sábado, 18 de junho de 2016

O canon do novo testamento (2)



 FORMAÇÃO DO CANON DO NOVO TESTAMENTO





A igreja apostólica recebeu da igreja judaica a crença em uma regra de fé escrita. 
Cristo mesmo confirmou esta crença, apelando para o Antigo Testamento como a palavra de Deus escrita, Jo
 5.37-47; Mt 5.17,18; Mc 12.36; Lc 16.31, instruindo os seus discípulos nela, Lc 24.45. 
Os apóstolos habitualmente referem-se ao Antigo Testamento como autoridade, Rm 3.2,21; 1Co 4.6; Rm 15.4; 2Tm 3.15-17; 2Pe 1.21.
 

E
m segundo lugar, os apóstolos baseavam o seu ensino, oral ou escrito na autoridade do Antigo Testamento, 1Co 2.7-13; 14.37; 1Ts 2.13; Ap 1.3, e ordenavam que seus escritos fossem lidos publicamente, 1Ts 5.27; Cl 4.16,17, 2Ts 2.15; 2Pe 1.15; 3.1-2, enquanto que as revelações dadas à Igreja pelos profetas Inspirados, eram consideradas como fazendo parte, juntamente com as instruções apostólicas, do fundamento da Igreja, Ef 2.20. 
Era natural e lógico que a literatura do Novo Testamento fosse acrescentada à do Antigo, ampliando deste modo o cânon de fé. No próprio Novo Testamento se vê a intima relação entre ambos, 1Tm 5.18; 2Pe 3.1,2,16.
 Nas épocas pós-apostólicas, os escritos procedentes dos apóstolos e tidos como tais, foram gradualmente colecionados em um segundo volume do cânon, até se completar o que se chama o Novo Testamento. Desde o princípio, todo livro destinado ao ensino da Igreja em geral, endossado pelos apóstolos, quer fosse escrito por algum deles, quer não, tinha direito a ser incluído no cânon, e constituía doutrina apostólica. Desde os primeiros três séculos da Igreja, era baseado neste principio que se ajuntavam os livros da segunda parte do cânon. 

A coleção completa fez-se vagarosamente, por varias razões. 
Alguns dos livros só eram conhecidos como apostólicos em algumas Igrejas. Somente quando esses livros entraram no conhecimento do corpo cristão em todo o Império Romano, é que eles foram aceitos como de autoridade apostólica. 
O processo adotado foi lento
, por causa ainda do aparecimento de vários livros heréticos e escritos espúrios, com pretensões de autoridade apostólica.Apesar da sua lentidão, os livros aceitos por qualquer igreja, eram considerados canônicos porque eram apostólicos. O ensino dos apóstolos era regra de fé, e lido nas reuniões do culto público. 

Já no principio do segundo século
, os escritos apostólicos eram chamados Escrituras. Os evangelhos segundo Marcos e Lucas entraram na Igreja pela autoridade de Pedro e Paulo, de que foram companheiros. Logo começaram os comentários a estes escritos, cuja fraseologia saturou a literatura da idade pós-apostólica.São dignos de nota os seguintes fatos para explicar a rapidez com que a coleção dos Livros se estendeu a toda a Igreja. 
Os quatro evangelhos entraram nas igrejas desde o principio do segundo século. A segunda epístola de Pedro, cap. 3.16, mostra-nos que as epistolas de Paulo já haviam formado uma coleção de escritos familiares aos leitores das cartas de Pedro.
 
Muito cedo aparecem as expressões “evangelho” e “apóstolos” designando as duas partes do novo volume. A evidência sobre a canonicidade dos Atos Apostólicos, leva-nos à primeira metade do segundo século. Alguns livros, é certo, sofreram contestações por parte de certos grupos de igrejas, mas serve para provar que tais livros entraram no cânon depois de evidentes provas de sua autenticidade.
 
Finalmente, vê-se que a Igreja da Síria, no segundo século, recebeu como canônicos todos os livros de que se compõe o atual Novo Testamento, exceto o Apocalipse, a epístola de Judas, a segunda de Pedro, a segunda e a terceira de João.
A Igreja Latina aceitou todos os livros, menos as epístolas de Pedro, a de Tiago, a terceira de João; a Igreja africana do norte aceitou todos os livros, exceto a epístola aos Hebreus, a segunda de Pedro e talvez a de Tiago. As coleções recebidas pelas mencionadas igrejas somente continham os livros que elas haviam recebido formalmente, como de autoridade apostólica, mas isto não prova a não existência de outros livros de igual procedência e autoridade.
Os restantes eram universalmente aceitos no curso do terceiro século, apesar de opiniões diferentes a respeito de alguns deles.
 
No decorrer dos tempos, e quando entramos na época dos concílios, o Novo Testamento aparece na lista dos livros canônicos como hoje o temos. No quarto século, dez dos padres da Igreja e dois concílios deixaram listas dos livros canônicos. Em três destas listam omitem o Apocalipse, contra o qual selevantaram objeções que desapareceram diante dos testemunhos abundantes em seu favor. As outras listas dão o Novo Testamento como hoje o temos. Em vista destes fatos, deduzimos:
1.Apesar de a formação do N. T. cm um volume ter sido morosa, nunca deixou de existir a crença de ser ele livro considerado como regra de fé primitiva e apostólica.
A história da formação do cânon do N. T. serve apenas para mostrar como se chegou gradualmente a conhecer os direitos que eles tinham para entrar no rol dos livros Inspirado..
2.As diferenças de opinião sobre quais os livros canônicos e sobre os graus de certeza em favor deles, vêem-se nos escritos e nas Igrejas do segundo século. Este fato, pois, mais uma vez vem afirmar o cuidado e o escrúpulo das Igrejas em receber livros como apostólicos sem evidentes provas. Do mesmo modo se procedeu com referência aos livros espúrios.
3.A prova em favor da canonicidade dos livros do Novo Testamento é a evidência histórica. Quanto a isto, o juízo da Igreja primitiva em favor dos nossos vinte e sete livros é digno de inteira fé, enquanto não for provado o contrário. Não os devemos aceitar como tais, só porque os concílios eclesiásticos os decretaram canônicos, nem por causa do que eles dizem. A questão versa só e unicamente sobre a sua evidencia histórica.
4.Finalmente se nota que a palavra cânon não se aplicou à coleção dos livros sagrados antes do quarto século. Não obstante, existia, a noção que representa, isto é, que os livros sagrados eram regra de fé, contendo a doutrina apostólica.  notas Dicionário da Bíblia John Davis

Outros escritos do Novo Testamento, como as epístolas de Pedro e a carta aos Hebreus, provavelmente datam da mesma época. O Evangelho de João, as cartas atribuídas a este apóstolo e o Apocalipse se teriam escrito em finais do mesmo século I. 

Em resumo,
 todo o Novo Testamento se escreveu num intervalo de aproximadamente cinco décadas
, quando ainda existiam testemunhas presenciais dos ditos e feitos de Jesus de Nazaré. Os que supõem que o intervalo decorrido entre o tempo de Jesus e a redacção do Novo Testamento foi excessivo e levou a uma falta de fidelidade histórica nestas epístolas e relatos esquecem dois factos importantes.
Em primeiro lugar, que durante todo esse período, a memória dos ditos e feitos do Senhor se conservou viva nas congregações cristãs em todo o império, onde tinham sido propagados pelos Apóstolos e seus discípulos, e entesourados pelos crentes.
Em segundo lugar, que as poucas décadas decorridas entre o ministério terrenal de Jesus e a redacção dos livros do Novo Testamento é um intervalo muito curto, historicamente falando. Por exemplo, mesmo se hoje não se tivessem registos escritos ou electrónicos do acontecido sobre o golpe militar que houve na Argentina em 1976, os principais factos poderiam reconstruir-se muito aproximadamente a partir de testemunhas presenciais. Esta ilustração não exclui que, como cristãos, cremos também que os autores humanos do Novo Testamento foram guiados pelo Espírito Santo tal como Jesus mesmo o prometeu.


 Testemunhos de Paulo e Pedro

A certeza sobre a natureza inspirada e, portanto, a autoridade divina dos escritos dos apóstolos e seus discípulos – a par daqueles do Antigo Testamento - aparece já em livros que haveriam de formar parte do cânon do Novo Testamento. Em 1 Timóteo 5:18 lemos: 
Porque a Escritura diz: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário. 
A primeira parte desta citação composta provém de Deuteronómio 25:4, mas a segunda são as palavras exactas do Senhor tal como aparecem no Evangelho de Lucas 10:7. Isto indica que o terceiro Evangelho já era considerado Escritura ao escrever-se 1 Timóteo.
Similarmente, na segunda epístola de Pedro, as cartas de Paulo figuram proeminentemente entre as Escrituras que os falsos mestres pretendiam deturpar:
E considerai a paciência de nosso Senhor como salvação; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, como também fala disto em todas as suas epístolas, nas quais há algumas coisas difíceis de entender, as quais torcem os indoutos e inconstantes (como também as outras Escrituras), para sua própria perdição (2 Pedro 3:15-16).

É claro que estas referências não constituem evidência de um cânon no sentido de uma lista fechada de livros com autoridade divina. Não obstante, sugerem fortemente que
 os escritos dos Apóstolos e seus colaboradores imediatos foram desde cedo considerados a par com as Escrituras do Antigo Testamento. A mesma noção se infere das obras dos denominados "Padres Apostólicos", que a seguir se revêem.


 Os Padres Apostólicos

Com este nome se conhece hoje os autores cristãos de finais do século I e princípios do seguinte, que representam o testemunho escrito mais antigo depois do próprio Novo Testamento.  Entre eles se incluem Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Papias de Hierápolis, Policarpo de Esmirna, e os autores da
 Didaquê e da Epístola de Barnabé. Sobre o conjunto de autores desta era, na realidade pós-apostólica, observa Wescott: Os sucessores imediatos dos Apóstolos não perceberam (...) que as memórias do Senhor, e os escritos dispersos dos Seus primeiros discípulos, formariam uma segura e suficiente fonte ou prova de doutrina quando a tradição de então se tornasse pouco definida ou corrupta (...) Mas ainda assim, eles certamente tiveram um sentido indistinto de que a sua própria obra era essencialmente diferente daquela dos seus predecessores (...) Já começaram a separar os Apóstolos dos escritores do seu próprio tempo, como possuidores de um poder originador (...) Este facto é do mais significativo, pois mostra de que maneira a formação de um Novo Testamento foi um acto intuitivo do corpo cristão, não derivado de raciocínio algum, mas realizado no seu crescimento natural, como um dos primeiros resultados da sua auto-consciência.

Na Didaquê ou "Doutrina dos Doze Apóstolos", talvez o mais antigo tratado cristão de instrução moral e litúrgica, aparecem duas citações explícitas do Evangelho de Mateus, e possíveis alusões ao Evangelho de João. Não há citações nem referências claras às epístolas de Paulo. O autor se baseia em grande medida na tradição oral, o que é compreensível num tempo quando, segundo a evidência interna, ainda existiam apóstolos e profetas itinerantes.  Clemente de Roma.

Foi um bispo que em 96 escreveu uma extensa carta à Igreja de Corinto, por causa de alguns distúrbios que ali se tinham produzido. Do texto se infere que Clemente considerava Escritura o Antigo Testamento. Põe as palavras de Jesus num nível de autoridade não inferior ao dos profetas, embora não as cite como Escritura. Também conhece, cita e alude às epístolas de Paulo, em particular Romanos, Gálatas, Efésios e Filipenses, como dotadas de autoridade, embora de novo, sem chamá-las Escritura. A mesma coisa ocorre com Hebreus, epístola que influiu muito em Clemente (ver especialmente 36:2-5; cf. Hebreus 1:1-3). Um sermão destinado a inculcar a santidade de vida é conhecido como a Segunda epístola de Clemente mas não pertence ao bispo romano e é datada em meados do segundo século. Mostra conhecer os Evangelhos de Mateus e Lucas, 1 Coríntios e Efésios, mas o seu uso livre destes com palavras de Jesus que não aparecem nos Evangelhos sugere a ausência de uma clara noção de canonicidade.  
Inácio de Antioquia

Foi um bispo que fez uma longa viagem até Roma, onde morreu como mártir sob Trajano, em 110. Durante a sua travessia, escreveu em Esmirna quatro cartas e outras três em Troas. Em apenas três ocasiões escreveu Inácio "Está escrito", e em todas elas se refere ao Antigo Testamento. Em relação ao Novo Testamento, conheceu o evangelho de Mateus e provavelmente o de João, além de várias epístolas de Paulo. Na sua carta aos cristãos de Esmirna se refere a hereges que "não foram persuadidos nem pelas profecias, nem pela lei de Moisés, nem pelo evangelho" (5:1), embora não fique claro se por "evangelho" se refere a um ou mais dos escritos canónicos que levam tal nome. De qualquer modo, Inácio exorta os cristãos de Magnésia a pôr "todo o empenho em vos afirmardes nos decretos do Senhor e dos Apóstolos" (Magnésios XIII:1). 

Noutra carta, diz que não se estima a si mesmo tanto que pretenda dar-lhes "
mandatos como se fora um apóstolo" (Tralianos III:3). Meztger apresenta o seguinte resumo sobre a posição deste bispo de Antioquia:A autoridade primária para Inácio era a pregação apostólica sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, embora não fizesse grande diferença para ele se aquela era oral ou escrita. Certamente conheceu uma colecção das epístolas de Paulo, incluindo (na ordem de frequência do seu uso delas) 1 Coríntios, Efésios, Romanos, Gálatas, Filipenses, Colossenses e 1 Tessalonicenses. É provável que conhecesse os Evangelhos segundo Mateus e João, e quiçá também Lucas. Não há evidência de que ele considerasse algum destes Evangelhos ou Epístolas como "Escritura".


A
 Epístola de Barnabé é um tratado de autor e lugar de composição desconhecidos (provavelmente escrito em 130), destinado a mostrar como o plano de salvação estabelecido no Antigo Testamento se cumpre em Cristo. Usa uma interpretação fortemente alegórica com um tom singularmente anti-judeu. O seu autor reproduz uns poucos textos que aparecem no Evangelho de Mateus, entre eles Mateus 22:14, ao qual antepõe a fórmula "está escrito" (Epístola de Barnabé IV:14). 

Os escritos de
 Papias, bispo de Hierápolis na Ásia Menor (ca. 60-130), se perderam excepto fragmentos conservados por Ireneu de Lyon e Eusébio de Cesareia. Papias amava a tradição oral e escreveu um extenso tratado com o título Exposição das sentenças do Senhor. Nos fragmentos conservados há uma defesa da autoridade dos Evangelhos de Mateus e Marcos, embora sem nenhuma ideia clara de canonicidade.Policarpo de Esmirna, bispo e mártir (ca. 69-155), foi discípulo do Apóstolo João. Policarpo foi o destinatário de uma das cartas de Inácio e ele próprio escreveu aos cristãos filipenses uma epístola que se conservou, cuja data aproximada (entre 107 e 108) é próxima ao martírio de Inácio.A carta de Policarpo está cheia de alusões bíblicas, das quais aproximadamente 90% procedem do Novo Testamento (Mateus, Lucas, a maioria das epístolas paulinas, Hebreus, 1 João e 1 Pedro). Embora Policarpo não lhes chame "Escritura" e só use a fórmula "está escrito" em relação a Efésios 4:26 (em XII:4) é evidente a autoridade e inclusive superioridade que estas obras têm para ele. Numa passagem estabelece uma espécie de cadeia de comando ou hierarquia de autoridade, com Cristo à cabeça, depoisos Apóstolos "que nos pregaram o Evangelho" e finalmente os profetas do Antigo Testamento "que, de antemão, apregoaram a vinda de nosso Senhor" (6:3).  

Como o seu amigo e colega Inácio antes dele, Policarpo estabelece uma clara diferença entre a autoridade do seu próprio ensino e a do Apóstolo Paulo: Tudo isto, irmãos, que vos escrevo sobre a justiça, não o faço por próprio impulso, mas porque vós antes me incitastes a isso. Porque
 nem eu nem outro algum semelhante a mim pode competir com a sabedoria do bem-aventurado e glorioso Paulo, o qual, morando entre vós, na presença dos homens de então, ensinou pontual e firmemente a palavra da verdade; e ausente depois, vos escreveu cartas, com cuja leitura, se souberdes penetrar nelas, podereis edificar-vos em ordem à fé que vos foi dada. Essa fé é mãe de todos nós, na condição que a acompanhe a esperança e a preceda a caridade...
notas (Carta de Policarpo aos filipenses, III:1-3. Tradução de Daniel Ruiz Bueno,
 Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Edição. Madrid: BAC, 1979, p. 663; negrito acrescentado).

Em resumo, nos Padres Apostólicos se destaca com clareza a autoridade dos ensinamentos do Senhor e dos Apóstolos, e alguns destes autores usam as novas Escrituras cristãs, mas ainda não aparece de maneira definida a noção de um cânon como corpo exclusivo de escritos inspirados. Como observa Bruce:Estas citações não são suficientes como evidência de um cânon do Novo Testamento; elas sim mostram que a autoridade do Senhor e dos seus apóstolos era reconhecida como não inferior àquela da lei e dos profetas.
 A autoridade precede a canonicidade; se não se atribuísse suprema autoridade às palavras do Senhor e dos seus apóstolos, o registo escrito das suas palavras nunca teria sido canonizado.Sugeriu-se por vezes que a substituição da tradição oral na igreja por uma colecção de escritos deve lamentar-se de certa maneira (...) Porém, numa sociedade como o mundo greco-romano, onde a escritura era o meio normal de preservar e transmitir material considerado digno de recordar, a ideia de confiar na tradição oral para o registo das obras e palavras de Jesus e dos apóstolos não seria geralmente recomendável (sem importar o que pudessem pensar Papias e alguns outros).



Progresso para a determinação do cânon no século II

Que fizeram as congregações cristãs com as novas Escrituras, inestimáveis para elas, cujos autores elas conheciam bem? Com toda a probabilidade as conservaram zelosamente e as compartilharam umas com as outras.É provável que na primeira metade do segundo século já circulassem os 4 Evangelhos por um lado, e as cartas de Paulo às igrejas por outro, como colecção. Pouco depois começaram a circular juntas ambas as colecções. Numa etapa posterior, os Actos e algumas das cartas chamadas católicas por não estar dirigidas a nenhuma congregação ou indivíduo em particular, formaram uma terceira divisão.
 

O discípulo de Justino,
 Taciano o Sírio, deu testemunho da autoridade dos quatro Evangelhos canónicos ao compor o Diatessaron, termo musical que significa "harmonia de quatro". O Diatessaron compila com grande engenho os relatos dos quatro Evangelhos canónicos, seguindo basicamente o marco de referência do Evangelho de João. Praticamente não contém outro material, excepto uns poucos textos provenientes do apócrifo conhecido como Evangelho dos Hebreus. Na Síria, o uso eclesiástico doDiatessaron foi tão amplo e importante, que no século III houve resistência a substituí-lo pelos quatro Evangelhos individuais, segundo o estabelecido pelas demais igrejas. 
O desafio das heresias

Um factor que influiu no estabelecimento do cânon foi a aparição de heresias que pretendiam redefinir a fé cristã. Duas das mais influentes na metade do século II foram lideradas por Marcião e Valentim.
 Marcião era originário da Ásia Menor, nascido em 100 de pais cristãos. Emigrou para Roma e aí propagou as suas ideias numa obra chamada Antíteses, que pretendia estabelecer uma incompatibilidade total entre a Lei e o Evangelho. Marcião rejeitou todo o Antigo Testamento, retendo das novas Escrituras o que chamava Evangelho e Apóstolo, que correspondia somente ao Evangelho de Lucas e às Cartas de Paulo, com excepção das pastorais.  Além disso, extraiu dos escritos de Lucas e Paulo tudo quanto pudesse considerar-se favorável ao Antigo Testamento.Valentim chegou a Roma em 135, procedente de Alexandria, e inicialmente esteve em plena comunhão com a Igreja romana. Não obstante, desenvolveu uma doutrina gnóstica incompatível com a fé apostólica.

À diferença de Marcião, Valentim não rejeitou o Antigo Testamento nem os escritos apostólicos, mas os reinterpretou radicalmente mediante uma exegese alegórica. A sua obra mais importante, acessível (em copta) a partir do descobrimento da biblioteca gnóstica de Nag Hammadi em 1945, é O evangelho da verdade. O livro é uma espécie de meditação sobre a natureza do evangelho, desde uma perspectiva inequivocamente gnóstica, que faz uso de escritos neo-testamentários. Bruce observa que "o tratado alude a Mateus e Lucas (possivelmente com Actos), o evangelho e a primeira carta de João, as cartas paulinas (excepto as pastorais), Hebreus e Apocalipse, e (...) os cita em termos que pressupõem que têm autoridade."
A igreja antiga reconheceu de imediato os empreendimentos de Valentim e Marcião como as
 inovações que eram, o primeiro principalmente pelas suas doutrinas alheias às crenças e práticas básicas das igrejas apostólicas e o segundo pela sua tentativa radical de fixar um cânon extremamente restrito.A Igreja responde aos hereges

A resposta da igreja católica antiga à heresia marcionita foi reafirmar a autoridade do Antigo Testamento, dos quatro Evangelhos, das epístolas pastorais de Paulo, das epístolas atribuídas a outros apóstolos, denominadas católicas, e do livro dos Actos.
 
Um texto que exemplifica a referida resposta é o denominado
 Cânon de Muratori, uma lista "em latim bárbaro" com comentários sobre os livros aceites e rejeitados, que foi publicada por Ludovico Antonio Muratori em 1740. O original dataria da década entre 160 e 170. Segundo Bruce, este documento deve considerar-se "uma lista de livros do Novo Testamento reconhecidos como possuidores de autoridade na Igreja de Roma daquele tempo".
O fragmento que se conservou começa com uma frase referente ao Evangelho de
 Marcos, depois do qual fala de Lucas como o terceiro Evangelho, e de João como o quarto (seguramente Mateus era o primeiro). A seguir reconhece os Actos "de todos os apóstolos", as dez cartas de Paulo às igrejas, e as Pastorais. Menciona também as cartas de Judas e duas de João mais o Apocalipse. Em contrapartida, rejeita O Pastorde Hermas, pois foi "escrito em Roma muito recentemente", e supostas cartas de Paulo aos laodicenses e alexandrinos. Embora diga que a Igreja recebe o apócrifo Apocalipse de Pedro, acrescenta que alguns não admitem que este "seja lido na igreja". Em resumo, oCânon de Muratori menciona a maior parte dos 27 livros do nosso Novo Testamento; faltam as duas cartas de Pedro, Tiago, uma carta de João (a terceira?) e Hebreus.
Deve observar-se que o tom de todo o tratado não é tanto o de uma legislação, mas o de uma declaração explicativa respeitante a um estado de coisas mais ou menos estabelecido, com apenas uma única instância de diferença de opinião entre os membros da igreja católica (a saber, o uso que devia fazer-se do
 Apocalipse de Pedro). A validade exclusiva dos quatro Evangelhos (...) é perfeitamente clara. 
Embora não exista uma lista de livros canónicos nas obras do prolífico
 Hipólito de Roma(ca. 170-236) que chegaram a nós, dos seus escritos conservados se depreende que admitia um cânon essencialmente similar ao de Muratori. Está composto por os quatro Evangelhos, Actos, as treze epístolas de Paulo1 Pedro, 1 e 2 João, e Apocalipse, cuja autoria pelo Apóstolo João defendeu Hipólito num tratado contra um tal Gaio. A sua descrição da Escritura como constando de três partes, os Profetas, o Senhor e os Apóstolos, mostra que colocava os escritos do Novo Testamento a par com os do Antigo, e permite inferir que tinha em mente um corpo definido de livros.

Originário da Ásia Menor e discípulo de Policarpo,
 Ireneu (ca. 130-200), bispo de Lyon nas Gálias, foi um importante vínculo na unidade de pensamento e acção entre as igrejas do Oriente e Ocidente, em particular na refutação das heresias. A sua obra em cinco livrosExposição e refutação da falsamente chamada gnose, mais conhecida pelo seu nome latinoAdversus omnes Haereses, apresentava pela primeira vez uma filosofia cristã da história e constituiu Ireneu no "principal porta-voz da resposta católica ao gnosticismo e outros desvios do século II" (Bruce). Os gnósticos pretendiam ser os autênticos preservadores dos ensinamentos de Jesus, os quais teriam sido transmitidos secretamente a discípulos considerados dignos. Contra esta concepção esotérica do cristianismo, Ireneu susteve que a autêntica tradição apostólica se encontrava viva e manifesta em todas as igrejas fundadas pelos apóstolos, nas quais existia uma sucessão ininterrupta de bispos. 
Na resposta de Ireneu, o apelo às Escrituras, conservadas nas igrejas apostólicas, tem um papel fundamental. É claro que considera fechado o cânon dos Evangelhos, pois para a Igreja universal existem apenas quatro Evangelhos ou, nas suas próprias palavras,
 um só Evangelho em quatro formas (to euangelion tetramorfon). 
Dizia Ireneu: Os Evangelhos não podem ser nem menos nem mais de quatro; porque são quatro as regiões do mundo em que habitamos, e quatro os principais ventos da terra, e a Igreja foi disseminada sobre toda a terra; e coluna e fundamento da Igreja [1 Timóteo 3:15] são o Evangelho e o Espírito de vida; por isso quatro são as colunas nas quais se funda o incorruptível e dão vida aos homens. Porque, como o artista de todas as coisas é o Verbo, que se senta sobre os querubins [Sal 80 (79):2] e contém em si todas as coisas [Sab 1,7], nos deu a nós um Evangelho em quatro formas, compenetrado de um só Espírito. Como diz David, rogando-lhe que venha: «Mostra-te tu, que te sentas sobre os querubins» [Sal 80 (79):2]. Os querubins, com efeito, se manifestaram sob quatro aspectos que são imagens da actividade do Filho de Deus [Apocalipse 4:7]: «O primeiro ser vivente, diz [o escritor sagrado], se assemelha a um leão», para caracterizar a sua actividade como dominador e rei; «o segundo é semelhante a um bezerro», para indicar a sua orientação sacerdotal e sacrificial; «o terceiro tem cara de homem» para descrever a sua manifestação ao vir no seu ser humano; «o quarto é semelhante a uma águia em vôo», sinal do Espírito que faz sobrevoar a sua graça sobre a Igreja.
A argumentação de Ireneu é evidência do reconhecimento geral dos quatro Evangelhos canónicos no seu tempo. A sua justificação explícita é tão fraca e indirecta que só poderia apelar a quem já estivesse convencido, por outras razões,  de que não havia senão quatro Evangelhos. Portanto, este consenso devia estar firmemente estabelecido, tanto no Oriente como no Ocidente, na segunda metade do século II. 

É destacável que
 Ireneu é o primeiro autor cristão que cita mais o Novo Testamento do que o Antigo. Em Adversus omnes Haereses há 1075 citações do NT: 626 dos Evangelhos, 54 de Actos, 280 das cartas de Paulo (não cita Filemom), 15 citações das epístolas católicas (não se refere a 2 Pedro, 3 João e Judas mas sim a Hebreus), e 29 do Apocalipse. Metzger diz:

A modo de sumário, em Ireneu temos evidência de que por volta do ano 180, no sul de França se conhecia um Novo Testamento  (...) de aproximadamente vinte e dois livros (...) Ainda mais importante que o número de livros é o facto de que Ireneu tinha uma colecção claramente definida de livros apostólicos que considerava como iguais ao Antigo Testamento em significado. O seu princípio de canonicidade era duplo: a apostolicidade dos escritos e o testemunho da tradição mantida nas igrejas.
 
notas (Bruce M. Metzger, The Canon of the New Testament. Its origin, development, and significance. Oxford: Clarendon Press, 1987, p. 155-156).
Pela mesma época, no norte de África, começa a ganhar forma a ideia de um cânon definido. Embora tenha citado livremente muitas fontes, tanto cristãs como pagãs, além de numerosas tradições orais,
 Clemente de Alexandria (ca. 150-215) considerava Escrituras basicamente os mesmos livros do Novo Testamento que Ireneu.

Aproximação a um consenso no século III

No século III verifica-se uma coincidência crescente no sentir de diversos autores eclesiásticos. Também no norte de África, mas em território de fala latina,
 Tertuliano de Cartago (ca. 160-220), nascido de pais pagãos, advogado de profissão e convertido ao cristianismo em 195, foi o primeiro grande teólogo que escreveu em latim. Escreveu extensamente sobre muitos temas. 
Tertuliano apela a argumentos legais

Uma das muitas obras de Tertuliano, na qual pôs ao serviço da fé os seus conhecimentos jurídicos, é
 A prescrição dos hereges (De praescriptione Haereticorum). A prescrição era uma figura jurídica mediante a qual o advogado defensor podia parar o processo iniciado pelo demandante, que devia ser apresentada de antemão (pré-escrever) à substanciação do processo. No caso das disputas entre a Igreja de Cristo e os hereges, ambas as partes argumentavam a partir da Bíblia. A prescrição consiste basicamente em que os heregesnão podem apelar às Escrituras, simplesmente porque não pertencem a eles.

Este é o ponto a que queríamos chegar (...) para pôr hoje fim à luta a que nos convidam os nossos adversários. Armam-se com as Escrituras (...) cansam os fortes, triunfam dos fracos e semeiam inquietude no coração dos indecisos. Por isso tomamos esta decisão contra eles antes de dar algum outro passo: negar-lhes o direito a discutir sobre as Escrituras. Este é o seu arsenal; mas antes de tirar armas dele há que examinar a quem pertencem as Escrituras, a fim de que não possa usá-las ninguém que não tenha direito a elas.
notas -(Tertuliano,
 A prescrição dos hereges, 15. Texto segundo J. Quasten, Patrologia I. Até ao Concílio de Niceia. Versão espanhola de Ignacio Oñatibia. Madrid: BAC, 1978, p. 569).

Para Tertuliano, a tradição e autoridade das igrejas determinavam a
 regra de fé (regula fidei, um termo jurídico), ou seja as genuínas crenças cristãs, baseadas nas Escrituras e encapsuladas no credo baptismal. Portanto, esta regra de fé oral e as Escriturasconcordavam e se sustentavam mutuamente.
Tertuliano considerava os Evangelhos, Actos, Epístolas e Apocalipse com igual autoridade que o Antigo Testamento. Defendeu contra Marcião a autoridade dos quatro Evangelhos, dos Actos, das epístolas Pastorais e de Hebreus (que cria ser obra de Barnabé). Nas suas obras cita quase todos os livros do Novo Testamento, com excepção de 2 Pedro, Tiago e as duas cartas breves de João. Uma contribuição distintiva de Tertuliano acerca da importância do Novo Testamento foi que o considerou com uma
 autoridade de carácter judicial, empregando para ele termos próprios do direito romano como Instrumentum eTestamentum.A ameaça do montanismo

Um facto curioso da história do cristianismo é que em 
207 Tertuliano abraçou omontanismo, um movimento apocalíptico de moral muito estrita, fundada por Montano na Frígia, entre 156 e 172. Embora Tertuliano tenha permanecido doutrinalmente ortodoxo, ficou fora da comunhão católica pelo que ele considerava lassidão na disciplina eclesiástica. Por sua própria natureza, no entanto, o montanismo representava uma ameaça doutrinal: Vivia na expectação do rápido derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja, do qual via a primeira manifestação nos seus próprios profetas e profecias. O próprio Montano (...) proclamou que a Jerusalém celestial em breve desceria perto de Pepuza, na Frígia. Duas mulheres, Prisca e Maximila, estavam estreitamente associadas com ele. 
As profecias dos líderes montanistas começaram a pôr-se
 por escrito e eram consideradas pelos seus seguidores a par do Antigo Testamento e dos escritos apostólicos; Maximila chegou a dizer que depois dela não haveria mais profecia, mas viria o fim. Uma reacção ao montanismo foi, sobretudo no Oriente, pôr em dúvida toda a literatura apocalíptica, incluído o Apocalipse de João (defendido, como vimos, por Hipólito).
Em geral, as igrejas apostólicas não estavam, porém, dispostas a aceitar novas escrituras de
 origem duvidosa, por mais que os seus defensores as atribuíssem ao Espírito Santo. Um bispo cujo nome se desconhece exemplifica esta posição. Dirigindo-se a outro bispo, diz que hesitou em escrever contra os montanistas,...não por dificuldade em poder refutar a mentira e dar testemunho da verdade, mas por temor de que (...) parecesse a alguns que de certo modo acrescento ou junto algo novo à doutrina do Novo Testamento, ao qual não pode juntar nem tirar nada quem tenha decidido viver conforme este mesmo Evangelho. 
Os escrúpulos expressos nesta carta, que é datada entre 192 e 193, indicam que antes de finalizar o século II havia consciência de que
 o cânon estava fechado e não era lícito acrescentar-lhe nem tirar-lhe nada. Além disso, esta é a menção mais antiga que se conhece da expressão grega kainês diathêkês (novo testamento) em relação aos Evangelhos e demais escritos genuínos dos apóstolos. 
Orígenes é a autoridade dominante do século III

O teólogo, exegeta, e erudito bíblico
 Orígenes (ca. 185-254) recebeu educação cristã no lar paterno e foi discípulo de Clemente de Alexandria na Escola Catequética dessa cidade. Depois da perseguição de 202, assumiu a direcção da mencionada Escola. Viajante e incansável estudioso, em 230 viajou para a Palestina, onde foi ordenado sacerdote e em 231 se estabeleceu em Cesareia, onde fundou uma famosa escola. Orígenes foi um autor extraordinariamente prolífico (diz-se que ditava a vários escribas em simultâneo) mas lamentavelmente muito pouco da sua ampla produção sobreviveu. Comentou virtualmente toda a Bíblia na sua pregação, em notas breves e em comentários extensos e detalhados. Escreveu-se dele:Orígenes foi essencialmente um erudito bíblico cujo pensamento se nutria na Escritura, cuja inspiração e integridade defendeu contra os marcionitas. Reconhecia um triplo sentido – literal, moral e alegórico - dos quais preferia o terceiro. 
Embora a interpretação alegórica de Orígenes seja discutível, é inegável a sua enorme contribuição para os estudos bíblicos. Uma de suas obras foi a Hexapla, uma edição crítica do Antigo Testamento em seis colunas paralelas com 1) o texto hebraico; 2) o texto hebraico em caracteres gregos; 3) a versão grega de Áquila; 4) a versão grega de Símaco; 5) a Septuaginta (tradução judaica pré-cristã, a mais usada pelos cristãos de fala grega) e 6) a versão de Teodocião. 
Orígenes foi mais explícito e concreto em relação ao cânon do Antigo Testamento que ao do Novo. Aparentemente, Orígenes não deixou uma lista precisa de livros do Novo Testamento, e é possível que as suas opiniões tenham variado com o tempo. É difícil resumir as opiniões sobre o cânon sustentada ao longo dos anos por uma mente tão fértil e ampla como a de Orígenes. Certamente pode dizer-se, porém, que considerava fechado o cânon dos quatro Evangelhos. Aceitou catorze epístolas de Paulo, como também Actos, 1 Pedro, 1 João, Judas e Apocalipse, mas expressou reservas respeitantes a Tiago, 2 Pedro, e 2 e 3 João. Em outras ocasiões Orígenes, como Clemente antes dele, aceita como evidência cristã qualquer material que acha convincente ou atractivo, inclusive designando por vezes como "divinamente inspirados" tais escritos.

Em todo o caso, o testemunho  de Orígenes sobre o cânon do Novo Testamento foi compilado de várias das suas obras por Eusébio, no Livro Sexto da
 História Eclesiástica (25:3-14).No seu Comentário sobre o Evangelho segundo Mateus, Orígenes afirma reconhecer apenas os quatro Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Na Exposição do Evangelho segundo João, menciona as cartas de Paulo, a primeira de Pedro e "quiçá também uma segunda, pois se a põe em dúvida". De João, o Evangelho e o Apocalipse, além de "umaCarta de muito poucas linhas, e quiçá também uma segunda e uma terceira, pois nem todos dizem que estas sejam genuínas." 
Finalmente, numa homilia sobre
 Hebreus nota diferenças com o estilo rude de Paulo; mas "os pensamentos da carta são admiráveis e não inferiores aos de cartas que se admitem ser do apóstolo", e acrescenta depois: "pela minha parte (...) diria que os pensamentos sim são do Apóstolo, mas o estilo e a composição são de alguém que evocava de memória os ensinamentos do Apóstolo". Noutro lado dá testemunho dos Actos. Orígenes reúne estes escritos sob o título de "Novo Testamento" e diz que são Escrituras divinas. Sobre a carta de Judas diz no seu já mencionado Comentário sobre o Evangelho segundo Mateus que é muito breve, mas está "preenchida com as saudáveis palavras da graça celestial". Menos clara é a sua posição sobre a carta de Tiago. Não obstante, no sermão sobre a queda de Jericó, menciona virtualmente todos os livros do Novo Testamento  - incluída a carta de Tiago - como as "trombetas dos Apóstolos enviados por Cristo".
Apesar de certas dúvidas persistentes em relação a alguns dos escritos mais breves, a contribuição de Orígenes é um avanço para o reconhecimento final do Novo Testamento tal como chegou a nós.
          Cipriano brilha em Cartago século 3°

Nascido em princípios do século III

Numa família de boa posição, Cipriano chegou a ser professor de retórica em Cartago. Desencantado com o paganismo, se converteu ao cristianismo em 246 e se dedicou a estudar profundamente as Escrituras e os escritos de Tertuliano, a quem chamava "o Mestre". O seu prestígio foi tal, que apenas dois anos depois de convertido foi eleito bispo de Cartago por aclamação popular. Nos dez anos do seu bispado, até ao seu martírio em 14 de Setembro de 258, Cipriano escreveu pelo menos seis tratados e 65 longas epístolas de profundo valor doutrinal e sabedoria pastoral. 
Cipriano chegou a memorizar grande parte das Escrituras e demonstrou tê-las estudado a fundo. Os livros do Novo Testamento que mais citou foram, em ordem decrescente, Mateus, João, Lucas, 1 Coríntios, Romanos e Apocalipse. Não obstante, citou também os demais livros do Novo Testamento, com excepção de Tiago, Judas 2 Pedro, 2 e 3 João. Embora não tenha citado textos de Hebreus, com toda a probabilidade conhecia esta epístola, primeiro porque o seu admirado Tertuliano a usou e segundo porque parafraseia Hebreus 1:1-2 num de seus tratados (
Sobre a oração do Senhor): "Aprouve a Deus que muitas coisas fossem ditas e ouvidas mediante seus servos, os profetas, mas quão maiores são aquelas faladas pelo Filho!"

  Alcança-se virtual unanimidade no século IV
Um acontecimento que, sendo mau, teve um efeito saudável na fixação do cânon das Escrituras foram as perseguições contra os cristãos. Aos cristãos identificados como tais se lhes exigia que entregassem os seus livros sagrados se quisessem evitar os castigos, ou inclusive a morte. A última grande perseguição teve lugar por causa de um decreto do imperador Diocleciano, publicado em 23 de Fevereiro de 303. O decreto, ao que parece sancionado por instigação do procônsul de Bitínia, Hierócles, dispunha que os templos cristãos fossem arrasados e as suas Escrituras confiscadas para ser queimadas. Este último aspecto tornou importante, tanto para os perseguidores como para os perseguidos, saber exactamente quais documentos cristãos eram parte das Sagradas Escrituras. De igual modo, após concluída a perseguição, os líderes da Igreja deviam saber quem tinha entregue (traditores) cópias das Sagradas Escrituras, e quem tinha evitado o castigo entregando livros menos importantes.
Num códice do século VI, chamado
 Claromontanus (catalogado D 06), que contém as epístolas de Paulo e a epístola aos Hebreus, encontra-se entre Filemom e Hebreus uma lista de livros do Novo Testamento, com o número de linhas de cada um. A opinião geral é que a lista foi feita em Alexandria, mais ou menos pela mesma época que a perseguição de Diocleciano. A lista inclui especificamente as epístolas católicas 2 Pedro, Tiago, 2 e 3 João e Judas. 
Depois de vários anos de cruenta perseguição contra os cristãos, que havia sido um fracasso e, além disso, era vista com desgosto por muitos pagãos, se promulgou em 311 o édito de tolerância de Galério. ...os imperadores concedem perdão e permitem «que haja de novo cristãos e celebrem as suas reuniões religiosas, na condição de que não maquinem nada contra a ordem pública». Promete-se um novo rescrito para os governadores, em que se lhes darão instruções mais concretas sobre a execução do édito. Aos cristãos se lhes manda que roguem ao seu deus pelo bem do imperador, do Estado e do seu próprio.
notas  (Karl Baus,
 Da Igreja primitiva aos começos da grande Igreja. Em Hubert Jedin, Director: Manual de história da Igreja. Tradução castelhana de Daniel Ruiz Bueno. Barcelona: Editorial Herder, 1980, 1:568).
Embora o cumprimento do que se dispunha tenha sido díspar, e de facto pouco depois recrudesceram as perseguições contra os cristãos orientais, a paz definitiva com o Império chegou com a vitória de Constantino sobre
 Maxêncio em 312. O posterior acordo entre Constantino, imperador do ocidente e Licínio, seu par oriental, em 313 (mal chamado o "édito de Milão") iniciou uma política não só de tolerância, mas de franco favor imperial para com os cristãos. 
    Eusébio resume a situação sobre o cânon

A situação definitiva começa a perfilar-se depois do acesso ao poder de Constantino e é apresentada pelo historiador da Igreja,
 Eusébio de Cesareia ( 260-340), no Livro Terceiro da sua História Eclesiástica:Chegando aqui, é hora de recapitular os escritos do «Novo Testamento» já mencionados. Em primeiro lugar há que colocar a tétrada santa dos Evangelhos, aos quais segue-se o escrito dos Actos dos Apóstolos.
E depois deste há que colocar na lista as Cartas de Paulo. Depois deve-se dar por certa a chamada Primeira de João, como também a de Pedro. Depois destas, se parece bem, pode colocar-se o Apocalipse de João, sobre o qual exporemos oportunamente o que dele se pensa. Estes são os que estão entre os admitidos. Dos livros discutidos, por outro lado, mas que são conhecidos da grande maioria, temos aCarta chamada de Tiago, a de Judas e a segunda de Pedro, assim como as que se dizem ser segunda e terceira de João, sejam do próprio evangelista, seja de outro com o mesmo nome.
Entre os espúrios sejam listados: o escrito dos
 Actos de Paulo, o chamado Pastor e oApocalipse de Pedro, e além destes, a que se diz Carta de Barnabé e a obra chamadaEnsinamento dos Apóstolos, e ainda, como disse, se parece bem, o Apocalipse de João;alguns, como disse, rejeitam-no, enquanto outros o contam entre os livros admitidos.
Mas alguns catalogam entre estes inclusive o
 Evangelho dos Hebreus, no qual se comprazem muitissimo os hebreus que aceitaram Cristo. Todos estes são livros discutidos. 
Mas creio ser necessário que exista um catálogo destes também, distinguindo os escritos que, segundo a tradição da Igreja, são verdadeiros, genuínos e admitidos, daqueles que diferenciando-se destes por não serem testamentários, mas discutidos, ainda assim são conhecidos pela grande maioria dos autores eclesiásticos, de modo que possamos conhecer estes livros e os que com o nome dos apóstolos foram divulgados pelos hereges, alegando que se tratem seja dos
 Evangelhos de Pedro, de Tomé, de Matias ou mesmo de algum outro, ou ainda dos Actos de André, de João e de outros apóstolos. Jamais um só dentre os escritores ortodoxos julgou digno mencionar estes livros em seus escritos.
Mas ocorre que a própria índole do fraseado difere enormemente do estilo dos apóstolos, e o pensamento e a intenção do que neles está contido destoa ainda mais da verdadeira ortodoxia: claramente demonstram ser invenções de hereges. Por isso não devem ser colocados nem mesmo entre os espúrios, mas devemos rejeitá-los como inteiramente absurdos e ímpios.
Eusébio propõe três categorias de escritos: Os aceites por todos, os discutidos e as "invenções de hereges". A qualificação de "espúrio" não significa apócrifo ou herético em Eusébio; ele a aplica a escritos que são ortodoxos mas que não são admitidos universalmente como "divinas Escrituras". Os livros heréticos são outra coisa, e devem ser totalmente rejeitados.
Então, em princípios do século IV todos os cristãos reconheciam como Escrituras os quatro Evangelhos canónicos, os Actos, as epístolas paulinas, 1 João e 1 Pedro. Por outro lado, ainda não todos, mas sim a maioria, admitiam 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago e Judas.A situação do Apocalipse de João é muito curiosa, pois Eusébio não o coloca entre os "discutidos", mas o inclui
 nas outras duas categorias simultaneamente: entre os reconhecidos e entre os espúrios, esclarecendo em ambos os casos, "se parece bem". A provável razão desta estranha atitude é que Eusébio sabia que o Apocalipse era de factogeralmente aceite, mas ele próprio tinha reservas sobre o livro, por ser adversário do milenarismo. 

    Eusébio e Constantino tornaram-se amigos em 325.

 Alguns anos mais tarde, o imperador encomendou ao bispo, numa carta preservada na "Vida de Constantino" escrita pelo próprio Eusébio, 50 exemplares das Escrituras cristãs (ambos os Testamentos) em grego para as Igrejas da capital imperial, Constantinopla. Dizia o imperador: Ocorre  que grandes números se uniram à santíssima igreja na cidade que leva o meu nome. Parece, portanto, muito necessário aumentar também o número de igrejas Achei prático  ordenar cinquenta cópias das sagradas Escrituras, a provisão e uso das quais, tu sabes, é da maior necessidade para a instrução da Igreja, que sejam escritas em pergaminho preparado de maneira legível, e numa forma portável e conveniente, por amanuenses profissionais muito versados na sua arte  Tens autoridade também, em virtude desta carta, para usar duas carruagens públicas para o seu transporte, disposição mediante a qual as cópias, quando estejam adequadamente escritas, serão mais facilmente enviadas para minha inspecção pessoal.
As cópias, sufragadas pelo imperador, prepararam-se de imediato na forma de "volumes magníficos e elaboradamente encadernados", no dizer de Eusébio. É provável que, com esta acção, Eusébio tenha contribuído para a formação do cânon, pois com toda a probabilidade as cópias continham os 27  livros que reconhecemos como canónicos até hoje, e possivelmente na mesma ordem que nas Bíblias modernas. Talvez Eusébio estivesse inclinado a omitir o Apocalipse, mas é difícil crer que se atrevesse, conhecendo o apreço que o imperador tinha por este livro, que de resto era geralmente aceite pela maioria. 
Deve notar-se que Constantino não teve nenhuma influência directa em determinar quais Escrituras eram canónicas, mas limitou-se a solicitar cópias, sem dar a menor instrução sobre que livros deviam conter ou quais omitir-se. Bruce observa que se, como parece, as 50 cópias continham de facto os 27 livros, isso "forneceria um ímpeto considerável para a aceitação do agora familiar cânon do Novo Testamento". Evidentemente, o uso de uma edição tal nas Igrejas de Constantinopla favoreceria a admissão geral dos livros aceites até hoje.Atanásio dá a primeira lista completa e exclusiva

Tradicionalmente, os bispos de Alexandria anunciavam a data de celebração da Páscoa mediante cartas circulares, que também costumavam conter instruções ou outros ensinamentos. Poucas décadas depois de Eusébio, 
Atanásio (. 296-373) bispo de Alexandria e campeão da ortodoxia nicena, proporciona uma lista de livros do Novo Testamento na sua 39ª Carta pascal no ano 367. A ordem difere do habitual nas nossas Bíblias, mas os livros são exactamente os mesmos. Note-se, além disso, que Atanásio não estabelece nenhuma diferença de hierarquia entre os 27 livros. De novo, não devemos hesitar em nomear os livros do Novo Testamento.
 São como se segue:Quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Depois destes os Actos dos Apóstolos e as sete epístolas dos apóstolos chamadas católicas, como se segue: uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e, ... uma de Judas.
A seguir há catorze epístolas do Apóstolo Paulo, escritas em ordem como se segue: Primeiro aos romanos, então duas aos coríntios, e depois destas aos Gálatas e depois aos efésios; então aos filipenses; depois aos colossenses e duas aos tessalonicenses e aquela aos hebreus. Depois há duas a Timóteo, uma a Tito e a última a Filemom.Além disso, o Apocalipse de João.
É provável que a visita de Atanásio a Roma em 340 – durante o seu segundo exílio – quando Júlio I era bispo dessa cidade, tenha sido decisiva para a aceitação de Hebreus por parte da Igreja de Roma e daquelas sob a sua influência. A mesma lista é proporcionada mais tarde no norte de Itália por Rufino de Aquileia (345-410).


Jerónimo e Agostinho

O maior erudito bíblico posterior a
 Orígenes, Jerónimo (. 342-420) também admitia como canónicos os 27 livros, como o demonstra, por exemplo, na sua Epístola 53 a Paulino, bispo de Nola, sobre o estudo das Escrituras:Tratarei brevemente do Novo Testamento. Mateus, Marcos, Lucas e João são a equipa quádrupla do Senhor, os verdadeiros querubins ou depósito de conhecimento (...)
O Apóstolo Paulo escreve a sete igrejas (pois a oitava epístola, aos hebreus, não é geralmente contada com as outras). Instrui Timóteo e Tito; intercede ante Filemom pelo seu escravo fugitivo...
Os Actos dos Apóstolos parece relatar uma história sem adorno e descrever a infância da igreja recém-nascida, mas uma vez que nos damos conta que o seu autor é Lucas, o médico cujo louvor está no evangelho, veremos que todas as suas palavras são remédios para a alma doente. Os apóstolos Tiago, Pedro, João e Judas produziram sete epístolas, ao mesmo tempo espirituais e concisas.O Apocalipse de João tem tantos mistérios como palavras. Ao dizer isto, disse menos do que o livro merece. 
Outro que recebeu o cânon do Novo Testamento como se admitia já nessa época foi Agostinho de Hipona, que em 397 enumera os mesmos livros que Atanásio, embora em diferente ordem. Porém, a seguinte instrução do mesmo Agostinho dá testemunho de que o cânon não estava fechado sem lugar para dúvidas.
Ora, em relação às Escrituras canónicas, [o intérprete] deve seguir o juízo do maior número de igrejas católicas; e entre estas, desde logo, um elevado lugar deve dar-se àquelas consideradas dignas de ser a sede de um apóstolo e de receber epístolas.Consequentemente, entre as Escrituras canónicas julgará conforme a seguinte norma: Preferir aquelas que são recebidas por todas as igrejas católicas àquelas que algumas [igrejas] não recebem. Entre aquelas [Escrituras], de novo, que não são recebidas por todas, preferirá as que tenham a sanção do maior número e daquelas de maior autoridade, àquelas sustentadas por um número menor ou são de menor autoridade. Porém, se verificasse que alguns livros são defendidos pelo maior número de igrejas, e outros pelas de maior autoridade (ainda que não seja muito provável que isto ocorra), penso que em tal caso a autoridade de ambos os lados deve ser considerada como igual.
 
O [cânon] do Novo Testamento, de novo, é contido nos seguintes: Quatro livros do Evangelho, segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas, segundo João; catorze epístolas do Apóstolo Paulo – uma aos romanos, duas aos coríntios, uma aos gálatas, aos efésios, aos filipenses, duas aos tessalonicenses, uma aos colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, a Filemom, aos hebreus; duas de Pedro; três de João; uma de Judas; e uma de Tiago; um livro dos Actos dos Apóstolos; e um do Apocalipse de João.
 
A regra enunciada por Agostinho é bastante reveladora sobre o verdadeiro processo de formação do cânon. Por sinal, o cânon do NT não estava reconhecido em finais do século I, mas também não foi a Igreja de Roma que o estabeleceu. Esta última ideia é um anacronismo fatal, já que no século IV a Igreja de Roma, hoje conhecida como Igreja Católica, não tinha a autoridade nem o poder que depois se arrogou. Portanto, não poderia determinar por si mesma nenhum cânon, nem sequer no suposto que o tivesse claro.
A verdade é que o cânon foi reconhecido e proclamado não pela Igreja Católica romana, mas pela
 igreja católica (ou universal) antiga, que certamente não era governada desde Roma, por mais que esta fosse uma sede apostólica de enorme influência.
Na verdade, os bispos de Roma não falaram mais alto no tema do cânon, longe disso. Embora segundo o testemunho de Eusébio em princípios do século IV o consenso final estivesse próximo, foi fundamental a intervenção dos bispos africanos, primeiro Atanásio e depois Agostinho, sob cuja influência os sínodos de Hipona (393) e o III e VI de Cartago, respectivamente de 397 e 419, determinaram os limites do cânon.
 Não obstante, estes sínodos ou concílios regionais não tinham autoridade sobre toda a Igreja, como sim a teria tido um concílio ecuménico. É por esta razão, e considerando a importância do consenso dos bispos, que os correspondentes cânones foram enviados ao bispo de Roma e a outros bispos para a sua confirmação. 
Nenhum decreto papal podia, nesse tempo, substituir o
 consenso universal. De facto, um sínodo regional asiático, o de Laodiceia de 363, omitiu o Apocalipse tal como o fazia o bispo Cirilo de Jerusalém.Na realidade, nenhum concílio ecuménico da antiguidade discutiu seriamente o assunto do cânon. É verdade que no Concílio Quinissexto de Constantinopla (553,680) se ratificaramas listas canónicas apresentadas em Cartago e nas Constituições Apostólicas como se tivessem sido uma só, mas estas listas não eram coincidentes. Portanto, esta decisão conciliar, em todo o caso, enturvou as águas em vez de clarificá-las.
Em relação aos bispos de Roma, a lista enviada por Inocêncio I ao bispo Exupério em 405 
omite Hebreus 
segundo os melhores manuscritos.Por vezes menciona-se uma lista atribuída ao papa Dámaso, supostamente de 382 e portanto imediatamente posterior à de Atanásio. É possível, mas em todo o caso tal lista na verdade não pôs fim às diferenças. Além disso, a mesma lista, conservada num documento italiano (não de Roma) de princípios do século VI chamado Decreto Gelasiano, se atribui variavelmente também aos bispos romanos Gelásio (492-496) ou Hormisdas (514-523).
Fonte notas www.conheceis-a-verdade.blogspot.com

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