segunda-feira, 20 de junho de 2016

A liturgia cristã


                                 Liturgia Cristã (1ª Parte)



O texto de 1 Pedro 2.5-10 destaca enfaticamente a Igreja de Jesus Cristo como povo de Deus: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal de esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, essa foi a principal da esquina; e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados . Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós que, em outro tempo, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia”. Como povo de Deus, devemos adorá-lo. Isso implica liturgia. Em outras palavras, ao tratar de liturgia cristã, devemos fazê-lo sob a perspectiva da doutrina da adoração cristã.

No Novo Testamento, vemos alguns termos ou frases litúrgicos como, por exemplo:

a) Em Mateus 18.20, lemos: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles”. Aqui encontramos synagesthai eis to emon onoma, que se refere a estarmos reunidos em nome de Jesus
b) Em Atos 20.7, lemos: “No primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e alargou a prática até à meia-noite”. Neste texto, encontramos synagesthai klasai arton, que diz respeito a se reunir com o fim de partir o pão.
c) Em 1 Coríntios 11.33, temos: “Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntai para comer, esperai uns pelos outros”. Nesta passagem, encontramos synagesthai eis ton phagein, que fala de se reunir ou se ajuntar para comer.

Explicando e definindo liturgia

Vejamos o significado da palavra liturgia nos sentidos etimológico, bíblico e semântico:

a) Do grego leitourgia –  “Obra pública ou dever público”

b) No sentido etimológico, a palavra “liturgia” significa “uma ação do povo”, pois é a junção dos vocábulos leitos e ergon, formando leitourgia.

c) O sentido natural de liturgia é ministério ou serviço do povo.

d) Do ponto de vista do apóstolo Paulo, a tradução correta de leitourgia seria “serviço de adoração” (Gl 5.19-22)

e) Em um certo período da história da Igreja, a liturgia era privilégio do clero.

f) A liturgia do culto deve envolver, de fato, a participação ativa dos ministrantes e do povo na adoração.

g) No Novo Testamento, a palavra liturgia ou leitourgia se encontra, às vezes, com o sentido de “serviço” ou de “ministério, como nas passagens a seguir:
"E sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa", Lc 1.23.
"Porque a admiração desse serviço não só supre as necessidades dos santos, mas também redunda em muitas graças, que se dão a Deus", 2Co 9.12.
"E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós", Fp 2.17.
"Porque, pela obra de Cristo, chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso da vida, para suprir para comigo a falta do vosso serviço", Fp 2.30.
"Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto, que está confirmado em melhores promessas", Hb 8.6.
"E semelhantemente aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os vasos do ministério", Hb 9.21.

h) Outros termos derivados ajudam a elucidar o vocábulo liturgia:
1- Leitourgós, que significa “servo, servidores”.
2- Leitourgikós, que significa “ministradores” (Hb 1.14).

Igreja e liturgia

Existe uma relação entre eclésia e leitourgia no grego bíblico:

a) Eclésia significa “a convocação de pessoas que se reúnem ‘fora’ de suas casas num lugar para tratarem de assuntos de interesse comum”. Daí a idéia de “tirados para fora”.
b) Leitourgia significa o serviço dessas pessoas que formam a eclésia, e visando uma atividade especial.

Portanto, a partir desses dois conceitos, compreendemos que a Igreja é a reunião de pessoas que saíram “para fora” de seus contextos mundanos, e a reunião dos que vivem pela salvação e invocam o Senhor (At 11.22; 13.1 e 1Pd 2.9-10).

O conteúdo da liturgia cristã

Existem quatro formas de liturgia, a saber:
a) A elaborada
b) A livre
c) A funcional
d) A dirigida

A liturgia cristã autêntica se destaca por sua fundamentação cristológica, como Paulo deixa claro no texto de Colossenses 1.13-19. Uma leitura superficial do Novo Testamento é suficiente para convencer-nos de que a própria vida de Jesus foi e é uma vida litúrgica, isto é, sacerdotal. Com sacerdotal, aqui, me refiro ao sentido de serviço, como ocorre em passagens como 1 Pedro 2.9 e Hebreus 7.27 e 9.11.
Ora, se adorar é prestar culto e serviço a Deus, Jesus é o maior exemplo de adoração, pois Ele ofereceu serviço de si mesmo, como “oferta única”: "Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados", Hb 10.14. "Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado", 1Pd 1.19.

A liturgia torna-se nula se ela não puder ser identificada pela presença de Cristo no culto:
a) Jesus inaugurou o serviço de adoração da Igreja, quando instituiu a celebração da Santa Ceia (Lc 22.14-20). Ele disse “Isto é o meu corpo” e “Isto é o meu sangue”. O texto se refere à presença de Cristo. Não confundir com transubstanciação e consubstanciação.
b) Em outra metáfora, a “da videira e os ramos”, Jesus instituiu a relação entre ele e seus discípulos (a Igreja): “Estai em mim, e eu, em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim”, Jo 15.4.
c) Não precisamos de objeto físico ou material de Cristo para termos a sua presença.
d) Se hoje, na adoração feita, sabemos que a presença de Cristo é apenas espiritual, sensorial e invisível, também sabemos que um dia teremos a sua presença plena e perfeita. "Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, também vós vos manifestareis com ele em glória", Cl 3.4.



                               Liturgia Cristã (2ª Parte)
Culto e adoração são dois elementos fundamentais da liturgia cristã. Posto isso, o que significa cultuar e quem são os verdadeiros adoradores?
a) Paulo declarou que a verdadeira adoração é aquela que se oferece a Deus pelo Espírito, não confiando na carne, mas gloriando-se em Jesus (Fp 3.3).
b) Jesus fez o contraste da verdadeira adoração com o culto judaico, envolvendo sacrifícios e ritos tradicionais.

c) Certa feita, os fariseus e escribas acusaram os discípulos de Jesus de não cumprirem a tradição dos anciãos, e tiveram como resposta a citação de Isaías 29.13: “E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”, Mc 7.6-7.

O objetivo fundamental de um culto é tornar Deus real e pessoal. A maneira como uma igreja adora reflete a teologia da comunidade, isto é, do povo da igreja. Quando o culto concentra-se no homem, em vez de Deus, parece que Deus é um mero espectador que acompanha as atividades dos cultuantes.

A adoração significa primordialmente doação a Deus. Qualquer bênção que recebamos tem de ser o resultado dessa autodoação.
a) A excelência musical na igreja tem o seu valor cultural e espiritual, mas pode levar a uma distorção do conceito de aceitação diante de Deus.
b) A adoração a Deus, seja em palavras, seja poética, seja musical, não pode ser dirigida a Deus com vaidade, orgulho e vanglória. Paulo, em 1 Coríntios 1.27-29, falando que os padrões e valores de Deus são diferentes dos aceitos pelo mundo, frisa: “A fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus”.
c) Nossa dificuldade está em perceber a distinção e o equilíbrio entre “emoção e razão”.
d) Como devemos desenvolver a música na igreja? Em primeiro lugar, conscientizados de que adoração é doação, antes de ser prazer pessoal.

Formas litúrgicas de culto e adoração

As formas de expressão de culto a Deus são feitas de acordo com o propósito do culto. Existem várias formas de culto que expressam claramente a finalidade de um culto:
a) A forma carismática: Caracteriza-se por manifestações emocionais, sonoras, visíveis, os quais representam a atitude do adorador.
b) A forma didática: Um exemplo básico é o culto de ensino, o qual concentra a atenção das pessoas no estudo da Palavra de Deus.
c) A forma eucarística: É aquela que valoriza a relação do crente com o memorial do sacrifício de Cristo.
d) A forma kerigmática: A expressão se refere à proclamação. É aquele tipo de culto que evangeliza os pecadores.
e) A forma da koinonia: Diz respeito à comunhão. Tal culto expressa a adoração a Deus pela comunhão fraternal com os nossos irmãos.

Toda igreja local desenvolve atividades eclesiásticas com o fim de fortalecer a igreja, os seus membros. O desenvolvimento da adoração na igreja do Novo Testamento se deu a partir dos modelos assimilados das sinagogas.

Expressões de adoração caracterizam as formas de cultuar, e não medem a realidade ou grande espiritualidade do adorador. Não podemos dogmatizar formas externas de cultuar porque elas podem engessar a liberdade de espírito de manifestação. Os ministros da Igreja devem ter o cuidado de ensinar acerca do equilíbrio entre emoção e espiritualidade, sem bloquear a ação do Espírito Santo.

Dois perigos ameaçam a liturgia da Igreja como forma de cultuar, de adorar a Deus:
a) O formalismo, que engessa a liberdade para adorar;
b) E a espontaneidade sem limite, que encoraja a liberdade, mas despreza toda e qualquer forma.

Culto, adoração e louvor

Ao tratarmos desse assunto, é imprescindível realçarmos a autoridade da Bíblia. Isso porque, ao discutirmos sobre liturgia ou qualquer outra atividade da Igreja, devemos usar a Bíblia como parâmetro para fundamentar o assunto.

Como vamos averiguar se determinada prática é correta ou incorreta? Pela Palavra de Deus. O que deve prevalecer? É o que diz e ensina a Bíblia, nossa regra de fé e conduta. "Sabendo primeiramente isto: uq enenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo", 2Pd 1.20-21.

Vejamos a conceituação de culto, adoração e louvor:
a) Culto, no grego, é latréia, que aparece 21 vezes no Novo Testamento, e significa literalmente “serviço religioso” (Rm 12.1; Mt 6.24).
b) Adoração, no grego, é proskunein, que originalmente significa “beijar” (Jo 4.23; Ap 4.10).
b) Louvor, do hebraico halal, cuja raiz significa “fazer barulho”.
1- Existe outra palavra aliada no hebraico, que é yada, e se refere a movimentos corporais que exprimem louvor.
2- Outra palavra no hebraico é zamar, que indica “o louvor expresso em cânticos ou instrumentos musicais”.
3- No Novo Testamento, a idéia de louvor é eucaristeo, que significa “agradecer”, e eulogéo, que significa “abençoar ou bendizer”.

Louvor e expressão corporal

A questão mais polêmica sobre esse assunto com certeza é o que diz respeito à expressão corporal no louvor.

O corpo é o instrumento de expressão daquilo que está no espírito do crente. O instrumento imediato da expressão humana começa com a boca, as cordas vocais, o diafragma, o pulmão, o rosto e, em seguida, os braços, as pernas e os pés.

Quanto à questão das danças na Bíblia, devemos observar o seguinte:
a) Os textos que mencionam a dança na Bíblia não o relacionam à liturgia do culto (Êx 32.19; Jz 11.34 e 1Sm 18.6). Eram expressões de alegria em eventos fora dos cultos a Deus.
b) Um caso clássico na Bíblia o qual podemos destacar é a dança de Davi diante da Arca, relatado em 2 Samuel 6.14-16.
c) A dança não foi uma forma adotada na liturgia do Novo Testamento.
d) Quanto às palmas, notemos que:
1- Não há nenhum regulamento bíblico para que se pratique ou não essa forma de expressão corporal, apesar de a realidade ser outra, porque fazemos valer nossas vontades e conceitos do que é certo ou errado;
2- Se a nossa liturgia é livre e espontânea, própria do Movimento Pentecostal, as palmas não devem nos dividir;
3- O que realmente precisamos saber sobre o assunto é que nem no Antigo Testamento e nem no Novo Testamento encontramos qualquer ensino a favor ou contra as palmas.
4- Aliás, não temos no Novo Testamento qualquer forma de liturgia específica, senão o batismo em águas e a Ceia do Senhor.

Que nossa preocupação com as extravagâncias e erros litúrgicos das igrejas neopentecostais não nos levem ao exagero de neutralizarmos as manifestações autênticas do Espírito Santo em nossas igrejas
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notas CPADNEWS

 


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