sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Arqueologia biblica manuscritos do mar Morto (2)


                        

                   Manuscritos do NovoTestamento (2)


Nos tempos do Novo Testamento grego era a língua falada por todas as terras da história da Bíblia. Os livros do Novo Testamento foram escritos em grego - grego não clássica, mas a linguagem cotidiana falada por pessoas comuns. Desde o início, as pessoas fizeram cópias de cartas que Paulo e os outros tinham escrito, bem como cópias dos registros do Evangelho, e os enviou para as igrejas longe e de perto. Tudo isso levou tempo, e muitos anos se passaram antes que todos os escritos foram reunidos para formar o Novo Testamento completo tal como a conhecemos hoje .
Manuscritos gregos eram de dois tipos, aqueles escritos inteiramente em letras unciais (ou de capital), e aqueles escritos em letras minúsculas (ou minúsculas). Escrevendo em uncials foi mais comum nos séculos anteriores, mas foi gradualmente substituído pelo script minúscula mais conveniente.
Erros dos copistas são mais comuns nos manuscritos gregos do Novo Testamento que nos manuscritos hebraicos do Antigo Testamento. Mas as variações nos manuscritos gregos não afetam seriamente a nossa compreensão do que os escritores do Novo Testamento escreveram. Há na existência mais de cinco mil manuscritos do Novo Testamento grego (em parte ou no todo), e embora estes aumentam o número de variações, elas também aumentam a possibilidade de eliminar os erros.
Os manuscritos mais valiosas vêm do período do quarto para o sexto séculos dC, embora existam os anteriores. Como regra geral, quanto mais cedo o manuscrito, o mais provável é ser correto. Por outro lado, um manuscrito mais recente poderia ser mais preciso, se ele foi copiado de um manuscrito muito mais cedo e mais confiável. Uma maneira de verificar a exatidão dos manuscritos é compará-los com as primeiras traduções do Novo Testamento, ou com citações do Novo Testamento nos escritos dos primeiros autores.
Como eles estudam todas essas evidências, os especialistas são capazes de avaliar o valor de manuscritos e organizá-los em grupos de acordo com suas características comuns. Tornou-se evidente que os diferentes grupos de manuscritos pertenciam originalmente a diferentes regiões (por exemplo, Roma, Alexandria, Bizâncio). Isto dá estudiosos a indicação dos tipos de manuscritos que estavam em uso em várias fases da história da igreja primitiva, e assim ajuda no sentido de determinar a formulação exacta da escrita original.
Um texto confiável

Usando todo o material disponível para eles, os especialistas nos processos descritos acima podem preparar edições precisas do hebraico o Antigo Testamento eo Novo Testamento em grego. Estes livros são chamados de textos. As traduções modernas da Bíblia são feitas a partir destes textos, não dos manuscritos antigos. A maioria dos manuscritos são cuidadosamente preservados em museus ou locais de aprendizagem em todo o mundo.

Sem dúvida, uma vez que existem novas descobertas e novos insights sobre linguagens e práticas antigas, haverá novas revisões do texto hebraico e grego. Qualquer alteração será, provavelmente, apenas menor, como a história tem mostrado que as alterações feitas no texto através de novas descobertas têm sido relativamente poucas e sem importância. Apesar dos danos aos manuscritos antigos através de desgaste, mau uso, erros dos copistas e oposição do governo, as Escrituras foram preservadas, essencialmente, como eram quando primeiro escrito. Deus preservou sua Palavra, de tal forma que nenhum ensinamento importante é em qualquer lugar afetado.

fonteEvangélica Dicionário de Baker de Teologia Bíblica 



   O Verdadeiro Tesouro dos Manuscritos do Mar Morto

“A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices [...] são mais desejáveis do que ouro, [...] em os guardar há grande recompensa [...] Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares de ouro ou de prata” (Salmo 19.7,10-11; Salmo 119.72).

Muhammad estava agitado e inquieto. Sua cabra travessa tinha sumido. Ao vaguear sem rumo longe de seu rebanho e de seus amigos, o beduíno chegou a uma caverna que ficava em posição elevada e dava frente para a costa noroeste do Mar Morto. Por pensar que o animal desgarrado tivesse se perdido dentro da caverna, o beduíno começou a jogar pedras pela entrada da gruta a fim de fazê-lo sair lá de dentro. Quando ele ouviu o ruído das pedras que batiam em peças de cerâmica, ficou intrigado. Será que lá dentro da caverna poderia haver um tesouro escondido? Com toda a empolgação, ele correu até a entrada da caverna, porém, no interior dela não encontrou ouro, nem prata, apenas jarros grandes e antigos ao longo das paredes, os quais continham rolos de pergaminhos despedaçados.
Ele pensou: “pelo menos os pergaminhos de couro vão servir para fazer correias e tiras de sandálias”. Lamentavelmente, Muhammad não conseguiu perceber a real importância daquele momento. A teimosia de sua cabra o levara àquela que pode ser considerada, nos tempos modernos, a maior descoberta de manuscritos: uma incalculável reserva entesourada da Palavra escrita – os Manuscritos do Mar Morto.
Beduínos não marcam o tempo como os ocidentais, mas assemelham-se aos seus antepassados; sua concepção de tempo e momento está relacionada com outros acontecimentos. Assim, não se pode datar essa descoberta com precisão. Após uma revisão, a nova data para a descoberta do primeiro rolo de manuscritos é a de 1935 ou 1936. A partir de então até o ano de 1956, muitos outros manuscritos foram achados. Acredita-se que esses manuscritos sejam de datas diferentes, as quais variam do século III a.C. até o século I d.C.
A maior parte deles foi descoberta em cavernas de formação calcária em Qumran, situadas exatamente a noroeste do Mar Morto. A maioria dos pergaminhos é escrita em hebraico; o restante deles é escrito em aramaico e grego. Foram achados mais de 900 documentos, que correspondem a 350 obras distintas em suas múltiplas cópias. Muitos dos escritos bíblicos e extrabíblicos estão representados em pequeníssimos fragmentos. Só em uma caverna foram encontrados 520 textos, na forma de 15 mil fragmentos. Como se pode imaginar, juntar todos esses pedaços de pergaminho na sua respectiva posição para que se faça a tradução tem se constituído numa tarefa gigantesca.
A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto confirma aquilo que as pessoas que crêem na Bíblia sempre souberam, ou seja, que a Bíblia, tal qual a temos na
atualidade, é um texto que passa nos testes de fidedignidade. Na foto: as cavernas de Qumran.
A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto confirma aquilo que as pessoas que crêem na Bíblia sempre souberam, ou seja, que a Bíblia, tal qual a temos na atualidade, é um texto que passa nos testes de fidedignidade. Apesar dos ataques contra a Bíblia, a Palavra de Deus permanece para sempre: “O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (2 Samuel 22.31).
Sempre houve pessoas que questionaram a confiabilidade das Escrituras. Uma vez que o texto foi copiado e re-copiado ao longo dos séculos, os críticos alegam que é impossível saber-se com certeza o que os escritores bíblicos escreveram ou queriam dizer originalmente. Os Manuscritos do Mar Morto invalidam tal hipótese ou suposição no que se refere ao Antigo Testamento. Foram achadas entre 223 e 233 cópias das Escrituras Hebraicas, as quais foram comparadas com o texto atual. O único livro do Antigo Testamento que não foi encontrado nessa descoberta é o livro de Ester. É possível que ele esteja oculto numa caverna ainda não identificada de algum lugar isolado.
Antes dessa descoberta, os manuscritos mais antigos das Escrituras Hebraicas datavam do século IX d.C. ao século XI d.C. Tais manuscritos constituem aquele que é chamado de Texto Massorético, termo este originado da palavra hebraica masorah que significa “tradição”. Os escribas judeus de Tiberíades, denominados massoretas, procuraram meticulosamente padronizar o texto hebraico e sua pronúncia; a obra que realizaram ainda é considerada uma referência confiável nos dias de hoje. Os manuscritos de Qumran são, no mínimo, mil anos mais antigos que o Texto Massorético. Na realidade, esses manuscritos são até mesmo mais antigos que a Septuaginta, uma tradução grega do Antigo Testamento elaborada no Egito durante o período de 300 a 200 a.C.

Vasos encontrados em Qumran.

Comparações minuciosas têm sido feitas entre o Texto Massorético e os Manuscritos do Mar Morto. Encontraram-se diferenças insignificantes de ortografia e gramática. Os críticos e céticos em relação à Bíblia ficaram surpresos quanto à maneira pela qual o texto daqueles manuscritos se assemelha ao texto atual. Eles não encontraram nenhuma objeção evidente às principais doutrinas das Escrituras Sagradas. A parte bíblica da literatura descoberta em Qumran confirma o estilo de expressão verbal e o significado do Antigo Testamento que temos em nossas mãos na atualidade: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (João 5.39).
Além das cópias das Escrituras do Antigo Testamento, as cavernas do Mar Morto também nos proporcionaram outras obras escritas. Esses documentos descrevem o estilo de vida e as crenças da misteriosa comunidade que viveu na região de Qumran. Embora não sejam escritos bíblicos, são registros valiosos que possibilitam a compreensão do contexto de vida e da cultura na época do Novo Testamento. Infelizmente os estudiosos dão mais atenção a essas obras de menor relevância do que às Escrituras, ainda que os textos bíblicos sejam mais importantes para os problemas da vida, pois o legítimo plano de Deus para a redenção da humanidade só se encontra no texto da Bíblia.

Uma Exatidão Maravilhosa
O grande rolo de Isaías, encontrado quase intacto em Qumran.

O Manuscrito do Livro [i.e., rolo] de Isaías encontrado na caverna 1 da região de Qumran oferece um sensacional exemplo da transmissão exata do texto na tradução. Acredita-se que esse extraordinário manuscrito date de cem anos antes do nascimento de Jesus Cristo. Foi um manuscrito semelhante a esse que Jesus utilizou na sinagoga da aldeia de Nazaré, quando leu a seguinte passagem das Escrituras: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres” (Lucas 4.18; Isaías 61.1). Ele continuou a leitura até determinado ponto. Em seguida, devolveu o livro [i.e., rolo] ao assistente da sinagoga e se sentou. Enquanto todos tinham os olhos fitos em Jesus, Ele declarou que aquela porção das Escrituras acabara de se cumprir diante dos ouvintes. Dessa forma, Jesus afirmou claramente ser Ele mesmo o Messias de Deus, vindo ao mundo para conceder a salvação a todo aquele que O receber.
A mesma passagem bíblica traduzida diretamente a partir do Manuscrito do Livro de Isaíasdescoberto em Qumran (o qual é cerca de mil anos mais antigo do que o manuscrito hebraico [i.e., o Texto Massorético] no qual se basearam as outras traduções), é praticamente idêntica: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque YHVH [N. do T., o tetragrama sagrado em hebraico que se refere ao nome supremo de Deus: Yahveh ou Javé] me ungiu para pregar as boas novas aos quebrantados”. A integridade da reivindicação de Cristo, conforme está escrita em nossas Bíblias, se confirma.
É fascinante que os manuscritos achados com mais freqüência em Qumran, sejam completos, sejam na forma de pequenos fragmentos, referem-se aos mesmos livros da Bíblia geralmente citados no Novo Testamento: Deuteronômio, Isaías e Salmos. Tal fato desperta um interesse ainda maior à luz das próprias palavras de Jesus concernentes às Escrituras Hebraicas:“A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lucas 24.44).
Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O fato principal acerca da Bíblia e desses rolos de manuscritos resume-se naquilo que um grande expositor das Escrituras, o inglês G. Campbell Morgan (1863-1945), certa feita compartilhou: “Não existe vida nas Escrituras em si mesmas, porém, se seguirmos a direção para onde as Escrituras nos levam, elas nos conduzirão até Ele e assim encontraremos a vida, não nas Escrituras, mas nEle através delas”.
“Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.8).
Infindáveis argumentações e debates têm surgido acerca desses manuscritos. Contudo, os crentes em Cristo podem estar certos de que tais manuscritos bíblicos antigos ratificam, apóiam e dão credibilidade à Bíblia que temos nos dias de hoje. A Palavra de Deus continua a ser a única fonte legítima da fé e da doutrina para todo aquele que busca recompensa eterna.
“São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa” (Salmo 19.10-11).
Sendo assim, pobre Muhammad! Ele tinha esperança de encontrar os tesouros deste mundo, mas achou apenas pergaminhos despedaçados que só prestavam para fazer correias de sandálias! Lamentavelmente o lucro deste mundo é uma prioridade que absorve a pessoa completamente. O mundo considera as Escrituras Sagradas como algo sem valor; ou com alguma utilidade, de vez em quando, para serem citadas como “palavras da boca pra fora”, mas nunca para serem aceitas pela fé e praticadas. Todavia, nós, os salvos em Cristo, temos um conhecimento mais apurado. Temos conhecimento suficiente para não desprezar o tesouro verdadeiro e incalculável que só pode ser descoberto quando se faz uma escavação no solo da Palavra de Deus:

“E, se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus” (Provérbios 2.3-5). (Peter Colón - Israel My Glory - h

                   A Mais Antiga das Antigüidades

A cópia mais antiga das Escrituras do Antigo Testamento conhecida até o dia de hoje foi descoberta em 1979. São dois minúsculos rolos de manuscritos feitos de prata, que eram usados como talismãs e foram descobertos dentro de um túmulo em Jerusalém. O texto de sua inscrição foi cunhado em hebraico antigo. O manuscrito, surpreendentemente, continha uma citação da benção sacerdotal registrada em Números 6.24-26:“O Senhor te abençoe e te guarde;o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.
A inscrição data do século VII a.C., por volta da época do templo de Salomão e do profeta Jeremias. Portanto, esses versículos, provenientes do quarto livro da Torah [i.e., do Pentateuco], são cerca de 400 anos mais antigos do que os Manuscritos do Mar Morto.

fonte Revista Notícias de Israel julho de 2007



Os rolos foram vistos por vários estudiosos na parte posterior do ano 1947, e alguns deles confessam que na época, menosprezaram-nos como sendo falsificações. Um dos professores que reconheceram a verdadeira anti­guidade dos rolos foi o falecido Prof. Eleazar L. Sukenik da Universidade Hebraica, e ele conseguiu mais tarde comprar alguns deles. Outros rolos foram levados para a Escola Americana de Pesquisas Orientais em Jerusalém, onde o Diretor interino, Dr. John C. Trever, percebendo seu grande valor, mandou fotografar os pedaços que foram levados a ele. Uma das suas foto­grafias foi enviada ao Prof. William F. Albright, que imediatamente declarou que esta foi “a descoberta a mais importante que já tinha sido feita no assunto de manuscritos do Antigo Testamento”.
Os rolos que foram comprados pela Universidade Hebraica incluíam o Rolo de Isaías da Universidade Hebraica (lQIsb), que contém uma parte do Livro, a Ordem da Guerra, conhecido também como A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas (1QM), e os Hinos de Ações de Graças, ou Hodayot (1 QH). 
Os rolos comprados pelo arcebispo sírio e publicados pelas Escolas Americanas de Pesquisas Orientais incluíam o Rolo de Isaías de São Marcos (lQI5a), que é um rolo do Livro inteiro, o Comentário de Habacuque (lQpHab), que contém o texto dos caps. 1 e 2 de Habacuque com um comentário, e o Manual de Disciplina (1QS), que contém as regras para os membros da comunidade de Cunrã. Subseqüentemente, estes rolos passaram a integrar o patrimônio do Estado de Israel, e são conservados num santuário especial da Universidade Hebraica em Jerusalém. Têm sido publicados em numerosas edições e recensões, e traduzidos para várias línguas, havendo grandes facilidades para quem deseja estudá-los em tradução ou em fac-símile.
Depois da descoberta destes rolos, que são de grande importância por ter sido quase unanimemente reconhecido que pertencem ao último século a.C. e ao primeiro século d.C., a região onde foram achados tem sido sujeitada a exploração sistemática. Numerosas cavernas têm sido achadas, e até agora, onze destas cavernas têm oferecido materiais da mesma época dos rolos originais. A maior parte destes rolos tem vindo da quarta caverna a ser explorada (Caverna Quatro, ou 4Q), e outros de grande significado foram achados nas cavernas 2Q, 5Q, e 5Q. Segundo as últimas notícias, as descobertas as mais significativas têm sido as da caverna 11Q.
Só da caverna 4Q, os fragmentos achado representam um mínimo de 382 manuscritos diferentes, e uma centena destes são manuscritos bíblicos. Estes incluem fragmentos de todos os livros da Bíblia hebraica menos Ester. Alguns dos livros são representados em muitas cópias diferentes: há, por exemplo, 14 manuscritos diferentes de Deuteronômio, 12 manuscritos de Isaías, e 10 manuscritos dos Salmos, representados nos fragmentos achados em 4Q; outros fragmentos destes mesmo livros têm sido achados em 11Q, mas ainda não foram publicados. Um dos achados significantes, que pode ter grande valor em avaliar teorias sobre data e autoria, diz respeito ao Livro de Daniel, fragmentos do qual têm a mudança do hebraico para o aramaico em Dn 2:4, e do aramaico para o hebraico em Dn 7:28-8:1, exatamente como nos textos de Daniel que se empregam mais recentemente.
Além dos achados de Livros bíblicos, descobriram-se fragmentos de livros deuterocanônicos, especificamente Tobias e Eclesiástico, e também de vários escritos não canônicos. Alguns destes já eram conhecidos: Jubileus, Enoque, o Testamento de Levi, etc. Outros foram totalmente desconhecidos, especial­mente os documentos que pertenciam ao grupo de Cunrã: Salmos de ações de graças, o Livro da Guerra, os comentários sobre trechos das Escrituras, etc~ Estes últimos nos oferecem uma visão da natureza e das crenças da comunidade de Cunra.
Perto dos penhascos no planalto aluvial que domina as praias do Mar Morto há os alicerces de um prédio antigo e complexo, muitas vezes chamado de “mosteiro”. Este foi totalmente escavado durante várias estações, e isto tem desvendado informações importantes quanto à natureza, ao tamanho e à data da comunidade de Cunrã. As moedas achadas ali, junta­mente com outros vestígios, têm oferecido indicações para fixar a data da comunidade entre 140 a.C. e 67 d.C.
 Os membros eram quase todos masculinos, embora que a literatura regulamente as condições para a admissão de mulheres e crianças. O número de pessoas que viviam ali ao mesmo tempo seria aproximadamente entre 200 e 400. Uns 2 km ao sul, em Ain Fexca, foram descobertos remanescentes de outras construções, cuja natureza não tem sido exatamente esclarecida. A água doce da fonte provavelmente foi usada para o plantio, e para outras necessidades da comunidade.
Pela literatura que a seita deixou, sabemos que o povo de Cunrã era judaico, um grupo que se separara da corrente central do judaísmo que se situava em Jerusalém, e que até criticava e mostrava hostilidade aos sacerdotes de Jerusalém. O fato de adotarem o nome “Filhos de Zadoque”, levou alguns estudiosos a postular que os sectários de Cunrã fossem vinculados aos Zadoquitas ou Saduceus; outros estudiosos acreditam que seria mais correto identificá-los com os Essênios, uma terceira seita do judaísmo, descrita por Josefo e Fílon. Não é impossível que haja elementos de verdade em ambas es­tas teorias, e que tenha havido originalmente uma cisão na linhagem sacerdotal ou saducéia que aderiu ao movimento chamado dos hasideanos, os antepassados espirituais dos fariseus, seguida por outra separação posterior para formar uma seita fechada, separatista, parte da qual se situou em Cunrã. Devemos aguardar mais descobertas antes de procurar dar uma resposta final a este problemas complexos.
A comunidade dedicava-se ao estudo da Bíblia. A vida da comunidade era ascética, na sua mor parte, e suas práticas incluíam o banho ritual, que às vezes tem sido chamado batismo. Alguns estudiosos têm entendido que esta prática foi a origem do batismo de João Batista. Uma comparação do batismo de João com o dos cunranianos mostra, no entanto, que as duas práticas eram inteiramente distintas entre si. Isto sendo o caso, mesmo se João tivesse pertencido a esta comunidade (o que não se comprovou, e talvez nunca venha a ser provado), este deve ter desenvolvido distinções importantes na sua própria doutrina e prática do batismo.
Alguns estudiosos acreditam que haja elementos do zoroastrismo nos escritos de Cunrã, especificamente no que diz respeito ao dualismo e à angelologia. O problema é extremamente complexo. O dualismo do zoroastrismo desenvolveu-se consideravelmente na era cristã, e por este motivo é precário argumentar que as crenças do zoroastrismo conforme hoje as conhecemos representem as crenças de um ou dois séculos antes de Cristo.
As descobertas de Cunrã são importantes para estudos bíblicos em geral. Não se pode tirar conclusões acerca do cânon, sendo que o grupo de Cunrã era cismático desde o princípio, e além disto, a ausência do Livro de Ester não implica necessariamente que rejeitava este Livro do Cânon. Quanto à matéria do texto do Antigo Testamento, os rolos do Mar Morto têm grande importância. O texto do Antigo Testamento Grego, ou Septuaginta, e as citações do Antigo Testamento no Novo, indicam que tenha havido outros textos além daquele que veio até nós (o Texto Massorético). 
O estudo dos rolos do Mar Morto revela claramente que, na época de serem produzidos, que seria mais ou menos na época da elaboração dos manuscritos bíblicos utilizados pelos autores do Novo Testamento, havia no mínimo três tipos de textos circulando: um pode ser chamado o precursor do Texto Massorético; o segundo estava nitidamente relacionado com aquele utilizado pelos tradutores da Septuaginta; o terceiro era diferente de ambos. As diferenças não são grandes, e em passagem alguma envolvem assuntos de doutrina; mas para um estudo textual pormenorizado é importante que nos libertemos do conceito que o Texto Massorético seja o único texto autêntico. A verdade é que as citações do Antigo Testamento que se acham no Novo, dão margem para se compreender que não foi o Texto Massorético aquele que mais se empregava pelos autores do Novo Testamento. Precisamos qualificar estas declarações pela explicação que a qualidade do texto é diferente entre os vários livros do Antigo Testamento, e que há muito mais uniformidade no texto do Pentateuco do que em algumas outras porções da Bíblia Hebraica. Os rolos do Mar Morto têm feito uma grande contribuição para, o estudo do texto dos Livros de Samuel.
No que diz respeito ao Novo Testamento, os rolos do Mar Morto são igualmente de grande importância. Obviamente, não existe nenhum texto do Novo Testamento nas descobertas de Cunrã, sendo que o primeiro Livro do Novo Testamento foi escrito muito pouco tempo antes da destruição da comunidade de Cunrã. 
Além disto, não há motivo algum para que alguma escrita neotestamentária tenha sido trazido a Cunrã. Por outro lado, há certas referências e pressuposições no Novo Testamento, mormente na pregação de João Batista e Jesus Cristo, e nas escritas de Paulo e João, que podem ser colocados contra um pano de fundo reconhecidamente semelhante àquele descrito nos documentos de Cunrã. Por exemplo, o pano de fundo gnóstico de certas escritas paulinas que antigamente foi considerado como situação histórica do gnosticismo grego do segundo século d.C. — o que implicaria numa data posterior para a composição da Epístola aos Colossenses — reconhecese agora como sendo o gnosticismo judaico do primeiro século d.C. ou ainda antes da era cristã. Semelhantemente, o estilo do Quarto Evangelho revela-se como sendo palestiniano e não helenístico.
Muita coisa tem sido escrito no assunto do relacionamento entre Jesus Cristo e a comunidade de Cunrã. Não há evidência nos documentos de Cunrâ que Jesus tenha sido membro da seita, e nada há no Novo Testamento que exija tal ponto de vista. Bem ao contrário, a maneira de Jesus encarar o mundo, e mais especialmente, Seu próprio povo, é diametricalmente oposta à cosmo visão de Cunrã, e podemos declarar, sem medo de errar, que Jesus não tenha sido membro daquele grupo em tempo algum. Pode ter sido alguns discípulos que tenham surgido de um passado deste tipo, mais especificamente os discípulos que antes seguiam a João Batista, mas há muita falta de provas neste assunto. A tentativa de comprovar que o Ensinador da Retidão de Cunrã tenha servido como padrão da descrição de Jesus que se registra nos Evangelhos não se corrobora pelo estudo dos rolos do Mar Morto. 
O Ensina-dor da Retidão era um jovem magnífico com grandes ideais, que morreu cedo demais; não há, no entretanto, nenhuma declaração clara que tenha sido condenado à morte, nem se pode inferir que tenha sido crucificado para então ressurgir dentre os mortos, e que os sectários de Cunrã tenham aguarda­do sua volta. A diferença entre Jesus e o Ensinador da Retidão destaca-se nitidamente em vários pormenores: o Ensinador da Retidão nunca foi considerado o Filho de Deus ou Deus Encarnado; sua morte não se revestiu de natureza sacrificial; a refeição sacramental (se realmente tenha sido isto mesmo), não era considerada como sendo uma lembrança da sua morte nem como uma promessa da sua volta, e nada tinha que ver com a remissão dos pecados. t óbvio que no caso de Jesus Cristo, todos estes aspectos são claramente declarados, não só urna vez, mas repetidas vezes no Novo Testamento, e, afinal, são doutrinas fundamentais sem as quais não poderia existir a fé cristã.


Extraído do Livro: “Manual Bíblico – Halley

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