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domingo, 11 de outubro de 2015

auxilio ebd subsidios busca de valores BETEL



                           
                   A BUSCA DOS VALORES LIÇÕES BETEL
                               ADULTOS SUBSIDIOS



Os valores éticos e morais encontrados na Bíblia são absolutos e insubstituíveis, porque estão fundamentados na Palavra e no caráter de Cristo.“Sabendo primeiro isto: que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências” (2 Pe 3.3).

A palavra “valor (Normas ou princípios morais que orientam a conduta das pessoas.)” origina-se do latim e significa “ser digno”. “Valores”, no contexto desta lição, referem-se aos princípios éticos e sociais aceitos por uma pessoa ou grupo, isto é, ao comportamento humano; suas regras e padrões.Atualmente, tem havido uma “inversão” desses valores: a ética e a moral cristãs, antes aprovadas pela sociedade, vêm sendo sistematicamente substituídas por princípios amorais mundanos (Is 5.18-25; Cl 2.8). Em 2 Pedro 1.3-10, a Palavra de Deus estabelece os princípios éticos, as virtudes e valores necessários à boa conduta dos filhos de Deus.

                             INVERSÃO DOS VALORES BÍBLICO-CRISTÃOS

1. Causas da inversão dos valores. Ao folhearmos alguns jornais e revistas seculares, constatamos o quanto os valores éticos e morais cristãos têm sido desprezados pela sociedade pós-moderna. Vejamos as causas:

a) Ascensão do relativismo moral. Segundo esta teoria filosófica, não existe norma moral ou ética válida para todas as pessoas. As normas variam de cultura para cultura, de pessoa para pessoa. Cada um vive conforme as regras que estabeleceu para si mesmo. Assim, há uma ética para o cristão, outra para o ateu e uma terceira para os que não se enquadrem nas anteriores. Não existe, de acordo com esse pensamento mundano, normas, verdades ou valores que sirvam para todas as pessoas em todos os lugares.

b) Manifestação social do pluralismo. O pluralismo reconhece que há uma multiplicidade de culturas, religiões e posições éticas e morais conflitantes. Essa doutrina filosófica, todavia, diz que essas posições contraditórias podem coexistir, como se cada uma delas trouxesse uma parte da verdade e, nenhuma a verdade completa ou absoluta. Assim, a verdade encontra-se em cada sistema religioso, filosófico ou moral. Então, segundo esse pensamento, o cristianismo traz uma parte da verdade, o budismo outra e assim sucessivamente Segundo o pluralismo, assumir e respeitar diferentes valores em uma sociedade em constante mudança é uma manifestação de empatia e tolerância com o outro.

c) Crescente mundanismo. O mundanismo faz constante oposição à Igreja e aos valores cristãos (Tg 4.4; 1 Jo 2.15-17). A sociedade organizada e rebelada contra Deus, tem estabelecido suas próprias leis, sem a menor consideração aos mandamentos divinos. O que temos visto, infelizmente, é o sagrado e o religioso curvarem-se ante o profano e o secular; até mesmo em certas denominações evangélicas.

2. Os valores cristãos invertidos. Há uma lista considerável de princípios bíblicos que não apenas foram desvalorizados, mas ultrajados pela sociedade pós-moderna. Vejamos:

a) Quanto ao casamento: Atualmente, em algumas sociedades, já se aceita a abominável união entre pessoas do mesmo sexo. É um atentado contra a Palavra de Deus, a família e os valores cristãos. O Senhor instituiu e abençoou apenas a união entre homem e mulher (Gn 1.27,28; 2.22-24). Quanto aos que querem mudar a ordem natural da criação, (Lv 19.22; Rm 1.26-32) serão amaldiçoados. A Bíblia é implacável neste caso: “Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos... herdarão o Reino de Deus” (1 Co 6.9,10 - NVI).

b) Quanto à família: As virtudes cristãs concernentes à família estão sendo substituídas por valores anticristãos: filhos que não respeitam os pais; pais permissivos quanto à moralidade; e a substituição do culto doméstico por entretenimentos perniciosos etc.

c) Quanto à igreja: Nesses “tempos trabalhosos”, muitas comunidades cristãs valorizam mais o “ministério” bem-sucedido do pregador que a santidade e o testemunho mantido por ele; mais o marketing ministerial do que os verdadeiros sinais do poder de Deus. Pregadores santos e tementes a Deus são preteridos por aqueles que buscam o louvor próprio em vez da glória de Cristo.A ascensão do relativismo moral, a manifestação social do pluralismo e os valores cristãos invertidos são algumas causas da inversão de valores na pós-modernidade.

FUNDAMENTOS DOS VALORES CRISTÃOS

1. Os valores cristãos. Os valores cristãos estão pautados nas Sagradas Escrituras e são opostos aos do mundo. Enquanto cremos na existência de um só Deus, cujas leis regem não apenas o Universo, mas nossas vidas, planos e vontades, a cultura mundana nega a existência do Altíssimo, e seus adeptos vivem como se o Senhor realmente não existisse (Sl 14; 53).

2. Os três fundamentos. Os princípios cristãos possuem, pelo menos, três fundamentos básicos: são universais, absolutos e imutáveis.

a) Universais. Os valores cristãos são universais por estarem fundamentados na moral divina. Nosso Deus é um ser moral. Seus atributos atestam que Ele é santo (Lv 11.44; 1 Sm 2.2), justo (2 Cr 12.6; Ed 9.15), bom (Sl 25.8; 54.6), e verdadeiro (Jr 10.10; Jo 3.33). Portanto, o Senhor é o padrão moral daquilo que é santo - oposto ao pecado -, daquilo que é justo - oposto a injustiça -, daquilo que é bom - oposto ao que é mau, e daquilo que é verdadeiro - oposto à mentira. Tudo o que é puro, justo, bom e verdadeiro têm sua origem no caráter moral de Deus. Por conseguinte, os valores morais são universais porque procedem de um Legislador Moral universal.

b) Absolutos. Absoluto é aquilo que não depende de outra coisa, mas existe por si mesmo. Os valores cristãos são absolutos porque procedem de um Deus pessoal que não depende de qualquer outro ser para existir, Ele é eterno (Dt 33.27; Sl 10.16); existe por si mesmo (Êx 3.14), e tem a vida em si mesmo (Jo 5.26). Deus também é absoluto porque não está sujeito às épocas (1 Tm 1.17; 2 Pe 3.8; Jd v.25). Ele governa eternamente o Universo (Sl 45.6; 145.13), e seu reinado é de justiça (Hb 1.8).

c) Imutáveis. Imutável é a qualidade daquilo que não muda. Os valores cristãos são imutáveis porque o Senhor Deus é imutável. Ele não muda (1 Cr 29.10; Sl 90.2), é o mesmo em todas as épocas (Hb 13.8; Tg 1.17). Suas leis se conformam ao seu caráter moral, pois Ele é fiel (2 Tm 2.13). Portanto, devemos viver conforme a orientação de sua Palavra.

COMO REAGIR À INVERSÃO DE VALORES

1. Denunciar o pecado e os valores mundanos. Devemos confrontar com a Palavra de Deus, os princípios amorais e antiéticos difundidos através de filmes, peças teatrais, novelas, músicas e revistas (Hb 4.12; Ez 44.23). Certo diretor afirmou que “o cinema e a televisão suplantaram a igreja como grandes comunicadores de valores e crenças”. Mas, quais são a estes valores e crenças? Geralmente, são padrões e crenças anticristãs. A Igreja, “coluna e firmeza da verdade” (1 Tm 3.15), tem como missão, não apenas anunciar o evangelho, mas denunciar os pecados e os valores mundanos dos homens (1 Tm 1.18-20).

2. Ensinar e viver os valores do Reino de Deus. Como Igreja do Senhor, temos a obrigação de viver e ensinar os mais elevados princípios éticos e morais do Reino de Deus (Lv 20.7; 1 Pe 1.16). A verdadeira mensagem do evangelho não se conforma aos discursos politicamente corretos, mas aos elevados padrões da santidade divina (Mt 5.20, 48; 1 Tm 3.15; 6.11).

O crente além de ensinar e viver os valores cristãos deve denunciar a inversão dos valores, o pecado e os valores mundanos.

CONCLUINDO

Os elevados preceitos exarados na Palavra de Deus são imutáveis e servem de regra para orientar os homens em todas as gerações (Is30.21; Mt 24.35; 2 Tm 3.16). Esses valores são insubstituíveis, e devem ser coerentes com o testemunho cristão - a igreja deve viver o que prega e pregar o que vive.

Os princípios, leis ou normas que regem a vida cristã encontram-se nos inúmeros mandamentos morais, sociais e religiosos descritos nas Sagradas Escrituras. Podemos afirmar que a base da ética bíblica e dos valores cristãos é o santíssimo caráter de Deus. As Escrituras, nossa única fonte legítima da vontade de Deus, expressam a vontade de Deus para o seu povo. Os inúmeros mandamentos éticos e morais da Bíblia revelam a natureza santa, ética e moral de Deus. Portanto, o estudo dos valores e da ética cristã tem como base o caráter santo de Deus. Como você já sabe: Deus é santo (Lv 11.44; 1 Sm 2.2), justo (2 Cr 12.6; Ed 9.15), bom (Sl 25.8; 54.6), e verdadeiro (Jr 10.10; Jo 3.33).



DEUS OU AS RIQUEZAS? M 6:22-24

Um bebê nasce com os punhos cerrados, como se estivesse preparado para segurar o que lhe pertence. Quando o homem acumula riquezas materiais, sente-se como um rei conquistando súditos sobre os quais pode governar. Quando gasta dinheiro, sente-se como um general que envia exércitos ao combate para fazer sua vontade. A avareza é característica do homem natural. Ele gosta de acumular, e gosta do que acumula. Encontra satisfação naquilo que pode agarrar, ver e segurar junto ao peito. No Sermão da Montanha, o Senhor advertiu seus ouvintes do amor às coisas materiais.

Em Mateus 6:22-24, o Senhor continuou a mostrar o perigo do amor aos bens materiais:

São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Os judeus usavam o olho figurativamente num sentido moral; ter "olho mau" significava ter uma visão distorcida das coisas. O indivíduo que pode focalizar ambos os olhos claramente num determinado objeto, vê-o sem distorção; mas o que não tem capacidade de focalizar ambos os olhos tem visão distorcida. O problema físico da visão distorcida ensinava aos judeus uma verdade espiritual profunda: o homem pode ter uma visão pervertida das coisas e não entender sua verdadeira natureza, seus verdadeiros valores, ou sua verdadeira dignidade. Assim, ter uma visão clara, não distorcida ― ou, como diz nosso texto, "boa" ― significava uma perspectiva adequada. O contrário disto era visão dupla, ou ponto de vista distorcido.

Este conceito judaico provinha de diversas passagens do Antigo Testamento. Nas leis que regem a conduta social dadas por Moisés aos filhos de Israel consta:

Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás as tuas mãos a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. Guarda-te, que não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e ele clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado (Deuteronômio 15:7-9).

Moisés ensinou aos filhos de Israel que tinham responsabilidade para com o irmão necessitado. Se a necessidade de um irmão chamasse a atenção de alguém e este lhe fechasse o coração e se recusasse a dar-lhe o de que necessitava, tal pessoa tinha um coração perverso. Esse indivíduo estava cego, e sua visão distorcida pela ganância. Admitia a necessidade, mas amava suas posses ao ponto de recusar contribuir para a necessidade do irmão. Moisés disse que tal atitude era prova de coração mau. O olho mau, da mesma maneira, revelava visão distorcida das coisas e refletia perversão moral.

A mesma verdade é apresentada em Provérbios 23:6-7: "Não comas o pão daquele que tem olhos malignos, nem cobices os seus manjares gostosos. Porque, como imaginou na sua alma, assim é; ele te dirá: Come e bebe: mas o seu coração não estará contigo" (Ed. Rev. Cor.). Aqui Salomão falava do banquete de um homem rico. Se ele tiver olhos malignos, ressentir-se-á do alimento que você come e o coração dele será controlado pela amargura. Ele pode ter abundância, mas chora o que você come. Por isso Salomão disse: "Não comas o pão daquele que tem olhos malignos." O olho maligno falava de uma visão distorcida do valor das coisas.

A mesma verdade se encontra em Provérbios 28:22: "Aquele que tem olhos invejosos corre atrás das riquezas, mas não sabe que há de vir sobre ele a penúria." Repetimos: o homem que se curva a qualquer esforço para acumular bens materiais tem olho mau, visão distorcida do valor e permanência da riqueza. Ele acha que reterá a riqueza para sempre e não percebe, como diz Paulo, que nada trouxe para este mundo, nem poderá levar dele coisa alguma. Ele toma o que é passageiro e lhe atribui valor eterno. Essa visão distorcida, disse Salomão, revela "olho mau".

Desses textos do Antigo Testamento vemos que embora as palavras do Senhor nos pareçam estranhas porque não usamos as mesmas expressões idiomáticas, na mente dos seus ouvintes elas continham um conceito bem firmado. Nosso Senhor disse: "São os olhos a lâmpada do teu corpo." É o olho que traz luz de modo que o homem possa ver. É axiomático que onde não há luz não se pode ver. Nosso Senhor ensinou a lição moral e ética de que, se não houver luz vinda de Deus, não pode haver interpretação adequada do que tem verdadeiro valor. Até que a luz de Deus brilhe sobre algo, não conhecemos seu verdadeiro caráter.

Ora, visto que esses judeus tinham uma opinião distorcida do valor dos bens materiais, nosso Senhor teve de dizer: "Se, porém, os teus olhos forem maus [como são, se tiverem uma opinião distorcida do valor dos bens materiais], todo o teu corpo estará em trevas" (6:23). Aquilo que os judeus julgavam ser bênção de Deus, Jesus disse que era prova de uma visão distorcida das trevas interiores.

Os rabinos haviam ensinado que o meio de conservar a saúde da alma era dar generosamente. Ser avarento era distorcer a visão. Se alguém era avarento, o olho da alma estaria cego. Porém os fariseus ignoravam o ensinamento dos rabinos, e nosso Senhor disse que eles estavam em cegueira ou em trevas.

Se a pessoa não tiver visão correta das coisas materiais, terá visão distorcida da vida como um todo. Se ela tem visão dupla concernente às coisas materiais, adotará um conjunto de alvos inteiramente falsos para a vida. Mais cedo ou mais tarde a pessoa se sujeitará às coisas materiais, e elas a escravizarão. A ganância pelas coisas ou pelo dinheiro é um senhor muitíssimo implacável. Os desejos dos entes queridos; as necessidades dos parentes e amigos; as exigências do país, da honra, do conforto e até da própria saúde podem ser menosprezadas; o homem abandona tudo quando a aquisição de dinheiro se torna a obsessão da vida. A avareza é o senhor mais impiedoso do mundo. Jesus encareceu este ponto ao dizer que ninguém pode ser fiel a dois senhores ao mesmo tempo: "Ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas" (v. 24).

"Riquezas" ou "Mamom" é uma personalização do principal rival de Deus ― dinheiro ou bens materiais. Nosso Senhor considerava a aquisição de riquezas como um alvo que leva o homem à mais abjeta escravidão, que o impede de desincumbir-se de sua responsabilidade de servo de Jesus Cristo. Pelo contrário, ele se escraviza ao dinheiro e não pode servir a ninguém mais, muito menos a Deus. Quando o homem é consumido pela paixão do acúmulo de bens materiais, não há lugar para outro amor. O Senhor não condenou a posse de riquezas. Ele condenou ser possuído por elas. Ele considerava o amor do dinheiro como brutal idolatria.

Paulo escreveu: "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno, e a avareza, que é idolatria" (Colossenses 3:5). Avareza é idolatria. Os filhos de Israel, no Antigo Testamento, menosprezaram a Deus que tinha o direito de governar sobre eles, por ter ele tirado o povo do Egito, e se submeteram aos deuses das nações entre as quais habitavam. Paulo disse que quando o homem ama ao dinheiro, igualmente rejeita o direito do Deus que o redimiu de governar sobre ele, e se submete a outro deus. Assim como Israel caiu em toda sorte de práticas abomináveis por seguir em pós de falsos deuses, assim, disse Paulo, o homem que faz do amor ao dinheiro a finalidade de sua vida encontrar-se-á cedendo a práticas abomináveis.

A riqueza é vista, na Bíblia, como algo dado em confiança. Nunca é considerada como um fim, mas como um meio de atingir um fim. É vista como uma bênção de Deus, que, como tal, traz consigo responsabilidade. O que Deus confia ao homem não deve ser usado para desfrute egoísta, mas para benefício e bênção de outros. O homem não pode ser justo e avarento ao mesmo tempo, assim como não pode ser piedoso e ganancioso. O homem não pode, concomitantemente, amar a Deus e às coisas materiais. Não pode, ao mesmo tempo, ser servo fiel de Jesus Cristo e vender-se como escravo ao dinheiro.

Nosso Senhor lidava não apenas com ações mas também com atitudes básicas para com a vida. Em realidade, ele formulava uma pergunta: "Para você, qual é o mais alto bem na vida?" Em nossa época, multidões teriam de confessar que medem a virtude pelas posses materiais acumuladas. Diz-se que o homem está realizado quando se enquadra numa alta faixa de impostos. Essa é uma revelação da visão distorcida que nosso Senhor disse mergulhar a alma toda em trevas morais. Essa passagem convida-nos a examinar bem as coisas às quais damos valor, e perguntar: "Se esses bens me fossem tomados repentinamente, qual seria minha riqueza?" Ouça de novo a Palavra do Senhor: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro." Não podemos servir a Deus e ao principal rival de Deus, as coisas materiais. Que é, realmente, que importa na vida? O ouro ou a piedade? 
Notas  J. D. Pentecost  

A ambição do cristão:
Não a segurança material, mas a direção de Deus Mt 6.19-34

Na primeira metade de Mateus 6 (vs. 1-18), Jesus descreve a vida particular do cristão "no lugar secreto" (dando, orando, jejuando); na segunda parte (vs. 19-34) ele trata dos nossos negó­cios públicos no mundo (questões de dinheiro, de propriedades, de alimento, de bebida, de roupa e de ambição). Os mesmos contrastes poderiam ser expressos em termos de nossas respon­sabilidades "religiosas" e "seculares". Esta diferença é enganosa, porque não podemos separar estes dois aspectos em compartimentos herméticos. Na verdade, o divórcio entre o sagrado e o secular na história da Igreja tem sido desastroso. Se somos cristãos, tudo o que fazemos, por mais "secular" que possa parecer (como fazer compras, cozinhar, fazer cálculos no escritório, etc), é "religioso", no sentido de que é feito na pre­sença de Deus e de acordo com a sua vontade. Uma ênfase de Jesus neste capítulo é exatamente sobre este ponto, que Deus está igualmente preocupado com as duas áreas da nossa vida: a particular e a pública; a religiosa e a secular. Pois, de um lado, "teu Pai celeste vê em secreto" (vs. 4, 6, 18) e, de outro, "vosso Pai celestial sabe que necessitais de alimento, bebida e roupa" (v. 32).

Ouvimos os mesmos insistentes convites de Jesus, nas duas esferas, o chamado para sermos diferentes da cultura popular: diferentes da hipocrisia do religioso (v. 1-18) e, agora, também diferentes do materialismo do irreligioso (vs. 19-34). Embora no começo do capítulo fossem principalmente os fariseus que estavam na mente de Jesus, agora é ao sistema de valores dos "gentios" que ele nos incita a renunciar (v. 32). Na verdade, Jesus coloca alternativas diante de nós em cada estágio. Há dois tesouros (na terra e no céu, vs. 19-21), duas condições físicas (luz e trevas, vs. 22, 23), dois senhores (Deus e as riquezas, v. 24) e duas preocupações (nosso corpo e o reino de Deus, vs. 25-34). E não podemos pôr os pés em duas canoas!

Mas, como fazer a escolha? A ambição do mundo nos fascina fortemente. O encanto do materialismo é difícil de se quebrar. Nesta seção, Jesus nos ajuda a escolher o melhor. Ele destaca a insensatez do caminho errado e a sabedoria do certo. Como nas seções anteriores, sobre a piedade e a oração, aqui, relativa­mente à ambição, ele coloca o falso e o verdadeiro, um em opo­sição ao outro, de tal modo que nos leva a compará-los e exa­miná-los por nós mesmos.

Este tópico coloca-nos diante da grande urgência da nossa geração. A medida que a população do mundo continua aumen­tando assustadoramente e os problemas econômicos das nações se tornam cada vez mais complexos, os ricos continuam ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Não podemos mais fechar os olhos diante dos fatos. A antiga complacência do Cristianismo burguês foi perturbada. A adormecida consciência social de muitos já foi despertada. Redescobriu-se que o Deus da Bíblia está do lado dos pobres e necessitados. Os cristãos responsáveis sentem desconforto quando pensam na abundância e estão pro­curando desenvolver um estilo de vida simples, que seja adequado face às necessidades do mundo e, por lealdade, de acordo com os ensinamentos e o exemplo do seu Mestre.

1. A questão do tesouro (vs. 19-21)

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; 20masajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam; 21por­que onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Aqui, o ponto para onde Jesus dirige nossa atenção é a durabili­dade comparativa dos dois tesouros. Deveria ser fácil decidir qual dos dois ajuntar, ele dá a entender, porque tesouros sobre a terra são corruptíveis e, portanto, inseguros, enquanto que tesouros no céusão incorruptíveis e, consequentemente, seguros. Afinal, se nosso objetivo é ajuntar tesouros, presumivelmente nós nos concentraremos na espécie que vai durar mais e que pode ser armazenada sem depreciação ou deterioração.

É importante enfrentar franca e honestamente a questão: o que Jesus estava proibindo, quando nos disse para não ajuntarmos tesouros para nós mesmos na terra? Talvez seja melhor começarmos com uma lista do que ele não estava (e não está) proibindo.Primeiro, não há maldição alguma quanto às pro­priedades em si; as Escrituras não proíbem, em parte alguma, as propriedades particulares. Segundo, "economizar para dias piores" não foi proibido aos cristãos, nem fazer um seguro de vida, que é apenas uma espécie de economia compulsória auto-imposta. Pelo contrário, as Escrituras louvam a formiga que armazena no verão o alimento de que vai precisar no inverno, e declara que o crente que não faz provisão para a sua família é pior do que um incrédulo (Pv 6:6ss; l Tm 5:8.).  Terceiro, não devemos desprezar mas, antes, desfrutar as boas coisas que o nosso Criador nos con­cedeu abundantemente (l Tm 4:3,4; 6:17.). Portanto, nem as propriedades, nem a provisão para o futuro, nem o desfrutar dos dons de um Criador bondoso estão incluídos na proibição dos tesouros acu­mulados na terra.

O que está, então? O que Jesus proíbe a seus discípulos é a acumulação egoísta de bens ("Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra"); uma vida extravagante e luxuosa, a dureza de coração que não deixa perceber as necessidades colos­sais das pessoas menos privilegiadas neste mundo; a fantasia tola de que a vida de uma pessoa consiste na abundância de suas propriedades (Lc 12:15.); e o materialismo que acorrenta nossos cora­ções à terra. O Sermão do Monte repetidas vezes refere-se ao "coração" e, aqui, Jesus declara que o nosso coração sempre segue o nosso tesouro, quer para baixo para a terra, quer para o alto para o céu (v. 21). Resumindo, "acumular tesouros sobre a terra" não significa ser previdente (fazer ajuizadas provisões para o futuro), mas ganancioso (como o sovina que acumula e os materialistas que sempre querem mais). Esta é a armadilha contra a qual Jesus nos adverte aqui. "Sempre que o Evangelho é ensinado", escreveu Lutero, "e as pessoas procuram viver de acordo com ele, surgem duas terríveis pragas: os falsos pre­gadores, que corrompem o ensino, e, então, a Sra. Ganância, que impede um viver justo."

O "tesouro na terra", por nós cobiçado, Jesus nos lembra: "A traça e a ferrugem destroem, e ... os ladrões o arrombam e roubam" (BLH). A palavra grega para "ferrugem" (brasis) sig­nifica "comer"; pode referir-se à corrosão causada pela ferru­gem, mas também a qualquer peste ou parasita devoradora. Naquele tempo, as traças entravam facilmente nas roupas das pessoas, os ratos comiam os cereais armazenados, pestes ata­cavam o que estivesse debaixo da terra, e os ladrões entravam nos lares e levavam o que fosse possível. Não havia a menor segu­rança no mundo antigo. E para nós, gente moderna, que procu­ramos proteger os nossos tesouros com inseticidas, venenos con­tra ratos, ratoeiras, tintas à prova de ferrugem e arames con­tra ladrões, mesmo assim eles se desintegram na inflação ou na desvalorização ou nos colapsos econômicos. Mesmo que uma parte permaneça através desta vida, nada podemos levar co­nosco para a outra. Jó estava certo: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei (Jó 1:21.)."

Mas o "tesouro no céu" é incorruptível. Que tesouro é esse? Jesus não explica. Mas podemos dizer com toda certeza que "ajuntar tesouros no céu" é fazer na terra alguma coisa cujos efeitos durem pela eternidade. Jesus não estava, certamente, ensinando uma doutrina de méritos ou um "tesouro de méritos" (como a Igreja Católica medieval ensinava), como se pudés­semos acumular no céu, através de boas obras praticadas na terra, uma espécie de crédito bancário do qual nós e outros pu­déssemos sacar, pois tal noção grotesca contradiz o Evangelho da graça que Jesus e seus apóstolos ensinaram coerentemente. E, de qualquer modo, Jesus estava falando a discípulos que já tinham recebido a salvação de Deus. Parece, antes, referir-se a coisas tais como: o desenvolvimento de um caráter semelhante ao de Cristo (uma vez que todos nós podemos levá-lo conosco para o céu); o aumento da fé, da esperança e da caridade, pois todas elas, segundo Paulo, "permanecem" (1 Co 13:13.);  o crescimento no conhecimento de Cristo, o qual um dia veremos face a face; a tarefa ativa, por meio da oração e do testemunho, de apresentar outros a Cristo, para que também possam herdar a vida eterna; e o uso de nosso dinheiro nas causas cristãs, que é o único inves­timento financeiro cujos dividendos são eternos.

Todas estas atividades são temporais com consequências eternas. Este seria, então, "o tesouro no céu". Nenhum ladrão pode roubá-lo, e nenhuma praga pode destruí-lo, pois não há traças, nem ratos, nem assaltantes no céu. Portanto, o tesouro no céu é seguro. Medidas de precaução para protegê-lo são des­necessárias. Não precisa de apólices de seguro. É indestrutível. Portanto, parece que Jesus está nos dizendo: "É um investimento seguro para vocês; nada poderia ser mais seguro do que isto. É a única apólice de seguro que jamais perde o seu valor."

2. A questão da visão (vs. 22, 23)

São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; 23se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!

Jesus passa da comparativa durabilidade dos dois tesouros para o benefício relativo de duas condições. O contraste agora é entre uma pessoa cega e uma pessoa que tem visão, e, consequentemente, entre as trevas e a luz em que elas respectivamente vivem. São os olhos a lâmpada do corpo. Não é literal, naturalmente, como se fossem uma espécie de janela deixando a luz entrar no corpo; mas é uma figura de linguagem facilmente inteligível. Quase tudo que o corpo faz depende de nossa capacidade de ver. Precisamos ver para correr, para pular, para dirigir um carro, para atravessar uma rua, para cozinhar, para bordar, para pintar. O olho, pelo que é, "ilumina" o que o corpo faz com as mãos e os pés. É verdade que os cegos conseguem enfrentar sua situação maravilhosamente bem, aprendendo a fazer uma porção de coisas sem os olhos, e desenvolvendo suas demais faculdades para compensar a falta de visão. Mas o princípio continua: quem vê anda na luz, enquanto que o cego permanece nas trevas. E a grande diferença entre a luz e as trevas do corpo deve-se a esse pequenino mas complicado órgão, o olho. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Na cegueira total, as trevas são completas.

Tudo isto é uma descrição de fatos. Mas também é uma metá­fora. Com bastante frequência, o "olho" nas Escrituras é equiva­lente ao "coração". Isto é, "colocar o coração" e "fixar os olhos" em alguma coisa são sinônimos. Um exemplo será suficiente, no Salmo 119. No versículo 10 o salmista escreve: "De todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos" e, no versículo 18: "Desvenda os meus olhos, para que eu con­temple as maravilhas da tua lei." Semelhantemente, aqui no Sermão do Monte, Jesus passa da importância de se ter o coração no lugar certo (v. 21) para a importância de se ter os olhos bons e sadios.

A argumentação parece ser esta: exatamente como nossos olhos afetam todo o nosso corpo, a nossa ambição (onde fixamos nossos olhos e nosso coração) afeta toda a nossa vida. Exatamente co­mo o olho que vê dá luz ao corpo, uma ambição nobre e sincera de servir a Deus e aos homens aumenta o significado da vida e lança luz sobre tudo que fazemos. Repito: exatamente como a cegueira leva às trevas, uma ambição ignóbil e egoísta (por exemplo, ajuntar tesouros para nós mesmos sobre a terra) faz-nos mergulhar nas trevas morais. Ficamos intolerantes, desumanos, grosseiros, despojando a vida de seu principal significado.

Tudo é uma questão de visão. Se temos visão física, podemos ver o que estamos fazendo e para onde vamos. Da mesma forma, se temos visão espiritual, se nossa perspectiva espiritual está devidamente ajustada, então nossa vida fica cheia de propósito e de incentivo. Mas se a nossa visão se torna anuviada pelos falsos deuses e pelo materialismo, e nós perdemos nosso senso de va­lores, então toda a nossa vida fica em trevas e não podemos ver para onde vamos. Talvez a ênfase esteja, com muito mais força do que já sugeri, na perda da visão causada pela ganância, porque, de acordo com o conceito bíblico, um "olho mau" é um espírito sovina, avarento, e um "olho bom" é o generoso. De qualquer forma, Jesus acrescenta novos motivos para ajuntarmos um tesouro no céu. O primeiro é a sua grande durabili­dade; o segundo resulta dos benefícios atuais, aqui na terra, de uma visão assim.

3. A questão das riquezas (v. 24)

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Jesus explica, agora, que além da escolha entre dois tesouros (onde vamos ajuntá-los) e entre duas visões (onde vamos fixar os nossos olhos) jaz uma escolha ainda mais básica: entre dois senhores (a quem vamos servir). É uma escolha entre Deus e Mamom: "Não podeis servir a Deus e a Mamom" (ERC); isto é, entre o próprio Criador vivo e qualquer objeto de nossa própria criação que chamamos de "dinheiro" ("Mamom" é uma transliteração da palavra aramaica para riqueza). Não podemos servir aos dois.

Algumas pessoas discordam destas palavras de Jesus. Recu­sam-se a ser confrontadas com uma escolha tão rígida e direta, e não veem a necessidade dela. Asseguram-nos que é perfeita­mente possível servir a dois senhores simultaneamente, por con­seguirem fazer isso muito bem. Diversos arranjos e ajustes pos­síveis parecem-lhes atraentes. Ou eles servem a Deus aos do­mingos e a Mamom nos dias úteis, ou a Deus com os lábios e a Mamom com o coração, ou a Deus na aparência e a Mamom na realidade, ou a Deus com metade de suas vidas e a Mamom com a outra.

Pois é esta solução popular de comprometimento que Jesus declara ser impossível: Ninguém pode servir a dois senhores . . . Não podeis servir a Deus e às riquezas (observe o "pode" e o "não podeis"). Os pretensos conciliadores interpretam mal este ensinamento, pois se esquecem da figura de escravo e dono de escravo que se encontra por trás destas palavras. Como McNeile disse: "Pode-se trabalhar para dois empregadores, mas nenhum escravo pode ser propriedade de dois senhores", pois "ter um só dono e prestar serviço de tempo integral são da essência da escravidão". Portanto, qualquer pessoa que divide sua devo­ção entre Deus e Mamom já a concedeu aMamom, uma vez que Deus só pode ser servido com devoção total e exclusiva. Isto simplesmente porque ele é Deus: "Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem. (Is 42:8; 48:11.)" Tentar dividir a nossa lealdade é optar pela idolatria.

E quando percebemos a profundidade da escolha entre o Cria­dor e a criatura, entre o Deus pessoal glorioso e essa coisinha miserável chamada dinheiro, entre a adoração e a idolatria, parece inconcebível que alguém faça a escolha errada, pois agora é uma questão não apenas de durabilidade e benefício compa­rativos, mas sim de valor comparativo: o valor intrínseco de um e a intrínseca falta de valor do outro.

4. A questão da ambição (vs. 25-34)

Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes? 26Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? 27Qualde vós, por ansioso que esteja, pode acres­centar um cavado ao curso da sua vida? 28E por que andais an­siosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? 31Portanto não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? 32porque os gentios é que procuram todas estas cousas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas. 34Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.

É uma pena que, nas igrejas, esta passagem seja frequentemente lida isoladamente, fora do seu contexto. E, assim, o significado do Por isso vos digo introdutório perde-se completamente. Portanto, devemos começar relacionando este "por isso", com o ensinamento que levou Jesus a esta conclusão. Antes de nos convocar a agir, ele nos convoca a pensar. Convida-nos a exa­minar clara e friamente as alternativas que foram expostas, pesando-as cuidadosamente. Queremos acumular tesouros? Então, qual das duas possibilidades é mais durável? Queremos ser livres e objetivos em nossas atividades? Queremos servir ao melhor dos senhores? Então devemos considerar qual é o mais digno da nossa devoção. Apenas depois que tivermos assimilado em nossas mentes a durabilidade comparativa dos dois tesouros (o corruptível e o incorruptível) e o valor comparativo dos dois senhores (Deus e Mamom), estaremos prontos a fazer a escolha. E só depois que tivermos feito a nossa escolha — o tesouro ce­leste, a luz, Deus — estaremos preparados para ouvir as pala­vras que seguem: Por isso vos digo como deveis vos comportar: Não andeis ansiosos pela vossa vida. . . nem pelo vosso corpo. . . buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça (vs. 25, 33). Em outras palavras, nossa escolha básica quanto a qual dos dois mestres desejamos servir afetará radicalmente nossa atitude para com ambos. Não ficaremos ansiosos sobre um deles, já que o rejeitamos, mas nos concentraremos, mente e energia, no outro, a quem escolhemos. E, ao invés de nos perdermos em nossas próprias preocupações, buscaremos em primeiro lugar aquilo que interessa a Deus.

A linguagem de Cristo sobre a busca (contrastando os gentios no que os seus discípulos devem buscar em primeiro lugar; vs. 32, 33) introduz-nos à questão da ambição. Jesus considerou que todos os seres humanos "buscam" alguma coisa. Não é natural que as pessoas fiquem à deriva, sem alvo na vida, co­mo um plâncton. Precisamos de alguma coisa pela qual viver, algo que dê significado à nossa existência, alguma coisa para "buscar", alguma coisa sobre a qual colocar o nosso coração e a nossa mente. Embora poucos hoje em dia usem a linguagem dos antigos filósofos gregos, o que nós buscamos, de fato, é aquilo que eles chamavam de "o Bem Supremo", para lhe dedi­carmos as nossas vidas. Provavelmente, "ambição" é o termo equivalente moderno. É verdade que, no dicionário, esta palavra significa "um forte desejo de alcançar o sucesso" e, portanto, de um modo geral, a sua imagem é ruim, pois tem um sabor egoísta. É neste sentido que Shakespeare, em sua peça "Henrique VIII", faz este apelo a Thomas Cromwell: "Cromwell, eu te desafio, põe de lado a ambição. Por causa desse pecado caíram anjos . . ." Mas a "ambição" pode igualmente referir-se a fortes desejos, altruístas em lugar de egoístas, piedosos ao invés de mundanos. Resumindo, é possível ter "ambições para Deus". A ambição refere-se aos alvos de nossa vida e ao incentivo que temos de atingi-los. A ambição de uma pessoa é aquilo que a impele: revela a mola principal de suas ações, suas mais secretas motivações. Isto, então, é o que Jesus estava dizendo ao definir, na contracultura cristã, o que devemos buscar "em primeiro lugar".

Novamente, nosso Senhor simplifica o assunto para nós, redu­zindo em apenas duas as alternativas possíveis de alvos na vida.

Nesta seção, ele as confronta uma com a outra, insistindo com os seus discípulos que não se preocupem com a própria segu­rança (alimento, bebida e vestimentas), pois essa é a obsessão dos "gentios", que não o conhecem; mas que se preocupem antes com o reino de Deus e com a justiça divina, bem como com a sua propagação e o seu triunfo no mundo.

a. Ambição falsa ou secular: nossa própria segurança material A maior parte deste parágrafo é negativa. Três vezes Jesus repete a sua proibição Não andeis ansiosos (vs. 25, 31, 34), ou "Não fiquem aflitos". E a preocupação que ele nos proíbe é quanto ao alimento, quanto à bebida e quanto à roupa: Que comeremos? Que beberemos? Que vestiremos? (v. 31). Mas esta é precisa­mente "a trindade dos cuidados do mundo": porque os gentios é que procuram todas estas cousas (v. 32). Basta olhar para a propaganda na televisão, nos jornais e nos transportes públicos para vermos uma vivida ilustração moderna do que Jesus ensi­nou há cerca de dois mil anos atrás.

Há alguns anos recebi um exemplar gratuito de Accent, uma nova revista, muito bem apresentada, cujo subtítulo é "A Boa Vida em Foco" (Accent on Good Living). Continha atraentes anúncios de champanha, cigarros, alimentos, roupas, antiguidades e tapetes, junto com a descrição de um fim-de-semana para compras esotéricas em Roma. Havia artigos sobre como possuir um computador na cozinha; como ganhar uma viagem de luxo por mar ou, em lugar disso, cem dúzias de uísque escocês; e como quinze milhões de mulheres não podem estar erradas na escolha de cosméticos. Prometia, então, no exemplar do mês seguinte, artigos sedutores sobre férias no Caribe, roupa de cama aconchegante, roupa íntima elegante para o frio, e as delícias da carne de veado e de tâmaras importadas. Do começo ao fim preocupava-se com o bem-estar do corpo e como alimentá-lo, vesti-lo, aquecê-lo, refrescá-lo, relaxá-lo, entretê-lo, enfeitá-lo e estimulá-lo.

Por favor, não me entendam mal. Jesus Cristo não negou nem desprezou as necessidades do corpo. Para se dizer a verdade, foi ele que o criou, e dele ele cuida. E acabou de nos ensinar a orar: "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje". O que, então, ele está a dizer? Está enfatizando que ficar absorto pelo conforto material é uma falsa preocupação. De um lado, não é produtivo (exceto pelas úlceras e pelas preocupações novas que surgem); por outro, não é necessário (porque "vosso Pai celeste sabe que necessitais . . .", vs. 8 e 32); mas especialmente porque não vale a pena. Indica uma falsa visão dos seres humanos (como se fossem apenas corpos precisando de alimento, água, roupas e casa) e da vida humana (como se fosse apenas um mecanismo fisiológico precisando de proteção, lubrificação e combustível). Uma preocupação exclusiva com alimento, bebida e roupas poderia se justificar apenas se a sobrevivência física fosse tudo nesta vida.  Se vivêssemos apenas para viver, então, sim, o sustento do nosso corpo seria a nossa principal preocupação. Por isso entende-se que, em condições críticas de fome, a luta pela sobrevivência tenha precedência sobre outras coisas. Mas fazê-lo em circunstâncias comuns expressa um conceito reducionista do homem, que é totalmente inaceitável. Degrada-o ao nível dos animais, das aves e das plantas. Mas a grande maioria dos anúncios de hoje é dirigida para o corpo: roupa íntima visando torná-lo mais atraente, desodorantes para mantê-lo perfumado, bebidas alcoólicas para animá-lo quando está cansado . . . Esta preocupação provoca as seguintes perguntas: o bem-estar físico é um objetivo válido para lhe devotarmos nossas vidas? Não tem a vida humana mais significado do que isto? Os gentios é que procuram todas estas comas. Que procurem! Mas, quanto a vocês, meus discípulos, Jesus dá a entender, essas coisas são um alvo absolutamente sem valor, pois não constituem o "Su­premo Bem" da vida.

Agora precisamos esclarecer o que Jesus está proibindo, e que motivos ele dá para essa proibição. Primeiro, não está proi­bindo o pensamento. Pelo contrário, está estimulando-o quando prossegue ordenando-nos a olhar para as aves e flores e "consi­derar" como Deus cuida delas. Segundo, não está proibindo a previdência. Já mencionei como a Bíblia aprova a formiga. Também os passarinhos, os quais Jesus elogiou, fazem provisão para o futuro, construindo ninhos, botando e chocando ovos, e alimentando os filhotes.
Muitos migram para climas mais quentes antes do inverno (o que é um exemplo notável de previdência, embora instintiva), e alguns até armazenam alimento, como os picanços, que formam a sua própria despensa espetando insetos sobre espinhos. Portanto, não encontramos aqui nada que impeça os cristãos de fazer planos para o futuro ou de dar passos sensatos para a sua realização. O que Jesus proíbe não é o racio­cínio nem a previdência, mas a preocupação ansiosa. Este é o significado da ordem më merimnate. É a palavra que foi usada em relação a Marta, que estava "distraída" com o serviço da casa; e também em relação à boa semente lançada entre os espi­nhos, abafada pelos "cuidados" da vida; e ainda foi usada por Paulo na injunção: "Não andeis ansiosos de cousa alguma"(Lc 10:40; 8:14; Fp 4:6.). É como o Rev. Ryle expressou: "A provisão prudente para o futuro é boa; a fadiga, o desgaste, a ansiedade que atormenta são ruins."

Por que são ruins? Jesus replica, argumentando que esse tipo de preocupação obsessiva é incompatível, tanto com a fé cristã (vs. 25-30) como com o bom senso (v. 34); mas se detém mais no primeiro ponto.

1. A preocupação é incompatível com a fé cristã (vs. 25-30). No versículo 30 Jesus atinge aqueles que ficam ansiosos por causa de roupa e de comida, chamando-os de "homens de pe­quena fé". Os motivos que ele apresenta, pelos quais deveríamos confiar em Deus em lugar de ficar ansiosos, são ambos argu­mentos a fortiori ("quanto mais"). Um foi extraído da experi­ência humana e argumenta partindo do maior para o menor; o outro vem da experiência sub-humana (aves e flores) e argumenta do menor para o maior.

Nossa experiência humana é a seguinte: Deus criou e agora sustenta a nossa vida; ele também criou e continua sustentando o nosso corpo. Este é um fato da experiência diária. Nós não nos fizemos, nem nos mantemos vivos. A nossa "vida" (pela qual Deus é o responsável) é obviamente mais importante do que o alimento e a bebida que nos nutrem. Semelhantemente, o nosso "corpo" (pelo qual Deus também é responsável) é mais impor­tante do que a roupa que o cobre e aquece. Pois bem, se Deus já cuida do maior (nossa vida e nosso corpo), não podemos con­fiar nele para cuidar do menor (nosso alimento e nossa roupa)? A lógica é inevitável e, no versículo 27, Jesus a reforça com a pergunta: Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? Não está claro se a última pala­vra dessa pergunta (kêlikia) deveria ser traduzida por "curso da sua vida" (ERAB) ou "estatura" (ERC); pode significaras duas coisas. Acrescentar meio metro à nossa estatura seria um feito realmente notável, embora Deus o faça a todos nós entre a nossa infância e a idade adulta. Acrescentar um período de tempo ao curso de nossa vida também está fora de nosso alcance; um ser humano não pode consegui-lo sozinho. Na verdade, ao invés de alongar a vida, a preocupação "pode muito bem en­curtá-la", como todos sabemos. Por isso, exatamente como deixamos essas coisas aos cuidados de Deus (pois certamente estão fora do nosso alcance), não seria sensato confiar nele para as coisas de menor importância, como o alimento e a roupa?

A seguir Jesus volta-se para o mundo sub-humano e argu­menta de outra maneira. Ele usa as aves como ilustração do cuidado divino em alimentar (v. 26) e as flores para ilustrar o seu cuidado no vestir (vs. 28-30). Em ambos os casos, ele nos manda "olhar" ou "considerar", isto é, pensar sobre os fatos do cuidado providencial de Deus nesses dois casos. Alguns lei­tores sabem que eu mesmo tenho sido, desde a minha meninice, um entusiástico observador de pássaros. Sei, naturalmente, que essa atividade é considerada por alguns como um passa­tempo bastante excêntrico; olham-me com divertimento e con­descendência. Mas declaro que tenho apoio bíblico para esta atividade. "Observai as aves do céu", disse Jesus! Na verdade, o assunto é sério, pois o verbo grego nesta ordem de Jesus(emblepsate eis) significa "fixe os olhos em (algo), para enxergar bem". Quando nos interessamos pelas aves e pelas flores (e devemos, tal como o nosso Mestre, estar conscientes do mundo natural que nos cerca, sendo gratos por ele), ficamos sabendo que os pássarosnão semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, mas mesmo assim vosso Pai celeste os sustenta, e que os lírios do campo(anêmonas, papoulas, íris e gladíolos, todos têm sido sugeridos como alternativas para os lírios, embora a referência seja generalizada a todas as lindas flores da primavera na Galiléia) . . . não trabalham nem fiam, mas o nosso Pai ce­leste veste assim a todas, ainda mais suntuosamente que Salo­mão, em toda a sua glória. Sendo assim, não podemos confiar nele para nos alimentar e nos vestir, já que temos muito mais valor do que as aves e as flores? Pois ele não veste até a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno?

"Vejam", escreve Martinho Lutero com muita beleza, "ele está fazendo das aves nossos professores e mestres. É uma grande e permanente vergonha para nós o fato de, no Evangelho, um frágil pardal se tornar teólogo e pregador para o mais sábio dentre oshomens . . . Portanto, sempre que você ouvir a voz de um rouxinol, está ouvindo um excelente pregador . . . É como se ele estivesse dizendo: 'Eu prefiro estar na cozinha do Senhor. Ele fez o céu e a terra, e ele mesmo é o cozinheiro e o anfitrião. Todos os dias ele aumenta e nutre inúmeros passarinhos em sua mão'." Semelhantemente, desta vez citando Spurgeon:

"Maravilhosos lírios, como vocês reprovam o nosso tolo ner­vosismo!"
Não nos tocam estas singelas rimas?
Disse a rolinha ao pardal:
"Gostaria de saber Por que os homens, ansiosos,
Nunca param de correr!"
Respondeu o pardalzinho: "Minha amiga, eu penso assim:
Não sabem que o Pai celeste Cuida de ti e de mim!"

É uma figura encantadora, mas não um reflexo estritamente exato do ensinamento de Jesus, pois ele não disse que as aves têm um Pai celeste, mas sim que nós o temos, e que, se o Criador cuida de suas criaturas, podemos ter certeza de que o Pai também cuidará dos seus filhos.

2. Problemas relacionados com a fé cristã. Preciso, a esta altura, fazer uma digressão para comentar três problemas relacionados com a fé cristã que, segundo Jesus, deve ser como a de uma criança. Todos os três são problemas grandes e só podem ser abordados de levemas, considerando que eles surgem em nossas mentes por causa da promessa básica de nosso Senhor (de que o Pai celeste vai alimentar-nos e vestir-nos) seria errado fugir deles. Vou especificá-los negativamente, em termos de três liberdades que a fé não toma à luz da promessa de Deus, ou de três imunidades que a sua promessa não nos dá.

Primeiro, os crentes não estão isentos de ganhar a sua própria vida. Não podemos ficar sentados numa poltrona, girando os polegares, murmurando "meu Pai celestial provera", sem fazer nada. Temos de trabalhar. Como Paulo disse mais tarde: "Se alguém não quer trabalhar, também não coma (2Ts3:10.)." Com sua simplicidade característica, Lutero escreve: "Deus . . . não tem nada a ver com os preguiçosos, com os glutões displicentes; eles agem como se apenas devessem ficar sentados à espera de que Deus lhes atire na boca um ganso assado."

Jesus usou as aves e as flores como evidências da capacidade de Deus para nos alimentar e vestir, conforme vimos. Mas como Deus alimenta as aves? Poderíamos responder que ele não o faz, pois elas se alimentam sozinhas! Jesus era um observador meticuloso. Ele sabia perfeitamente bem quais são os hábitos alimentares dos pássaros; sabia que alguns comem sementes, outros comem cadáveres e outros comem peixes, enquanto que outros ainda são insetívoros, predadores ou lixeiros. Deus os alimenta a todos. Mas o modo como o faz não é estendendo-lhes uma mão divina cheia de comida, mas providenciando na natu­reza os recursos para que eles se alimentem. Pode-se dizer o mesmo das plantas. "As flores não fazem o trabalho dos homens no campo ('não trabalham'), nem o trabalho das mulheres em casa ('não fiam')", mas Deus as veste. Como? Não milagrosa­mente, mas através de um processo complexo que arranjou,em que elas extraem do sol e do solo o seu sustento.

O mesmo acontece com os seres humanos. Deus supre, mas nós temos de cooperar. Hudson Taylor aprendeu esta lição em sua primeira viagem à China, em 1853. Quando uma tempestade violenta na costa gaulesa ameaçou o navio, ele achou que seria desonrar a Deus usar um salva-vidas. Por isso, desfez-se do seu. Mais tarde, entretanto, percebeu o seu erro: "O uso de meios não diminui a nossa fé em Deus, e a nossa fé em Deus não im­pede que usemos quaisquer meios que ele tenha fornecido para a realização dos seus propósitos".

Semelhantemente, Deus não coloca todos os seus filhos na situação do profeta Elias, nem lhes dá alimento milagrosamente por meio de anjos ou corvos mas, antes, através de meios mais naturais: fazendeiros, moleiros, granjeiros, peixeiros, açougueiros, merceeiros e outros. Jesus insiste conosco sobre a necessidade de uma confiança despretensiosa em nosso Pai ce­leste, mas ele sabe que a fé não é ingênua (ignorante das causas secundárias) nem arcaica (incompatível com a ciência moderna). Segundo, os crentes não estão isentos da responsabilidade para com os outros. Digo isso em relação ao segundo problema, que é mais de providência do que de ciência. Se Deus promete alimentar e vestir os seus filhos, por que há tanta gente subnutrida e mal vestida? Eu não poderia dizer levianamente que Deus cuida só dos seus próprios filhos, e que os pobres que têm falta de alimento e roupa adequada são todos incrédulos que estão fora do seu círculo familiar, pois certamente há pessoas cristãs em algumas regiões atacadas pela seca e pela fome, as quais passam toda espécie de necessidades. Não me parece haver uma solução simples para este problema. Mas é preciso destacar um ponto importante, isto é, que a principal causa da fome não é a falta da provisão divina, mas uma injusta distribuição por parte do homem. A verdade é que Deus forneceu recursos amplos na terra e no mar. A terra produz plantas que dão sementes e árvores que dão frutos. Os animais, as aves e os peixes que ele criou são frutíferos e multiplicam-se. Mas o homem açambarca, desperdiça ou estraga esses recursos, e não os distribui. Parece significativo que, no próprio Evangelho de Mateus, o mesmo Jesus que aqui afirma que nosso Pai aumenta e veste os seus filhos, mais tarde diz que nós mesmos devemos alimentar os famintos e vestir os nus, e que seremos julgados de acordo com isso. Sempre é importante permitir que as Escrituras interpretem as Escrituras. O fato de Deus alimentar e vestir os seus filhos não nos isenta da responsabilidade de sermos seus agentes para isso. Terceiro, os crentes não estão isentos das dificuldades. É ver­dade que Jesus proíbe que o seu povo se preocupe. Mas estar livre de preocupações e estar livre de dificuldades não é a mesma coisa. Cristo nos manda deixar de lado a ansiedade, mas não promete que seremos imunes a todos os infortúnios. Pelo con­trário, há em seus ensinamentos muitas indicações de que ele sabia o que era a calamidade. Assim, embora Deus vista a erva do campo, não impede que ela seja cortada e queimada. Deus protege até mesmo os pardais, que são tão comuns e de um valor tão mínimo que se vendem dois por um real e cinco por dois reais, indo mais um de quebra. "Nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai" (Mt 10:29; cf. 12:6.), disse Jesus. Mas os pardais caem ao chão e são mortos. Sua promessa não foi que eles não cairiam, mas que isto não aconteceria sem o conheci­mento e consentimento de Deus. As pessoas também caem, e os aviões, também. As palavras de Cristo não podem ser tomadas como uma promessa de que a lei da gravidade será revogada em nosso benefício, mas sim que Deus sabe a respeito dos aci­dentes e que ele os permite. Mais ainda, é significativo que, no final deste parágrafo, o motivo por que Jesus diz que não deve­mos ficar inquietos com o dia de amanhã é o seguinte: basta ao dia o seu próprio mal (v. 34). Portanto, haverá "cuidados" (kakia, "males"). A libertação que um cristão tem da ansiedade não se deve a alguma garantia de ausência de cuidados, mas por ser a preocupação (que examinaremos mais tarde) uma insensatez, e especialmente pela confiança que temos de que Deus é nosso Pai, que até mesmo a permissão para o sofrimento está dentro da órbita do seu cuidado (cf.Jó 2:10.), e que "todas as cousas coo­peram para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm8:28.).

Esta foi a certeza que fortaleceu o Dr. Helmut Thielicke, ao pregar uma série de sermões sobre o Sermão do Monte na Igreja de São Marcos, em Stuttgart, durante aqueles terríveis anos (1946-1948) imediatamente após a segunda guerra mundial. Frequentemente aludia ao sonido das sirenes antiaéreas que durante a guerra alertavam o povo de ainda mais devastações e mortes provocadas pelas bombas dos aliados. O que a liber­tação da ansiedade poderia significar em tais circunstâncias? "Conhecemos a visão e o barulho das casas desmoronando em chamas . . . Nossos próprios olhos viram as chamas rubras e nossos próprios ouvidos ouviram os estrondos, os desmorona­mentos e os gritos." Em tal cenário, ordenar que olhassem para as aves e os lírios poderia parecer muito falso. "Não obstante", o Dr. Thielicke prosseguiu, "acho que devemos parar e ouvir quando este homem, cuja vida na terra teve muito pouco de 'passarinhos e flores', aponta-nos para a despreocupação deles. Será que as tenebrosas sombras da cruz já não se espalhavam sobre esta hora em que ele pregou o Sermão do Monte?". Em outras palavras, é razoável confiar no amor de nosso Pai celeste, até mesmo nos momentos de dificuldades cruéis, porque temos o privilégio de ver esta revelação em Cristo e na sua cruz.

Portanto, os filhos de Deus não têm a promessa de que ficarão livres do trabalho, nem da responsabilidade, nem das dificuldades, mas apenas da preocupação. Esta, sim, nos é proibida: é incompatível com a fé cristã.

3. A preocupação é incompatível com o bom senso (v. 34). Retor­nando de nossa digressão sobre os problemas da fé, temos agora de destacar que a preocupação é tão incoerente com o bom senso quanto o é com a fé cristã. No versículo 34, Jesus menciona o hoje e oamanhã. Toda a preocupação é sobre o amanhã, quer seja relacionada com a roupa ou o alimento ou qualquer outra coisa; mas toda a preocupação é experimentada hoje. Sempre que ficamos ansiosos, ficamos preocupados no momento pre­sente sobre alguma coisa que vai acontecer no futuro. Entre­tanto, esses temores sobre o amanhã, que sentimos com tanta força hoje, talvez não se concretizem. O conselho popular "não se preocupe, talvez não aconteça nunca", sem dúvida não é nada simpático, mas perfeitamente verdadeiro. As pessoas se preocupam com os exames, ou com um emprego, ou com o casa­mento, ou com a saúde, ou com algum empreendimento . . . Mas tudo isso é fantasia. "Os temores podem ser mentirosos"; e geralmente o são. Muitas preocupações, talvez a maioria delas, jamais acontecerão.

Portanto, a preocupação é uma perda de tempo, de pensa­mentos e de energia nervosa. Precisamos aprender a viver um dia de cada vez. Devemos, naturalmente, planejar o futuro, mas não nos preocupar com ele. "Vivam um dia de cada vez", ou "Bastam a cada dia suas próprias dificuldades". Portanto, por que antecipá-las? Se o fizermos, nós as multiplicaremos, pois, se nossos temores não se concretizarem, teremos nos preo­cupado em vão; no caso de se concretizarem, estaremos nos preocupando duas vezes em vez de uma. De qualquer forma é tolice: a preocupação aumenta a nossa perturbação.

Chegou o momento de fazer uma síntese do que Jesus disse sobre as falsas ambições do mundo. Preocupar-se com coisas materiais, de modo que elas monopolizem a nossa atenção, absorvam a nossa energia e nos atormentem com ansiedade é incompatível com a fé cristã e com o bom senso. É falta de con­fiança em nosso Pai celeste e, francamente, uma estupidez. É isto que os pagãos fazem; mas é totalmente impróprio e indigno para os cristãos. Portanto, assim como Jesus já nos convocou no Sermão para uma justiça maior, para um amor mais amplo e para uma piedade mais profunda, agora ele nos convoca para uma ambição mais alta.

b. Ambição verdadeira ou cristã: o reino e a justiça de Deus. É importante examinar os versículos 31, 32 e 33 juntos. O versí­culo 31 repete a proibição contra a ansiedade pelo alimento, pela bebida e pela roupa. O v. 32 acrescenta: Os gentios é que procuram todas estas cousas. Isto mostra que, no vocabulário de Jesus, "procurar" e "ficar ansioso" são intercambiáveis. Ele não está falando tanto de ansiedade, mas de ambição. A ambição dos pagãos está focalizada nas necessidades materiais. Mas isto não pode acontecer com os cristãos, em parte porque vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas, mas, prin­cipalmente, porque estas coisas não constituem objetivo apropriado ou digno da busca do cristão. Ele deve ter algo diferente, algo mais elevado, como o Bem Supremo, para procurar com toda a energia; não coisas materiais, mas valores espirituais; não o seu próprio bem, mas o de Deus; não alimento e roupa, mas o reino e a justiça de Deus. Isto nada mais é do que a continuidade dos ensinamentos implícitos na oração do Pai-Nosso. De acordo com isso, os cristãos devem reconhecer as necessi­dades do corpo ("o pão nosso de cada dia dá-nos hoje"), embora nossa preocupação prioritária seja com o nome, com o reino e com a vontade de Deus. Não podemos orar o Pai-Nosso até que nossas ambições sejam purificadas. Jesus nos diz para "buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça"; na oração do Pai-Nosso, transformamos esta busca suprema em oração.

1. Buscar primeiro o reino de Deus. Quando Jesus falou do reino de Deus, não se referia à soberania geral de Deus sobre a natureza e a História, mas àquele governo específico sobre o seu próprio povo, o qual ele mesmo inaugurou e que começa na vida de qualquer pessoa quando ela se humilha, se arrepende, crê, submete-se a ele e nasce de novo. O reino de Deus é Jesus Cristo governando o seu povo, com exigências e bênçãos, que desconhecem meios-termos.  "Buscar primeiro" este reino é desejar, como coisa de primordial importância, a propagação do reino de Jesus Cristo. Tal desejo começará em nós mesmos, até que cada setor de nossa vida (lar, casamento e família, mora­lidade pessoal, vida profissional e ética comercial, saldo ban­cário, imposto de renda, estilo de vida, cidadania) seja subme­tido, prazerosa e francamente, a Cristo. Esse desejo continuará, em nosso ambiente imediato, com a aceitação da responsabili­dade evangelística para com nossos parentes, colegas, vizinhos e amigos. E também atingirá a preocupação pelo testemunho missionário mundial da Igreja.

Temos, então, de ser claros sobre a verdadeira motivação missionária. Por que desejamos a propagação do Evangelho por todo o mundo? Não por causa de um imperialismo ou triunfalismo iníquo, quer para nós mesmos, para a Igreja ou até mesmo para o "Cristianismo". Nem apenas porque a evangelização faz parte de nossa obediência cristã (embora o faça). Nem prima­riamente para tornar outras pessoas felizes (embora isso acon­teça). Mas especialmente porque a glória de Deus e do seu Cristo estão em jogo. Deus é Rei, inaugurou seu reino de salvação através de Cristo, e tem o direito de governar a vida de suas cria­turas. Nossa ambição, então, é buscar primeiro o seu reino, acalentar o desejo ardente de que o seu nome receba dos homens a honra a que tem direito.

Conceder prioridade aos interesses do reino de Deus aqui e agora não é perder de vista o seu alvo além da História, pois a presente manifestação do reino é apenas parcial. Jesus falou também de um reino futuro de glória e nos disse que orássemos por sua vinda. Portanto, "buscar primeiro o reino" inclui o desejo e a oração por sua consumação no fim dos tempos, quando todos os inimigos do Reino forem colocados sob os seus pés e o seu reino for incontestável.

2. Buscar primeiro a justiça de Deus. Não ficou claro por que Jesus fez distinção entre o seu reino e a sua justiça, como ideias gêmeas, mas de objetivos separados, em nossa prioritária busca cristã. Porque o reino de Deus é um reino justo e, já no Sermão do Monte, Jesus nos ensinou a termos fome e sede de justiça, a estarmos prontos a ser perseguidos por causa dele e a eviden­ciarmos uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus. Agora ele nos manda buscar primeiro a justiça de Deus, além de buscar primeiro o reino de Deus.

Vou fazer uma tentativa de explicar a diferença entre os dois. O reino de Deus existe apenas onde Jesus Cristo é consciente­mente reconhecido. Estar no seu reino é sinônimo de desfrutar da sua salvação. Apenas os que nasceram de novo viram e en­traram no seu reino. E buscá-lo em primeiro lugar é propagar as boas novas da salvação em Cristo.

Mas a justiça de Deus é (pelo menos argumentavelmente) um conceito mais amplo do que o reino de Deus. Inclui aquela justiça individual e social à qual se fez referência anteriormente no Sermão. E Deus, sendo ele mesmo um Deus justo, deseja a justiça em cada comunidade humana, não apenas em cada comu­nidade cristã. Os profetas hebreus condenaram a injustiça não só em Israel e Judá, mas também entre as nações pagãs à volta. O profeta Amos, por exemplo, advertiu que o juízo de Deus cairia sobre a Síria, Filistia, Tiro, Edom, Amom e Moabe por causa de sua crueldade na guerra e outras atrocidades, como também cairia sobre o povo de Deus. Deus odeia a injustiça e ama a justiça em qualquer lugar. O Pacto de Lausanne, estru­turado no Congresso sobre Evangelização do Mundo, em julho de 1974, inclui um parágrafo sobre a "responsabilidade social cristã", que começa assim: "Afirmamos que Deus é o Criador e Juiz de todos os homens. Portanto, partilhamos de sua preocu­pação com a justiça e com a reconciliação de toda a sociedade humana."

Um dos propósitos de Deus para a sua comunidade nova e redimida é que, através dela, a sua justiça se faça agradável (na vida pessoal, familiar, comercial, nacional e internacional), e por isso a recomenda a todos os homens. Então as pessoas que estão fora do reino de Deus vão vê-la e desejá-la, e a justiça do reino de Deus transbordará, por assim dizer, sobre o mundo dos não-cristãos. Naturalmente a profunda justiça do coração, que Jesus enfatizou no Sermão, é impossível, a não ser nos que foram regenerados; mas certa porção de justiça é possível na sociedade não-regenerada: na vida pessoal, nos padrões fami­liares e na decência pública. Mas o cristão deseja ir muito além disso e ver as pessoas literalmente trazidas para dentro do reino de Deus através da fé em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, não deveríamos nos envergonhar de declarar que, fora do círculo do reino, Deus também prefere a justiça à injustiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio, a paz à guerra.

Se é assim (e não vejo como isso poderia ser contestado), então buscar primeiro o seu reino e a sua justiça pode-se dizer que abrange nossas responsabilidades cristãs evangelísticas e sociais, tanto quanto as metáforas do "sal" e da "luz" de Mateus 5. A fim de buscar primeiro o reino de Deus temos de evangelizar, uma vez que o reino só se propaga quando o evangelho de Cristo é pregado, ouvido, crido e obedecido. A fim de buscar primeiro a justiça de Deus, temos também de evangelizar (pois a justiça interior do coração torna-se impossível de outro modo), mas também temos de nos envolver em atividades e empreendimentos sociais para propagar por toda a comunidade aqueles padrões mais elevados de justiça que são agradáveis a Deus.

Qual é, então, a nossa ambição cristã? Todos nós somos ambi­ciosos de ser ou fazer alguma coisa, geralmente desde os mais tenros anos. As ambições da infância tendem a seguir certos protótipos; por exemplo: ser cowboy, astronauta ou bailarina. Os adultos também têm os seus próprios protótipos; por exem­plo: ficar rico, famoso ou poderoso. Mas, em última análise, só há duas ambições possíveis para os seres humanos. Vimos até agora como Jesus comparou a verdadeira com a falsa am­bição, a secular ("gentia") com a cristã, a material com a espiritual, os tesouros da terra com os tesouros do céu, o alimento e a roupa com o reino e a justiça de Deus. Mas, acima e além de tudo isso, fica um contraste ainda mais fundamental. No final, exatamente como há apenas dois tipos de piedade, a ego­cêntrica e a teocêntrica, também existem apenas dois tipos de ambição: podemos ser ambiciosos para nós mesmos ou para Deus. Não há uma terceira alternativa.

As ambições voltadas para o ego podem ser bastante modestas (o suficiente para comer, beber e vestir, como no Sermão) ou podem ser grandiosas (uma casa maior, um carro mais possante, um salário melhor, uma reputação mais influente, mais poder). Mas, modestas ou não, são ambições dirigidas a mim mesmo: meu conforto, minha riqueza, meu status, meu poder.

As ambições voltadas para Deus,  entretanto,  para serem dignas dele, nunca devem ser modestas. Há algo inerentemente impróprio em se ter pequenas ambições para Deus. Como pode­ríamos nos contentar em que ele adquira só mais um pouquinho de honra no mundo? Não. Quando percebemos que Deus é Rei, então desejamos vê-lo coroado de glória e honra, no lugar a que tem direito, que é o lugar supremo. Então tornamo-nos ambi­ciosos pela propagação do seu reino e da sua justiça por toda parte.


Quando isto constitui genuinamente a nossa ambição predo­minante, então não só todas estas cousas vos serão acrescentadas (isto é, nossas necessidades materiais serão supridas), como também não haverá mal algum em ter ambições secundárias, uma vez que estas serão subservientes à nossa ambição primária e não competirão com ela. Na verdade, só então é que as ambi­ções secundárias tornam-se sadias. Os cristãos deveriam ser zelosos em desenvolver os seus talentos, alargar as suas oportu­nidades, estender a sua influência e receber promoções em seu trabalho, não mais para fomentar o seu próprio ego ou edificar o seu próprio império, mas sim para, através de tudo o que façam, glorificar a Deus. Ambições menores são sadias e cor­retas, contanto que não constituam um fim em si mesmas (isto é, em nós mesmos), mas sejam o meio de alcançar um fim maior (a propagação do reino e da justiça de Deus) e, portanto, o maior de todos, isto é, a glória de Deus. Este é o "Bem Supremo" que devemos buscar primeiro; não há outro.

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