sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Chamada ministerial (4)




Ap 3.15,16 Esta alusão ao abastecimento de água de Laodicéia é uma metáfora adequada para as atividades desta igreja. Laodicéia sempre tinha tido um problema com o seu abastecimento de água. A cidade de Hierápolis, a noroeste, era famosa pelas suas fontes minerais de águas quentes. Um aqueduto tinha sido construído para trazer água das fontes à cidade. Mas, quando a água chegava à cidade, ela não estava nem quente nem refrescante - somente morna e cheia de minerais (impura), de maneira que tinha um sabor terrível. De acordo com Cristo, estes crentes não eram nem frios nem quentes, mas mornos, tão insípidos quanto a água morna que chegava à cidade.
Muitos pensaram que as palavras “quente” e “frio” se referem à espiritualidade, e que Cristo preferiria ter pessoas “frias” (sem nenhuma fé, ou sem nenhum tipo de crescimento) a crentes “mornos” (que tinham um pouco de fé). Eles interpretaram a palavra “frio” como sendo negativa, e “quente”, como sendo positiva, com a palavra “morno” como um meio-termo entre estes dois estados. Na verdade, tanto “frio” quanto “quente” devem ser interpretados como estados positivos. Cristo desejava que aquela igreja tivesse uma pureza refrescante (fria), ou um valor terapêutico (quente), mas ela não tinha nada disso.
Ap 3.17 Laodicéia era uma cidade rica, e aparentemente a igreja também era rica. Não está claro se os crentes de Laodicéia estavam reivindicando riqueza espiritual ou material.
Eles podem ter sido materialmente ricos e imaginado que as riquezas eram um sinal das bênçãos de Deus sobre eles. Com a sua riqueza, vinha uma atitude de auto-sufidênda – um sentimento de que de nada tinham falta. Eles estavam materialmente seguros e sentiam-se espiritualmente a salvo - sem a necessidade de mais crescimento. Infelizmente, esta atitude os cegou para a sua própria condição verdadeira - desgraçados, miseráveis, pobres, cegos, e nus. Compare isto com a situação da igreja de Esmirna; eles eram pobres, mas Cristo os chamou de ricos (2.9). Os crentes de Laodicéia podem ter sido ricos, mas estavam espiritualmente empobrecidos. Embora a cidade se orgulhasse da sua grande riqueza financeira, de uma indústria têxtil produtiva, e da pomada oftálmica especial, a verdadeira condição espiritual da igreja deixava a cidade pobre, nua, e cega (veja 3.18).
Ap 3.18 Laodicéia era conhecida pela sua grande riqueza, mas Cristo disse aos crentes de Laodicéia que comprassem ouro dele; então, teriam verdadeiros tesouros espirituais (veja 1 Tm 6). Eles tinham ouro de tolos nas suas contas bancárias, ouro deste mundo, sem nenhum valor espiritual ou eterno. Eles só enriqueceriam com o ouro de Cristo.
A cidade orgulhava-se das suas indústrias de tecido e tintura. Eles tinham desenvolvido uma lã negra que tinha ficado famosa por todo o império romano e que alcançava preços elevados. Embora se vestissem ricamente, estavam nus diante de Deus. Eles eram egoístas.
Mas Cristo lhes disse que comprassem vestes brancas (a sua justiça) dele, para que náo aparecesse a vergonha da sua nudez. Laodicéia orgulhava-se de uma pomada oftálmica preciosa que curava muitos problemas dos olhos, mas os seus habitantes estavam espiritualmente cegos. Cristo lhes disse que ungissem os olhos com o colírio dele, para que vissem a verdade Jo 9.39). Cristo estava mostrando aos crentes de Laodicéia que o verdadeiro valor não está nas posses materiais, mas em um relacionamento correto com Deus. As suas posses e realizações não tinham valor algum, quando comparadas com o futuro eterno do Reino de Cristo.
Ap 3.19 Havia uma segunda chance para esta igreja; Cristo lhes oferecia a oportunidade de se arrependerem. A sua repreensão e castigo viriam por causa do seu amor pela igreja (Pv 3.12). Cristo “vomitará” aqueles que desobedecerem (3.16), mas disciplinará aqueles que Ele ama. Devido a esta misericórdia, os crentes devem se arrepender voluntariamente, percebendo a necessidade que têm de Cristo em todas as áreas de suas vidas e ministérios. Então, eles serão eficazes para Ele.
Ap 3.20 A igreja de Laodicéia era complacente e rica. Eles sentiam-se satisfeitos consigo mesmos, mas não tinham a presença de Cristo entre eles. Cristo batia à porta dos seus corações, mas eles estavam tão ocupados desfrutando os prazeres mundanos, que não percebiam que Ele estava tentando entrar. Os prazeres deste mundo — dinheiro, segurança, bens materiais – podem ser perigosos, porque a satisfação temporária que eles trazem pode tornar as pessoas – até mesmo os crentes - indiferentes à oferta de Deus de uma satisfação permanente e eterna.
Muitos interpretaram este versículo como uma ajuda na evangelização, retratando Cristo tentando entrar no coração de um indivíduo.
O contexto é Cristo realmente falando a uma igreja toda. As pessoas da igreja de Laodicéia precisavam aceitar Cristo pela primeira vez, pois algumas delas nunca tinham assumido este compromisso. Outras precisavam tornar a crer nele de todo o seu coração. Cristo está batendo à sua porta, desejando que a igreja de Laodicéia se lembre da necessidade que tem dele e abra a porta. Ele entraria e cearia com os crentes, retratando a comunhão à mesa.
No costume oriental, este “cear” referia-se à principal refeição do dia, que os amigos íntimos compartilhariam. Esta refeição retrata o tipo de comunhão que existirá no Reino vindouro do Messias (19.9; Is 25.6-8; Lc 22.30). A igreja precisava se arrepender da sua auto-suficiência e da sua transigência e retornar a Cristo.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 848-849.
Laodicéia Não É Quente Nem Fria (Ap 3.15-17)
"Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente: oxalá foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu ".
Aparentemente, os crentes em Laodicéia estavam agindo como se tivessem esquecido quem era Jesus e porque havia Ele morrido. O Senhor Jesus faz-lhes, então, uma advertência muito forte por não serem nem "frios" nem "quentes". Antes de haverem aceitado a fé, eram frios. Ao receberem a Jesus, haviam se tornado quentes - zelosos seguidores do Mestre. Agora, porém, encontravam- se num perigoso estado intermediário - a mornidão espiritual. Não estavam mais desejosos de corresponder ao movimento do Espírito, nem estavam frios o suficiente para perceber quão grandes eram suas necessidades. Além de nada fazerem à obra de Deus, não respondiam ao seu chamado ao arrependimento. Por isso, Jesus deseja que fossem frios ou quentes, pois, assim, poderia fazer alguma coisa por eles.
O Senhor aquieta-se quando lida com um povo a quem não pode usar nem abençoar. Os de Laodicéia não se opunham ao Senhor, mas também não se aproximavam dEle. Como água morna não serve para se beber, de igual modo os crentes mornos jamais se tornarão aptos a seguir a Cristo.
Por isso, Ele os "cuspirá" (literalmente, "vomitar"), ou rejeita-los-á. Agiam como o segundo filho da Parábola dos Dois Filhos, onde o pai pediu a um que fosse trabalhar na vinha. Embora este dissesse: "Eu vou, e não o foi" (Mt 21.30). Eles reivindicavam serem cristãos, mas não faziam a vontade do Pai Celestial.
Laodicéia era um rico centro de comércio. A prosperidade era a causa da mornidão daquela igreja. Eles haviam se tornado ricos e cheios de bens materiais. Com o dinheiro que já tinham, multiplicavam ainda mais suas posses. Estavam, agora, tão envolvidos com a vida material que eram induzidos a negligenciar a espiritual (Mt 13.22). Esta igreja não havia sofrido nenhuma perseguição. Não havia sido invadida pelas falsas doutrinas nem pelos falsos apóstolos. Para as outras igrejas, sua situação era excelente, ideal. Os cristãos de Laodicéia haviam se tornado tão satisfeitos e eufóricos com as coisas que o dinheiro pode comprar, que foram levados a perder o desejo pelas coisas de Deus. Infelizmente, não haviam aprendido ainda a "viver em prosperidade" (Fp 4.12). Como resultado, sua satisfação era falsa por ignorarem as coisas de Deus.
Como na Parábola do Rico Tolo (que por ter muito, só cogitava em construir celeiros cada vez maiores), os crentes daquela cidade achavam que não tinham mais necessidades. Deus, contudo, os viu, não como se estivessem usufruindo de bênçãos, mas como desgraçados, miseráveis, pobres, cegos e nus". Eram tão miseráveis como os não salvos, tão desgraçados como os piores pecadores. Eram pobres porque não possuíam as verdadeiras alegrias do céu. Cegos, porque não tinham percebido que poderiam usar suas riquezas para levar o Evangelho a outros. A prosperidade que possuíam tinha lhes roubado o fervor e a esperança, por isso não mais aguardavam o retorno de Cristo com o anelo que uma vez tiveram. Estavam nus, porque achavam-se despidos da justiça de Cristo. Confiavam na prosperidade como suposta evidência das bênçãos divinas.
Laodicéia É Desafiada (Ap 3.18,19)
"Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e vestidos brancos, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo: sê pois zeloso, e arrepende-te. "
Apesar de Jesus não ter nenhum motivo de elogio a esta igreja, mas somente repreensões, ainda assim oferece-lhe esperanças. Em vez de procurar as riquezas deste mundo, deveriam eles comprar de Jesus "ouro provado no fogo", testado e refinado, livre de impurezas. Este é o ouro da fé, que vale muito mais do que todo o ouro deste mundo, não importando
quão puro e valioso este possa vir a ser (1 Pe 1.7). Deus quer que sejamos ricos na fé.
Comprar de Jesus não significa necessariamente dar dinheiro pelo seu trabalho, embora isto talvez esteja implícito aos crentes de Laodicéia. Seria bom, contudo, se observássemos o clamor do Senhor em Isaías 55.1,2 que diz: "O vós todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Porque gastais o dinheiro naquilo que não é pão? e o produto de vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi- me atentamente, e comei o que é bom e a vossa alma se deleite com a gordura".
Eles poderiam comprar de Jesus também "vestidos brancos" - a veste triunfante da justiça (Ap 9.89). Isto, através do sangue do Cordeiro, onde adquiririam uma justiça imputada por Cristo. Uma justiça que fosse real, em suas vidas, através do processo santificador do Espírito Santo.
Precisavam comprar também "colírio" (produto pelo qual Laodicéia tornara-se conhecida). Lembra-nos isto a unção espiritual para os olhos. Deste modo, poderiam ver o seu verdadeiro estado espiritual, e receber a ajuda do Espírito e da Palavra. Então, teriam uma visão clara de Cristo, do céu, e das demais coisas do Espírito. Em João 16.13, Jesus promete que o Espírito Santo nos guiará em toda a verdade, isto é, a verdade do Evangelho, da Palavra de Deus.
No caso de os laodicenses confundirem essas repreensões, pensando ser Jesus mau e vingativo, o Senhor assinala-lhes que Ele repreende e disciplina a todos quantos ama. Seu amor é caloroso e pessoal, não distante. O "eu", aqui, é enfático. O Pai castiga e disciplina a todo aquele que recebe por filho (Pv 3.11,12; Hb 12.5,6).
"Repreendo" é traduzido da mesma palavra grega usada para "reprovo" em João 16.8, onde é empregada para um trabalho específico do Espírito Santo. A palavra inclui a ideia de "expor, repreender, refutar, e mostrar-se culpado". Isto é: o Espírito convence através de prova. Jesus faz aos laodicenses a mesma coisa que fez a João. E, do mesmo modo, o Espírito Santo fará tanto ao mundo, ao çrente carnal e ao cristão espiritual.
Haveria esperança aos laodicenses caso eles se arrependessem. Mas isto implicaria numa mudança de atitude, de coração; enfim: um retorno ao antigo fervor. Acontecendo isto, deveriam consagrar-se a si mesmo num zelo contínuo, como mostra o tempo verbal grego.
Cristo Está à Porta (Ap 3.20)
"Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo."
As palavras finais de Cristo à igreja em Laodicéia são uma outra demonstração maravilhosa de seu amor. Após repreendê-los, Jesus coloca-se a si mesmo do lado de fora da porta da igreja, e bate repetidamente, esperando que alguém lhe responda. Apesar de havê-los advertido severamente, seu desejo real não é cuspi-los fora de sua boca, mas "cear" com eles. Jesus está buscando a restauração da comunhão perdida com tais crentes.
Este convite de Cristo era endereçado também a todas as igrejas que não mais possuíam o fogo do avivamento, que tinham se tornado meras organizações ao invés de organismos vivos. Se alguém lhe abrisse a porta, e lhe aceitasse a oferta de renovação espiritual, o avivamento com certeza viria.
Podemos também aplicar esta verdade de forma individual. Jesus não forçará nenhuma igreja, ou pessoa, a aceitá-lo. Mas se alguém abrir-lhe o coração, Ele entrará, trar-lhe-á sua bênção, proporcionando-lhe a maravilhosa comunhão no Espírito.
Além do mais, a Bíblia fala-nos de uma grande ceia que está para vir - as Bodas do Cordeiro. Somente os que ceiam com Ele, agora, ceiarão com Ele no porvir.
HORTON. Staleym. M. Serie Comentário Bíblico Apocalipse As coisas que Brevemente devem acontecer. Editora CPAD.
Ap 3.15 O inquérito judicial (EXCURSO 1c) trata essa igreja como um bloco único. Não há os ―demais‖ (Ap 2.24) ou ―alguns‖ (Ap 3.4 [BLH]) que se mantêm fiéis. Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Água fervente ou fria tem utilidade. Contudo, a quem fortaleceria ou refrescaria água morna? Nessa passagem, ela está sendo oferecida a Cristo, pois ele a degusta em sua boca (v. 16). Ela o repugna. Ele é hóspede em Laodicéia e, com a maior tranqüilidade, os anfitriões servem-lhe água morna. Servem-no com seu serviço lerdo, com seus cultos sonolentos, com orações de ladainhas e com seu cuidado pastoral negligente. Conheço, diz o Senhor diante dessa atividade. Obviamente ele o sabe, pois ele tem de experimentá-lo. Toda a mornidão na comunidade, toda atitude lerda e desligada, também diante das pessoas, fere a ele. O que é feito a um de seus mais humildes irmãos, é praticado contra ele.
Não somente Cristo, também Satanás conhece a maré espiritual baixa da comunidade (cf. o comentário a Ap 3.1). Por isso ele os deixa integralmente em paz. Por isso não se informa nada sobre tentação e perseguição, negação, apostasia ou abalos. Tudo está intacto e tudo se realiza. O quadro de membros não dá razão para preocupações. Sim, os membros mornos consideram o Senhor Jesus Cristo tão inócuo, que nem sequer se desligam.
Quem dera fosses frio ou quente! Essa exclamação denota uma avaliação definida. O grau mais alto é ―quente‖, p. ex., nos termos de Rm 12.11: ―sede fervorosos de espírito‖. Depois segue-se na escala de valores a rejeição clara e fria. No nível mais baixo, porém, está a mornidão. É nele que se abafa de modo suave, mas determinado, o ardor e rugir do Espírito, evitando-se de toda forma ser um adversário. Normalmente, esse caminho intermediário entre os extremos é considerado o ―equilíbrio áureo‖. Contudo, o cristão ―nem a favor nem contra‖ na verdade não se encontra no meio, mas sim em queda livre, no ponto mais baixo da escala de valores.
Entre a acusação e a palavra de ameaça (EXCURSO 1d) normalmente encontra-se o chamado ao arrependimento. Na presente missiva, porém, precipita-se uma ira tão incandescida sobre a situação da comunidade que a ameaça é acrescentada no mesmo fôlego. Isso não significa que não seja mais possível o arrependimento, pois mais adiante segue-se o convite para ele. Antes significa que diante da igreja amornada não se apresenta nenhum Senhor morno. Seu ardor é esperança para todos os mornos.
16 Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca. Com vistas a quatro igrejas o Senhor dissera: ―Tenho algo contra ti!‖ Agora é declarado: ―Tu me repugnas!‖ Esse é o ápice da condenação. Ainda assim – ele ainda suporta os insuportáveis por algum tempo. Justamente nesse ponto segue-se uma palavra de arrependimento extraordinária (EXCURSO 1d), um lutar e requestar por Laodicéia.
Ap 3.17 Agora a igreja toma a palavra, revelando uma arrasadora ignorância diante do conhecimento de seu Senhor no v. 15: pois dizes: Estou rico e abastado. Foi assim que falou em outra ocasião o rico fazendeiro em Lc 12.19. No presente texto fala um comerciante rico. ―Sim‖, pondera ele, ―tornei-me rico‖. Conhecemos a opinião das pessoas bem-sucedidas, como se refestelam em suas recordações sobre como levantaram seus negócios. No passado assumiram um pequeno comércio, agora possuem uma gigantesca loja de departamentos! A conclusão talvez soe como Zc 11.5: ―Não o consideram pecado algum, e dizem: louvado seja Deus, agora sou rico!‖ (tradução do autor). Da mesma maneira acontece aqui, que a gabolice com o sucesso material transita para a presunção de uma posse religiosa.
Não preciso de coisa alguma. Em 1Co 12.21 essa formulação ocorre em relação a outro membro da igreja: o irmão não tem nada de significativo para me oferecer. O que ele fala não é importante. Comigo mesmo tenho o suficiente. No presente texto, porém, o orgulho do que providencia tudo por si mesmo levanta-se diante do próprio Senhor. Jo 15.5 é virado de pernas para o ar: ―Sem ti podemos realizar tudo!‖ É assustador formulá-lo dessa maneira, mas quantas vezes isso é praticado na vida (1Co 4.8)! Nessa auto-suficiência diante de Jesus, nesse afastamento do trono de sua graça residem o pecado originário da igreja, bem como o começo do fim.
Entretanto, nem mesmo Sansão notou que sua força o abandonara: e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável (―e nem sabes que és miserável e digno de pena‖ [tradução do autor]). É assim que se apresenta o quadro da realidade do homem ativo nos negócios e conformado com o mundo, que acompanha tudo. Ele está tenso e desgastado, o tipo de atribulado de Mt 11.28 (o mesmo vocábulo em Rm 7.24). Ele deveria chegar a Jesus, porém não o sabe. Ele se considera independente: ―Não careço de nada‖. Contudo, tem necessidade dos remédios e da cura para o coração. Toda vez que alcança o sossego, busca o divertimento e os compromissos, saindo logo de novo às pressas. Sobretudo teria necessidade da compaixão e, finalmente, do arrependimento. E por estar tão sobrecarregado, é digno de pena. A ira não torna Jesus cego para o pecador. Ele preserva o olhar pela pobre criatura. Ela lhe dá pena, e muito mais quando ela mesma não tem consciência de si, mas ainda se auto-engrandece. O estado espiritual é caracterizado com três ilustrações: pobre, cego e nu (cf. abaixo).
Ap 3.18 A esses três pontos enfermos correspondem os três conselhos. Aconselho-te. Talvez haja aqui uma conotação do linguajar comercial. Jesus se apresenta como comerciante (Mt 13.45), oferecendo três especialidades de Laodicéia famosas naquele tempo. Pelo que se evidencia, a igreja entrementes misturou-se intimamente com o mundo que a envolve. Enquanto antes constituía um templo de Deus nessa cidade de lojas, agora ela própria se tornou um estabelecimento comercial (Jo 2.16), estando acomodada ao seu contexto. O espírito de negócios, de compra e de regateio, havia deslocado o Espírito Santo. Por amor à igreja, porém, Jesus se transforma num mercador, que tenta superar todos os seus concorrentes: ―de mim compres, com toda a certeza receberás boa mercadoria‖. Com tenacidade, quase como de um mascate, ele oferece ora isso, ora aquilo, sempre apresentando ao freguês reticente novas mercadorias. O Filho Eterno se rebaixa a um ponto tão humilde. Fez-se um laodicense para os laodicenses, a fim de conquistá-los.
Com o que Laodicéia deverá pagar? Seguramente essa resposta teria de ser respondida com Is 55.1: ―Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite‖ Também Ap 22.17 conhece essa curiosa ―aquisição‖. Com certeza reside nisso um indício dos altos ―preços‖ que o ser humano paga nesse mundo por artigos de pouco valor, comprometendo pureza, honra, paz e saúde. Junto desse novo ―comerciante‖ na verdade se comprará com vantagens, sim, de forma extraordinariamente vantajosa, a saber, de graça. Ele começa com suas ofertas:
De mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres. O ouro dos bancos de Laodicéia tinha boa fama por causa da consistência de seu valor (cf. nota 243). Ao adquiri-lo, o freguês estava bem atendido. Contudo o mercador adverte: ―Todos vocês que se abasteceram do ouro de Laodicéia, são pobres e terrivelmente enganados. Façam rapidamente negócios comigo e tornem-se verdadeiramente ricos.‖ Nesse texto, ―ouro‖ é expressão da verdadeira posse. Todas as missivas às igrejas falaram sobre ter e não ter (nota 185). Cristo faz o balanço. Ele encontra prateleiras totalmente vazias. Contudo, ainda há tempo. Ele quer ajudar a igreja a passar do passivo para o disponível, ou seja, para que tenha amor, fé, serviço, testemunho, esperança (cf. 1Pe 1.7,18; 1Co 12,13).
Vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez. Laodicéia possuía uma indústria têxtil produtiva, sobretudo para tecidos pretos, da moda (cf. nota 243) – Diz-se que os acusados compareciam de preto diante do tribunal. Os condenados eram despidos (aqui, no v. 17; também Jesus foi despido antes da crucificação), réus absolvidos recebiam uma veste branca (cf. o comentário a Ap 3.4). São essas as correlações do nosso texto. O Senhor não deseja a nudez de sua igreja. Ele lhe oferece purificação e absolvição.
E colírio (―pomada‖) para ungires os olhos, a fim de que vejas. No Oriente as doenças nos olhos eram muito freqüentes, causadas pela forte irradiação solar, por constante poeira, exigüidade da água e falta geral de higiene. Por isso havia muitos cegos, muitos médicos de olhos e centenas de
diferentes remédios na forma de pomadas, talcos e gotas. Também Laodicéia comercializava uma famosa marca desses produtos (cf. nota 243).
Quando o v. 17 chama a igreja de cega, sintetiza-se toda a miséria. Muitas vezes os cegos são pobres, e os pobres andam precariamente vestidos. A causa da pobreza e nudez reside na cegueira. A cegueira espiritual, da qual o AT fala com tanta freqüência, refere-se ao direito de Deus de fazer reivindicações, às conseqüências da desobediência, bem como à subestimação do pecado e de Satanás. De acordo com Jo 9.41 essa cegueira espiritual acomete aquele que a nega. Imaginemos uma pessoa cega que se porta como se pudesse ver, não permitindo que seja conduzida, nem tateando cautelosamente no seu caminho. ―Não preciso de ninguém, sei fazer tudo sozinho!‖ É essa a desastrosa cegueira que se apresenta no presente texto (v. 17).
Foi por isso que o grande médico de olhos diagnosticou primeiro: ―Estás cego!‖ e agora declara: ―Vendo para ti pomada para os olhos!‖
Ap 3.19 Nesse instante o Senhor tira a máscara do comerciante aplicado aos negócios, revelando-se como aquele que ele é: como amigo de todas as igrejas: Eu repreendo e disciplino a quantos amo. O amor de amigo (Jo 15.14,15, aqui no v. 20) expressa-se em duas atividades que, na formulação, constituem uma repercussão de Pv 3.12 (e Hb 12.7), mas que novamente devem ser examinadas no seu contexto. Lá elas estão inseridas na relação pai-filho, e naquele contexto a disciplina é sofrer castigo. Contudo, é estranho a João falar de Cristo como o Pai dos discípulos. Igualmente falta no trecho qualquer vestígio de sofrimento por castigo. Por um lado, entre amigos focaliza-se a palavra da verdade: Eu repreendo (―corrijo‖). O amigo rejeita tudo o que não for verdade. Inexoravelmente ele examina as obras e cita de forma aberta o que for imprestável. Segue-se a palavra da punição: Eu disciplino. Ele ameaça com ira ardente, destroça a presunção, exige conseqüências e ordena o arrependimento. Tudo isso se espelha na mensagem à igreja. Ela também está entremeada da busca pela atenção, o chamado para despertar e convidar. Ainda que não seja possível o elogio, nem por isso há falta do amor. Também na ira o Senhor se lembra de sua misericórdia e ―não é com prazer que ele nos causa sofrimento ou dor‖ (Lm 3.33 [BLH]).
Sê, pois, (daqui em diante) zeloso e arrepende-te. A primeira das duas exortações está na forma verbal de continuidade. Aos anos de mornidão (v. 16) devem seguir-se anos de zelo. Que sejam tomados do zelo de Jesus quando purificou o templo (Jo 2.17) e que seja queimado o zelo antigo, impuro, que fez da comunidade uma casa de comércio. Fora com o ativismo afundado no mundo, com o regatear, acumular, trabalhar, correr e apressar-se por nada! O nome, o reino e a vontade de Deus passam a determinar os pensamentos de forma nova.
20 Arrependimento desencadeia-se diante de Cristo, e somente diante dele (EXCURSO 1d): Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa. Na Antigüidade se podia solicitar ingresso numa casa de duas maneiras: ou se batia com uma argola metálica, ou simplesmente se chamava. Aqui ressoam ambos, a batida e a voz, um sinal da premência da vontade. Como é que os laodicenses ouviam a voz de Jesus? Por doença, sofrimento ou acontecimentos históricos? Conforme Jo 10.3,27; 18.37 e sobretudo conforme as sete exortações ―ouça!‖ nos ditos de gravação, cabe considerar o falar do Espírito precisamente nessas mensagens às igrejas. Nelas o Senhor se apresentava e se apresenta às suas igrejas, fazendo ressoar a sua voz.(estudaalicao.blogspot.com).
fonte www.mauricioberwaldoficial.blogspot.com

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