez que mais ataques de vinganças devem ocorrer quando Cristo vier em pessoa (19:11-21). O que temos a esta altura é a conclusão dos juízos providenciais de Deus. Estas taças estão “cheias da ira de Deus”. “Cheias” significa terminado ou consumado. Para Deus o futuro é tão certo como se fosse passado, cuja realização é tão segura como a sua Palavra.

As Harpas de Deus

Este prefácio aos últimos juízos devastadores de Deus inclui uma linda descrição dos mártires vitoriosos que estão com o Senhor. O parágrafo de 15:2 a 15:4 é tomado de vitória, louvor e adoração.

Louvores corais celestes são representados pela harpa, que com sua combinação de notas solenes e grandes, acordes suaves e ternos indica o louvor e a adoração de Deus (1 Cr 25:6). As harpas de Deus (significando que os instrumentos, músicos e tema são dele) eram partes dos instrumentos do céu, usados somente para o louvor de Deus. Parece que os dois grupos celestes de cantores e harpistas mencionados em Apocalipse 14:2 e 15:2 representam a mesma hoste vitoriosa.

O palco no qual os harpistas se encontram é comparado a um mar de vidro misturado com fogo. No mar de vidro Walter Scott vê um estado fixo de santidade, de pureza interior e exterior. O mar sugere vastidão e vidro sugere calma sólida ou paz assentada e quieta.Diz Words­worth: “Um mar de vidro [expressa] suavidade e brilho; e este mar celeste é de cristal (4:6), declarando que a calma do céu não é como a dos mares terrenos, perturbada por ventos, mas cristalizada numa eternidade de paz.” Apresentada como se estivesse em pé sobre o mar de vidro, a companhia de mártires chegou ao seu descanso e também a esta nova posição como adoradores que venceram.

O mar de vidro misturado com fogo introduz outro elemento. Estes santos emergiram vitoriosos de sua tribulação de fogo. Temos três inimigos a enfrentar: o mundo, a carne e o diabo, mas os cantores tinham um quarto inimigo a derrotar: a besta. Foi alcançada a vitória sobre a besta, sobre sua imagem, sobre sua marca e sobre “o número do seu nome”, e agora eles triunfam por causa de uma vitória total e completa.

O cântico que acompanha as harpas tem o som de um grande poema. E um cântico de vitória como o de Moisés depois de atravessar o mar Vermelho. Dois cânticos são combinados: o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. O cântico de Moisés é o triunfo sobre o mal pelos juízos de Deus. É um cântico que celebra a derrota de Faraó e de suas hostes no mar Vermelho (Êx 15). (Este cântico mosaico não deve ser confundido com o cântico profético de Deuteronômio 32:1- 44.) O cântico de Moisés, magnífico como é, celebra apenas a redenção terrestre. A graça e glória do cântico que foi apresentado à margem leste do mar Vermelho eram associadas com o poder sobre os inimigos de Israel no Egito, pelos juízos de Deus.

O cântico do Cordeiro, entretanto, possui natureza diversa. Este cântico, dirigido pelo Cordeiro como Capitão de nossa salvação, implica a exaltação do Messias rejeitado, daquele que sofre. Cantado pelo remanescente fiel que morreu dentre o Israel infiel e apóstata, este cântico dos sofredores vitoriosos no céu celebra a Deus e ao Cordeiro.

Ao examinarmos os assuntos deste cântico duplo encontramos Deus exaltado de várias maneiras. Primeiramente, louvam-se as suasobras. A frase “grandes e admiráveis” é repetida em 15:1, 3, indicando a vingança da justiça de Deus, de modo que possa ser glorificado no grande final de suas lides. No título divino combinado Senhor Deus Todo-poderoso temos um vasto reservatório de poder—consolo para os santos e presságio para os inimigos de Deus.

Os caminhos de Deus são exaltados como “justos e verdadeiros”. Ao castigar seus inimigos Deus agirá em harmonia com seu próprio caráter. Este juízo imparcial será distribuído pelo “Rei dos séculos”. O ponto em questão da controvérsia do Senhor com a terra é se ele ou o homem de Satanás, a besta, é o rei das nações. Na véspera de as taças descerem sobre o reino da besta, os cantores vitoriosos saúdam o Senhor como o verdadeiro Rei das nações.

adoração de Deus também contribui para este cântico admirável. Dão-se as razões pelas quais o Senhor deve ser glorificado: “Pois só tu és santo!”

Os cantores sobre o mar de vidro celebram a santidade de Deus. Eles o temem e glorificam-no como o único digno de ser chamado santo. A besta colocou-se como Deus, mas o coro vitorioso escolheu a santidade em face de um mundo tomado pelo pecado e agora está onde reina toda a santidade verdadeira.

“Por isso todas as nações virão e se prostrarão diante de ti.” Os juízos de Deus infundirão temor em seus inimigos. Antecipando o domínio universal do Senhor, os santos celebram o reconhecimento mundial de sua supremacia. Vemos aqui o cumprimento de profecias tais como o Salmo 148; Isaías 2:2-4; 56:6, 7; Zacarias 14:16, 17.

“Porque os teus juízos são manifestos!” O plural, juízos, indica a manifestação dos atos justos do julgamento. E por ser ele justo ainda quando dispensa julgamento e vingança, deve ser glorificado. Estas são deveras palavras lindas que vêm dos que passaram pelos horrores do tormento da besta.

Comentando esta cena única, F. B. Meyer diz: “Os que foram criados na dispensação de Moisés e os seguidores do Cordeiro na presente dispensação, juntos com todas as almas dos santos que venceram, constituirão um vasto coro. Contudo, por mais que se examine o cântico de Moisés, não se conseguirá encontrar uma nota que iguale a este em sublimidade. Aqui estão os santos de Deus, treinados para distinguir as belezas do governo e comportamento justo e santo, capacitados do seu ponto de vantagem na eternidade a examinar a história inteira das lides divinas, adorando-o como Rei dos séculos, e reconhecendo que todos os seus caminhos foram justos e verdadeiros. Que confissão! Que reconhecimento!”

A Glória de Deus

A seção final deste notável capítulo (15:5-8) é também introduzida por outro “eis” (omitido em várias versões). Este parágrafo se inicia com a habitação de Deus e se encerra com a glória divina. Visto como tudo no parágrafo está ligado com a glória de Deus, examinemos estes versículos com essa ideia em mente.

William Newell argumenta a favor de um santuário literal de Deus no céu, mas achamos que a palavra “santuário” é usada pelo que representa simbolicamente—a saber, habitação de Deus, onde pode ser encontrado e adorado. Do santuário saem os sete anjos com as sete pragas, que representam a visitação final de Deus de juízos sobre as nações.

A apresentação das taças aos anjos por um dos seres viventes indica que esses seres viventes são os executores do governo judicial de Deus. Sendo “cheios de olhos”, esses seres dignificados compreendem profundamente os propósitos de Deus, e portanto, apresentam aos anjos acontecimentos horríveis. Já foi salientado haver três passos na obra do juízo de Deus:

1.      Os anjos são comissionados e equipados no santuário (15:6).
2.      Os anjos recebem as taças de ouro cheias da ira de Deus de um dos seres viventes (15:7).
3.      Os anjos não podem dar um passo no ato do juízo até que Deus, com autoridade, dê a ordem (16:1).

Tudo isto sugere que as obras e caminhos de Deus ainda no juízo são calmos e medidos. E isto é o que esperaríamos daquele que “vive pelos séculos dos séculos”. É o Deus eterno que está prestes a lançar praga sobre a terra culpada, devastando-a com sua fúria. Nunca nos devemos esquecer de que ele é glorificado tanto no juízo como na graça.

Antes de deixarmos este capítulo preparatório somos apresentados à nuvem de fumaça de Deus que cobre tudo no santuário por um pouco de tempo. A fumaça, é claro, simboliza a presença de Deus (Êx 19:18; Is 6:4). Ninguém podia entrar no santuário por causa da presença de Deus manifestada em glória e poder durante a execução dos juízos das taças. Fumaça da glória e poder de Deus enchia o santuário. Moisés não podia entrar na tenda do testemunho (nem os sacerdotes entrar no santuário) por causa da glória do Senhor (Êx40:34, 35; 1 Rs 8:10, 11). O que temos aqui não é a glória em si mas a fumaça da glória de Deus. Não é o incenso que enche o santuário, mas fumaça, que é a glória de Deus manifestada em juízo. Certamente que há uma finalidade nesta cena toda que nos enche os corações do mais intenso assombro! Deus está prestes a lidar com os rebeldes da terra.

O versículo que abre o capítulo 16 é rico em significação. Primeiro temos “vinda do santuário, uma grande voz”, que tem sido interpreta­da de várias maneiras. É possível que se refira à voz de Deus, uma vez que agora chegamos às taças da sua ira. Cristo não é mencionado até que Deus, pessoalmente, execute o juízo. Como já sugerimos, o Apocalipse é o livro da voz, e sempre que se encontra a palavra “voz”, subentende-se uma compreensão inteligente do assunto em questão. Lemos de uma grande voz, de uma alta voz e de uma forte voz. Tais adjetivos descrevem o caráter da voz e também a natureza do anúncio.

Aqui, a grande voz sai do santuário, vinda do Santo dos Santos. Por exigir a santidade de Deus o juízo sobre um mundo apóstata, a ira de Deus queima com ardor feroz: “Ide. . . derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.” Foi dada a Cristo uma ordem diferente ao se preparar para deixar os seus: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda a criatura.” Mas agora a graça é retirada. Já não é a taça da salvação mas a taça da ira de Deus.

O Pentecoste testemunhou o derramamento do Espírito e com tal efusão houve a manifestação de uma bênção. Mas agora chegamos a outro derramamento: fúria sem mistura está prestes a descer sobre a terra. A plenitude da ira divina é esvaziada em cada taça, que por sua vez é derramada sobre um mundo culpado. A oração do remanescente judaico sofredor é respondida nas terríveis sete pragas prestes a cair: “E aos nossos vizinhos, deita-lhes no regaço, setuplicadamente, a injúria com que te injuriaram, Senhor” (Sl 79:12).

Temos, nas taças de ouro, um pouco mais de vislumbre da ira de Deus. A palavra para “taças” é “tigelas” ou “copos” e representa os vasos de boca larga usados no santuário, e que eram cheios de incenso aromático. Agora os vasos, santificados pelo uso do templo e serviço, estão cheios da ira justa de Deus e estão destinados ao juízo. E a largura da boca dos vasos tenderia a fazer com que seu conteúdo fosse derramado de uma só vez, implicando a rapidez avassaladora dos ais.

Desta ira dupla, diz William Newell: “Lembre-se constantemente que o próprio Cristo deve vir, afinal, e pisar o lagar sozinho em sua ira (Is 63:3-5). A ira de Deus é geral, mundial e à vista da iniquidade e idolatria do homem. A ira do Cordeiro é particular, contra o anticristo e seu rei, e contra os exércitos unidos com o duplo propósito de impedir Israel de ser uma nação (Sl 83:4) e de determinar guerra contra o Cordeiro (Ap 19:9; Zc 12:10) a fim de impedir que ele resgate o Israel sitiado.”

Estes dois capítulos devem ser estudados em conjunto porque provêm detalhes para o que se afirma em termos gerais nas palavras de abertura de 11:18: “Iraram-se, na verdade, as nações; então veio a tua ira e o tempo de serem julgados os mortos. . .” no capítulo 15 são-nos dadas as preparações para as taças e no capítulo 16 a execução delas.

O sinal ou maravilha do capítulo 15 estende-se até o final do capítulo 16. De fato, 15:1 é resumo de tudo o que se segue. Os anjos, na realidade, não recebem as taças até 15:7, mas no versículo inicial são vistos, por antecipação, como já as possuindo. Neste grande e maravilhoso sinal que João viu temos a finalização de um trio de sinais. O “grande sinal” da mulher (Israel) é apresentado em 12:1. “Outro sinal”, do dragão, o antagonista de Cristo e seus conselhos, é apresentado em 12:3. E aqui temos “no céu ainda outro sinal, grande e admirável”. Os três sinais são vistos no céu, o lugar da habitação imediata de Deus. O terceiro sinal (mais solene do que os dois primeiros por causa de sua associação com a ira de Deus sobre a besta) é “grande” em que algo de importância enorme deve ser revelado. “Admirável” indica que a paciência divina se esgotou, e que a visitação
terrível do juízo divino está prestes a sobrevir aos apóstatas da terra.


Parece que o conteúdo do capítulo 15 gira em torno de três frases de peso: a ira de Deus (15:1, 7), as harpas de Deus (15:2) e a glória de Deus (15:8).

fonte comentario Normam R. Champlin, novo testamento


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