quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Avivamento em atos igreja de Antioquia (7)



A igreja em Antioquia 11:19-30



Enquanto estes desenvolvimentos aconteciam na área da missão da igreja judaica, os cristãos judaicos helenísticos que tinham sido forçados a deixar Jerusalém na ocasião da morte de Estêvão, se espalharam até ao nor­te, chegando à grande metrópole da Antioquia. Espalhavam o evangelho por onde iam, mas foi somente em Antioquia que começaram a falar a não-judeus e a ganhar muitos convertidos. A igreja começou a crescer rapida­mente. As notícias levaram a igreja em Jerusalém a enviar um representante para ver o que estava acontecendo. Barnabé, o visitante assim nomeado, não tinha dúvida alguma acerca do valor da obra que estava sendo realizada, e tomou parte ativa nela, indo para Tarso buscar Paulo, a fim deste também participar. A evangelização da igreja fez um impacto tão grande que o povo do local cognominou seus membros de "gente de Cristo". Os membros da igreja tinham consciência dos seus vínculos com Jerusalém, e quando ouviram uma profecia acerca de uma fome que estava para vir, enviaram uma dádiva em dinheiro para ajudar a igreja.

Não pode haver dúvida alguma de que a formação da igreja em Antioquia foi um evento de grande importância na expansão da igreja e da sua missão aos gentios. Pode-se supor com confiança que não se exigia da parte dos convertidos gentios que fossem circuncidados ou que guardassem a lei, e provavelmente formavam um grupo de tamanho considerável dentro da igreja, embora não exista evidência sólida de que formassem a maioria. A questão da lei judaica surgiu apenas quando visitantes de Jerusalém pro­curaram aplicá-la obrigatoriamente (Gl 2:11-14).

19. A introdução de Lucas à seção leva o leitor de volta para 8:24, que descreveu como a morte de Estêvão deu vazão a uma onda de oposi­ção à igreja e à dispersão de muitos cristãos. Com toda a probabilidade, eram judeus que tinham conexão com a Dispersão, e eranatural para eles mudarem-se para áreas fora da Judéia, inclusive os três lugares menciona­dos. A Fenicia (o moderno Líbano), era a área que se estendia ao lon­go do litoral numa faixa estreita desde o Monte Carmelo por uma dis­tância de aproximadamente 242 km, sendo que suas cidades principais eram Ptolemaida, Tiro, Sarepta e Sidom, e, mais tarde, ficamos sabendo de gru­pos cristãos em três destes lugares (21:3, 7; 27:3); sem dúvida for­mados nesta ocasião. Chipre, já mencionada como domicílio de Barnabé (4:36), já possuía um elemento judaico na sua população pelo menos desde o século II a.C. (1 Mac. 15:23); foi o primeiro lugar a ser evangelizado por Barnabé e Paulo quando, mais tarde, saíram juntos como missionários (13:4-12). Entende-se, assim, que havia cristãos em Chipre antes da chegada de Barnabé e Paulo, fato este que não está em tensão com o relato de Lucas em 13:4-12, ainda que não o mencione ali (apesar de Conzelmann, pág. 67). Antioquia, a capital da província romana da Síria, crescera rapidamente para tornar-se a terceira maior cidade do Império (depois de Roma e Alexandria), com uma população estimada em 500.000. Foi fundada por Seleuco I e recebeu o nome de Antioquia em homenagem ao seu pai Antíoco (a mesma homenagem foi ligada aos nomes de cerca de 16 cidades, cf. 13:14). Havia ali uma grande população judaica.

20-21. Os judeus exilados para seu novo lar pregavam, de início, apenas para seus concidadãos judeus. A mudança decisiva foi instigada por alguns judeus de Chipre e de drene que pregavam as boas novas de Jesus também aos gregos em Antioquia (Lucas decerto se refere aos gentios, mas o texto está incerto. Ao invés de "gregos", a maioria dos MSS (inclusive o Códice do Vaticano) tem "helenistas", a pa­lavra que se emprega em 6:1 e 9:29 para designar os judeus de língua grega. Os argu­mentos textuais em prol da segunda leitura são muito fortes; caso seja adotada, refere-se, sem dúvida, à população mista da Antioquia, de língua grega (Metzger, págs. 386-389).).

Não pode haver dúvida de que se iniciou um período bem-sucedido de evangelização entre os gentios, e de que a observância da lei judaica não era requerida dos convertidos. O que não sabemos é como a igreja foi levada a dar este passo. Fora necessária a intervenção divina para persuadir Pedro a empreender atuação semelhante, mas aqui, parece que ocorreu quase casualmente sem surgirem questões de princípios, nem no começo, nem mais tarde. É provável que se possa explicar bem simplesmente o assun­to, ao notar que a probabilidade de haver gentios associados com as sinago­gas era muito maior na Dispersão, de tal modo que igreja entraria na questão do lugar deles no evangelismo muito mais frequentemente e diretamente do que na Judéia propriamente dita. Se alguns dos próprios evangelistas tinham sido prosélitos, este passo ficaria tanto mais natural. Devemos su­por que o novo grupo cristão rapidamente perdeu contato com as sinago­gas, de modo que não era compelido a observar a lei judaica, como acon­tecia no ambiente predominantemente judaico de Jerusalém. Não sabe­mos se a conversão de Cornélio ocorrera antes e já ficara conhecida em Antioquia, de modo que pudesse ter servido de precedente.

22-24. Nada há de surpreendente no fato de que a notícia daquilo que acontecia em Antioquia tivesse chegado à igreja que estava em Jerusalém, visto que, sem dúvida, havia bastante intercâmbio entre as duas cidades. Em ocasiões anteriores (8:14; cf. 9:32) os líderes da igreja em Jerusalém tinham enviado representantes para acompanhar a obra missionária fora da cidade, e esta ocasião específica claramente exigia que demonstrassem interesse. Não é necessário supor que a atuação deles fosse motivada pela suspeita, e muito menos, pela hostilidade. No máximo, talvez tenha sido necessário aplacar um grupo de cristãos judaicos da extrema direita em Je­rusalém, que haveriam de causar dificuldades numa etapa posterior e que talvez já estavam se opondo à admissão dos gentios à igreja sem a circuncisão ser exigida da parte deles; nada sugere que este grupo predominava na igreja, mas os líderes fizeram o que puderam para conciliá-los (ver Hanson, pág. 130).

A simpatia básica da igreja em Jerusalém com as notícias do que acontecia em Antioquia pode ser deduzida da escolha de Barnabécomo delegado dela. Embora, pertencesse a uma família da Dispersão, era encarado com total confiança em Jerusalém, e agia como fiel da balança entre os elementos hebraicos e helenísticos dentro da igreja. Seu caráter era bem adaptado para esta função, pois era marcante a qualidade cristã da sua vida; é o único homem a quem Lucas descreve como sendo bom em Atos, e, quanto aos dons espirituais, estava em pé de igualdade com Estêvão. Não podia deixar de ver a mão de Deus no crescimento da igreja em Antioquia, e regozijava-se diante desta evidência da graça divina. Longe de exortar os novos convertidos a se curvarem diante de exigências legalísticas, instruiu-os a ficarem firmes na sua fé; aqui vemos porque Barnabé merecia o cognome de "filho de exortação" (4:36). Que Barnabé tinha a visão espiritual para reconhecer que o plano de Deus estava sendo cumprido em Antio­quia foi de importância decisiva para o crescimento da igreja.

25-26. Barnabé reconheceu as ricas potencialidades da situação para mais avanços, e percebeu a necessidade de ajuda adicional na evangelização e no ensino. Foi procurar, portanto, seu antigo amigo Paulo, que es­tava trabalhando em Tarso, e persuadiu-o a participar da obra em Antio­quia. Será que Paulo sentia que já se cumprira tudo quanto necessitava fazer em Tarso? Realmente não sabemos, e não ficamos sabendo de conta­tos posteriores que tenha tido com aquela cidade, mas decerto Paulo já passara ali um período considerável de tempo, e, nas suas campanhas missio­nárias posteriores, sua praxe era ficar suficiente tempo em qualquer de­terminado lugar para estabelecer a igreja, e depois avançar para outra locali­dade. A obra que Barnabé e Paulo realizaram em Antioquia é descrita co­mo ensinar a igreja, mas esta palavra pode referir-se tanto à evangelização quanto à edificação espiritual dos convertidos existentes.

Um dos resultados importantes de todas estas atividades é que, pela primeira vez, os discípulos vieram a ser conhecidos como cristãos. Lucas especialmente menciona este fato porque "cristão" 'viera a ser um termo familiar em certas áreas na ocasião em que escreveu. Já nos inícios do século II, o nome é atestado em Roma, na Ásia Menor, e em Antioquia. A terminação da palavra (Christianos) indica que é uma palavra latina, tal qual "herodiano", e que se refere aos seguidores de Jesus Cristo. "Cristo", portanto, seria entendido como nome próprio, embora seu emprego origi­nal fosse como título, "o Messias", para Jesus. O verbo foram chamados subentende com toda a probabilidade que "cristão" era um cognome da­do pelo populacho de Antioquia e, assim, é bem provável que este enten­desse que "Cristo" fosse um nome próprio, ainda que, nestas alturas os próprios cristãos ainda o empregassem como título; não passou muito tempo, no entanto, para o título tornar-se, mais e mais, um nome para Jesus. É provável que o nome contivesse um elemento deridicularização (cf. At 26:28; 1 Pe 4:16, os únicos outros empregos do nome no Novo Testamento). Os cristãos preferiam empregar para si outros nomes, tais como "discípulos", "santos" e "irmãos".

27-28. Um dos aspectos importantes da igreja primitiva foi a ati­vidade dos profetas, pregadores carismáticos que às vezes estavam liga­dos a uma igreja local ou ocupados num ministério itinerante (13:1). Suas funções eram várias, e incluíam a exortação bem como a pre­visão do futuro; é bem possível que tenham dado exposições do Antigo Testamento, empregando sua compreensão espiritual para mostrar como suas profecias estavam sendo cumpridas nos eventos em conexão com a as­censão da igreja. A atividade deles tinha conexão com o novo sentido de inspiração associado com o dom do Espírito à igreja. Nada há de surpreen­dente na chegada de tais homens, provenientes de Jerusalém, em Antio­quia (embora Haenchen, pág. 376, fique muito perplexo com eles). Nada mais ficamos sabendo, no entanto, acerca do propósito ou dos resultados da visita deles senão que um deles, de nome Ágabo (que reaparece em21:10), previu uma fome que se estenderia por todo o mundo, i.é, o Im­pério Romano. Fomes faziam parte daquilo que os cristãos esperavam para os tempos do fim (Lc 21:11), e esta profecia talvez tenha sido uma ad­vertência de que o fim deveria estar próximo, embora nada se fala neste sentido no texto. É certo que não houve qualquer fome que abrangesse o Império inteiro durante o reinado de Cláudio (nem em qualquer outro tempo); havia, no entanto, "fomes frequentes", conforme o historiador Suetônio, e este era um cumprimento adequado da profecia. Certamen­te houve uma fome na Judéia em c. de 46 d.C, e Josefo conta como He­lena da Adiabenemandou trigo para aliviar a fome dos pobres em Jerusa­lém. J. Jeremias notou que os judeus seguiam a lei do sétimo ano sem plantio durante este período, e argumentou que, se a quebra da produção coincidiu com os efeitos de um ano sem plantio, a fome seria tanto maior; sugeriu, portanto, que a fome fosse associada com o ano sabático que foi celebrado em 47-48 d.C. A profecia, naturalmente, pode ter si­do pronunciada uns poucos anos antes.

29-30. A profecia encorajou os cristãos em Antioquia a enviar uma coleta em dinheiro para capacitar seus irmãos na Judéia a comprarem esto­ques de gêneros alimentícios para enfrentar a crise vindoura. Trata-se de um ato de fraternidade cristã, da qual os membros da igreja participaram de acordo com as suas possibilidades. O dinheiro era enviado aos presbíteros da igreja. Esta é a primeira vez que presbíteros se mencionam na igre­ja de Jerusalém, e causou certa surpresa o fato deles, e não os apóstolos, estarem encarregados do socorro aos pobres. Na realidade, porém, os após­tolos já tinham delegado a outros este dever (6:1-6), e é possível que os "Sete" que foram nomeados para cuidarem desta tarefa agora vieram a ser conhecidos como "presbíteros" por analogia com o nome dado a certos lí­deres nas sinagogas judaicas. Funcionavam lado a lado com os apóstolos (15:4, 6, 22-23; 16:4; 21:18). A coleta foi trazida por Barnabé e Paulo. A objeção tem sido levantada que é improvável que tivessem estado em Jerusalém durante a perseguição da igreja descrita na seção que imedia­tamente se segue: como poderiam ter passado sem serem molestados? Não se nos informa, porém, que estavam em Jerusalém exatamente naquela altura, a cronologia está em aberto. Mais importante é o relaciona­mento entre a presente narrativa e aquela em Gálatas caps. 1-2 onde Pau­lo faz um resumo das suas primeiras conexões com a igreja em Jerusalém. À parte da sua visita a Jerusalém após sua saída pouco cerimoniosa de Da­masco, menciona uma outra visita para lá, na qual foi acompanhado por Barnabé e Tito, e durante a qual debateu o problema de pregar o evan­gelho aos gentios; pediram a ele que "se lembrasse dos pobres", e diz que foi exatamente isto mesmo que estava ansioso para fazer (Gl 2:1-10). Esta visita deve ser considerada a mesma de Atos cap. 11? Podem ser levanta­das as seguintes objeções: (1) Atos cap. 15 relata a história de uma visita subsequente a Jerusalém na qual a questão dos gentios foi o objeto explí­cito da discussão. Embora haja diferenças quanto aos pormenores entre Atos cap. 15 e Gálatas cap. 2, pode-se argumentar que pertencem ao mesmo incidente, e que é improvável que o mesmo terreno foi repisado duas vezes.

Nada há de improvável, no entanto, no fato de ser necessário discutir um assunto antes de finalmente se chegar a um acordo final, conforme con­cordará qualquer pessoa que já trabalhou numa comissão. (2) Gálatas cap. 2 trata da controvérsia teológica, ao passo que Atos cap. 11 diz res­peito a uma oferta em dinheiro. Mas podemos compreender que Lucas conservou a parte da controvérsia para o cap. 15. Além disto, Gálatas 2:10 pode significar que Paulo já estava ansioso por ajudar os pobres e que, na realidade, já o estava fazendo. Se for assim, não há qualquer confli­to real entre as passagens. Consideramos, portanto, que a probabilidade pende em favor de a visita aqui registrada ser a mesma que se refere em Gl 2:1-10.


Bibliografia I. H. Marshall

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