quarta-feira, 2 de agosto de 2017

lançar teu pão sobre as aguas (3)





III - VIVENDO COM FÉ E ESPERANÇA
1. Plantando a semente.
O sábio Salomão já havia orientado em Eclesiastes 11.1o “lançar”, agora ele pede o “semear”. A metáfora tem por objetivo reforçar o que ele já dissera no início desse capítulo, usando a figura de um navio enviado em uma missão comercial. Agora ele usa a figura de um agricultor para dar vida ao seu argumento: “Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas” (Ec 11.6).
R. N. Champlin destaca:
Um agricultor tem de ser ativo pela manhã e à noite, semeando e efetuando os atos normais envolvidos na agricultura. O que o agricultor fizer pode dar certo; todas as suas esperanças podem estar de acordo com aquilo que Deus já determinou, mas também podem discordar. Seja como for, ele continua trabalhando e esperando pelo melhor. O labor humano é vão (v. 8; Ec 1.3), mas precisamos continuar cumprindo nossa parte, deixando todas as coisas nas mãos de Deus.
O destaque aqui é a arte de semear! Assim como é preciso “lançar” também é necessário “semear”. Lançar e semear requer ação! E preciso plantar a semente, pois só colhe quem planta! (2 Co 9.6; Cl 6.7). Muitas vezes o solo da vida é duro, seco e arenoso e por isso semear se torna um trabalho árduo e difícil. Muitos desistem de semear porque as condições não são favoráveis. Desistem logo diante das primeiras dificuldades que a vida lhes impõe. Lawrence Richards sintetiza: “Embora ninguém possa controlar o futuro (v. 3), é melhor se preparar para ele, tão cuidadosamente quanto possível”.
GONÇALVES. José,. Sábios Conselhos para um Viver Vitorioso Sabedoria bíblica para quem quer vencer na vida. Editora CPAD. pag. 142-143.
Ec 11.6 Semeia pela manhã a tua semente. Um agricultor tem de ser ativo pela manhã e à noite, semeando e efetuando os atos normais envolvidos na agricultura. O que o agricultor fizer pode dar certo; todas as suas esperanças podem estar de acordo com aquilo que Deus já determinou, mas também podem discordar. Seja como for, ele continua trabalhando e esperando pelo melhor. O labor humano é vão (vs. 8; Eclesiastes 1.3), mas precisamos continuar cumprindo a nossa parte, deixando todas as coisas nas mãos de Deus.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 2737.
Ec 11 .6— Qual prosperará. Neste versículo, o conselho do autor é não evitar comprometer-se com as coisas, é realizá-las, mas deixar que Deus determine o sucesso ou o fracasso do empreendimento.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 1004.
Se isto não é uma lição de confiança na providência divina, então não sabemos mais nada. Noutro lugar discutimos os males da ganância humana: a usura, o egoísmo, e aqui
temos como o corolário. Lições de confiança em Deus, que tudo governa, tudo administra e com tal precisão, que a nossa terra, que dá uma volta sobre si mesma em 24 horas, nunca se atrasou um minuto. Prontamente está, pela manhã, no mesmo ponto do espaço. Quem lhe deu corda para andar sempre sem parar? Quem fez este mecanismo de tão perfeita execução? Oh! meus leitores! Se vocês comparassem coisas com coisas, iriam ver que somos os maus da terra e do mundo, aos quais, nada obstante, Deus deu tanto saber, tanta felicidade e meios para gozá-la.
Antônio Neves de Mesquita. Provérbios. Editora JUERP.
Gal 6.7 A exortação é intensificada: Não vos enganeis: de Deus não se zomba (―Deus não se deixa escarnecer‖ [RC])! A mesma exclamação também se encontra em 1Co 6.9 e 15.33, dirigindo-se, como aqui, não contra zombadores de fora, nem contra o escárnio aberto de Deus por meio de palavras. Atitudes desse tipo também eram rejeitadas pelos gálatas. Em sua opinião eles justamente estavam no ponto de aumentar decisivamente a sua devoção. Contudo, por meio daquilo que realizavam com seus mestres, zombavam de Deus. O mais tardar no juízo final Deus resgatará a honra que lhe cabe e dará a resposta pertinente. A Bíblia fala do juízo muitas vezes pela metáfora da colheita. É o que faz também a frase proverbial seguinte, que todo agricultor poderá confirmar: pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Toda a série de obras da carne de Gl 5.19-21, as
brigas de Gl 5.15, as gabolices de Gl 5.26, o esquecimento de Deus de Gl 6.7 são sementes que produzirão uma colheita correspondente. Não há como esquivar-se disso.
Adolf Pohl. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.
A prática do bem é um empreendimento universal, que deve visar o bem de todos os seres humanos; mas, sobretudo, 0 bem daqueles que são irmãos em Cristo, que compartilham da mesma busca espiritual e que se apegam aos mesmos ideais, porquanto com tais pessoas é que teremos um maior contato e para elas se inclina toda a nossa simpatia.
O campo dos agricultores espirituais é tão vasto quanto a necessidade humana, tão amplo quanto as oportunidades que surgirem. E essas oportunidades podem ser grandes para cada vida, ainda que totalmente inconspícuas.
«...oportunidade...» No grego é «kairo», que é palavra usada no nono versículo com o sentido de «estação do ano», referindo-se à colheita; mas aqui é empregada para indicar qualquer período oportuno para 0 serviço cristão, qualquer «chance» de servirmos aos outros e de lhes fazermos o bem. Trata-se de qualquer «tempo apropriado, determinado»; e isso explica a tradução «oportunidade». Tal oportunidade se alicerça no discernimento neotestamentário e na fé cristã, que salientam o valor individual de todos os seres humanos. Esse reconhecimento é, antes de tudo, divino, porquanto foi «Deus» quem amou ao mundo tão profundamente, e nós o amamos porque primeiramente ele nos amou a nós, segundo lemos em João 3:16 e I João 4:19.
«O campo aparece como o mundo inteiro; e não há contradição alguma entre o fazer o bem, especialmente para os da família da fé em Cristo, e o amor ao próximo, que talvez não pertença a essa família (ver Gál. 5:13,14).
A função da igreja consiste em dar prosseguimento à encarnação de Cristo, servindo de oficina do Espírito Santo, onde o amor de Deus possa ser demonstrado sob condições controladas. No seio da igreja cristã esse amor deve flamejar com beleza sem-par e com intensidade peculiar, a fim de estabelecer um padrão e atrair os homens aos pés de Cristo, que é 0 seu inspirador. E o resultado disso não é menor bem para com os de fora, e, sim, maior bem. A igreja, como família da fé que é, serve de lugar onde o amor cristão tem início e é aperfeiçoado. Paulo não dava lugar aos sentimentos, que amam ao próximo distante geograficamente, mas que não podem dar-se bem com ninguém, numa mesma casa. Isso não significa, como é óbvio, que o amor à família da fé ocupe o ‘primeiro’ lugar, e que o amor aos demais ocupe o ‘segundo’ lugar, e, sim, que 0 espírito missionário ‘nacional’ e ‘estrangeiro’ é uma só coisa, de aspectos inseparáveis. A influência do Espírito deve ser intensificada a fim de gerar o poder de pregarmos a Cristo ao resto do mundo». (Stamm, in loc.).
«Para os crentes primitivos, pertencer a Cristo era pertencer à comunidade cristã. Amar a Cristo era amar à comunidade. ‘Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte’ (I João 3:14). Os raios da roda de uma bicicleta se aproximam mais e mais, à medida que se avizinham do eixo.
Quanto mais próximos estivermos de Cristo, tanto mais próximos estaremos uns dos outros. É o amor, em todas as suas dimensões, que testa a genuinidade da fé cristã...Um indivíduo pode perder o contato divino se perder o contato humano. A única maneira de servirmos a Deus é servir à humanidade». (Blackwelder, in loc.).
Em Cristo não há Oriente ou Ocidente,
Nele não há Sul e nem Norte;
Mas apenas uma grande comunidade de amor,
Por toda esta vasta terra. (John Oxenham)
«...família da fé...» A igreja cristã é apresentada aqui como uma grande família, o que igualmente se verifica em passagens como I Tim. 3:15; Heb. 3:6; I Ped. 2:5 e 4:17. Está aqui em foco aquela fraternidade formada por i todos os membros da fé, por todos aqueles que exercem fé em Cristo, que ' «igualmente se entregaram de corpo e alma a ele». Trata-se daquela comunidade caracterizada pelo exercício comum da fé em Cristo. Pois o mais certo é que a palavra «...fé...», neste caso, não indique a crença em um «credo» ou sistema doutrinário, ou seja, uma comunidade caracterizada por determinadas crenças, embora isso também diga uma verdade, em termos gerais. Pelo menos quanto a realidades fundamentais, como Cristo, Deus e a salvação, eles estarão de pleno acordo; mas não é isso que este versículo salienta. (Comparar com a «família de Deus», em Efé. 2:19). Essa comunidade conta com 0 mesmo Pai e com 0 mesmo Irmão mais velho. Por conseguinte, todos os seus membros componentes devem possuir um afeto comum, conforme se dá no caso de todas as família terrenas. Também deveriam todos mostrar-se sensíveis para com as necessidades, para com as tristezas, para com os desejos e para com os alvos colimados de cada qual.
De fato, devem compartilhar mutuamente de muitas dessas coisas e atitudes, por causa de sua relação espiritual tão íntima.
«...façamos o bem...» Temos aqui uma declaração bem geral, incluindo obras de cunho espiritual, como o ensino e o ministério da pregação, que muito ajudam aos homens em sua inquirição por Deus é que nos ensinam como devemos buscar 0 Espírito do Senhor. Mas, por outro lado, não tenhamos dúvidas de que a ajuda material também é salientada aqui, como a ajuda financeira, as esmolas, etc.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 519.
2. Germinando a semente.
Vimos que podemos semear, mas não podemos fazer a semente germinar: “Não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas” (Ec 11.6). A atividade de semear, plantar é uma operação de risco e exige fé de quem semeia ou planta. Pode ser que a semente plantada não germine e tudo que o semeador semeou tenha sido em vão. Mas era um risco que ele precisava correr.
Não há dúvida de que Salomão via a vida como um grande campo e com ele uma grande variedade de solos. Com certeza havia muitos solos nos quais fosse não atrativo semear, mas o agricultor só saberia que a semente germinaria se semeasse. O que dependeria também do clima. Era, portanto, preciso fé, perseverança e esperança. Uma bela metáfora da lei da sementeira espiritual. De nada adianta ficarmos observando o caos social e não tomarmos nenhuma atitude. É necessário que façamos a nossa parte semeando a genuína Palavra de Deus nesse solo duro e pedregoso (Lc 8.5-15).
“Levante-se, plante a sua semente em diversos lugares”, escreve Ed René Kivitz, “diversifique, pois você não sabe quase nada: “assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é formado no ventre de uma mulher, também não pode compreender as obras de Deus, o Criador de todas as coisas”
(11.5). Por isso, mexa-se, movimente-se, recicle, aprenda, cresça, trabalhe! O Eclesiastes nos chama para o trabalho sem ilusões: ainda que o aleatório atravesse o curso das coisas e faça uma bagunça nas expectativas e probabilidades, trabalhe”.
GONÇALVES. José,. Sábios Conselhos para um Viver Vitorioso Sabedoria bíblica para quem quer vencer na vida. Editora CPAD. pag. 143-144.
O autor está lidando com fenômenos que escapam à nossa Inteligência e observação. Quem sabe o caminho do vento? Jesus mesmo advertiu Nicodemos afirmando que o vento sopra e não sabemos de onde vem nem para onde vai (João 3:8); no entanto, faz a sua ronda pela terra de acordo com as determinações do seu Autor. É o mesmo que dizer que muitas coisas que constituem o cerne da vida escapam à nossa direção, e nem por isso deixam de cumprir a sua missão. De acordo com essa diretriz, não vamos alterar a ordem dos fatos que não controlamos, mas continuemos a rodar o filme da vida como se tudo estivesse debaixo de nosso controle. Igualmente, não sabemos como se formam os ossos (da criança) no ventre materno; todavia, isso em nada influi no nascimento de crianças, pois tudo está dentro do cronograma divino, em que nada falha. Parece-nos que o autor está dando, ou pretendendo dar, lições aos que desejam governar os tempos e as estações e calcular o que vai acontecer com o seu dinheiro, com as coisas que estão nas suas mãos, esquecendo-se que tudo é obra de Deus, que faz todas as coisas. É maravilhoso notar a ordem da criação: as flores, os passarinhos chilreando, os pombinhos esvoaçando, as minhocas se enroscando debaixo das pedras, cada qual cumprindo a sua tarefa. Parece que os seres humanos são rebeldes à natureza, e nem recordam que Deus faz todas as coisas. Um pouco de fé não faria mal a ninguém.
Antônio Neves de Mesquita. Provérbios. Editora JUERP.
É significativa a observação de que uma grande multidão rodeava Jesus e de que vinham pessoas de todas as cidades.
A simpatia do povo de que Jesus usufruía inicialmente parecia até mesmo aumentar (cf. Lc 4.15; 5.1; 6.17). Lucas assinala aqui um ápice dessa popularidade. Jesus não se deixou iludir por esse aspecto exterior. A forma como apresentava sua pregação mostra que ele não depositava grandes esperanças nas massas populares que acorriam.
É o entorno que fornece ao Senhor a ilustração das quatro categorias de ouvintes que estão diante de seus olhos. Na margem do lago as terras sobem de forma íngreme. A parte mais alta da ribanceira está coberta somente por uma fina camada de terra, enquanto a camada de húmus aumenta na proporção em que o campo se inclina para o vale. Essa situação pode explicar as diferenças de solo mencionadas.
São características as quatro preposições utilizadas por Lucas: “à beira de”, “sobre”, “no meio de”, “em”, para definir as relações distintas da semente com o solo.
A constituição do solo é determinante para o desenvolvimento da semente. A primeira espécie de solo nem sequer faz com que a semente germine. A circunstância de que a semeadura não germina é causada imediatamente por perturbações exteriores: os pés dos passantes e os pássaros. Mateus e Marcos citam somente os pássaros.
Na segunda categoria de solo a semente germina. Porém a raiz não consegue se desenvolver sobre a base rochosa. Uma vez que o sol em breve resseca a fina camada de terra, a planta morre.
No terceiro tipo de solo a semente se desenvolve até formar espigas. Contudo, os espinhos que crescem com elas sufocam o trigo antes que o fruto amadureça.
Na quarta espécie de solo a semente percorre todos os estágios de desenvolvimento. Lucas cita tão-somente o grau mais elevado de fertilidade em terra boa para plantio, dizendo: esse solo produz frutos a cem por um. Os dois primeiros evangelhos sinóticos mencionam também índices menores de produtividade: Marcos em ordem ascendente, ou seja, 30 / 60 / 100 por um, e Mateus em ordem decrescente, a saber, 100 / 60 / 30 por um.
O Senhor adverte os ouvintes para que prestem plena atenção com o coração. Embora se possa compreender facilmente a presente parábola, o ouvido físico não é suficiente para a audição e compreensão corretas. É preciso que se some o ouvido do coração, i. é, a abertura interior. A fórmula “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” ocorre oito vezes nos evangelhos (Mt 11.15; 13.9,43; Mc 4.9,23; 7.16; Lc 8.8; 14.35) e retorna também no Apocalipse (Ap 2.7,11,17,29; 3.13,22; 13.9). Em outras palavras, significa: quem deseja ser abençoado por Deus através dos sermões em parábolas, ouça com coração ardente e considere-os seriamente (cf. Dt 29.4; Is 32.3; 35.5; Jr 5.21; Ez 12.2; Zc 7.11; Mt 13.13).
Na pergunta dos doze sobre o significado do discurso de parábolas Jesus reconheceu a abertura e o desejo do coração de seus discípulos, algo de que sentia falta na multidão do povo.
Os maiores detalhes a esse respeito são trazidos no Comentário Esperança, Mateus, sobre Mt 13.10-15, e Marcos, sobre Mc 4.10-20.
O Senhor anunciava aos seus o mistério do reino de Deus, i. é, o desígnio divino, conforme será consumado no futuro. A parábola visava provocar a separação entre os ouvintes de pensamento receptivo ou hostil. Os discípulos de pensamento receptivo vieram a Jesus atraídos pela linguagem figurada, a fim de buscar instruções acerca do significado da parábola. A massa popular, porém, que carecia do interesse do coração, afastou-se. A nação israelita havia fechado arbitrariamente os ouvidos ao claro chamado da boa notícia. Por isso a mensagem não se tornava mais compreensível, mas mais embotada. Essa atitude causou o juízo justo de Deus. O processo de endurecimento do povo judaico já havia sido profetizado por Isaías. O povo judaico repeliu cada vez mais a luz que resplandecia em Jesus. Conseqüentemente, o Senhor ocultou essa luz com o véu da parábola. O resultado foi que as obras de Deus diante dos indiferentes e renitentes fossem mais e mais encobertas, enquanto por outro lado a mesma pregação de parábolas deixava os planos e pensamentos de Deus cada vez mais manifestos aos receptivos e crentes.
A cada momento todos os ouvintes têm a liberdade de passar da grande multidão para o pequeno círculo de discípulos, a fim de reconhecer o mistério do reinado de Deus.
O Senhor compara o desenvolvimento do reino de Deus com o processo evolutivo do grão semeado. Assim como essa evolução depende da constituição do solo, assim o efeito da pregação da palavra também depende da constituição do coração dos ouvintes.
Os ouvintes que correspondem ao primeiro tipo de solo são constituídos de tal forma que a palavra até entra por seus ouvidos, mas não é acolhida por eles. A semente dispersa na superfície da terra perece sem resultados. É esmagada ou comida pelos pássaros.
Lucas afirma que é o diabo (diábolos) que rouba a palavra ouvida dos corações, Mateus o designa de maligno (ponerós), Marcos o chama de Satanás (satanas). Nesta explicação a atividade do diabo é vista apenas em paralelo com a circunstância. Assim como a semente não acolhida serve de comida para os pássaros, assim a palavra de Deus não acolhida pelo ouvido do coração se apresenta como despojo para o diabo. Para frustrar a eficácia da palavra, o diabo a retira novamente, fazendo com que ela caia no esquecimento.
Os ouvintes da segunda parte da parábola correspondem à semente que cai sobre as rochas, i. é, sobre um solo que sem dúvida foi revolvido. Em termos negativos Jesus afirma que a semente que germinou e cresceu não tem raiz na fina camada de terra. Dito sem metáforas isso significa: embora o ouvinte esteja aberto para ouvir a palavra, ele se assemelha à semeadura sem raízes que carece de solo firme. É característico desses ouvintes superficiais que a semente logo caia no solo, devido ao entusiasmo fácil e rápido. Lucas até mesmo acrescenta que a acolhida da palavra aconteceu com visível alegria. No entanto, quando importa comportar ou firmar-se como amante da palavra, sob a pressão de diversas dificuldades e adversidades, há uma queda imediata. Muito em breve se mostra que esses adeptos aparentes ou superficiais não possuem fundamento firme por dentro. Assim como a semente que em solo rochoso não cai imediatamente sobre a superfície dura e impenetrável, mas sobre uma camada de terra excessivamente fina, assim a palavra anunciada não encontra nesses ouvintes uma incompreensão total, mas uma superficialidade de entendimento, pelo que a palavra não é profundamente refletida e guardada no coração.
Na terceira parte da parábola, a semente não cai sobre um solo endurecido pelas pisadas nem excessivamente fino, mas em terreno contaminado por plantas espinhentas. Os ouvintes que correspondem a esse tipo de solo não se opõem à proclamação da palavra com dura incompreensão nem com superficialidade de entendimento, mas existe neles uma discrepância do coração, uma dicotomia dos sentidos. Tendências pecaminosas secretas, como preocupações ou ambições de
riqueza ou prazeres da vida preenchem o coração e não são eliminadas. A semente cresce nesse solo contaminado, mas não atinge a maturação porque os espinhos crescem viçosos com ela, sufocando as plantas. As inclinações pecaminosas ocultas no coração, das quais não se abre mão, tornam-se cada vez mais poderosas e tomam cada vez mais conta do ser humano. O desfecho é a sufocação total e o amortecimento até mesmo do início positivo. Como Marcos, também Lucas traz uma tríplice classificação dos fatores que sufocam, não permitindo que a planta amadureça. São eles: 1) as preocupações, 2) a riqueza e 3) os deleites da vida terrena. Mateus fala de dois aspectos, a saber, das preocupações da era presente e do engodo da riqueza (Mt 13.22).
Somente na quarta categoria de ouvintes se pode falar de uma acolhida correta no sentido pleno da palavra. Mateus fala de ouvir e compreender. Marcos menciona ouvir e acolher. Os ouvintes do segundo tipo até acolheram a palavra com alegria. Mas diferente desse segundo grupo, Lucas diz agora, de forma proposital e nítida, que os verdadeiros ouvintes da palavra a retêm em um bom e reto coração, depois de ouvi-la.
Entretanto, eles não apenas retêm a palavra ouvida, mas permitem que ela amadureça. Os verdadeiros ouvintes, que conservam a palavra, evidenciam-se como persistentes, constante e fiéis na produção de frutos, de modo que haja frutos cada vez mais ricos.
Nesses ouvintes a palavra anunciada encontra sempre um ouvido aberto e um coração sempre disposto, bem como uma mente receptiva. Então, a proclamação da palavra produz nesses ouvidos e corações uma reformulação e transformação de toda a vida, um amadurecimento de etapa em etapa, e uma gloriosa frutificação múltipla.
Mas um ponto importante da explicação das quatro partes da parábola não deve ser mal-interpretado. O solo não pode ser responsabilizado pela constituição diversa do terreno. – Por outro lado, não foi sem decisão consciente da vontade que o ouvinte veio a ter a forma atual de terreno em seu coração. Por isto, a responsabilidade do ouvinte permanece sempre e integralmente válida diante da palavra de Deus.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.
Luc 8.4-15. A parábola do solo de quatro partes, V. 4) Afluindo uma grande multidão e vindo ter com ele gente de todas as cidades, disse Jesus por parábola: 5) Eis que o semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho; foi pisada e as aves do céu a comeram. 6) Outra caiu sobre a pedra; e, tendo crescido, secou, por falta de umidade. 7) Outra caiu no meio dos espinhos; e estes, ao crescerem com ela, a sufocaram. 8) Outra, afinal, caiu em boa terra; cresceu e produziu a cento por um. Dizendo isto clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. A fama de Cristo ainda se espalha tão rapidamente, que pessoas de todas as cidades e vilas, de perto e de longe, se juntavam para ver e ouvi-lo. Foram a ele, quando esteve junto à praia do Mar da Galileia. E ele usou um barco por púlpito, para alcançar a todos, Mt. 13. 2; Mc. 4. 1. Falou ao povo em parábolas sobre os mistérios do reino de Deus, sendo uma delas a que Lucas registra aqui. Um semeador saiu para semear sua semente. A figura é a de um agricultor que lança, de modo amplo, sua semente na terra. Assim como a paciência e a generosidade do Pai celeste não se cansa apesar do muito trabalho aparentemente perdido, Is. 49.4, assim, o agricultor tem a cada ano novo ânimo e esperança. Seu trabalho é um exemplo para os nossos dias. “Cada pregador piedoso, quando vê que as coisas não prosperam mas parecem piorar, sente-se à beira do desespero sobre sua pregação, mas, ainda assim, não pode desistir por amor duns poucos eleitos. Isto está escrito para o nosso consolo e admoestação, para que não sejamos tomados de surpresa e nem julguemos estranho quando só uns poucos aceitam o benefício de nossa doutrina mas que alguns, até, se tornam piores. Pois, via de regra, os pregadores, especialmente quando são novos e recém vieram da instituição, crêem que seu sucesso devia ser imediato, ou seja, no mesmo instante em que falaram, e que tudo devia ser feito e acontecer rapidamente. Mas isto é um grande engano. Os profetas e o próprio Cristo tiveram esta experiência”53) Assim como o semeador, no trabalho paciente de sua vocação, lança sua semente, da qual alguma saltou para além dos limites, caindo no caminho que cruzava pela lavoura. Esta é uma figura duma paisagem da Palestina, que as trilhas entre as diversas vilas e povoados seguiam a direção mais direta e as encostas mais fáceis, não respeitando as lavouras. Como resultado, os viajantes que usavam a trilha pisavam e esmagavam a semente, e as aves vinham e as comiam. Outros grãos caíram sobre a rocha ou num solo rochoso, onde a rocha estava a poucos centímetros da superfície. Ali havia solo fértil e calor, que ofereciam as melhores condições para uma germinação rápida, mas não fertilidade e solo suficientes para suportar a planta durante seu crescimento. A pedra abaixo absorvera o calor do sol, fazendo que nesse lugar evaporasse qualquer restinho de fertilidade. Mais outras sementes caíram entre os espinhos, onde a preparação do solo não conseguira extinguir as raízes do inço. Por isso, quando a semente havia brotado e as astes apareceram, os espinhos que eram mais vigorosos absorveram tanto o sol como o ar e desta forma sufocaram as plantinhas tenras. Foi só a semente que caiu no solo bom que cumpriu as esperanças do agricultor. Ela cresceu, não só em folhas, mas formou astes cheias de grãos e madurou num rico retorno, que atingiu a cem por cento. Após ter contado esta parábola, Jesus acrescentou uma palavra de advertência e exortação, que as pessoas ouvissem realmente, não só com os ouvidos do corpo mas com os ouvidos espirituais, para conseguirem a compreensão plena da lição que lhes quis repassar.
A explicação da parábola, V. 9) E os discípulos o interrogaram dizendo: Que parábola é esta? 10) Respondeu-lhes Jesus: A vós outros é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; aos mais fala-se por parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam. 11) Este é o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. 12) A que caiu à beira do caminho são os que a ouviram; vem a seguir o diabo e arrebata-lhes do coração a palavra, para não suceder que, crendo, sejam salvos. 13) A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, creem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam. 14) A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer. 15) A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança. Naquele tempo os discípulos eram ainda muito pobres em conhecimento e na compreensão espiritual. Jesus, por isso, pacientemente lhes expõe o significado da parábola, visto que a eles foi concedido conhecer os mistérios do reino de Deus, não porque eles o merecessem ou disso fossem dignos, também não porque por sua própria razão ou força estivessem interessados em Cristo e sua obra. No caso dos demais, contudo, ou seja, daqueles que não queriam crer, as palavras tinham um objetivo deferente. Vendo, não deviam ver, e ouvindo, não deviam entender. Os olhos de seus corpos podiam contemplar tudo o que acontecia em milagres e outros acontecimentos, não, porém, iriam reconhecer o poder de Deus e que Jesus era o Messias. Seus ouvidos podiam ouvir o som das palavras, mas o significado destas lhes permanecia oculto. O que Isaías fora obrigado a dizer sobre o endurecimento de Israel se estava cumprindo, Is. 6. 9-10. O juízo de Deus sobre um povo desobediente havia começado nos dias de Isaías, e se completou nos dias de Cristo e dos apóstolos. É uma advertência séria para os todos os tempos, 2.Co. 2. 15-16; 4. 3-4. A explicação da parábola, dada por Cristo, foi breve e simples. A semente da qual fala é a palavra. Esta deve ser espalhada e difundida largamente, sempre de novo e com paciente empenho. A primeira classe de ouvintes são aqueles à beira do caminho, que são só ouvintes. No caso deles, não há qualquer chance para a palavra começar sua influência salvadora. A semente permanece do lado de fora de seus corações, e o diabo a leva embora para que não aconteça que, crendo, sejam salvos. “É por isso que ele diz, que o diabo vem e lhes tira a palavra do coração, para que não creiam e sejam salvos. Este poder do diabo não só significa que lhes endurece os corações, por meio de ideias e um viver mundano, e assim perdem a palavra e a deixam escapar, para que jamais a entendam, mas também que em lugar da palavra de Deus o diabo envia falsos mestres que a pisoteiam com doutrinas de homens. Pois as duas coisas são afirmadas aqui, que a semente é pisoteada no caminho e que ela é comida pelos pássaros”. ) A segunda classe de ouvintes são aqueles que têm uma mera casquinha e um conhecimento raso de cristianismo. Com eles o “seguir uma religião” é um mero incidente, sendo eles capazes de mudar sua confissão tão facilmente como trocam de roupa. No caso deles, não há a idéia da instrução na doutrina. Não são solidamente firmados e arraigados nas Escrituras. Não são decisivamente despertados enquanto dura sua religião e seu zelo não dura. Por algum tempo, que, via de regra é breve, eles participam bem ativamente no trabalho da igreja. Mas, a seguir seu interesse voa e desaparece, e tão depressa como, no começo, apareceu. No tempo da tentação, quando parece que há perigo de sofrimento por causa de suas convicções, já não estão mais entre os presentes. “A segunda classe contém aqueles que, com alegria, aceitam mas que não persistem. Estes são muitos que ouvem corretamente a palavra e a aceitam em sua pureza, sem quaisquer seitas, sismáticos e entusiastas. Estão também estão felizes porque podem ouvir a correta verdade e descobrem como podemos ser salvos sem obras mas por fé. Igualmente, porque foram libertos dos grilhões da lei, da consciência e dos preceitos humanos. Mas, quando chega a hora do combate, quando por causa disso deviam sofrer danos e desprezo, perder vida e bens, então caem fora e negam a tudo”. ) A terceira classe inclui aqueles que também ouvem a palavra, e em cujos corações a palavra encontra um alojamento apropriado. Mais tarde, porém, sendo dominados pelos cuidados das riquezas e dos prazeres da vida, asfixiam, no que diz respeito à fé, e não conduzem seu fruto ao amadurecimento. Muito apropriadamente, isto é chamado de asfixia, visto que o processo não se consuma logo mas acontece aos poucos e por um longo tempo. Muito gradualmente o amor ao dinheiro e a ilusão das riquezas entra, furtivamente, em seus corações; ou, exatamente como se fosse algo despretensioso, o gosto dos prazeres do mundo toma posse da mente, até que, sem que o notem, a remanescente fagulha da fé se extinguiu. “A terceira classe que ouve e aceita a palavra mas, ainda assim, cai para o lado errado, isto é, para o prazer e despreocupação desta vida, também não produz fruto conforme a palavra. O número deste também é muito grande. Pois, mesmo que não criem heresias, como o fazem os primeiros, mas sempre têm a pura palavra, e que também não são atacados pelo lado esquerdo por oposição e tentação, estes caem, porém, pelo lado direito, e sua ruína é esta, que gozam paz e dias bons. Por isso, não levam a palavra a sério, mas se tornam despreocupados e afundam nos cuidados, nas riquezas e nos prazeres da vida, assim que já não têm mais serventia”.56) Tão somente a última classe de ouvintes, em cujo caso a semente da palavra cai em corações que foram corretamente preparados pela pregação da lei, é de valor no reino de Deus. Ali o pacífico conhecimento do próprio eu é substituído pela nobreza e a generosidade da alma regenerada. A palavra que ouviram também guardam. Permanecem seguros à glória e ao poder da palavra, e, assim, são capacitados para produzir, com toda perseverança, o fruto que agrada plenamente a Deus.KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Volume 1. Editora Concordia Publishing House.
fonte www.mauricioberwaldoficial.blogspot.com

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