A BUSCA DOS VALORES LIÇÕES BETEL
Os valores éticos e morais encontrados na Bíblia são absolutos e
insubstituíveis, porque estão fundamentados na Palavra e no caráter de Cristo.“Sabendo primeiro isto: que nos últimos dias virão escarnecedores,
andando segundo as suas próprias concupiscências” (2 Pe 3.3).
A palavra “valor (Normas ou princípios morais que orientam a conduta
das pessoas.)” origina-se do latim e significa “ser digno”. “Valores”, no
contexto desta lição, referem-se aos princípios éticos e sociais aceitos por
uma pessoa ou grupo, isto é, ao comportamento humano; suas regras e padrões.Atualmente, tem havido uma “inversão” desses valores: a ética e a moral
cristãs, antes aprovadas pela sociedade, vêm sendo sistematicamente
substituídas por princípios amorais mundanos (Is 5.18-25; Cl 2.8). Em 2 Pedro
1.3-10, a Palavra de Deus estabelece os princípios éticos, as virtudes e
valores necessários à boa conduta dos filhos de Deus.
INVERSÃO DOS VALORES BÍBLICO-CRISTÃOS
1. Causas da inversão dos valores. Ao folhearmos alguns jornais e
revistas seculares, constatamos o quanto os valores éticos e morais cristãos
têm sido desprezados pela sociedade pós-moderna. Vejamos as causas:
a) Ascensão do relativismo moral. Segundo esta teoria filosófica, não existe
norma moral ou ética válida para todas as pessoas. As normas variam de cultura
para cultura, de pessoa para pessoa. Cada um vive conforme as regras que
estabeleceu para si mesmo. Assim, há uma ética para o cristão, outra para o
ateu e uma terceira para os que não se enquadrem nas anteriores.
Não existe, de acordo com esse pensamento mundano, normas, verdades ou
valores que sirvam para todas as pessoas em todos os lugares.
b) Manifestação social do pluralismo. O pluralismo reconhece que há
uma multiplicidade de culturas, religiões e posições éticas e morais
conflitantes. Essa doutrina filosófica, todavia, diz que essas posições
contraditórias podem coexistir, como se cada uma delas trouxesse uma parte da
verdade e, nenhuma a verdade completa ou absoluta. Assim, a verdade encontra-se
em cada sistema religioso, filosófico ou moral. Então, segundo esse pensamento,
o cristianismo traz uma parte da verdade, o budismo outra e assim sucessivamente
Segundo o pluralismo, assumir e respeitar diferentes valores em uma sociedade
em constante mudança é uma manifestação de empatia e tolerância com o outro.
c) Crescente mundanismo. O mundanismo faz constante oposição à Igreja e aos valores cristãos
(Tg 4.4; 1 Jo 2.15-17). A sociedade organizada e rebelada contra Deus, tem
estabelecido suas próprias leis, sem a menor consideração aos mandamentos
divinos. O que temos visto, infelizmente, é o sagrado e o religioso curvarem-se
ante o profano e o secular; até mesmo em certas denominações evangélicas.
2. Os valores cristãos invertidos. Há uma lista considerável de
princípios bíblicos que não apenas foram desvalorizados, mas ultrajados pela
sociedade pós-moderna. Vejamos:
a) Quanto ao casamento: Atualmente, em algumas sociedades, já se aceita a abominável união
entre pessoas do mesmo sexo. É um atentado contra a Palavra de Deus, a
família e os valores cristãos. O Senhor instituiu e abençoou apenas a união
entre homem e mulher (Gn 1.27,28; 2.22-24). Quanto aos que querem mudar a ordem
natural da criação, (Lv 19.22; Rm 1.26-32) serão amaldiçoados. A Bíblia é
implacável neste caso: “Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino
de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem
homossexuais passivos ou ativos... herdarão o Reino de Deus” (1 Co 6.9,10 -
NVI).
b) Quanto à família: As virtudes cristãs concernentes à família estão sendo
substituídas por valores anticristãos: filhos que não respeitam os pais; pais
permissivos quanto à moralidade; e a substituição do culto doméstico por
entretenimentos perniciosos etc.
c) Quanto à igreja: Nesses “tempos trabalhosos”, muitas comunidades
cristãs valorizam mais o “ministério” bem-sucedido do pregador que a
santidade e o testemunho mantido por ele; mais o marketing ministerial do que
os verdadeiros sinais do poder de Deus. Pregadores santos e tementes a Deus são
preteridos por aqueles que buscam o louvor próprio em vez da glória de Cristo.A ascensão do relativismo moral, a manifestação social do pluralismo e
os valores cristãos invertidos são algumas causas da inversão de valores na
pós-modernidade.
FUNDAMENTOS DOS VALORES CRISTÃOS
1. Os valores cristãos. Os valores cristãos estão pautados nas Sagradas Escrituras e são
opostos aos do mundo. Enquanto cremos na existência de um só Deus, cujas leis
regem não apenas o Universo, mas nossas vidas, planos e vontades, a cultura
mundana nega a existência do Altíssimo, e seus adeptos vivem como se o Senhor
realmente não existisse (Sl 14; 53).
2. Os três fundamentos. Os princípios cristãos possuem, pelo menos, três fundamentos
básicos: são universais, absolutos e imutáveis.
a) Universais. Os valores cristãos são universais por estarem fundamentados na
moral divina. Nosso Deus é um ser moral. Seus atributos atestam que Ele é santo
(Lv 11.44; 1 Sm 2.2), justo (2 Cr 12.6; Ed 9.15), bom (Sl 25.8;
54.6), e verdadeiro (Jr 10.10; Jo 3.33). Portanto, o Senhor é o padrão moral
daquilo que é santo - oposto ao pecado -, daquilo que é justo - oposto a
injustiça -, daquilo que é bom - oposto ao que é mau, e daquilo que
é verdadeiro - oposto à mentira. Tudo o que é puro, justo, bom e
verdadeiro têm sua origem no caráter moral de Deus. Por conseguinte, os valores
morais são universais porque procedem de um Legislador Moral universal.
b) Absolutos. Absoluto é aquilo que não depende de outra coisa, mas existe por
si mesmo. Os valores cristãos são absolutos porque procedem de um Deus pessoal
que não depende de qualquer outro ser para existir, Ele é eterno (Dt 33.27; Sl
10.16); existe por si mesmo (Êx 3.14), e tem a vida em si mesmo (Jo 5.26). Deus
também é absoluto porque não está sujeito às épocas (1 Tm 1.17;
2 Pe 3.8; Jd v.25). Ele governa eternamente o Universo (Sl 45.6;
145.13), e seu reinado é de justiça (Hb 1.8).
c) Imutáveis. Imutável é a qualidade daquilo que não muda. Os valores cristãos
são imutáveis porque o Senhor Deus é imutável. Ele não muda (1 Cr 29.10; Sl
90.2), é o mesmo em todas as épocas (Hb 13.8; Tg 1.17). Suas leis se conformam
ao seu caráter moral, pois Ele é fiel (2 Tm 2.13). Portanto, devemos viver
conforme a orientação de sua Palavra.
COMO REAGIR À INVERSÃO DE VALORES
1. Denunciar o pecado e os valores mundanos. Devemos confrontar com a
Palavra de Deus, os princípios amorais e antiéticos difundidos através de
filmes, peças teatrais, novelas, músicas e revistas (Hb 4.12; Ez 44.23). Certo
diretor afirmou que “o cinema e a televisão suplantaram a igreja como grandes
comunicadores de valores e crenças”. Mas, quais são a estes valores e crenças?
Geralmente, são padrões e crenças anticristãs. A Igreja, “coluna e firmeza da
verdade” (1 Tm 3.15), tem como missão, não apenas anunciar o evangelho, mas
denunciar os pecados e os valores mundanos dos homens (1 Tm 1.18-20).
2. Ensinar e viver os valores do Reino de Deus. Como Igreja do Senhor, temos a
obrigação de viver e ensinar os mais elevados princípios éticos e morais do
Reino de Deus (Lv 20.7; 1 Pe 1.16). A verdadeira mensagem do
evangelho não se conforma aos discursos politicamente corretos, mas aos
elevados padrões da santidade divina (Mt 5.20, 48; 1 Tm 3.15; 6.11).
O crente além de ensinar e viver os valores cristãos deve denunciar a
inversão dos valores, o pecado e os valores mundanos.
CONCLUINDO
Os elevados preceitos exarados na Palavra de Deus são imutáveis e servem
de regra para orientar os homens em todas as
gerações (Is30.21; Mt 24.35; 2 Tm 3.16). Esses valores são
insubstituíveis, e devem ser coerentes com o testemunho cristão - a igreja deve
viver o que prega e pregar o que vive.
Os princípios, leis ou normas que regem a vida cristã encontram-se nos
inúmeros mandamentos morais, sociais e religiosos descritos nas Sagradas
Escrituras. Podemos afirmar que a base da ética bíblica e dos valores cristãos
é o santíssimo caráter de Deus. As Escrituras, nossa única fonte legítima da
vontade de Deus, expressam a vontade de Deus para o seu povo. Os inúmeros
mandamentos éticos e morais da Bíblia revelam a natureza santa, ética e moral
de Deus. Portanto, o estudo dos valores e da ética cristã tem como base o
caráter santo de Deus. Como você já sabe: Deus é santo (Lv 11.44;
1 Sm 2.2), justo (2 Cr 12.6; Ed 9.15), bom (Sl 25.8; 54.6), e
verdadeiro (Jr 10.10; Jo 3.33).
DEUS OU AS RIQUEZAS? M 6:22-24
Um bebê nasce com os punhos cerrados, como se estivesse preparado para
segurar o que lhe pertence. Quando o homem acumula riquezas materiais, sente-se
como um rei conquistando súditos sobre os quais pode governar. Quando gasta
dinheiro, sente-se como um general que envia exércitos ao combate para fazer
sua vontade. A avareza é característica do homem natural. Ele gosta de
acumular, e gosta do que acumula. Encontra satisfação naquilo que pode agarrar, ver
e segurar junto ao peito. No Sermão da Montanha, o Senhor advertiu seus
ouvintes do amor às coisas materiais.
Em Mateus 6:22-24, o Senhor continuou a mostrar o perigo do amor
aos bens materiais:
São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será
luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em
trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas
serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um,
e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a
Deus e às riquezas.
Os judeus usavam o olho figurativamente num sentido moral; ter
"olho mau" significava ter uma visão distorcida das coisas. O
indivíduo que pode focalizar ambos os olhos claramente num determinado objeto,
vê-o sem distorção; mas o que não tem capacidade de focalizar ambos os olhos
tem visão distorcida. O problema físico da visão distorcida ensinava aos judeus
uma verdade espiritual profunda: o homem pode ter uma visão pervertida das
coisas e não entender sua verdadeira natureza, seus verdadeiros valores, ou sua
verdadeira dignidade. Assim, ter uma visão clara, não distorcida ― ou, como diz
nosso texto, "boa" ― significava uma perspectiva adequada. O contrário
disto era visão dupla, ou ponto de vista distorcido.
Este conceito judaico provinha de diversas passagens do Antigo
Testamento. Nas leis que regem a conduta social dadas por Moisés aos
filhos de Israel consta:
Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas
cidades, na tua terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu
coração, nem fecharás as tuas mãos a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo
a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua
necessidade. Guarda-te, que não haja pensamento vil no teu coração, nem digas:
Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam
malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e ele clame contra ti ao
Senhor, e haja em ti pecado (Deuteronômio 15:7-9).
Moisés ensinou aos filhos de Israel que tinham responsabilidade para com
o irmão necessitado. Se a necessidade de um irmão chamasse a atenção de alguém
e este lhe fechasse o coração e se recusasse a dar-lhe o de que necessitava,
tal pessoa tinha um coração perverso. Esse indivíduo estava cego, e sua visão
distorcida pela ganância. Admitia a necessidade, mas amava suas posses ao ponto
de recusar contribuir para a necessidade do irmão. Moisés disse que tal atitude
era prova de coração mau. O olho mau, da mesma maneira, revelava visão
distorcida das coisas e refletia perversão moral.
A mesma verdade é apresentada em Provérbios 23:6-7: "Não comas o
pão daquele que tem olhos malignos, nem cobices os seus manjares gostosos. Porque,
como imaginou na sua alma, assim é; ele te dirá: Come e bebe: mas o seu coração
não estará contigo" (Ed. Rev. Cor.). Aqui Salomão falava do banquete de um
homem rico. Se ele tiver olhos malignos, ressentir-se-á do alimento que você
come e o coração dele será controlado pela amargura. Ele pode ter abundância,
mas chora o que você come. Por isso Salomão disse: "Não comas o pão
daquele que tem olhos malignos." O olho maligno falava de uma visão
distorcida do valor das coisas.
A mesma verdade se encontra em Provérbios 28:22: "Aquele que
tem olhos invejosos corre atrás das riquezas, mas não sabe que há de vir sobre
ele a penúria." Repetimos: o homem que se curva a qualquer esforço para
acumular bens materiais tem olho mau, visão distorcida do valor e permanência
da riqueza. Ele acha que reterá a riqueza para sempre e
não percebe, como diz Paulo, que nada trouxe para este mundo, nem
poderá levar dele coisa alguma. Ele toma o que é passageiro e lhe atribui
valor eterno. Essa visão distorcida, disse Salomão, revela "olho
mau".
Desses textos do Antigo Testamento vemos que embora as palavras do
Senhor nos pareçam estranhas porque não usamos as mesmas expressões
idiomáticas, na mente dos seus ouvintes elas continham um conceito bem firmado.
Nosso Senhor disse: "São os olhos a lâmpada do teu corpo." É o olho
que traz luz de modo que o homem possa ver. É axiomático que onde não há luz
não se pode ver. Nosso Senhor ensinou a lição moral e ética de que, se não
houver luz vinda de Deus, não pode haver interpretação adequada do que tem
verdadeiro valor. Até que a luz de Deus brilhe sobre algo, não conhecemos seu
verdadeiro caráter.
Ora, visto que esses judeus tinham uma opinião distorcida do valor dos
bens materiais, nosso Senhor teve de dizer: "Se, porém, os teus olhos
forem maus [como são, se tiverem uma opinião distorcida do valor dos bens
materiais], todo o teu corpo estará em trevas" (6:23). Aquilo que os
judeus julgavam ser bênção de Deus, Jesus disse que era prova de uma visão
distorcida das trevas interiores.
Os rabinos haviam ensinado que o meio de conservar a saúde da alma era
dar generosamente. Ser avarento era distorcer a visão. Se alguém era avarento,
o olho da alma estaria cego. Porém os fariseus ignoravam o
ensinamento dos rabinos, e nosso Senhor disse que eles estavam em cegueira ou
em trevas.
Se a pessoa não tiver visão correta das coisas materiais, terá visão
distorcida da vida como um todo. Se ela tem visão dupla concernente às coisas
materiais, adotará um conjunto de alvos inteiramente falsos para a vida. Mais
cedo ou mais tarde a pessoa se sujeitará às coisas materiais, e elas a
escravizarão. A ganância pelas coisas ou pelo dinheiro é um senhor muitíssimo
implacável. Os desejos dos entes queridos; as necessidades dos parentes e
amigos; as exigências do país, da honra, do conforto e até da própria saúde
podem ser menosprezadas; o homem abandona tudo quando a aquisição de dinheiro
se torna a obsessão da vida. A avareza é o senhor mais impiedoso do mundo.
Jesus encareceu este ponto ao dizer que ninguém pode ser fiel a dois senhores
ao mesmo tempo: "Ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se
devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às
riquezas" (v. 24).
"Riquezas" ou "Mamom" é uma personalização
do principal rival de Deus ― dinheiro ou bens materiais. Nosso Senhor
considerava a aquisição de riquezas como um alvo que leva o
homem à mais abjeta escravidão, que o impede de desincumbir-se de sua
responsabilidade de servo de Jesus Cristo. Pelo contrário, ele se escraviza ao
dinheiro e não pode servir a ninguém mais, muito menos a Deus. Quando o homem é
consumido pela paixão do acúmulo de bens materiais, não há lugar para outro
amor. O Senhor não condenou a posse de riquezas. Ele
condenou ser possuído por elas. Ele considerava o amor do
dinheiro como brutal idolatria.
Paulo escreveu: "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena:
prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno, e a avareza, que é
idolatria" (Colossenses 3:5). Avareza é idolatria. Os filhos de Israel, no
Antigo Testamento, menosprezaram a Deus que tinha o direito de governar sobre
eles, por ter ele tirado o povo do Egito, e se submeteram aos deuses das nações
entre as quais habitavam. Paulo disse que quando o homem ama ao dinheiro,
igualmente rejeita o direito do Deus que o redimiu de governar sobre ele, e se
submete a outro deus. Assim como Israel caiu em toda sorte de práticas
abomináveis por seguir em pós de falsos deuses, assim, disse Paulo, o homem que
faz do amor ao dinheiro a finalidade de sua vida encontrar-se-á
cedendo a práticas abomináveis.
A riqueza é vista, na Bíblia, como algo dado em confiança. Nunca é considerada
como um fim, mas como um meio de atingir um fim. É vista como uma bênção de
Deus, que, como tal, traz consigo responsabilidade. O que Deus confia ao homem
não deve ser usado para desfrute egoísta, mas para benefício e bênção de
outros. O homem não pode ser justo e avarento ao mesmo tempo, assim como não
pode ser piedoso e ganancioso. O homem não pode, concomitantemente, amar a Deus
e às coisas materiais. Não pode, ao mesmo tempo, ser servo fiel de Jesus Cristo
e vender-se como escravo ao dinheiro.
Nosso Senhor lidava não apenas com ações mas também com
atitudes básicas para com a vida. Em realidade, ele formulava uma pergunta:
"Para você, qual é o mais alto bem na vida?" Em nossa época,
multidões teriam de confessar que medem a virtude pelas posses materiais
acumuladas. Diz-se que o homem está realizado quando se enquadra numa alta
faixa de impostos. Essa é uma revelação da visão distorcida que nosso Senhor
disse mergulhar a alma toda em trevas morais. Essa passagem convida-nos a
examinar bem as coisas às quais damos valor, e perguntar: "Se esses bens
me fossem tomados repentinamente, qual seria minha riqueza?" Ouça de novo
a Palavra do Senhor: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de
aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao
outro." Não podemos servir a Deus e ao principal rival de Deus, as coisas
materiais. Que é, realmente, que importa na vida? O ouro ou a piedade?
Notas J. D. Pentecost
A ambição do cristão:
Não a segurança material, mas a direção de Deus Mt 6.19-34
Na primeira metade de Mateus 6 (vs. 1-18), Jesus descreve a vida particular do
cristão "no lugar secreto" (dando, orando, jejuando); na segunda
parte (vs. 19-34) ele trata dos nossos negócios públicos no
mundo (questões de dinheiro, de propriedades, de alimento, de bebida, de roupa
e de ambição). Os mesmos contrastes poderiam ser expressos em termos de nossas
responsabilidades "religiosas" e "seculares". Esta
diferença é enganosa, porque não podemos separar estes dois aspectos em
compartimentos herméticos. Na verdade, o divórcio entre o sagrado e o secular
na história da Igreja tem sido desastroso. Se somos cristãos, tudo o
que fazemos, por mais "secular" que possa parecer (como fazer
compras, cozinhar, fazer cálculos no escritório, etc), é
"religioso", no sentido de que é feito na presença de Deus e de
acordo com a sua vontade. Uma ênfase de Jesus neste capítulo é exatamente sobre
este ponto, que Deus está igualmente preocupado com as duas áreas da nossa
vida: a particular e a pública; a religiosa e a secular. Pois, de um lado,
"teu Pai celeste vê em secreto" (vs. 4, 6, 18) e, de outro,
"vosso Pai celestial sabe que necessitais de alimento, bebida e
roupa" (v. 32).
Ouvimos os mesmos insistentes convites de Jesus, nas duas esferas, o
chamado para sermos diferentes da cultura popular: diferentes da hipocrisia do
religioso (v. 1-18) e, agora, também diferentes do materialismo do irreligioso
(vs. 19-34). Embora no começo do capítulo fossem principalmente os fariseus que
estavam na mente de Jesus, agora é ao sistema de valores dos
"gentios" que ele nos incita a renunciar (v. 32). Na verdade, Jesus
coloca alternativas diante de nós em cada estágio. Há dois tesouros (na terra e
no céu, vs. 19-21), duas condições físicas (luz e trevas, vs. 22, 23), dois
senhores (Deus e as riquezas, v. 24) e duas preocupações (nosso corpo e o reino
de Deus, vs. 25-34). E não podemos pôr os pés em duas canoas!
Mas, como fazer a escolha? A ambição do mundo nos fascina fortemente. O
encanto do materialismo é difícil de se quebrar. Nesta seção, Jesus nos ajuda a
escolher o melhor. Ele destaca a insensatez do caminho errado e a sabedoria do
certo. Como nas seções anteriores, sobre a piedade e a oração, aqui, relativamente
à ambição, ele coloca o falso e o verdadeiro, um em oposição ao outro, de tal
modo que nos leva a compará-los e examiná-los por nós mesmos.
Este tópico coloca-nos diante da grande urgência da nossa
geração. A medida que a população do mundo continua aumentando
assustadoramente e os problemas econômicos das nações se tornam cada vez mais
complexos, os ricos continuam ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Não
podemos mais fechar os olhos diante dos fatos. A antiga complacência do
Cristianismo burguês foi perturbada. A adormecida consciência social de muitos
já foi despertada. Redescobriu-se que o Deus da Bíblia está do lado dos pobres
e necessitados. Os cristãos responsáveis sentem desconforto quando pensam na
abundância e estão procurando desenvolver um estilo de vida simples, que seja
adequado face às necessidades do mundo e, por lealdade, de acordo com os
ensinamentos e o exemplo do seu Mestre.
1. A questão do tesouro (vs. 19-21)
Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a
ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; 20masajuntai para vós outros
tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem
roubam; 21porque onde está o teu tesouro, aí estará também o
teu coração.
Aqui, o ponto para onde Jesus dirige nossa atenção é a durabilidade
comparativa dos dois tesouros. Deveria ser fácil decidir qual dos dois ajuntar,
ele dá a entender, porque tesouros sobre a terra são corruptíveis
e, portanto, inseguros, enquanto que tesouros no céusão
incorruptíveis e, consequentemente, seguros. Afinal, se nosso objetivo é
ajuntar tesouros, presumivelmente nós nos concentraremos na espécie que vai
durar mais e que pode ser armazenada sem depreciação ou deterioração.
É importante enfrentar franca e honestamente a questão: o que Jesus
estava proibindo, quando nos disse para não ajuntarmos tesouros para nós mesmos
na terra? Talvez seja melhor começarmos com uma lista do que ele não estava (e
não está) proibindo.Primeiro, não há maldição alguma quanto às propriedades
em si; as Escrituras não proíbem, em parte alguma, as propriedades
particulares. Segundo, "economizar para dias piores" não foi proibido
aos cristãos, nem fazer um seguro de vida, que é apenas uma espécie de economia
compulsória auto-imposta. Pelo contrário, as Escrituras louvam a formiga
que armazena no verão o alimento de que vai precisar no inverno, e declara que
o crente que não faz provisão para a sua família é pior do que um incrédulo
(Pv 6:6ss; l Tm 5:8.). Terceiro, não devemos
desprezar mas, antes, desfrutar as boas coisas que o nosso Criador nos concedeu
abundantemente (l Tm 4:3,4; 6:17.). Portanto, nem as propriedades, nem a
provisão para o futuro, nem o desfrutar dos dons de um Criador bondoso estão
incluídos na proibição dos tesouros acumulados na terra.
O que está, então? O que Jesus proíbe a seus discípulos é a
acumulação egoísta de bens ("Não acumuleis para
vós outros tesouros sobre a terra"); uma vida extravagante e
luxuosa, a dureza de coração que não deixa perceber as necessidades colossais
das pessoas menos privilegiadas neste mundo; a fantasia tola de que a vida de
uma pessoa consiste na abundância de suas propriedades (Lc 12:15.); e o
materialismo que acorrenta nossos corações à terra. O Sermão do Monte
repetidas vezes refere-se ao "coração" e, aqui, Jesus declara que o
nosso coração sempre segue o nosso tesouro, quer para baixo para a terra, quer
para o alto para o céu (v. 21). Resumindo, "acumular tesouros sobre a
terra" não significa ser previdente (fazer ajuizadas provisões para o
futuro), mas ganancioso (como o sovina que acumula e os materialistas que
sempre querem mais). Esta é a armadilha contra a qual Jesus nos adverte aqui.
"Sempre que o Evangelho é ensinado", escreveu Lutero, "e as
pessoas procuram viver de acordo com ele, surgem duas terríveis pragas: os
falsos pregadores, que corrompem o ensino, e, então,
a Sra. Ganância, que impede um viver justo."
O "tesouro na terra", por nós cobiçado, Jesus nos lembra:
"A traça e a ferrugem destroem, e ... os ladrões o arrombam e roubam"
(BLH). A palavra grega para "ferrugem" (brasis) significa
"comer"; pode referir-se à corrosão causada pela ferrugem, mas
também a qualquer peste ou parasita devoradora. Naquele tempo, as traças
entravam facilmente nas roupas das pessoas, os ratos comiam os cereais
armazenados, pestes atacavam o que estivesse debaixo da terra, e os ladrões
entravam nos lares e levavam o que fosse possível. Não havia a menor segurança
no mundo antigo. E para nós, gente moderna, que procuramos proteger os nossos
tesouros com inseticidas, venenos contra ratos, ratoeiras, tintas à prova de
ferrugem e arames contra ladrões, mesmo assim eles se desintegram na inflação
ou na desvalorização ou nos colapsos econômicos. Mesmo que uma parte permaneça
através desta vida, nada podemos levar conosco para a outra. Jó estava certo:
"Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei (Jó 1:21.)."
Mas o "tesouro no céu" é incorruptível. Que tesouro é esse? Jesus
não explica. Mas podemos dizer com toda certeza que "ajuntar tesouros no
céu" é fazer na terra alguma coisa cujos efeitos durem pela eternidade.
Jesus não estava, certamente, ensinando uma doutrina de méritos ou um
"tesouro de méritos" (como a Igreja Católica medieval ensinava), como
se pudéssemos acumular no céu, através de boas obras praticadas na terra, uma
espécie de crédito bancário do qual nós e outros pudéssemos sacar, pois tal
noção grotesca contradiz o Evangelho da graça que Jesus e seus apóstolos
ensinaram coerentemente. E, de qualquer modo, Jesus estava falando
a discípulos que já tinham recebido a salvação de Deus. Parece,
antes, referir-se a coisas tais como: o desenvolvimento de um caráter
semelhante ao de Cristo (uma vez que todos nós podemos levá-lo conosco para o
céu); o aumento da fé, da esperança e da caridade, pois todas elas, segundo
Paulo, "permanecem" (1 Co 13:13.); o
crescimento no conhecimento de Cristo, o qual um dia veremos face a face; a
tarefa ativa, por meio da oração e do testemunho, de apresentar outros a
Cristo, para que também possam herdar a vida eterna; e o uso de nosso dinheiro
nas causas cristãs, que é o único investimento financeiro cujos dividendos são
eternos.
Todas estas atividades são temporais com consequências eternas. Este
seria, então, "o tesouro no céu". Nenhum ladrão pode roubá-lo, e
nenhuma praga pode destruí-lo, pois não há traças, nem ratos, nem assaltantes
no céu. Portanto, o tesouro no céu é seguro. Medidas de precaução para
protegê-lo são desnecessárias. Não precisa de apólices de seguro. É
indestrutível. Portanto, parece que Jesus está nos dizendo: "É um
investimento seguro para vocês; nada poderia ser mais seguro do que isto.
É a única apólice de seguro que jamais perde o seu valor."
2. A questão da visão (vs. 22, 23)
São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo
o teu corpo será luminoso; 23se, porém, os teus olhos forem
maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há
sejam trevas, que grandes trevas serão!
Jesus passa da comparativa durabilidade dos dois tesouros para o
benefício relativo de duas condições. O contraste agora é entre uma pessoa cega
e uma pessoa que tem visão, e, consequentemente, entre as trevas e a luz em que
elas respectivamente vivem. São os olhos a lâmpada do corpo. Não
é literal, naturalmente, como se fossem uma espécie de janela deixando a luz
entrar no corpo; mas é uma figura de linguagem facilmente inteligível. Quase
tudo que o corpo faz depende de nossa capacidade de ver. Precisamos ver para
correr, para pular, para dirigir um carro, para atravessar uma rua, para
cozinhar, para bordar, para pintar. O olho, pelo que é,
"ilumina" o que o corpo faz com as mãos e os pés. É verdade que os
cegos conseguem enfrentar sua situação maravilhosamente bem, aprendendo a fazer
uma porção de coisas sem os olhos, e desenvolvendo suas demais faculdades para
compensar a falta de visão. Mas o princípio continua: quem vê anda na luz,
enquanto que o cego permanece nas trevas. E a grande diferença entre a luz e as
trevas do corpo deve-se a esse pequenino mas complicado órgão, o
olho. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será
luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em
trevas. Na cegueira total, as trevas são completas.
Tudo isto é uma descrição de fatos. Mas também é uma metáfora. Com
bastante frequência, o "olho" nas Escrituras é equivalente ao
"coração". Isto é, "colocar o coração" e "fixar os
olhos" em alguma coisa são sinônimos. Um exemplo será
suficiente, no Salmo 119. No versículo 10 o salmista escreve: "De todo o
coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos" e, no
versículo 18: "Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as
maravilhas da tua lei." Semelhantemente, aqui no Sermão do Monte, Jesus
passa da importância de se ter o coração no lugar certo (v.
21) para a importância de se ter os olhos bons e sadios.
A argumentação parece ser esta: exatamente como nossos olhos afetam todo
o nosso corpo, a nossa ambição (onde fixamos nossos olhos e nosso coração)
afeta toda a nossa vida. Exatamente como o olho que vê dá luz ao corpo, uma
ambição nobre e sincera de servir a Deus e aos homens aumenta o significado da
vida e lança luz sobre tudo que fazemos. Repito: exatamente como a cegueira
leva às trevas, uma ambição ignóbil e egoísta (por exemplo, ajuntar tesouros
para nós mesmos sobre a terra) faz-nos mergulhar nas trevas morais. Ficamos
intolerantes, desumanos, grosseiros, despojando a vida de seu principal
significado.
Tudo é uma questão de visão. Se temos visão física, podemos
ver o que estamos fazendo e para onde vamos. Da mesma forma, se temos visão
espiritual, se nossa perspectiva espiritual está devidamente ajustada, então
nossa vida fica cheia de propósito e de incentivo. Mas se a nossa visão se
torna anuviada pelos falsos deuses e pelo materialismo, e nós perdemos nosso
senso de valores, então toda a nossa vida fica em trevas e não podemos ver
para onde vamos. Talvez a ênfase esteja, com muito mais força do que já sugeri,
na perda da visão causada pela ganância, porque, de acordo com o conceito
bíblico, um "olho mau" é um espírito sovina, avarento, e um
"olho bom" é o generoso. De qualquer forma, Jesus acrescenta novos
motivos para ajuntarmos um tesouro no céu. O primeiro é a sua grande durabilidade;
o segundo resulta dos benefícios atuais, aqui na terra, de uma visão assim.
3. A questão das riquezas (v. 24)
Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um,
e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a
Deus e às riquezas.
Jesus explica, agora, que além da escolha entre dois tesouros (onde
vamos ajuntá-los) e entre duas visões (onde vamos fixar os nossos olhos) jaz
uma escolha ainda mais básica: entre dois senhores (a quem vamos servir). É uma
escolha entre Deus e Mamom: "Não podeis servir a Deus e
a Mamom" (ERC); isto é, entre o próprio Criador vivo e qualquer
objeto de nossa própria criação que chamamos de "dinheiro"
("Mamom" é uma transliteração da palavra aramaica para riqueza). Não
podemos servir aos dois.
Algumas pessoas discordam destas palavras de Jesus. Recusam-se a ser
confrontadas com uma escolha tão rígida e direta, e não veem a necessidade
dela. Asseguram-nos que é perfeitamente possível servir a dois senhores
simultaneamente, por conseguirem fazer isso muito bem. Diversos arranjos e
ajustes possíveis parecem-lhes atraentes. Ou eles servem a Deus aos domingos
e a Mamom nos dias úteis, ou a Deus com os lábios e
a Mamom com o coração, ou a Deus na aparência e a Mamom na
realidade, ou a Deus com metade de suas vidas e a Mamom com a outra.
Pois é esta solução popular de comprometimento que Jesus declara ser
impossível: Ninguém pode servir a dois senhores . . . Não
podeis servir a Deus e às riquezas (observe o "pode" e o
"não podeis"). Os pretensos conciliadores interpretam mal este
ensinamento, pois se esquecem da figura de escravo e dono de escravo que se
encontra por trás destas palavras. Como McNeile disse: "Pode-se
trabalhar para dois empregadores, mas nenhum escravo pode ser propriedade de
dois senhores", pois "ter um só dono e prestar serviço de tempo
integral são da essência da escravidão". Portanto, qualquer pessoa que
divide sua devoção entre Deus e Mamom já a concedeu aMamom, uma vez
que Deus só pode ser servido com devoção total e exclusiva. Isto simplesmente
porque ele é Deus: "Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois,
não a darei a outrem. (Is 42:8; 48:11.)" Tentar dividir a nossa
lealdade é optar pela idolatria.
E quando percebemos a profundidade da escolha entre o Criador e a
criatura, entre o Deus pessoal glorioso e essa coisinha miserável chamada
dinheiro, entre a adoração e a idolatria, parece inconcebível que alguém faça a
escolha errada, pois agora é uma questão não apenas de durabilidade e benefício
comparativos, mas sim de valor comparativo: o valor intrínseco de um e a
intrínseca falta de valor do outro.
4. A questão da ambição (vs. 25-34)
Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que
haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes? 26Observai as
aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso
Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as
aves? 27Qualde vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar
um cavado ao curso da sua vida? 28E por que andais ansiosos
quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não
trabalham nem fiam. 29Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão,
em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. 30Ora, se
Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno,
quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? 31Portanto não
vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos
vestiremos? 32porque os gentios é que procuram todas estas cousas;
pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33buscai,
pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos
serão acrescentadas. 34Portanto, não vos inquieteis com o dia
de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio
mal.
É uma pena que, nas igrejas, esta passagem seja frequentemente lida
isoladamente, fora do seu contexto. E, assim, o significado do Por isso
vos digo introdutório perde-se completamente. Portanto, devemos
começar relacionando este "por isso", com o ensinamento que levou
Jesus a esta conclusão. Antes de nos convocar a agir, ele nos convoca a pensar.
Convida-nos a examinar clara e friamente as alternativas que foram expostas,
pesando-as cuidadosamente. Queremos acumular tesouros? Então, qual das duas
possibilidades é mais durável? Queremos ser livres e objetivos em nossas
atividades? Queremos servir ao melhor dos senhores? Então devemos considerar
qual é o mais digno da nossa devoção. Apenas depois que tivermos assimilado em
nossas mentes a durabilidade comparativa dos dois tesouros (o corruptível e o
incorruptível) e o valor comparativo dos dois senhores (Deus e Mamom),
estaremos prontos a fazer a escolha. E só depois que tivermos feito a nossa
escolha — o tesouro celeste, a luz, Deus — estaremos preparados para ouvir as
palavras que seguem: Por isso vos digo como deveis vos
comportar: Não andeis ansiosos pela vossa vida. . . nem pelo
vosso corpo. . . buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e a
sua justiça (vs. 25, 33). Em outras palavras, nossa escolha básica
quanto a qual dos dois mestres desejamos servir afetará radicalmente nossa
atitude para com ambos. Não ficaremos ansiosos sobre um deles, já que o
rejeitamos, mas nos concentraremos, mente e energia, no outro, a quem
escolhemos. E, ao invés de nos perdermos em nossas próprias preocupações, buscaremos
em primeiro lugar aquilo que interessa a Deus.
A linguagem de Cristo sobre a busca (contrastando os
gentios no que os seus discípulos devem buscar em primeiro
lugar; vs. 32, 33) introduz-nos à questão da ambição. Jesus considerou
que todos os seres humanos "buscam" alguma coisa. Não é natural que
as pessoas fiquem à deriva, sem alvo na vida, como um plâncton. Precisamos de
alguma coisa pela qual viver, algo que dê significado à nossa existência,
alguma coisa para "buscar", alguma coisa sobre a qual colocar o nosso
coração e a nossa mente. Embora poucos hoje em dia usem a linguagem dos antigos
filósofos gregos, o que nós buscamos, de fato, é aquilo que eles chamavam de
"o Bem Supremo", para lhe dedicarmos as nossas vidas. Provavelmente,
"ambição" é o termo equivalente moderno. É verdade que, no
dicionário, esta palavra significa "um forte desejo de alcançar o
sucesso" e, portanto, de um modo geral, a sua imagem é ruim, pois tem um
sabor egoísta. É neste sentido que Shakespeare, em sua peça "Henrique
VIII", faz este apelo a Thomas Cromwell: "Cromwell, eu te desafio,
põe de lado a ambição. Por causa desse pecado caíram anjos . .
." Mas a "ambição" pode igualmente referir-se a fortes desejos,
altruístas em lugar de egoístas, piedosos ao invés de mundanos. Resumindo, é
possível ter "ambições para Deus". A ambição refere-se aos alvos de
nossa vida e ao incentivo que temos de atingi-los. A ambição de uma pessoa é
aquilo que a impele: revela a mola principal de suas ações, suas mais secretas
motivações. Isto, então, é o que Jesus estava dizendo ao definir, na
contracultura cristã, o que devemos buscar "em primeiro lugar".
Novamente, nosso Senhor simplifica o assunto para nós, reduzindo em
apenas duas as alternativas possíveis de alvos na vida.
Nesta seção, ele as confronta uma com a outra, insistindo com os seus
discípulos que não se preocupem com a própria segurança (alimento, bebida e
vestimentas), pois essa é a obsessão dos "gentios", que não o
conhecem; mas que se preocupem antes com o reino de Deus e com a justiça
divina, bem como com a sua propagação e o seu triunfo no mundo.
a. Ambição falsa ou secular: nossa própria segurança
material A maior parte deste parágrafo é negativa. Três vezes Jesus repete a sua
proibição Não andeis ansiosos (vs. 25, 31, 34), ou "Não
fiquem aflitos". E a preocupação que ele nos proíbe é quanto ao alimento,
quanto à bebida e quanto à roupa: Que comeremos? Que beberemos? Que
vestiremos? (v. 31). Mas esta é precisamente "a trindade dos
cuidados do mundo": porque os gentios é que procuram todas estas
cousas (v. 32). Basta olhar para a propaganda na televisão, nos
jornais e nos transportes públicos para vermos uma vivida ilustração moderna do
que Jesus ensinou há cerca de dois mil anos atrás.
Há alguns anos recebi um exemplar gratuito de Accent, uma
nova revista, muito bem apresentada, cujo subtítulo é "A Boa Vida em
Foco" (Accent on Good Living). Continha atraentes anúncios
de champanha, cigarros, alimentos, roupas, antiguidades e tapetes, junto com a
descrição de um fim-de-semana para compras esotéricas em Roma. Havia artigos
sobre como possuir um computador na cozinha; como ganhar uma viagem de luxo por
mar ou, em lugar disso, cem dúzias de uísque escocês; e como quinze milhões de
mulheres não podem estar erradas na escolha de cosméticos. Prometia,
então, no exemplar do mês seguinte, artigos sedutores sobre férias no Caribe,
roupa de cama aconchegante, roupa íntima elegante para o frio, e as delícias da
carne de veado e de tâmaras importadas. Do começo ao fim preocupava-se com o
bem-estar do corpo e como alimentá-lo, vesti-lo, aquecê-lo, refrescá-lo,
relaxá-lo, entretê-lo, enfeitá-lo e estimulá-lo.
Por favor, não me entendam mal. Jesus Cristo não negou nem desprezou as
necessidades do corpo. Para se dizer a verdade, foi ele que o criou,
e dele ele cuida. E acabou de nos ensinar a orar: "O pão nosso de cada dia
dá-nos hoje". O que, então, ele está a dizer? Está enfatizando que ficar
absorto pelo conforto material é uma falsa preocupação. De um lado, não é
produtivo (exceto pelas úlceras e pelas preocupações novas que surgem); por
outro, não é necessário (porque "vosso Pai celeste sabe que necessitais
. . .", vs. 8 e 32); mas especialmente porque não vale a pena. Indica
uma falsa visão dos seres humanos (como se fossem apenas corpos precisando de
alimento, água, roupas e casa) e da vida humana (como se fosse apenas um
mecanismo fisiológico precisando de proteção, lubrificação e combustível). Uma
preocupação exclusiva com alimento, bebida e roupas poderia se justificar
apenas se a sobrevivência física fosse tudo nesta vida. Se
vivêssemos apenas para viver, então, sim, o sustento do nosso corpo seria a nossa
principal preocupação. Por isso entende-se que, em condições críticas de fome,
a luta pela sobrevivência tenha precedência sobre outras coisas. Mas fazê-lo em
circunstâncias comuns expressa um conceito reducionista do homem, que
é totalmente inaceitável. Degrada-o ao nível dos animais, das aves e das
plantas. Mas a grande maioria dos anúncios de hoje é dirigida para o corpo:
roupa íntima visando torná-lo mais atraente, desodorantes para mantê-lo
perfumado, bebidas alcoólicas para animá-lo quando está cansado . . .
Esta preocupação provoca as seguintes perguntas: o bem-estar físico é um
objetivo válido para lhe devotarmos nossas vidas? Não tem a vida humana mais
significado do que isto? Os gentios é que procuram todas estas
comas. Que procurem! Mas, quanto a vocês, meus discípulos, Jesus dá a
entender, essas coisas são um alvo absolutamente sem valor, pois não constituem
o "Supremo Bem" da vida.
Agora precisamos esclarecer o que Jesus está proibindo, e que motivos
ele dá para essa proibição. Primeiro, não está proibindo o
pensamento. Pelo contrário, está estimulando-o quando prossegue ordenando-nos a
olhar para as aves e flores e "considerar" como Deus cuida delas.
Segundo, não está proibindo a previdência. Já mencionei como a Bíblia aprova a
formiga. Também os passarinhos, os quais Jesus elogiou, fazem provisão para o
futuro, construindo ninhos, botando e chocando ovos, e alimentando os filhotes.
Muitos migram para climas mais quentes antes do inverno (o que é um
exemplo notável de previdência, embora instintiva), e alguns até armazenam
alimento, como os picanços, que formam a sua própria despensa espetando insetos
sobre espinhos. Portanto, não encontramos aqui nada que impeça os cristãos de
fazer planos para o futuro ou de dar passos sensatos para a sua realização. O
que Jesus proíbe não é o raciocínio nem a previdência, mas a preocupação
ansiosa. Este é o significado da ordem më merimnate. É a
palavra que foi usada em relação a Marta, que estava
"distraída" com o serviço da casa; e também em relação à boa semente
lançada entre os espinhos, abafada pelos "cuidados" da vida; e ainda
foi usada por Paulo na injunção: "Não andeis ansiosos de cousa
alguma"(Lc 10:40; 8:14; Fp 4:6.). É como o Rev. Ryle
expressou: "A provisão prudente para o futuro é boa; a fadiga, o desgaste,
a ansiedade que atormenta são ruins."
Por que são ruins? Jesus replica, argumentando que esse tipo de
preocupação obsessiva é incompatível, tanto com a fé cristã (vs. 25-30) como
com o bom senso (v. 34); mas se detém mais no primeiro ponto.
1. A preocupação é incompatível com a fé cristã (vs.
25-30). No versículo 30 Jesus atinge aqueles que ficam ansiosos por
causa de roupa e de comida, chamando-os de "homens de pequena fé".
Os motivos que ele apresenta, pelos quais deveríamos confiar em Deus em lugar
de ficar ansiosos, são ambos argumentos a fortiori ("quanto
mais"). Um foi extraído da experiência humana e argumenta partindo do
maior para o menor; o outro vem da experiência sub-humana (aves e flores) e
argumenta do menor para o maior.
Nossa experiência humana é a seguinte: Deus criou e agora sustenta a
nossa vida; ele também criou e continua sustentando o nosso corpo. Este é um
fato da experiência diária. Nós não nos fizemos, nem nos mantemos vivos. A
nossa "vida" (pela qual Deus é o responsável) é obviamente mais
importante do que o alimento e a bebida que nos nutrem. Semelhantemente, o
nosso "corpo" (pelo qual Deus também é responsável) é mais importante
do que a roupa que o cobre e aquece. Pois bem, se Deus já cuida do maior (nossa
vida e nosso corpo), não podemos confiar nele para cuidar do menor (nosso
alimento e nossa roupa)? A lógica é inevitável e, no versículo 27, Jesus a
reforça com a pergunta: Qual de vós, por ansioso que esteja, pode
acrescentar um côvado ao curso da sua vida? Não está claro se a última
palavra dessa pergunta (kêlikia) deveria ser traduzida por
"curso da sua vida" (ERAB) ou "estatura" (ERC); pode
significaras duas coisas. Acrescentar meio metro à nossa estatura seria um
feito realmente notável, embora Deus o faça a todos nós entre a nossa infância
e a idade adulta. Acrescentar um período de tempo ao curso de nossa vida também
está fora de nosso alcance; um ser humano não pode consegui-lo sozinho. Na
verdade, ao invés de alongar a vida, a preocupação "pode muito bem encurtá-la",
como todos sabemos. Por isso, exatamente como deixamos essas coisas aos
cuidados de Deus (pois certamente estão fora do nosso alcance), não seria
sensato confiar nele para as coisas de menor importância, como o alimento e a
roupa?
A seguir Jesus volta-se para o mundo sub-humano e argumenta de outra
maneira. Ele usa as aves como ilustração do cuidado divino em alimentar (v. 26)
e as flores para ilustrar o seu cuidado no vestir (vs. 28-30). Em ambos os
casos, ele nos manda "olhar" ou "considerar", isto é,
pensar sobre os fatos do cuidado providencial de Deus nesses dois casos. Alguns
leitores sabem que eu mesmo tenho sido, desde a minha meninice, um
entusiástico observador de pássaros. Sei, naturalmente, que essa atividade é
considerada por alguns como um passatempo bastante excêntrico; olham-me com
divertimento e condescendência. Mas declaro que tenho apoio bíblico para esta
atividade. "Observai as aves do céu", disse Jesus! Na verdade, o
assunto é sério, pois o verbo grego nesta ordem de Jesus(emblepsate eis) significa
"fixe os olhos em (algo), para enxergar bem". Quando nos interessamos
pelas aves e pelas flores (e devemos, tal como o nosso Mestre, estar
conscientes do mundo natural que nos cerca, sendo gratos por ele), ficamos sabendo
que os pássarosnão semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, mas
mesmo assim vosso Pai celeste os sustenta, e que os
lírios do campo(anêmonas, papoulas, íris e gladíolos, todos têm sido
sugeridos como alternativas para os lírios, embora a referência seja
generalizada a todas as lindas flores da primavera na Galiléia) . .
. não trabalham nem fiam, mas o nosso Pai celeste veste
assim a todas, ainda mais suntuosamente que Salomão, em toda
a sua glória. Sendo assim, não podemos confiar nele para nos alimentar
e nos vestir, já que temos muito mais valor do que as aves e as flores? Pois
ele não veste até a erva do campo, que hoje existe e amanhã é
lançada no forno?
"Vejam", escreve Martinho Lutero com muita beleza, "ele
está fazendo das aves nossos professores e mestres. É uma grande e permanente
vergonha para nós o fato de, no Evangelho, um frágil pardal se tornar teólogo e
pregador para o mais sábio dentre oshomens . . . Portanto, sempre que você
ouvir a voz de um rouxinol, está ouvindo um excelente pregador . . . É como se
ele estivesse dizendo: 'Eu prefiro estar na cozinha do Senhor. Ele fez o céu e
a terra, e ele mesmo é o cozinheiro e o anfitrião. Todos os dias ele aumenta e
nutre inúmeros passarinhos em sua mão'." Semelhantemente, desta vez citando Spurgeon:
"Maravilhosos lírios, como vocês reprovam o nosso tolo nervosismo!"
Não nos tocam estas singelas rimas?
Disse a rolinha ao pardal:
"Gostaria de saber Por que os homens, ansiosos,
Nunca param de correr!"
Respondeu o pardalzinho: "Minha amiga, eu penso assim:
Não sabem que o Pai celeste Cuida de ti e de mim!"
É uma figura encantadora, mas não um reflexo estritamente exato do
ensinamento de Jesus, pois ele não disse que as aves têm um Pai celeste, mas
sim que nós o temos, e que, se o Criador cuida de suas criaturas, podemos ter
certeza de que o Pai também cuidará dos seus filhos.
2. Problemas relacionados com a fé cristã. Preciso, a
esta altura, fazer uma digressão para comentar três problemas relacionados com
a fé cristã que, segundo Jesus, deve ser como a de uma criança. Todos os três
são problemas grandes e só podem ser abordados de levemas, considerando que
eles surgem em nossas mentes por causa da promessa básica de nosso Senhor (de
que o Pai celeste vai alimentar-nos e vestir-nos) seria errado fugir deles. Vou
especificá-los negativamente, em termos de três liberdades que a fé não toma
à luz da promessa de Deus, ou de três imunidades que a sua promessa não nos
dá.
Primeiro, os crentes não estão isentos de ganhar a sua própria
vida. Não podemos ficar sentados numa poltrona, girando os polegares,
murmurando "meu Pai celestial provera", sem fazer nada. Temos de
trabalhar. Como Paulo disse mais tarde: "Se alguém não quer trabalhar,
também não coma (2Ts3:10.)." Com sua simplicidade característica, Lutero
escreve: "Deus . . . não tem nada a ver com os preguiçosos, com os glutões
displicentes; eles agem como se apenas devessem ficar sentados à espera de que
Deus lhes atire na boca um ganso assado."
Jesus usou as aves e as flores como evidências da capacidade de Deus
para nos alimentar e vestir, conforme vimos. Mas como Deus alimenta as aves?
Poderíamos responder que ele não o faz, pois elas se alimentam sozinhas! Jesus
era um observador meticuloso. Ele sabia perfeitamente bem quais são os hábitos
alimentares dos pássaros; sabia que alguns comem sementes, outros comem
cadáveres e outros comem peixes, enquanto que outros ainda são insetívoros,
predadores ou lixeiros. Deus os alimenta a todos. Mas o modo como o faz não é
estendendo-lhes uma mão divina cheia de comida, mas providenciando na natureza
os recursos para que eles se alimentem. Pode-se dizer o mesmo das plantas.
"As flores não fazem o trabalho dos homens no campo ('não trabalham'), nem
o trabalho das mulheres em casa ('não fiam')", mas Deus as veste. Como?
Não milagrosamente, mas através de um processo complexo que arranjou,em
que elas extraem do sol e do solo o seu sustento.
O mesmo acontece com os seres humanos. Deus supre, mas nós temos de
cooperar. Hudson Taylor aprendeu esta lição em sua primeira viagem à China, em
1853. Quando uma tempestade violenta na costa gaulesa ameaçou o navio, ele
achou que seria desonrar a Deus usar um salva-vidas. Por isso, desfez-se do
seu. Mais tarde, entretanto, percebeu o seu erro: "O uso de meios não
diminui a nossa fé em Deus, e a nossa fé em Deus não impede que usemos
quaisquer meios que ele tenha fornecido para a realização dos seus
propósitos".
Semelhantemente, Deus não coloca todos os seus filhos na situação do
profeta Elias, nem lhes dá alimento milagrosamente por meio de anjos ou
corvos mas, antes, através de meios mais naturais: fazendeiros, moleiros,
granjeiros, peixeiros, açougueiros, merceeiros e outros. Jesus insiste conosco
sobre a necessidade de uma confiança despretensiosa em nosso Pai celeste, mas
ele sabe que a fé não é ingênua (ignorante das causas secundárias) nem arcaica
(incompatível com a ciência moderna). Segundo, os crentes não estão
isentos da responsabilidade para com os outros. Digo isso em relação
ao segundo problema, que é mais de providência do que de ciência. Se Deus
promete alimentar e vestir os seus filhos, por que há tanta gente subnutrida e
mal vestida? Eu não poderia dizer levianamente que Deus cuida só dos seus
próprios filhos, e que os pobres que têm falta de alimento e roupa adequada são
todos incrédulos que estão fora do seu círculo familiar, pois certamente há
pessoas cristãs em algumas regiões atacadas pela seca e pela fome, as quais
passam toda espécie de necessidades. Não me parece haver uma solução simples
para este problema. Mas é preciso destacar um ponto importante, isto é, que a
principal causa da fome não é a falta da provisão divina, mas uma injusta
distribuição por parte do homem. A verdade é que Deus forneceu recursos amplos
na terra e no mar. A terra produz plantas que dão sementes e árvores que dão
frutos. Os animais, as aves e os peixes que ele criou são frutíferos e
multiplicam-se. Mas o homem açambarca, desperdiça ou estraga esses recursos, e
não os distribui. Parece significativo que, no próprio Evangelho de
Mateus, o mesmo Jesus que aqui afirma que nosso Pai aumenta e veste os seus
filhos, mais tarde diz que nós mesmos devemos alimentar os
famintos e vestir os nus, e que seremos julgados de acordo com isso.
Sempre é importante permitir que as Escrituras interpretem as Escrituras. O
fato de Deus alimentar e vestir os seus filhos não nos isenta da
responsabilidade de sermos seus agentes para isso. Terceiro, os crentes
não estão isentos das dificuldades. É verdade que Jesus proíbe que o
seu povo se preocupe. Mas estar livre de preocupações e
estar livre de dificuldades não é a mesma coisa. Cristo
nos manda deixar de lado a ansiedade, mas não promete que seremos imunes a
todos os infortúnios. Pelo contrário, há em seus ensinamentos muitas
indicações de que ele sabia o que era a calamidade. Assim, embora Deus vista
a erva do campo, não impede que ela seja cortada e queimada. Deus
protege até mesmo os pardais, que são tão comuns e de um valor tão mínimo que
se vendem dois por um real e cinco por dois reais, indo mais um de quebra.
"Nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai"
(Mt 10:29; cf. 12:6.), disse Jesus. Mas os pardais caem ao chão e são
mortos. Sua promessa não foi que eles não cairiam, mas que isto não aconteceria
sem o conhecimento e consentimento de Deus. As pessoas também caem, e os
aviões, também. As palavras de Cristo não podem ser tomadas como uma promessa
de que a lei da gravidade será revogada em nosso benefício, mas sim que Deus
sabe a respeito dos acidentes e que ele os permite. Mais ainda, é
significativo que, no final deste parágrafo, o motivo por que Jesus diz que não
devemos ficar inquietos com o dia de amanhã é o
seguinte: basta ao dia o seu próprio mal (v. 34). Portanto,
haverá "cuidados" (kakia, "males"). A
libertação que um cristão tem da ansiedade não se deve a alguma garantia de
ausência de cuidados, mas por ser a preocupação (que examinaremos mais tarde)
uma insensatez, e especialmente pela confiança que temos de que Deus é nosso
Pai, que até mesmo a permissão para o sofrimento está dentro da órbita do seu
cuidado (cf.Jó 2:10.), e que "todas as cousas cooperam para o bem
daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
propósito" (Rm8:28.).
Esta foi a certeza que fortaleceu o Dr. Helmut Thielicke,
ao pregar uma série de sermões sobre o Sermão do Monte na Igreja de São Marcos,
em Stuttgart, durante aqueles terríveis anos (1946-1948) imediatamente após a
segunda guerra mundial. Frequentemente aludia ao sonido das sirenes antiaéreas
que durante a guerra alertavam o povo de ainda mais devastações e mortes
provocadas pelas bombas dos aliados. O que a libertação da ansiedade poderia
significar em tais circunstâncias? "Conhecemos a visão e o barulho das
casas desmoronando em chamas . . . Nossos próprios olhos viram as
chamas rubras e nossos próprios ouvidos ouviram os estrondos, os desmoronamentos
e os gritos." Em tal cenário, ordenar que olhassem para as aves e os
lírios poderia parecer muito falso. "Não obstante", o
Dr. Thielicke prosseguiu, "acho que devemos parar e ouvir
quando este homem, cuja vida na terra teve muito pouco de
'passarinhos e flores', aponta-nos para a despreocupação deles. Será que as
tenebrosas sombras da cruz já não se espalhavam sobre esta hora em que ele
pregou o Sermão do Monte?". Em outras palavras, é razoável confiar no amor
de nosso Pai celeste, até mesmo nos momentos de dificuldades cruéis, porque
temos o privilégio de ver esta revelação em Cristo e na sua cruz.
Portanto, os filhos de Deus não têm a promessa de que ficarão livres do
trabalho, nem da responsabilidade, nem das dificuldades, mas apenas da
preocupação. Esta, sim, nos é proibida: é incompatível com a fé cristã.
3. A preocupação é incompatível com o bom senso (v.
34). Retornando de nossa digressão sobre os problemas da fé, temos
agora de destacar que a preocupação é tão incoerente com o bom senso quanto o é
com a fé cristã. No versículo 34, Jesus menciona o hoje e oamanhã. Toda
a preocupação é sobre o amanhã, quer seja relacionada com a
roupa ou o alimento ou qualquer outra coisa; mas toda a preocupação é
experimentada hoje. Sempre que ficamos ansiosos, ficamos
preocupados no momento presente sobre alguma coisa que vai acontecer no
futuro. Entretanto, esses temores sobre o amanhã, que
sentimos com tanta força hoje, talvez não se concretizem. O
conselho popular "não se preocupe, talvez não aconteça nunca", sem
dúvida não é nada simpático, mas perfeitamente verdadeiro. As pessoas se
preocupam com os exames, ou com um emprego, ou com o casamento, ou com a
saúde, ou com algum empreendimento . . . Mas tudo isso é fantasia.
"Os temores podem ser mentirosos"; e geralmente o são. Muitas
preocupações, talvez a maioria delas, jamais acontecerão.
Portanto, a preocupação é uma perda de tempo, de pensamentos e de
energia nervosa. Precisamos aprender a viver um dia de cada vez. Devemos,
naturalmente, planejar o futuro, mas não nos preocupar com ele. "Vivam um
dia de cada vez", ou "Bastam a cada dia suas próprias
dificuldades". Portanto, por que antecipá-las? Se o fizermos, nós as
multiplicaremos, pois, se nossos temores não se concretizarem, teremos nos preocupado
em vão; no caso de se concretizarem, estaremos nos preocupando duas vezes em
vez de uma. De qualquer forma é tolice: a preocupação aumenta a nossa
perturbação.
Chegou o momento de fazer uma síntese do que Jesus disse sobre as falsas
ambições do mundo. Preocupar-se com coisas materiais, de modo que elas
monopolizem a nossa atenção, absorvam a nossa energia e nos atormentem com
ansiedade é incompatível com a fé cristã e com o bom senso. É falta de confiança
em nosso Pai celeste e, francamente, uma estupidez. É isto que os pagãos fazem;
mas é totalmente impróprio e indigno para os cristãos. Portanto, assim como
Jesus já nos convocou no Sermão para uma justiça maior, para um amor mais amplo
e para uma piedade mais profunda, agora ele nos convoca para uma ambição mais
alta.
b. Ambição verdadeira ou cristã: o reino e a justiça de
Deus. É importante
examinar os versículos 31, 32 e 33 juntos. O versículo 31 repete a proibição
contra a ansiedade pelo alimento, pela bebida e pela roupa. O v. 32
acrescenta: Os gentios é que procuram todas estas cousas. Isto
mostra que, no vocabulário de Jesus, "procurar" e "ficar
ansioso" são intercambiáveis. Ele não está falando tanto de ansiedade, mas
de ambição. A ambição dos pagãos está focalizada nas necessidades materiais.
Mas isto não pode acontecer com os cristãos, em parte porque vosso Pai
celeste sabe que necessitais de todas elas, mas, principalmente,
porque estas coisas não constituem objetivo apropriado ou digno da busca do
cristão. Ele deve ter algo diferente, algo mais elevado, como o Bem Supremo,
para procurar com toda a energia; não coisas materiais, mas valores
espirituais; não o seu próprio bem, mas o de Deus; não alimento e roupa, mas o
reino e a justiça de Deus. Isto nada mais é do que a continuidade dos
ensinamentos implícitos na oração do Pai-Nosso. De acordo com isso, os cristãos
devem reconhecer as necessidades do corpo ("o pão nosso de cada dia
dá-nos hoje"), embora nossa preocupação prioritária seja com o nome, com o
reino e com a vontade de Deus. Não podemos orar o Pai-Nosso até que nossas
ambições sejam purificadas. Jesus nos diz para "buscar primeiro o reino de
Deus e a sua justiça"; na oração do Pai-Nosso, transformamos esta busca
suprema em oração.
1. Buscar primeiro o reino de Deus. Quando Jesus falou
do reino de Deus, não se referia à soberania geral de Deus sobre a natureza e a
História, mas àquele governo específico sobre o seu próprio povo, o qual ele
mesmo inaugurou e que começa na vida de qualquer pessoa quando ela se humilha,
se arrepende, crê, submete-se a ele e nasce de novo. O reino de Deus é
Jesus Cristo governando o seu povo, com exigências e bênçãos, que
desconhecem meios-termos. "Buscar primeiro" este reino é
desejar, como coisa de primordial importância, a propagação do reino de Jesus
Cristo. Tal desejo começará em nós mesmos, até que cada setor de nossa vida (lar,
casamento e família, moralidade pessoal, vida profissional e ética comercial,
saldo bancário, imposto de renda, estilo de vida, cidadania) seja submetido,
prazerosa e francamente, a Cristo. Esse desejo continuará, em nosso ambiente
imediato, com a aceitação da responsabilidade evangelística para com nossos
parentes, colegas, vizinhos e amigos. E também atingirá a preocupação pelo
testemunho missionário mundial da Igreja.
Temos, então, de ser claros sobre a verdadeira motivação missionária.
Por que desejamos a propagação do Evangelho por todo o mundo? Não por causa de
um imperialismo ou triunfalismo iníquo, quer para nós mesmos, para a Igreja ou
até mesmo para o "Cristianismo". Nem apenas porque a evangelização
faz parte de nossa obediência cristã (embora o faça). Nem primariamente para
tornar outras pessoas felizes (embora isso aconteça). Mas especialmente porque
a glória de Deus e do seu Cristo estão em jogo. Deus é Rei, inaugurou seu reino
de salvação através de Cristo, e tem o direito de governar a vida de suas criaturas.
Nossa ambição, então, é buscar primeiro o seu reino, acalentar o desejo ardente
de que o seu nome receba dos homens a honra a que tem direito.
Conceder prioridade aos interesses do reino de Deus aqui e agora não é
perder de vista o seu alvo além da História, pois a presente manifestação do
reino é apenas parcial. Jesus falou também de um reino futuro de glória e nos
disse que orássemos por sua vinda. Portanto, "buscar primeiro o
reino" inclui o desejo e a oração por sua consumação no fim dos tempos,
quando todos os inimigos do Reino forem colocados sob os seus pés e o seu reino
for incontestável.
2. Buscar primeiro a justiça de Deus. Não ficou claro por que Jesus fez
distinção entre o seu reino e a sua justiça, como
ideias gêmeas, mas de objetivos separados, em nossa prioritária busca cristã.
Porque o reino de Deus é um reino justo e, já no Sermão do Monte, Jesus nos
ensinou a termos fome e sede de justiça, a estarmos prontos a ser perseguidos
por causa dele e a evidenciarmos uma justiça maior do que a dos escribas e
fariseus. Agora ele nos manda buscar primeiro a justiça de
Deus, além de buscar primeiro o reino de Deus.
Vou fazer uma tentativa de explicar a diferença entre os dois. O reino
de Deus existe apenas onde Jesus Cristo é conscientemente reconhecido. Estar
no seu reino é sinônimo de desfrutar da sua salvação. Apenas os que nasceram de
novo viram e entraram no seu reino. E buscá-lo em primeiro lugar é propagar as
boas novas da salvação em Cristo.
Mas a justiça de Deus é (pelo
menos argumentavelmente) um conceito mais amplo do que o reino de
Deus. Inclui aquela justiça individual e social à qual se fez referência
anteriormente no Sermão. E Deus, sendo ele mesmo um Deus justo, deseja a
justiça em cada comunidade humana, não apenas em cada comunidade cristã. Os
profetas hebreus condenaram a injustiça não só em Israel e Judá, mas também
entre as nações pagãs à volta. O profeta Amos, por exemplo, advertiu que o
juízo de Deus cairia sobre a Síria, Filistia,
Tiro, Edom, Amom e Moabe por causa de sua crueldade na
guerra e outras atrocidades, como também cairia sobre o povo de Deus. Deus
odeia a injustiça e ama a justiça em qualquer lugar. O Pacto de Lausanne, estruturado
no Congresso sobre Evangelização do Mundo, em julho de 1974, inclui um
parágrafo sobre a "responsabilidade social cristã", que começa assim:
"Afirmamos que Deus é o Criador e Juiz de todos os homens. Portanto,
partilhamos de sua preocupação com a justiça e com a reconciliação de toda a
sociedade humana."
Um dos propósitos de Deus para a sua comunidade nova e redimida é que,
através dela, a sua justiça se faça agradável (na vida pessoal, familiar,
comercial, nacional e internacional), e por isso a recomenda a todos os homens.
Então as pessoas que estão fora do reino de Deus vão vê-la e desejá-la, e a
justiça do reino de Deus transbordará, por assim dizer, sobre o mundo
dos não-cristãos. Naturalmente a profunda justiça do coração, que Jesus
enfatizou no Sermão, é impossível, a não ser nos que foram
regenerados; mas certa porção de justiça é possível na sociedade
não-regenerada: na vida pessoal, nos padrões familiares e na decência pública.
Mas o cristão deseja ir muito além disso e ver as pessoas
literalmente trazidas para dentro do reino de Deus através da fé em Jesus
Cristo. Ao mesmo tempo, não deveríamos nos envergonhar de declarar que, fora do
círculo do reino, Deus também prefere a justiça à injustiça, a liberdade à
opressão, o amor ao ódio, a paz à guerra.
Se é assim (e não vejo como isso poderia ser contestado),
então buscar primeiro o seu reino e a sua justiça pode-se
dizer que abrange nossas responsabilidades cristãs evangelísticas e sociais,
tanto quanto as metáforas do "sal" e da "luz" de Mateus 5.
A fim de buscar primeiro o reino de Deus temos de evangelizar, uma
vez que o reino só se propaga quando o evangelho de Cristo é pregado, ouvido,
crido e obedecido. A fim de buscar primeiro a justiça de Deus, temos também de
evangelizar (pois a justiça interior do coração torna-se impossível de outro
modo), mas também temos de nos envolver em atividades e empreendimentos sociais
para propagar por toda a comunidade aqueles padrões mais elevados de justiça
que são agradáveis a Deus.
Qual é, então, a nossa ambição cristã? Todos nós somos ambiciosos de
ser ou fazer alguma coisa, geralmente desde os mais tenros anos. As ambições da
infância tendem a seguir certos protótipos; por exemplo: ser cowboy, astronauta
ou bailarina. Os adultos também têm os seus próprios protótipos; por exemplo:
ficar rico, famoso ou poderoso. Mas, em última análise, só há duas ambições
possíveis para os seres humanos. Vimos até agora como Jesus comparou a
verdadeira com a falsa ambição, a secular ("gentia") com a
cristã, a material com a espiritual, os tesouros da terra com os
tesouros do céu, o alimento e a roupa com o reino e a justiça de Deus. Mas,
acima e além de tudo isso, fica um contraste ainda mais fundamental. No final,
exatamente como há apenas dois tipos de piedade, a egocêntrica e a
teocêntrica, também existem apenas dois tipos de ambição: podemos ser
ambiciosos para nós mesmos ou para Deus. Não há uma terceira alternativa.
As ambições voltadas para o ego podem ser bastante modestas (o
suficiente para comer, beber e vestir, como no Sermão) ou podem ser grandiosas
(uma casa maior, um carro mais possante, um salário melhor, uma reputação mais
influente, mais poder). Mas, modestas ou não, são ambições dirigidas a mim
mesmo: meu conforto, minha riqueza, meu status, meu poder.
As ambições voltadas para Deus, entretanto, para
serem dignas dele, nunca devem ser modestas. Há algo
inerentemente impróprio em se ter pequenas ambições para Deus. Como
poderíamos nos contentar em que ele adquira só mais um pouquinho de honra no
mundo? Não. Quando percebemos que Deus é Rei, então desejamos vê-lo coroado de
glória e honra, no lugar a que tem direito, que é o lugar supremo. Então
tornamo-nos ambiciosos pela propagação do seu reino e da sua justiça por toda
parte.
Quando isto constitui genuinamente a nossa ambição predominante, então
não só todas estas cousas vos serão acrescentadas (isto é,
nossas necessidades materiais serão supridas), como também não haverá mal algum
em ter ambições secundárias, uma vez que estas serão subservientes à nossa
ambição primária e não competirão com ela. Na verdade, só então é que as ambições
secundárias tornam-se sadias. Os cristãos deveriam ser zelosos em desenvolver
os seus talentos, alargar as suas oportunidades, estender a sua influência e
receber promoções em seu trabalho, não mais para fomentar o seu próprio ego ou
edificar o seu próprio império, mas sim para, através de tudo o
que façam, glorificar a Deus. Ambições menores são sadias e corretas,
contanto que não constituam um fim em si mesmas (isto é, em nós mesmos),
mas sejam o meio de alcançar um fim maior (a propagação do reino e da justiça
de Deus) e, portanto, o maior de todos, isto é, a glória de Deus. Este é o
"Bem Supremo" que devemos buscar primeiro; não há
outro.
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