terça-feira, 29 de setembro de 2015

AUXILIO PARA AULAS N.14 GENESIS

         

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Revista Ensinador Cristão - CPAD, nº 64, p. 37.
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SUGESTÃO DE LEITURA
Criacionismo: Verdade ou Mito?, Pequena Enciclopédia Bíblica e As Novas Fronteiras da Ética
 


Revista CPAD - Lições Bíblicas - 1995 - 4º Trimestre - Gênesis, O Princípio de Todas as Coisas - Comentarista pastor Elienai Cabral

A DOUTRINA DA CRIAÇÃO

Gênesis 1:1,2 No princípio criou DEUS o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o ESPÍRITO de DEUS se movia sobre a face das águas.
Gênesis 1:26-31
E disse DEUS: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou DEUS o homem à sua imagem; à imagem de DEUS o criou; homem e mulher os criou. E DEUS os abençoou, e DEUS lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse DEUS: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. E viu DEUS tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

OBJETIVOS:

1. Informe aos alunos que DEUS é o Onipotente, desde a eternidade. Por isso, Ele não dependeu de alguém, para a criação do mundo, senão da integração das três pessoas da Trindade, na realização deste subli­me projeto. Elas não tiveram princípio, pois são eternas. 
2. Diga-lhes que é natural do ser humano, tentar descobrir as coisas, as vezes, até por tentativas vãs, como no caso das teorias da criação do mundo. Entretanto, descobrimos que elas não passam de especulações, pois a mente humana não é capaz de desvendar este ministério da origem de todas as coisas.
 
3. Explique-lhes que a Doutrina da Criação não se submete aos diversos pensamentos filosóficos e científicos, pois deve ser aceita pela fé. Por isso, não nos importa saber qual a idade da Terra, pois DEUS existe antes dela e é eterno. Estamos escudados no que Genesis 1.1 nos declara: "No princípio, criou DEUS os céus e a terra".

INTRODUÇÃO 

Genesis, o primeiro livro da Bíblia, no original hebraico, é "Bereshith", que se traduz por "No princípio" e, no grego, a palavra "Genesis" é "Geneseos", que significa"nascimento, começo, princípio". Foi escrito por Moisés em 1443 a. C.,aproximadamente, e redi­gido nos primeiros anos da peregrinação de Israel no deserto,quando este patriarca procurava ensinar ao povo os fundamentos da Palavra de DEUS.
I - DEUS, O CRIADOR 
1- Identificando o Criador. Antes de falar dos atos criativos do Senhor, é preciso conhecê-lo do modo como a Bíblia o apresenta. Genesis não começa com urna teoria, mas com o vocábulo DEUS: "No princípio criou DEUS" (Gn 1.1). Através da história da humanidade, os homens têm inventado muitos deuses, e Satanás, arqui-inimigo do Criador, deseja tornar-se o o governador ou "deus" do Universo, a qualquer custo.
 
2. O Criador e a cria,;ao. A declaração de que há um Criador, o qual deu vida a todos os seres vivos existentes na Terra, e também os ele­mentos animados e inanimados, desfaz completamente as teorias anticriacionistas da evolução. No hebraico, o termo "BARAH" indica, de forma direta, que DEUS é o Criador.
 
3. O Criador é o Senhor Onipotente. Entre os atributos de sua Onipotência, revela-se "o poder de criar". A Abraão, o Senhor manifestou-se como "o DEUS Todo- poderoso" (Gn 17.1). Vários textos na Bíblia declaram que "DEUS fez a terra pelo seu próprio poder" ( Is 40.21-28; 42.5; 45.12- 18; Jr 10.12; 27.5; 51.15).
 

II - TEORIAS DA ORIGEM DA CRIAÇÃO
 

l. A Teoria da Grande Explosão. A partir do estudo de Einstein, sobre a Teoria da Relatividade, outros cientistas acreditam que o Universo era urna bola imensa de hidrogênio que se expandira indefinidamente e alcançaria distâncias quase infinitas. Eles imaginam que, em algum tempo indecifrável, houve urna grande explosão desta imensa bola de hidrogênio. Dai surgiram os mundos, as galáxias. Na tentativa de definir as origens do Universo, procuram determinar a sua idade, sugerindo a cifra de 12 bilhões de anos. De fato, esta teoria acredita na eternidade da matéria, mas a Bíblia a refuta, quando declara que tudo em algum tempo começou a existir. "No principio, criou DEUS os céus e a terra" (Gn 1.1). 
2. A Teoria da Nebulosa Original. A idéia básica desta teoria é que a matéria foi criada por DEUS e está espalhada pelo Universo, em vários sistemas planetários desconhecidos e, inclusive, o nosso, no qual se inclui a Terra. Os cientistas, seus defensores, ensinam que o nosso planeta teria surgido em estado gasoso de hidrogênio, e, como os gases ocupam muito mais espaço que os sólidos, esta matéria original tomaria todo o espaço conhecido e desconhecido.
3. A Teoria da Substância Original. Os adeptos desta teoria ensinam que havia, no princípio de tudo, urna substância original indefinida e desconhecida, e dela surgiram os quatro elementos básicos: a terra, o ar, o fogo e a água. Afirmam ainda que, de um destes componentes deve ter originado a vida, ou então, de todos eles. 
4. A Teoria do Panteísmo. O Panteísmo declara que DEUS e a Natureza são a mesma coisa e estão inseparavelmente ligados. A idéia básica desta teoria é que o Senhor não cria nada, mas tudo emana e faz parte dele. Entretanto, a revelação bíblica não aceita, de modo algum, este ensinamento, pois o Criador não é parte do Universo, e, sim, este foi criado por Ele (SI 8).
 
5. A Teoria Evolucionista. Esta teoria ensina que a matéria é eterna, preexistente. A partir daí, mediante processos naturais e por transformação gradual, os seres passaram a existir. Entretanto, a Bíblia declara que DEUS criou todas as coisas, isto é, tudo teve um começo. As provas diretas da criação, além da Ciência, estão expostas na Bíblia em Genesis 1.1.
 
6. A Teoria da Criação, a partir do nada. Esta é, talvez, a mais difundida, ensinada e pregada, no meio evangélico. Ela é conhecida pela expressão latina "ex nihilo", pois declara que DEUS criou tudo "do nada", mediante o poder de sua palavra. Utiliza-se como base, para a afirmação desta idéia, o texto de Hebreus 11.3, o qual diz que "os mundos foram criados pela palavra de DEUS, de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente". Ora, entendemos que aquilo o qual não é aparente, não quer dizer "do nada", mas pode referir-se a coisas imateriais. A expressão "No princípio", de Genesis 1.1, não se refere a ''eternidade passada", mas significa o ponto inicial do tempo como o conhecemos.
OBSERVAÇÃO MINHA - Ev. HENRIQUE - OS MUNDOS FORAM CRIADOS PELA PALAVRA DE DEUS, PORTANTO, NÃO FORAM CRIADOS DO NADA.

III - O MODO DIVINO DA CRIAÇÃO 

1. A criação foi um ato livre da parte de DEUS. Existe um falso ensino de que a criação do mundo foi por urna necessidade de DEUS, urna autogênese divina, para fazer valer o seu Ser, como se Ele precisasse auto-afirmar-se. Urna vez que se admite ter sido a criação feita do nada, entende-se que nada preexiste a ação criadora do Senhor. A idéia de que o mundo aparece como algo necessário para Ele, acaba no panteísmo, o qual ensina que tudo é DEUS e o mundo não pode conceber-se sem o Criador, nem Ele sem o Universo.
 
Mas DEUS não criou o mundo por acaso, ou por necessidade. O Universo existe porque o Criador quer. Ele é para si mesmo sua própria riqueza e,portanto, a criação partiu dele como urna graça especial. O Senhor é imune de coação externa, pois não depende de nada, absolutamente, e, por isso, pode criar livremente o que deseja, quando.e como quer. Os salmos 115.3 e 135.6 dizem respectivamente: "Mas o nosso DEUS está nos céus; fez tudo o que lhe agradou"; "Tudo o que o Senhor quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos".
2.A criação foi um ato temporal de DEUS. A expressão inicial de Genesis 1.1: "No princípio", indica, dentro da eternidade, a questão do "tempo". O termo hebraico "bereshith" mostra, em seu sentido literal, que a palavra "princípio" refere-se ao início da criação. "O tempo é apenas urna das formas de toda a existência criada", como afirmou certo teólogo. A declaração de que a criação foi um ato temporal, não significa restringir ou confinar DEUS ao tempo, porque Ele está fora de qualquer confinamento, restrição física ou mesmo espiritual. Na verdade, a lição que aprendemos na Bíblia é que o mundo teve começo ( Mt 19.4,5; Me 10.6; Jo 1.1,2; Hb 1.10).
3. A criação foi um ato especial do DEUS Triúno. A forma plural do nome "ELOHIM" revela­nos, não só a transcendência do Criador, no sentido de ir além, mas, acima de tudo, o sufixo "him" indica a pluralidade composta da divindade, ou seja, as três pessoas da Trindade. Urna vez revelado o trino DEUS na declaração inicial de Genesis, entende-se que Ele é o autor da criação (Gn 1.1; Is 40.12; 44.24; 45.12). Nenhuma das pessoas da Trindade age com poderes independentes, mas, sim, o Pai, o Filho e o ESPÍRITO são autores independentes.

CONCLUSÃO 

Estudamos esta primeira lição, para compreendermos, não só a Teologia da Criação, mas também a sua história, conforme o relato de Genesis. Precisamos compreender este assunto com convicção, para podermos refutar as teorias humanas que negam o relato bíblico.
1. A salvação é pela fé, e jamais conseguiremos agradar a DEUS, se não confiarmos, plenamente, nele. O Criador revelou a Moisés o essencial sobre a criação do mundo, para jamais sermos enganados pelo Diabo. Por isso, acreditemos somente no que a Bíblia nos diz a respeito deste assunto. 
2. Todas estas teorias, hoje, são ensinadas nas escalas seculares, nos seus três níveis: primário, secundário e superior, com o único propósito de divulgar o Evolucionismo. Portanto, precisamos estar bem preparados, a fim de que a Palavra de DEUS suplante esta mentira, semeada pelo Inimigo de nossas almas.
3. Sabemos que dentro do projeto divino, de criar o mundo, estava o sublime propósito de formar um ser a imagem e semelhança de DEUS. Satanás, por inveja, investiu contra Adão e Eva, para destruí-los. Porém, o Senhor nos salvou, através da morte vicária de seu Filho Unigênito.
Revista CPAD - Lições Bíblicas - 1995 - 4º Trimestre - Gênesis, O Princípio de Todas as Coisas - Comentarista pastor Elienai Cabral


Gênesis a Deuteronômio - Comentário Bíblico Beacon - CPAD - O Livro de Gênesis - George Herbert Livingston, B.D., Ph.D.
Título
No Antigo Testamento hebraico, a primeira palavra do texto, bereshit, “no princípio”, serve de título para o livro de Gênesis. Tomar a primeira frase ou palavra de uma obra literária para denominá-la era prática comum no antigo Oriente Próximo. A tradução grega chamada Septuaginta (LXX) toscamente igualou este termo de abertura com a palavra gênesis, que significa “origem ou fonte”. A palavra grega permaneceu em nossas versões bíblicas, porque descreve notavelmente bem o conteúdo do livro. E o livro dos começos: o começo do universo, do homem, do pecado, da salvação, da nação hebraica, da aliança com os homens. Martinho Lutero foi o primeiro a anexar ao título antigo a frase: “O Primeiro Livro de Moisés”, mantida na maioria das versões bíblicas. Lutero a considerou apropriada visto que o Livro de Gênesis é o primeiro dos livros do Pentateuco e Moisés fora tradicionalmente considerado o autor de todos os cinco livros.

Considerado o autor de todos os cinco livros.

Uma breve discussão da autoria não faz justiça à massa de literatura sobre o assunto nem à complexidade dos problemas. A controvérsia gira em torno da questão se o Livro de Gênesis, como o conhecemos em todos os manuscritos existentes, foi produto de Moisés e seu tempo ou de escritores desconhecidos em uma época muito posterior. Ao longo dos últimos dois séculos, os estudiosos se dividem entre os que aceitam a autoria ou autoridade mosaica e os que consideram que o material do Livro de Gênesis é trabalho de muitos “autores” desconhecidos (ver análise em “O Pentateuco”).
O texto do livro não menciona o nome de Moisés e, como dito anteriormente, foi Lutero (1483-1546) quem juntou ao título a anotação sobre Moisés. Levando em conta que o derradeiro acontecimento narrado em Gênesis ocorre muito tempo antes dos dias de Moisés, os estudiosos ortodoxos defendem que ele modelou o material antigo em sua forma atual. Esta opinião se baseia principalmente nas seguintes evidências internas: a) nos outros quatro livros do Pentateuco, no sentido de que vieram de Moisés ou pelo menos do seu tempo de vida e sob sua direção; b) no restante do Antigo Testamento, o qual liga a Moisés o conteúdo de todo o Pentateuco; e c) no Novo Testamento, que afirma serem os livros do Pentateuco (principalmente Deuteronômio) da autoria de Moisés.

C. Data e Composição

Estes itens estão estreitamente relacionados com a discussão da autoria, portanto, todos os três devem, de certo modo, ser tratados juntos. Atribui-se a Johann Eichhorn, professor na Universidade de Jena, Alemanha, em fins do século XVIII, a rejeição da amplamente aceita autoria mosaica do Pentateuco. Ele fundamentou seus argumentos em duas supostas fontes para o Livro de Gênesis rotuladas de J, para aludir a Jeová, e E, para Elohim, as quais, segundo ele, vieram a existir depois do tempo de Moisés. Na verdade, esta análise de fonte foi feita pela primei­ ra vez por uma médica francesa, Jean Astruc, várias décadas antes de Eichhorn. Nos primeiros três quartos do século XIX, os professores alemães discutiam se havia muitas fontes, duas fontes ou apenas uma fonte para o Livro de Gênesis. Eles dataram estas fontes ao longo de todo o tempo entre Salomão e Esdras. Usando como indícios a ocorrência de diversos nomes divinos, as diferenças de vocabulário e a suposta divergência de pontos de vista teológicos, a controvérsia predominou entre uma história de composição fragmentada e uma unidade básica em construção.
Julius Wellhausen1foi o primeiro a popularizar com êxito a idéia de três fontes principais em Gênesis: J (fonte jeovista), E (fonte eloísta) e P (fonte sacerdotal [“p” de Priestercodex}). A fonte J era datada do século IX a. C.; a E era datada do século VIII a. C.; e a P era datada do século V a. C. Esta visão se tornou padrão entre seus seguidores e altamente popular nos círculos protestantes e judaicos em todo o mundo ocidental. A Igreja Católica Romana reagiu negativamente à teoria.
Hermann Gunkel2procurou estender-se sobre a posição de Wellhausen examinando as formas literárias da antiga maneira de contar histórias conforme ilustrada em Gênesis. Ele concluiu que, antes de 1000 a. C., houve um longo período de transmissão oral de grande parte do conteúdo do Livro de Gênesis antes de ser solidificado nos denominados documentos J ,E e P.
Em anos mais recentes, os estudiosos que rejeitam a autoria mosaica são mais favoráveis à ideia de um longo período de desenvolvimento da tradição oral em torno dos centros tribal e cultual, em vez da existência de fontes escritas. Otto Eissfeldt3 foi o proponente principal desta abordagem. Houve também a tendência a considerar que o livro foi concluído nos tempos do exílio e que possui um caráter substancialmente mosaico. W. F. Albright defendeu esta posição.
Os estudiosos conservadores consistentemente defendem que a teoria descrita acima é inaceitável, sendo incentivados pelo volume de evidências contrárias fornecidas pelos estudos no antigo Oriente Próximo. Com vigor renovado, insistem que evidências descobertas mais recentemente tornam possível e altamente provável a composição de Gênesis na época de Moisés. Vários manuscritos, inclusive o tipo alfabético, estavam em uso séculos antes dos dias de Moisés, produzindo-se uma grande quantidade de literatura, grande parte dela significativa para os estudos em Gênesis. Sabe-se hoje que a transmissão oral de recordações importantes, sobretudo as pertinentes à santidade, tem um grau de precisão não menos que espantosa.
Cada vez mais os estudiosos defendem que o conteúdo de Gênesis 1 a 11 deve ter entrado na coletânea de fatos e tradições hebraicas antes do tempo de Abraão. Atualmente, aceita-se que a orientação social, econômica e política das histórias dos patriarcas está solidamente arraigada no período de 2000 a 1500 a. C. A única barreira tem a ver com a teologia. Há um reconhecimento crescente de que crenças monoteístas predominavam entre os hebreus nos dias de Moisés, mas só os estudiosos conservadores ousam asseverar que o monoteísmo era desde o início a fé dos patriarcas.
A questão se resolve em uma pergunta básica: Gênesis era mosaico ou uma miscelânea de composição e origem? Este comentário sustenta a posição conservadora de que Gênesis é mosaico em sua composição e data.

D. Estrutura

O Livro de Gênesis tem uma introdução (1.1—2.3) e dez divisões, cada uma das quais introduzida pela palavra hebraica toledot (“gerações, origens”), que os estudiosos admitem ter o significado de “história, conto ou relato” em vez de simplesmente genealogia. Estas divisões ocorrem em 2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10; 11.27; 25.12; 25.19; 36.1; 37.2.  0 livro também pode ser dividido em duas seções principais: a primeira de 1.1 a 11.26 e a segunda de 11.27 até o fim. A primeira destas divisões lida basicamente com as origens primevas, e a segunda, com o estabelecimento da relação de concerto de Deus com os antepassados do povo hebraico. Ou conforme G. C. Morgan,8as divisões podem ser vistas em três par­ tes. A primeira divisão seria de 1.1 a 2.25, que se ocupa da geração; a segunda seria de
3.1 a 11.32, que lida com a degeneração; e a terceira seria de 12.1 a 50.26, que se centraliza na regeneração.
Depois do relato introdutório da criação, o livro se concentra fundamentalmente em homens importantes e seus descendentes. Estes homens são Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e José. Personagens de menor importância relacionados a estes indivíduos notáveis são tratados pelo simples alistamento de suas genealogias.
Em Gênesis, há um movimento sequencial que passa do universal para o específico. A história da criação do universo concentra a atenção em Adão e sua esposa, Eva; depois se estende para traçar de modo incompleto o aumento dos seus descendentes pelas linhagens de Caim e de Sete. Tendo descrito vigorosamente a corrupção destes povos em 6.1-4, o relato anuncia a decisão do Todo-poderoso em puni-los por meio de um grandioso dilúvio, mas, ao mesmo tempo, salvar um remanescente dando proteção a Noé e sua família numa arca. Os descendentes de Noé também são apresentados no aumento numérico e na expansão via migração através de uma lista genealógica. Abraão vem em primeiro plano.
Geograficamente, os primeiros onze capítulos são direcionados ao vale mesopotâmico
O Livro de Gênesis tem uma introdução (1.1—2.3) e dez divisões, cada uma das quais introduzida pela palavra hebraica toledot (“gerações, origens”), que os estudiosos admitem ter o significado de “história, conto ou relato” em vez de simplesmente genealogia. Estas divisões ocorrem em 2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10; 11.27; 25.12; 25.19; 36.1; 37.2.  0 livro também pode ser dividido em duas seções principais: a primeira de 1.1 a 11.26 e a segunda de 11.27 até o fim. A primeira destas divisões lida basicamente com as origens primevas, e a segunda, com o estabelecimento da relação de concerto de Deus com os antepassados do povo hebraico. Ou conforme G. C. Morgan,8as divisões podem ser vistas em três par­ tes. A primeira divisão seria de 1.1 a 2.25, que se ocupa da geração; a segunda seria de
3.1 a 11.32, que lida com a degeneração; e a terceira seria de 12.1 a 50.26, que se centraliza na regeneração.
Depois do relato introdutório da criação, o livro se concentra fundamentalmente em homens importantes e seus descendentes. Estes homens são Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e José. Personagens de menor importância relacionados a estes indivíduos notáveis são tratados pelo simples alistamento de suas genealogias.
Em Gênesis, há um movimento sequencial que passa do universal para o específico. A história da criação do universo concentra a atenção em Adão e sua esposa, Eva; depois se estende para traçar de modo incompleto o aumento dos seus descendentes pelas linhagens de Caim e de Sete. Tendo descrito vigorosamente a corrupção destes povos em 6.1-4, o relato anuncia a decisão do Todo-poderoso em puni-los por meio de um grandioso dilúvio, mas, ao mesmo tempo, salvar um remanescente dando proteção a Noé e sua família numa arca. Os descendentes de Noé também são apresentados no aumento numérico e na expansão via migração através de uma lista genealógica. Abraão vem em primeiro plano.
Geograficamente, os primeiros onze capítulos são direcionados ao vale mesopotâmico Depois da resposta de Abraão ao chamado de Deus para se mudar, as histórias relacionadas a ele estão centralizadas principalmente em Canaã, com apenas algumas histórias ligadas ao Egito ou a sua antiga casa em Harã. Com exceção de ter uma esposa de Harã, Isaque é completamente limitado à vida em Canaã, mas Jacó passou vinte anos em Harã e os últimos anos de vida no Egito, embora na juventude e meia-idade estivesse em Canaã. Exceto por sua juventude, José passou seus anos de maturidade no Egito, parte numa prisão e parte como poderoso funcionário do governo.

E. Propósito e Mensagem

O propósito principal do Livro de Gênesis é mostrar como Deus escolheu o povo de Israel para ter uma relação de concerto com Ele. Essa escolha se revela na forma em que Ele lidou com os progenitores dos israelitas. Ainda que haja semelhanças notáveis entre outros escritos antigos e as histórias bíblicas da criação, da queda do homem e do dilúvio, o interesse bíblico na origem do universo é basicamente teológico. Seu empenho é declarar que todas as coisas procedem e são sustentadas por um Deus Criador. O politeísmo e suas nuanças são deliberadamente ignorados.
No Livro de Gênesis, o interesse na origem do homem e na origem do pecado diz respeito fundamentalmente à natureza do relacionamento entre o homem e Deus, tanto em sua comunhão original quanto em sua posterior oposição negativa e desobediente à vontade de Deus. O relacionamento original sempre é considerado como o ideal e a meta de todos os procedimentos futuros de Deus com o homem. As misericórdias de Deus são estendidas aos homens para que o relacionamento positivo seja restabelecido pela atividade salvadora de Deus, a qual é determinada num sistema de concerto. Os vislumbres da realização futura dos propósitos redentores de Deus são orientados para um grande cumprimento de uma reconciliação não só individual, mas também nacional, internacional e universal entre Deus e o homem. Por conseguinte, os temas messiânicos na parte final do Antigo Testamento e no Novo Testamento são encontrados em Gênesis. Do ponto de vista teológico, o teor de Gênesis é inflexivelmente monoteísta. O paganismo não é abertamente questionado ou rejeitado; é amplamente ignorado. Gênesis descreve somente exemplos limitados da prática idólatra, os quais são repudiados indiretamente (como em Gênesis 22) ou diretamente (como em Gênesis 23). A análise racional e o ímpeto religioso do paganismo na Mesopotâmia, em Canaã e no Egito estão quase que totalmente ausentes.
O número limitado de temas religiosos e locuções literárias, que são encontrados tanto na antiga literatura mesopotâmica quanto no material em Gênesis, é incidental para os principais destaques das histórias de Gênesis. Eles tiveram sua importância largamente sobre-estimada por alguns estudiosos do Antigo Testamento.
O Livro de Gênesis desafia a validade do politeísmo, do dualismo, do deísmo e do panteísmo, não pela análise negativa de suas fraquezas, mas pela afirmação positiva da unidade, soberania e realidade pessoal divina. Em Gênesis, há a apresentação das qualidades pessoais e dinâmicas da relação divino-humana dentro do concerto , sobretudo na forma narrativa e, secundariamente, por meio de resumos genealógicos.

Esboço
1- Crises Individuais e Decadência Coletiva ,  1.1— 11.26
O Criador em Ação, 1.1—2.3
0  Criador em Relação à Criação, 2.4—3.24
O Assassinato e Seu Resultado, 4.1-24
A Expansão de um Novo Começo, 4.25—6.8
A Corrupção Universal e Seu Resultado, 6.9—11.26

2- Abraão, o Homem que Deus Escolheu ,  11.27— 25.11
As Relações da Família de Terá, 11.27-32
Estrangeiro em Nova Terra, 12.1—14.24
O Concerto de Deus com Abraão, 15.1—17.27
A Espera pelo Verdadeiro Filho, 18.1—20.18
Antigas Lealdades Testadas, 21.1—22.19
Assumindo Responsabilidades por Outros, 22.20—25.11

3- Ismael, o Homem que Deus Separou , 25.12-18

4- Isaque , o Homem cuja Vida Deus Poupou , 25.19—28.9
Um Guisado em troca do Direito de Primogenitura,  25.19-34
O Procedimento de Isaque com seus Vizinhos, 26.1-33
Isaque e sua Família, 26.34—28.9

5- Jacó , o Homem que Deus Refez , 28.10— 35.29
Confrontado por Deus, 28.10-22
Amor Frustrado não Morre, 29.1-30
Dolorosa Competição, 29.31—30.24
Pastores Inteligentes, 30.25—31.55
Profunda Crise Espiritual, 32.1-32
Irmãos Conciliados, 33.1-17
Tragédia em Siquém,  33.18—34.31
O Concerto Renovado em Betel, 35.1-15
Viagem Toldada pela Tristeza, 35.16-29

6- Esaú , o Homem que Aceitou de Volta  seu Irmão, 36.1-43
As Esposas de Esaú e seus Filhos,  36.1-8
Os Filhos e Netos de Esaú,  36.9-14
A Proeminência dos Descendentes de Esaú, 36.15-19
Os Filhos dos Moradores das Cavernas,  36.20-30
Os Reis de Edom, 36.31-39
As Regiões onde os Edomitas Habitavam, 36.40-43

7- José, o Homem que Deus Protegeu , 37.1— 50.26
Vendido como Escravo, 37.1-36
A Frouxidão Moral de Judá, 38.1-30
As Provações de José no Egito, 39.1—40.23
A Dramática Ascensão de José ao Poder, 41.1-57
Problemas Misteriosos no Egito, 42.1—45.28
O Novo Lar no Egito, 46.1—47.31
Visões do Futuro, 48.1—50.26

Seção 1 - CRISES INDIVIDUAIS E DECADÊNCIA COLETIVA
Gênesis 1.1—11.26 

Em uma série de histórias e genealogias altamente condensada, esta seção do livro trata da origem do universo, da origem da ordem nesta terra, da origem da vida, da origem do homem, da origem do pecado, da violência e desordem, e da origem das diferenças nacionais e linguísticas.

O Criador  em  Ação , 1 .1— 2 .3 

Pela brevidade e beleza da composição e do estilo, esta vinheta sobre a criação é inigualável. O Deus-Criador domina a cena. Ele fala e imediatamente se forma a ordem, proporcionando um belo lugar de habitação e de abundantes suprimentos para a criação mais sublime de todas: o homem. Majestade e poder marcam cada sentença.

1. O Ato Inicial (1.1,2)

Em resposta à pergunta “Quem fez todas as coisas?”, a Bíblia declara ousadamente: Deus... criou (1). Em resposta à pergunta “Quem é anterior e maior que todas as coisas?”, com igual ousadia a Bíblia anuncia: No princípio... Deus.1O céu e a terra não são Deus nem deuses; nem é Deus igual à natureza. Deus é o Criador e a natureza é seu trabalho manual.
Embora feita por Deus, a terra não estava pronta para o homem. Ainda estava em desordem, sem forma e vazia (2), e não havia luz. Contudo, havia atividade. O Espírito de Deus se movia continuamente sobre a face das águas.


2. O  Dia da Luz e das Trevas (1.3-5)

Energia é necessidade vital para o hábitat do homem, e luz é energia. Por conseguinte, a primeira ordem de Deus foi: Haja luz (3). A ênfase na palavra falada de Deus é tão grande que cada dia criativo começa com uma ordem ou expressão da vontade divina.2Em seguida, ocorre a execução da ordem e a declaração culminante: Era bom ou equivalente (e.g., 4,10,18).

3. O Dia das Águas Divididas (1.6-8)

As águas foram separadas, e acima da terra havia uma expansão (6). A palavra expansão ou firmamento transmite a idéia de solidez.3 Contudo, a ênfase na palavra hebraica original raqia não está no material em si, mas no ato de expandir-se ou na condição de estar expandido. Por isso, a palavra “expansão” é muito apropriada.
Em diversos lugares do Antigo Testamento, o ato de estender os céus é proeminente (ver Jó 9.8; 26.7; SI 104:2; Is 45.12; 51.13; Jr 51.15; Zc 12.1). A evidência de que Deus é o Criador acha-se no ato de estender e não no caráter do que foi formado.4Ao longo do Antigo Testamento, o interesse se centraliza nas relações de Deus com a natureza e o homem. Deus é o Criador, e a partir desta declaração o Antigo Testamento passa a mostrar que a natureza é uma criatura e uma ferramenta. Do mesmo modo, Deus julga, livra e cuida do homem.

4. O Dia da Terra e do Mar (1.9-13)

O terceiro ato de Deus dizia respeito à formação de um futuro hábitat para o homem, que é criatura da terra. O alimento para o homem, a vegetação, cresce na terra. Sob a ordem de Deus, terra e mar se separaram, e forma, vida e beleza enfeitaram a terra. O texto não descreve como estas separações ocorreram, nem há uma lista das forças dinâmicas e naturais envolvidas. Ao invés disso, a relação de um Criador pode­ roso com uma criatura obediente e flexível é o tempo todo, e claramente, mantida diante do leitor.
Dramaticamente, Deus se voltou para a terra agora visível e deu-lhe ordens. Apareça a porção seca (11) não era admissão de que as substâncias inorgânicas possuíam o poder inerente de produzir vida.5Muito pelo contrário, a vida em si acha-se, no final das contas, na palavra criativa de Deus e imediatamente surge em resposta à sua ordem.
Seguindo um padrão de pares — luz e trevas, águas que estavam sobre e águas que estavam debaixo, terra e mares —, agora ocorre uma série de grupos de três. Erva, erva dando semente... e árvore frutífera (12) são agrupamentos muito generalizados e não devem ser considerados classificações botânicas no sentido moderno.
A frase conforme a sua espécie6indica limites aos poderes de reprodução. Mas não fornece um projeto que esboça linhas limítrofes. O destaque está na segurança observável da natureza: trevo produz trevo, trigo produz trigo, etc. E assim foi (11) — e ainda é.

5. O Dia dos Dois Luminares (1.14-19)

Os pagãos adoravam o sol, a lua e as estrelas como deuses e deusas de poder formidável. Na narrativa deste dia da criação, o luminar maior (16) e o luminar menor nem mesmo são nomeados. Em poucas sentenças hábeis, o autor descreve a criação destes corpos celestes, os quais, depois, são incumbidos de executar certas tarefas nos céus.7 Eles possuem uma dignidade de governo e nada mais. As estrelas também recebem não mais que uma menção honrosa. Que golpe contra o paganismo!

6. O Dia dos Pássaros e dos Peixes (1.20-23)

Pelo motivo de a luz e as trevas serem comuns a ambos os dias, o primeiro dia (3-5) e o quarto dia (14-19) estão relacionados. Também o segundo (6-8) e o quinto (20-23) estão relacionados no ponto em que lidam com a expansão, em cima, e as águas, embaixo. No quinto dia, Deus falou uma palavra para as águas (20), as quais produziram criaturas e pássaros encheram o ar. No versículo 21, vemos outra tríade: as grandes baleias... todo réptil de alma vivente... e toda ave de asas.
O texto não nos conta como as águas colaboraram com o Criador, mas para enfatizar a estreita ligação entre Deus e estas criaturas é empregado o verbo criou.As diferenças surpreendentes entre a vida botânica e a biológica são atribuídas a um ato divino. Deus os abençoou (22). No Antigo Testamento, a bênção divina é um ato criativo e uma capacitação para que aquele que a recebe cumpra seu destino segundo a vontade de Deus. Neste caso, a vontade de Deus é que as criaturas se reproduzam abundantemente... conforme as suas espécies (21). Este ato serviu para anular a condição anterior “vazia” (2).

7. O Dia dos Animais e do Homem (1.24-31)

Dando mais uma ordem: Produza a terra alma vivente (24), Deus encheu a terra de criaturas: as bestas-feras da terra (os animais selvagens, 25), gado e... todo réptil que se move sobre a terra (26).
Mas este dia teria a coroação do ato criativo. A deidade, em deliberação, disse: Façamos o homem (26).9Esta criatura tinha de ser diferente. Deus disse que o homem tinha de ser feito à nossa imagem, tendo certa semelhança com a realidade, mas carecendo de plenitude. O homem devia ser conforme a nossa semelhança, tendo similitude geral com Deus, mas não sendo uma duplicata exata. Não era para ele ser um pequeno Deus, mas definitivamente tinha de estar relacionado com Deus e ser o portador das características distintivas espirituais que o marcam exclusivamente como ser superior aos animais.10
Em 1.26-30, encontramos “O Homem Feito à Imagem de Deus”. 1) Um ser espiritual apto para a imortalidade, 26ab; 2) Um ser moral que tem a semelhança de Deus, 27; 3) Um ser intelectual com a capacidade da razão e de governo, 26c,28-30 (G. B. Williamson).
Uma das marcas da imagem de Deus foi Ele ter dado ao homem o status e o poder de governante. O direito de o homem dominar (28) ressalta o fato de que Deus o equipou para agir como governante. A aptidão para governar implica em capacidade intelectual adequada para argumentar, organizar, planejar e avaliar. A aptidão para governar implica em capacidade emocional adequada para desejar o mais alto bem-estar dos súditos, apreciar e honrar o que é bom, verdadeiro e bonito, repugnar e repudiar o que é cruel, falso e feio, ter profunda preocupação pelo bem-estar de toda a natureza e amar a Deus que o criou. A aptidão para governar implica em capacidade volitiva adequada para escolher fazer a toda hora o que é certo, obedecer ao mandamento de Deus indiscutivelmente e sem demora, entregar alegremente todos os poderes a Deus em adoração jovial e participar em uma comunhão saudável com a natureza e Deus.
Deus criou o homem para ser uma pessoa que tivesse autoconsciência, autodeterminação e santidade interior (Ec 7.29; Ef 4.24; Cl 3.10). A imagem foi distribuída sem distinção de macho e fêmea, tornando-os iguais diante de Deus.
Como Deus abençoou (22) o que previamente havia criado (21), assim Deus outra vez abençoou (28) esta fase da sua obra. Incumbiu o homem com a responsabilidade de reproduzir-se e sujeitar à sua superintendência a terra e tudo que nela havia.
O ato de abençoar o gênero humano é de significado mais amplo que o de abençoar os animais (22). O homem é capaz de ter consciência dessa bênção e pode responder a ela. “Abençoar” em relação a um ser racional é ato de transmitir um senso da vontade de Deus para o abençoado. Isto é especialmente significativo para o homem, pois a ordem de procriar coloca a aprovação de Deus no ato de reprodução. Essencialmente, a relação homem-mulher na procriação é boa, está dentro da vontade de Deus e é básica para o bem-estar deles.
No Antigo Testamento, há dois aspectos para o ato de conceder bênçãos. Da parte de Deus, há o ato de um Ser superior concedendo favor a quem é dependente dele. Da parte do homem, há o retorno da gratidão ao Doador de dons (Gn 24.48; Dt 8.10).
Aspecto importante da bênção de Deus era a concessão de poder e habilidade para sujeitar e dominar (28) os outros seres criados que habitam a terra. Mas era uma autoridade delegada, um governo subordinado, pelo qual o homem prestava contas a Deus. Presumimos que a responsabilidade de controlar a vida animal não acarreta o direito de abusar dela, caso contrário não teria sido bom.
Deus concedeu ao homem o direito de usar os frutos da vida vegetal para comida (29). Isto não lhe deu o privilégio de explorar a natureza, deixando para trás estrago e desolação. O cuidado apropriado dos frutos da vida vegetal tem necessariamente de acarretar o cultivo (2.15) e a conservação dos recursos naturais.
O fato de os animais, sujeitos ao controle do homem, também se alimentarem de plantas, toda a erva verde (30), destaca ainda mais a responsabilidade que pesa sobre o homem. Ele é responsável por controlar a natureza de modo que a natureza supra as necessidades de todas as criaturas vivas e não só as necessidades do homem (ver 9.3 sobre a permissão de comer carne).
A morte de animais não é mencionada, embora não haja razão para presumir a ausência de morte animal antes da queda. O foco está na vida, na harmonia, na ordem e na aptidão de forma e função para o domicílio terrestre do homem.
Em 1.1-5, 26-31, vemos a “Criação pela Vontade Onipotente”, com a ideia central no versículo 1.
1) Causa adequada, 1,2;
2) Desígnio evidente, 2-5;
3) Homem semelhante a Deus, 26-30;
4) Concepção onisciente, 31 (G. B. Williamson).

Gênesis a Deuteronômio - Comentário Bíblico Beacon - CPAD - O Livro de Gênesis - George Herbert Livingston, B.D., Ph.D.

GÊNESIS - Introdução e Comentário - REV. DEREK KIDNER, M. A. - Sociedade Religiosa Edições Vida Nova ,Caixa Postal 21486, São Paulo - SP, 04602-970

I. Matriz e Berço de Gênesis 

Das obras procedentes do antigo Oriente Próximo que conhecemos, nenhuma é, nem de longe, comparável, em escopo, ao livro de Gênesis, para não mencionar qualidades menos mensuráveis. Certos poemas épicos oriundos da Babilônia falam da criação; outros falam de um dilúvio. A versão mais completa que existe do Épico de Atrahasis, de mais de 1200 versos, liga os dois acontecimentos numa só história continua1que nos dá uma espécie de paralelo de 1-8. Mas, ao terminarem esses poemas, Gênesis mal está começando. A narrativa deste começa num ponto bem anterior ao daqueles (visto que, neles, as águas, personificadas, são o princípio, e os deuses que as dominam são apenas seus produtos) e só termina quando a igreja do Velho Testamento já está firmemente alicerçada e quatro gerações de patriarcas tinham tido vida momentosa no cenário de duas civilizações diferentes.
O livro se desenrola em duas partes desiguais, a segunda das quais começa com o aparecimento de Abraão na junção dos capítulos 11 e 12. Os capítulos 1 a 11 descrevem duas progressões antagônicas: primeiro, a ordenada criação realizada por Deus, até o seu clímax no homem como ser responsável e abençoado; e depois a obra desintegradora do pecado, até o seu primeiro grande anticlímax no mundo corrupto do dilúvio, e seu segundo anticlímax na loucura de Babel.
Com isto, no capítulo 12 a história geral do homem dá lugar à história germinal de “ Abraão e sua semente” , em que a aliança já não é um compromisso geral com a humanidade inteira, como no capítulo 9,mas se reduz a uma só família mediante a qual “ serão benditas todas as famílias da terra” (12:3). Abraão, sem terras e sem filhos, é levado a aprender que a grande promessa, a estrela polar da sua vida, haverá de cumprir-se divina e miraculosamente, ou não se cumprirá de forma nenhuma. Neste contexto, a obstinada escolha que o seu sobrinho fez das cidades da planície, e suas próprias tentativas desesperadas para conseguir proteção e para ter família, contrastam com o frutífero procedi­ mento da fé. A narrativa deixa claro que em Sodoma ou no Egito ou em Ismael não há futuro como na promessa de Canaã e de Isaque. Estas lições permanecem no restante do livro, quando os homens aceitam ou combatem a vontade de Deus pela escolha de Jacó em vez de Esaú na segunda geração, de José colocado acima de seus irmãos na terceira, e de Efraim acima de Manassés na quarta. Na parte final de Gênesis o povo escolhido começa a tomar forma, enquanto que seus primos e vi­ zinhos estão estabelecidos em seus territórios e já têm seus padrões de vida. Mas nesse meio tempo ele imigra da terra prometida, e a história não pode acabar nesse ponto.
Portanto, o livro não perde no seu término nada do seu ímpeto. Os seus 50 capítulos são o ponto de partida para as coisas mais grandiosas do Livro de Êxodo — coisas essas que os acontecimentos finais de Gênesis exigem e que suas palavras de conclusão antecipam. É somente o primeiro dos “ cinco quintos da lei” , como a lei mesma é a semente de uma colheita ainda maior. Um dos fatos impressionantes relacionados com o Velho Testamento, e, com Gênesis como parte deste, é esta arre­ metida rumo a uma consumação predita, mas, imprevisível em seus pormenores; que a cumpre sem destruí-la.
Na verdade, Gênesis está de várias maneiras quase que mais perto do Novo Testamento do que do Velho, e de alguns dos seus tópicos mal se ouve falar de novo até suas implicações surgirem plenamente nos evangelhos. A instituição do casamento, a queda do homem, a inveja de Caim, o juízo do dilúvio, a justiça imputada ao que crê, a rivalidade entre os filhos da promessa e da carne, a profanidade de Esaú, o povo de Deus em sua condição de peregrino, são todos eles temas predominantes no Novo Testamento. Finalmente, há a simetria com que algumas das cenas e figuras dos primeiros capítulos reaparecem no livro do Apocalipse, onde Babel (Babilônia) e “ a antiga serpente... o sedutor de todo o mundo” são levados à ruína, e os remidos, conquanto sejam veteranos e não inocentes ainda não tentados, voltam a passear
pelo paraíso, nas cercanias do rio e da árvore da vida.

II. Data e Autoria do Livro

a. Indicações da Escritura.

Embora o Novo Testamento fale do Pentateuco em geral como “Moisés” ou “ livro” ou “ lei” de Moisés, em parte alguma indica especificamente o livro de Gênesis com esses termos. Por seu turno, o Pentateuco fala da decisiva participação de Moisés em sua produção, desde os seus primeiros registros da maldição lançada sobre Amaleque (Êx 17:14) e do livro da aliança do Sinai ( Ê x 24:3-7), até à escrita e preservação de sua final exposição da lei (Dt 31:24-26). Sob Deus, o cerne e a substância dos livros de Êxodo e Deuteronômio são obra dele, bem co­ mo, sob Deus, os acontecimentos relatados constituem a história da sua vida.
Contudo, Moisés é sempre “ ele” , nunca “ eu” , nesses aconteci­ mentos. Até mesmo o “ registro dos itinerários” de Nm 33 está na terceira pessoa (isto é, foi escrito com base no registro feito por ele, não apenas inserido), e quando deveras fala na primeira pessoa, como em Deuteronômio, uma introdução e uma conclusão estruturam suas palavras e dão ao relato final o cunho de história, e não autobiografia. Na­ da aí corresponde às memórias de Neemias, desacompanhadas de introdução, nem às “ passagens-nós” de Atos.
Ao atribuir o Pentateuco como um todo a Moisés, o Novo Testa­ mento parece sugerir que em Gênesis há uma relação de semelhança entre o conteúdo substancial e a forma externa final, como sugere que há nos demais livros. Isto é, que o material é de Moisés, seja quem for o seu biógrafo e editor. Parece artificial, por exemplo, excluir Gênesis da expressão de nosso Senhor: “ Moisés... escreveu a meu respeito” (Jo 5:46) e da exposição que fez no caminho de Emaús: “ começando por Moisés” (Lc 24:27; cf. 44). Essa distinção jamais ocorreria a nenhum dos leitores originais dos evangelhos.
Este modo de considerar a relação entre Moisés e os livros que trazem seu nome parece concordar com algumas das pequenas pistas superficiais existentes em Gênesis. É preciso salientar, porém, que não são concludentes. Por um lado, por exemplo, 47:11 emprega os termos “ terra de Ramessés” para indicar o território israelita, expressão que podia ter vindo de modo particularmente fácil a Moisés, se é que foi contemporâneo de Ramessés II. Por outro lado, 36:31, passagem que fala dos reis que reinavam em Edom “ antes que houvesse rei sobre... Israel” , segundo qualquer forma normal de entendimento, atribui-se a si própria como sua data o tempo de Saul ou uma época posterior a ele. Contudo, esta lista de reis tanto podia ser um adendo para dar atualidade a um livro antigo, como podia indicar a data da sua composição.
Não há meio seguro de determinar isso. Outras frases de menor importância com possíveis dados sobre datas são 12:6 (cf. 13:7 “ Nesse tem­ po os cananeus habitavam essa terra” , e 14:14 “ até Dã” (cf. Jz 18:29). A primeira não é decisiva, visto que “ nesse tempo” pode significar “ nesse tempo, como agora” (cf. Js 14:11), ao passo que a outra, como 36:31, citada acima, podia indicar ou o período do autor ou de algum escriba que substituiu um nome arcaico por outro de uso corrente.
Portanto, a evidência bíblica, no livro e fora dele, deixa aberta a questão se a inclusão de Gênesis entre os escritos de Moisés significa simplesmente que ele constitui o fundamento do Pentateuco ou que Moisés o escreveu pessoalmente. Mas talvez se possa acrescentar a esta altura que o livro mostra uma amplitude de concepção e um conjunto de erudição, maestria e discernimento psicológico e espiritual, que o tornam proeminente, por consenso comum, mesmo no Velho Testamento. 

b. Crítica do Pentateuco. 

Geralmente se defende a idéia de que Gênesis dá-nos muito mais pistas quanto à sua composição do que as poucas mencionadas acima. A primeira delas a atrair a atenção está na variação no uso de nomes divinos e nas aparentes repetições presentes nas narrativas. Em 1753 J. Astruc tentou, por estes meios, isolar diferentes documentos usados por Moisés, e no fim do século dezoito a figura de Moisés foi sendo retirada da vista dos investigadores para ser substituída por um redator anônimo. As passagens em que se emprega o termo Deus (Elohim) eram atribuídas ao “ Elohísta” , abreviado para E; outras que falam do Senhor (Jahweh, Yahweh) foram obra do “ Yahwista” , J. Logo se decidiu que havia mais de um Elohísta, e a inicial P (fonte sacerdotal) eventualmente se aduzia a E e J para distinguir o primeiro do segundo Elohísta. Contudo, uma revolução de grande alcance teve lugar nas décadas de 1860 e 70, quando K. H. Graf, seguido por J. Wellhausen, elaborou argumentos em prol da inversão da seqüência cronológica PEJ para JEP — cuja inversão foi mais radical para o restante do Pentateuco do que para Gênesis, desde que colocou a lei levítica perto do fim em vez de perto do início da história de Israel. Quanto a Gênesis, significava que P, considerado como um escrito exílico ou pós-exílico, forneceu a estruturação final, entrelaçando sua própria versão dos acontecimentos com J na primeira parte do livro, e com J e E do capítulo 15 em diante.
Uma vez que se firmou esse método de estudo, outros sinais distintivos dos documentos foram registrados em grande número, e na segunda metade do século dezenove o Pentateuco estava tão rigorosamente
dissecado que não era raro encontrar um versículo dividido em parcelas atribuídas a duas ou mesmo três fontes, visto que se dizia que cada uma delas tem vocabulário, caráter e teologia que lhe são próprios. Havendo dois sinônimos válidos para o mesmo substantivo, verbo ou pronome, um deles podia ser virtualmente a impressão digital de J ou E, e o outro de P. No caso de genealogias ou datas, estas constituíam o especial interesse de P. Se a atenção se centraliza nas tribos do norte, provavelmente há de ter sido obra de E. Teologicamente, parecia que, em J, Deus fala diretamente com os homens, a Sua personalidade se evidencia forte­ mente. Em E, suas mensagens tendem a vir por meio de sonhos ou de anjos que falam desde o céu. Em P, Ele é majestoso e distante, planejando o progresso dos acontecimentos no sentido do estabelecimento de um estado eclesiástico.
A presença de narrativas duplas ou compostas continua sendo o sustentátulo da teoria. Histórias declaradamente distintas foram toma­ das como variantes dos mesmos acontecimentos, enquanto que narrativas únicas foram tão meticulosamente partidas e tão brilhantemente reconstituídas que se tornou lugar comum encontrar dois relatos onde antes só se mostrava um. Sob esses milagres de cirurgia, dificilmente faltaria a um Adão, por assim dizer, uma Eva, formada dos seus ossos, para contradizê-lo. Os exemplos clássicos dessa técnica são as análises das narrativas do dilúvio e de José, discutidas nas notas adicionais sobre os capítulos 8,37 e 42.
Daí por diante, o estudo do Pentateuco ramificou-se em várias direções, com crescente interesse nos últimos anos pela Crítica da Forma. Esta procura as unidades literárias subjacentes a uma obra coesa e tenta compreendê-las como produtos de vários tipos de situação. A conseqüente ênfase dada à vida da comunidade em que os escritos surgiram, modificou o conceito de JEP. Estes já não são retratados como produtos diretos, digamos, dos séculos nono, oitavo e sexto respectivamente, mas como coleções de elementos da tradição preservados e desenvolvi­ dos em diferentes círculos israelitas através dos séculos, cada qual tendo o seu quinhão de materiais muito antigos.
Embora esta abordagem, entre outras, tenha rompido algo da rigidez da crítica precedente, de modo que A. Bentzen, para citar um, pôde declarar (os itálicos são dele): Creio que devemos parar de falar em documentos. As iniciais JEP ainda são predominantemente empregadas se referem, para a maior parte dos propósitos — a despeito de Bentzen — aos documentos que, segundo se pensa, incorporam suas respectivas tradições. Mesmo as datas sugeridas para esses documentos são grosseiramente mantidas, e uns e outros especialistas continuam a subdividi-los como antes, ou a descobrir fontes até então inimaginadas. Assim, por exemplo, C. A. Simpson2 acompanha E. Meyer e outros ao dividir J em J1 e J2; R. H. Pfeiffer3acrescenta a JEP o seu “ S” edomita; e O. Eissfeldt4isola uma primitiva fonte “ básica” “ L” , para chegar a uma seqüência documentária LJEBDHP do Pentateuco.
A velha análise literária do Pentateuco ainda é de fato tratada como substancialmente válida, sendo empregada como base da maior parte das obras subsequentes, mesmo que o interesse primário tenha mudado para outras áreas. Todavia, parece digno de nota mencionar que grande parte dela não pode ser provada.

1. Os nomes divinos não constituem seguro critério para determinação da autoria,

mesmo para a crítica literária (na prática), como parece que são à primeira vista. Por exemplo, muito geralmente se defende a posição de que o documento E começa fragmentariamente em 15. Todavia, com “ Elohim” completamente ausente desse capítulo e “ Yahweh” constando nele sete vezes, certos comentadores se mostram prontos para, onde necessário, atribuir ao Elohísta versículos que contêm “ Yahweh” , como base na suposição de que as últimas mãos pelas quais o texto passou desfiguraram a evidência que outrora estava presente ali. Em 22:1-14, forte passagem E, há três registros de “ Yahweh” para cinco de “ Elohim” , os quais têm sido explicados de modo semelhante ao acima exposto. Ainda em 17:1 e 21:1, P fala de “ Yahweh” . Resolver estas e outras anomalias anotando que “ Originalmente ’el... deve ter estado aqui” 5é abandonar a evidência existente só porque ela é inconveniente.
Esta situação clama por uma abordagem mais flexível, de modo que não se admitam apenas fontes possíveis, mas também a consciente e inconsciente escolha feita pelo autor, entre o vocabulário mais pessoal, “ Yahweh” e o mais geral, “ Elohim” , em certos contextos, e o impulso estético, onde a escolha teológica é livre, para empregar uma série de vezes uma expressão ou a outra, ou ainda alternar ambas
te. O uso feito por outros povos antigos dá amplo apoio a isto. Veja, por exemplo, os termos mutuamente permutáveis Baal e Hadade na lâmina ugarítica de Hadade, ou as múltiplas designações de Osiris na esteia de Ikhernofret,8sem mencionar outros exemplos.
Contra esta variação livre, Êx 3:13 e 6:3 muitas vezes são citados como textos-provas para mostrar que em Gênesis E e P não podiam ter empregado o nome Yahweh, desde que, em sua opinião, não se ouvira falar dele antes do chamado de Moisés. Mas isto é negligenciar o contexto desses versículos. Em Êx 3:14 a declaração divina, “ Eu sou...” , apresenta e esclarece o nome dado em 3:15, e este contexto é válido também para 6:3, no livro como o temos. O nome, em resumo, em qualquer sentido pleno da palavra, foi conhecido primeiro, em sua apresentação inicial. Mas o nome da mãe de Moisés, Joquebede (Êx 6:20), nome composto em que entra o termo Yahweh9é prova suficiente de que já era de uso comum, de acordo com o próprio P. Cf. E. Jacob (que aceita a análise tipo JEP): “ ...não temos na narrativa de Êxo­ do a revelação de um nome novo, mas a explicação de um nome já conhecido de Moisés e que, numa hora solene, se descobre que está repleto de um conteúdo de cuja riqueza ele estava longe de suspeitar”.

2. Outros critérios linguísticos são igualmente inconcludentes.

Em primeiro lugar, como o indicou U. Cassuto,1 tratar expressões alternativas de uma dada ideia simplesmente como características de diferentes autores é esquecer as nuanças de uma palavra. Por exemplo, “ cortar” uma aliança lança luzes sobre o momento histórico e o modo como é feita; “ dar” uma aliança acentua a soberania e a graça do seu Iniciador; e “ estabelecê-la” 14dá ênfase à Sua fidelidade em efetivá-la. (Incidentalmente, os dois últimos termos coexistem em P. Não deveriam ser critérios para dividi-lo?). Ainda trazer Israel “ para fora” (J) do Egito salienta o aspecto de libertação, enquanto que levá-lo “ até” (E) atenção para o seu destino, a terra prometida. Estas distinções valem a pena. As nuanças também podem ser de ritmo e intensidade, observáveis nos princípios que regem a escolha entre o pronome “ eu” longo e o breve (’ãnõkí, atribuído pela crítica a JE, e aní, pretensa característica de P). Incidentalmente, os equivalentes ugaríticos destas duas formas podem ser encontrados lado a lado. Aparecem, por exemplo, dentro de duas linhas em Aqhat III.vi.21,23,15 onde não existe a questão de autoria dupla.
Em segundo lugar, exemplos de muitos destes usos são em número demasiado pequeno para serem estatisticamente significativos, ou excessivamente circunscritos para darem liberdade a um autor. Os dois casos dados por Eissfeldt ilustram o ponto em foco. O primeiro é o uso feito por E de “amorreus” onde J registra “ cananeus”, com referência aos nativos da terra prometida.16Somente duas passagens E podem ser apresentadas com este fim, ao passo que 15:21, que menciona ambos os povos — “o amorreu, o cananeu” , é ignorada a despeito de sua proximidade de 15:16, passagem citada. O outro exemplo dado por Eissfeldt é o par de termos siphâ e ’ãmâ, que significam “ serva”, termos atribuídos a J e E respectivamente. Contudo, o argumento começa a parecer artificial quando faz Raquel oferecer sua serva a Jacó em E (30:3) e levar a cabo o oferecimento em J (30:4). Dificilmente se pode restabelecer a confiança no método com o corolário de Eissfeldt de que ainda outra fonte — uma variante de J — trai sua presença no terceiro substantivo, pileges, referente a essas esposas subordinadas.
3. Os “parei” tendem a mostrar-se como provas mais falhas ainda, pois são apresentados como se fossem coisa quase liquida e certa quando seus relatos são parecidos. Se os acontecimentos são muito semelhantes, acha-se que o assunto dispensa argumentação; se não se as­ semelham, mostram apenas quão divergentes são as tradições. Essas suposições podem ser notadas, por exemplo, na análise típica das duas vezes em que Hagar saiu de casa. Tratando os capítulos 16 e 21 como as versões J e E de um mesmo fato, com inserções P; G. von Rad, juntamente com a maioria dos especialistas em crítica, nota o contraste existente entre as duas histórias, no sentido de que em 16 Abraão é passivo e dócil, e em 21 mostra-se responsável; Hagar é orgulhosa e impetuosa na primeira história, é vítima inocente na segunda; ainda mais, o anjo vai em busca de Hagar em 16:7, mas a chama do céu em 21:17; e assim por diante.
Essas distinções são verdadeiras e fascinantes. O que é tacitamentedescartado é toda e qualquer possibilidade de que reflitam duas ocasiões diferentes, como elas o professam. Mesmo quanto ao desprezo de Hagar pela estéril Sara em 16, e quanto a seu filho ser apanhado caçoando do menino que o desapossara, no capitulo 21, não se trata de possibilidades que se excluam mutuamente, mas de uma seqüência orgânica, retrato fiel das tensões de 14 anos de envolvimento na história da família. Pode-se dizer a mesma coisa das duas atitudes de Abraão face a essas crises, pois na segunda ocasião ele tinha um poderoso precedente para fazê-lo hesitar, porquanto Hagar tinha sido mandada por Deus de volta para casa, da primeira vez que isso acontecera (16:9). (Outros sinais de seqüência semelhantes podem ser notados nas tentativas de Abraão e Isaque de passarem por irmãos de suas esposas. Ver o comentário introdutório do capítulo 26.)
É seguir preconceito, e não seguir a razão, deixar a coerente versão bíblica dos fatos sem discutir ou, no caso de seus comentários explicativos (por exemplo, 26:1), pô-los de lado como sendo harmonizações artificiais.

4. A existência de narrativas compostas, intrincadamente entrelaçadas, está em particular sujeita a ser questionada.

 Como método editorial, não teria paralelo (foi sugerido pela primeira vez antes que o nosso acesso à literatura antiga do Oriente Próximo submetesse a especulação a controle), e a análise que tenta desenredar a trama baseia-se na ideia rígida e improvável do estilo literário já considerada acima, nos parágrafos 1 e 2. Mais exemplos e uma crítica do método podem-se encontrar nas notas adicionais sobre os capítulos 8, 37 e 42.19. 

c. Algumas Conclusões.

Estudando-se Gênesis em seus próprios termos, isto é, como um todo vivo, não como um corpo a ser dissecado, não se pode fugir da impressão de que os seus personagens são pessoas de carne e ossos, de que os acontecimentos que relata são reais, e de que o livro mesmo constitui uma unidade. Se é assim, a mecânica da composição é questão de menor importância, uma vez que as partes desse todo não estão competindo por crédito como tradições rivais, e o autor do livro não chama a atenção para as fontes da sua informação, como o fazem os escritores de Reis e Crônicas.
Entretanto, não é preciso supor que houve falta de fontes orais e escritas para um autor do período indicado na seção a. (p. 15), visto que Abraão tinha emigrado de um país rico de tradições e genealogias,20 e José (como Moisés depois dele) vivera muitos anos na atmosfera intelectual da corte egípcia, por um lado (com acesso, por exemplo, à pormenorizada etnografia refletida em Gênesis 10) e da sociedade patriarcal, por outro, com amplas oportunidades para preservar esses acervos de informação. Em>consonância com isso, têm sido feitas tentativas para encontrar indícios de material compilado em datas anteriores às que são sugeridas para as obras de J, E e P, terminadas. Descreveremos resumidamente a seguir duas destas aventuras.
P. J. Wiseman, em New Discoveries in Babylonia about Genesis,21 examinou a possibilidade de que a frase “ São estas as gerações de...” , que assinala repetidamente o livro de Gênesis em 11 lugares,22 (frase traduzida variadamente em AA), dê a*pista da guarda dos registros familiares de que cuidaram os sucessivos patriarcas. Ele interpreta este estribilho como colofão (identificação), devendo-se traduzir: “ Estas são as origens históricas de...”. Em outras palavras, em sua opinião isso sempre assinala a conclusão de uma seção, encerrando os arquivos escritos ou possuídos através dos anos por Adão (5:6), Noé (6:9), pelos filhos de Noé (10:1), e assim por diante; uma série crescente confiada aos sucessivos chefes da família.
Em apoio ao seu argumento, esse autor acentua que nenhuma seção vai além do tempo de duração da vida da pessoa assim menciona­ da; que os blocos de material refletem com precisão (por exemplo, no vocabulário e nos topónimos) os diferentes estágios que eles registram; e que a arte de escrever, largamente praticada por muitos séculos antes de Abraão, é de altíssima antiguidade. Ele arrola também um certo número de expressões duplicadas que aparecem nas proximidades dos “colofões (identificações)” , as quais podiam ser deixas, recurso empregado comumente para estabelecer ligação entre as sucessivas lâminas em sua seqüência certa.
Mas relacionar a palavra “ gerações” (tôledôt) somente com o passado tem sua fraqueza. É evidente que não se pode aplicar, por exemplo, a Rt 4:18, onde a frase “ São estas, pois, as gerações de”, exatamente igual à de Gênesis, só pode indicar o futuro. Mesmo em Gênesis ela pode ser sempre classificada como tão aplicável ao futuro quanto ao passado (e freqüentemente mais ao futuro). De 2:4 em diante, toda vez que aparece, vem seguida de um relato daquilo que partiu ponto recém- mencionado, seja esse ponto a terra nua (2:5) ou Adão (5:3) ou Noé (6:9) etc. Assim, de Terá, por exemplo, (11:27) provêm não só Abraão, que dominará a cena, mas também os parentes de Abraão dentre os quais eventualmente há de ser escolhida a noiva de Isaque. E de Jacó (37:2) surgem as 12 tribos (cuja sorte é traçada bem adiante, no capítulo 49), e não apenas o herói José. Fazer na frase uma conclusão em vez de uma introdução produz a anomalia, quando rigorosamente aplicada, de se ter toda a história de Abraão preservada por Ismael (11:27-25:12), enquanto que Isaque guarda os arquivos de Ismael(25:13-19), Esaú os de Jacó (25:19-36:1) e Jacó os de Esaú — situação de complexidade quase teatral, e conclusão que o autor evita algo arbitrariamente.
Ademais, insistindo numa completa sucessão das mencionadas lâminas, a teoria implica em que a escrita é quase tão antiga quanto o homem, para não dizer que é mesmo tão antiga como ele. O próprio Gênesis, lido de qualquer outra maneira, não exige isto. Permite defender perfeitamente a ideia de que, conquanto as genealogias tenham sido consignadas à escrita num estágio primitivo mas não especificado, o restante da história da família pode ter sido transmitido por via oral, como sua aparência sugere muitas vezes. Algumas das características da tradição oral relacionadas por E. Nielsen trazem Gênesis à mente. Exemplos: ...expressões repetidas, estilo fluente, solto, um certo ritmo e eufonia especialmente perceptíveis quando se ouve o relato...” . Vale a pena anotar que essa espécie de transmissão pode ser mais que correta quando em uso metódico.
A segunda abordagem, partindo de pressuposições completamente diversas, é a de E. Robertson,30 que chamou a atenção para as oportunidades incomuns que Samuel teve de reunir e registrar as tradições de Israel quando visitou Betel e outros centros (1 Sm 7:16) em suas viagens de rotina como juiz. Robertson recorda as condições críticas de Israel nesse período, com a velha ordem a desintegrar-se, o santuário destruído, e a exigência de um rei ameaçando paganizar a teocracia. Uma evocação da lei de Moisés deve ter sido vital num momento como esse.
Expondo com alguns pormenores como Deuteronômio é adequado a essa situação toda, Robertson acha especialmente significativo que, conforme 1 Sm 10:25, Samuel “ recitou a constituição do reino (mispat hammamlãkâ) ao povo, escreveu-a num livro e o depositou diante do Senhor” .31 Isso foi, na opinião dele, o coroamento dos trabalhos de Samuel, que resultaram na edição do Pentateuco todo, possivelmente com o auxílio de “ doutos escribas trabalhando... sob a direção de concílios eclesiásticos de Samuel” . Portanto, para Robertson, “ os diferentes escritores, ou antes, compiladores da Torah, viveram todos na mesma época e todos se ocuparam dos seus grandes empreendimentos ao mesmo tempo”.
A tese de Robertson atribui a Samuel e aos santuários uma participação mais criadora na produção do Pentateuco, do que a Escritura parece autorizar (cf. seção a., acima), porém talvez esteja apontando na direção certa. Certamente a estatura espiritual de Samuel e sua experiência nas esferas do governo, do sacerdócio e da profecia, fazem dele o arquiteto final do Pentateuco — mais provável do que qualquer dos elementos anteriores a Esdras de que temos conhecimento. E se ele foi o narrador que falou de Moisés e editou os seus escritos, as referências ocasionais aos nomes e situações pós-mosaicos tratados na seção a. estariam plenamente de acordo com os fatos.
Mas todas estas tentativas são, em diferentes graus, especulativas e de importância meramente secundária. Tem-se a impressão de que, se Paulo se deixasse envolver nessa discussão, mais cedo ou mais tarde diria: “ Falo como um tolo”, embora pudesse acrescentar: “ vocês me forçaram a isso” — pois o debate, uma vez iniciado, tem de continuar. Talvez a última palavra, outra vez do Novo Testamento, seria mais apropriadamente a amável advertência feita a Simão Pedro quando se deixou fascinar demais por Moisés e Elias, no monte, a ponto de não se lembrar da razão de ser deles. Se, em nossos estudos do Pentateuco, somos tentados a erigir algumas ou muitas tendas, para Moisés ou para uma m meu Filho amado: a ele ouvi.”

III — Origens Humanas

Dois esquemas principais da infância do homem confrontam o cristão moderno. O livro de Gênesis retrata, em poucos traços de pena, uma criatura modelada com material terreno, com o sopro de Deus e feita semelhante a Deus. A história espiritual dessa criatura vai da inocência à desobediência, rumo a um declínio moral que os princípios da civilização nada podem fazer para sustar.
O segundo quadro, o da paleontologia, mosaico de muitos fragmentos, representa uma espécie formada através de um milhão de anos ou mais, talvez, até atingir a presente forma humana, exibindo as características externas do homem moderno desde 20000 anos atrás, não somente em sua estrutura física, mas também em sua experiência como fabricante de ferramentas, de usar o fogo, de enterrar os seus mortos e, não menos, de criar obras de arte comparáveis às de qualquer período. Mesmo nessa época remota parece que se podem distinguir os aparentes precursores dos nossos principais grupos raciais,1e a espécie já se havia espalhado amplamente pelo mundo, desalojando outro tipo de homínida, “ o homem de Neandertal”, cujas relíquias, rudes como são, indicam que ferramentas, fogo e sepultamento já vinham sendo usados durante longas eras antes disso. Por outro lado, os primeiros sinais conhecidos da vida pastoril e agrícola e, mais tarde, do emprego de metais (por exemplo, cobre forjado ou ferro meteórico; cf. coment. de 4:19-24), são muito mais recentes, aparecendo no Oriente Próximo, com evidências atuais, em algum ponto entre o oitavo e o quinto milênios a. C., no máximo.
Como se relacionam um ao outro os dois quadros, o bíblico e o científico, não se esclarece imediatamente. Deve-se admitir a natureza provisória das considerações científicas (sem fazer disto um refúgio contra todas as idéias que não sejam bem-vindas) e das interpretações tradicionais da Escritura. É preciso reconhecer também os diferentes objetivos e estilos das duas abordagens: uma sondando o mundo observável; a outra revelando mormente o inobservável, a relação de Deus com o homem. Para a primeira, o estilo há de ser secamente fatual, mas a última pode requerer toda uma galeria de gêneros literários para fazer-lhe justiça e, daí, é importante não prejulgar o método e a intenção destes capítulos.
Outras partes das Escrituras, porém, oferecem certos pontos fixos ao intérprete. Por exemplo, a raça humana é do mesmo tronco (“de um” , At 17:26). E a ofensa de um fez de muitos, pecadores, e os tornou
sujeitos à morte (Rm 5:12-19). E este homem era um indivíduo tão distinguível como o foram Moisés e Jesus Cristo (Rm 5:14).2 Outros também são contados como indivíduos no Novo Testamento; por exemplo, Caim, Abel, Enoque, Noé. Estas linhas direcionais excluem a ideia de mito (que dramatiza a ordem natural para “ explicá-la e mantê-la” 3), e nos dão a certeza de que estamos lendo relatos de acontecimentos reais e essenciais.
Poderia ser que os acontecimentos fossem apresentados aqui em forma figurada (cf. os comentários introdutórios do capítulo 3), ou que fossem marcos assinalando um imenso lapso de tempo. Ainda assim, há dificuldades. Se Gênesis está abreviando uma longa história, a total vastidão das eras que ela abarca, segundo essa maneira de ver, não é problema tão agudo como o fato de que quase toda essa imensidão jaz, para o paleontólogo, entre o primeiro homem e o primeiro lavrador — isto é, nos termos de Gênesis, entre Adão e Caim, ou mesmo entre Adão dentro do jardim do Éden e Adão fora do jardim. Contudo, o nascimento de Sete, ou do seu antepassado, estabelece um limite máximo de 130 anos para isso (4:25; 5:3). Ainda que os números de Gênesis não sejam literais, as proporções levantam a mesma dificuldade. Portanto, alguma outra abordagem parece necessária.
Para o presente autor, várias linhas convergentes apontam para um Adão muito mais próximo dos nossos tempos do que os primitivos fabricantes de ferramentas e artistas, para não falar nos seus remotos antepassados. Em face disso, os modos de vida descritos em Gn 4 são das culturas neolítica e da primeira fase dos metais polidos aludidas acima, isto é, talvez de oito ou dez mil anos atrás, mais ou menos. As reminiscências de nomes e de pormenores genealógicos também sugerem
um período razoavelmente compacto entre Adão e Noé,5em vez de um período de dezenas ou centenas de milênios, extensão de tempo quase inimaginável, impossível de ser objeto de crônica. Entretanto, isto parece alargar ainda mais o intervalo entre Gênesis e as cronologias usuais.

A resposta pode estar em nossa definição do homem.

Na Escritura o homem é muito mais que o homo faber, o fabricante de instrumentos. É constituído homem nada menos que pela imagem e pelo sopro de Deus. Segue-se que bem pode acontecer que a Escritura e a ciência tenham diferenças entre si quanto às fronteiras que tentam traçar ao redor da humanidade primitiva. Os seres inteligentes de um passado remoto, cujos restos físicos e culturais dão-lhes a inegável posição de “ homem moderno” para o antropólogo, talvez ainda tenham estado decididamente abaixo do plano de vida estabelecido na criação de Adão. Se, como o texto de Gênesis de modo nenhum reprovaria,6 Deus inicialmente modelou o homem mediante um processo de evolução, seguir-se-ia que uma considerável linhagem de seres semi-humanos precedeu ao primeiro homem verdadeiro, e seria arbitrário retratá-los como seres irracionais. Nada exige que a criatura na qual Deus soprou a vida humana não fosse de uma espécie preparada de algum modo para constituir a natureza humana, já com uma longa história da inteligência prática, da sensibilidade artística e da capacidade para temor e reflexão.
Segundo esta maneira de ver, Adão, o primeiro homem, deve ter tido como seus contemporâneos muitas criaturas de relativa inteligência, espalhadas por toda a face da terra. Poder-se-ia conjecturar que estas estiveram fadadas a desaparecer, como os de Neandertal (se é que com estes aconteceu isto), ou a perecer no dilúvio, deixando os descendentes diretos de Adão, por meio de Noé, dominando sós. Contra isto, porém, é preciso ter em mente a visível continuidade entre as principais raças do presente e as do passado distante, já mencionadas. Isto parece sugerir ou uma estupenda antiguidade para Adão (a menos que todo o processo de determinação de datas da pré-história geralmente aceito esteja radicalmente equivocado, como alguns tentaram demonstrar – como por exemplo Whitcomb e Morris, op. cit),  ou a existência continuada dos “ pré-adamitas” ao lado dos “adamitas”.
segunda alternativa envolvesse alguma dúvida sobre a unidade da humanidade, seria por certo insustentável. Deus, como vimos, fez todas as nações “ de um” (At 17:26). De fato, geneticamente, segundo esta ideia, esses dois grupos pertenceriam a uma única linhagem. Mas este fato puro e simples não teria valor nenhum, como o evidencia muitíssimo bem a infrutífera busca que Adão fez de uma companheira. Contudo, pelo menos é concebível que depois da criação especial de Eva, que estabeleceu o primeiro par de vice-regentes de Deus (Gn 1:27,28) e fixou o fato de que não há nenhuma ponte natural do animal ao homem, Deus talvez tenha então conferido Sua imagem aos colaterais de Adão para introduzi-los nos mesmos domínios do ser. Neste caso, a chefia “ federal” de Adão sobre a humanidade estendeu-se à sua volta aos seus contemporâneos, e para diante à sua posteridade — e a desobediência dele deserdou a uns e a outros igualmente.
Talvez haja uma indicação bíblica sobre tal situação na surpreendente impressão de uma terra já populosa dada pelas palavras e atos de Caim em 4:14,17. Mesmo Agostinho teve de dedicar um capítulo ao trabalho de responder àqueles que“ veem dificuldade nisto”, e conquanto a resposta tradicional seja perfeitamente válida (ver comentário de 4:13,14, adiante), a persistência desta velha objeção poderia ser um sinal de que as nossas pressuposições são inadequadas. Outra vez, pode ser significativo que, com uma possível exceção,10a unidade da humanidade “ em Adão” e nossa condição comum como pecadores pela ofensa dele sejam expressas na Escritura em termos, não de hereditariedade," mas simplesmente de solidariedade. Em parte nenhuma encontramos aplicado a nós algum argumento sobre a descendência física semelhante ao de Hb 7:9,10 (onde se diz que Levi participou do ato de Abraão por estar “ ainda nos lombos do seu antepassado” ). Antes, o que fica demonstrado é que o pecado de Adão envolveu todos os homens porque ele foi o chefe federal da humanidade, algo como, na morte de Cristo, “um morreu por todos, logo todos morreram” (2 Co 5:14). A paternidade não desempenha nenhum papel quanto a fazer de Adão a figura daquele “ que havia de vir” (Rm 5:14).12

Podem-se fazer três comentários finais.

Primeiro, a sugestão exploratória acima é apenas experimental, como deve ser, e constitui opinião pessoal. Pede correção e melhor síntese. Entretanto, pode servir como lembrete de que quando parece difícil harmonizar o revelado com o observado, é porque sabemos de menos, e não demais — como o nosso Senhor fez sentir aos saduceus acerca da sua charada sobre a ressurreição. O que estes capítulos esclarecem muito bem, à luz de outros passos da Escritura, é a doutrina de que a humanidade constitui uma unidade, criada á imagem de Deus, e que em Adão caiu por um ato de desobediência. E estas coisas são afirmadas tão vigorosamente sobre este modo de entender a Palavra de Deus como sobre qualquer outro.
Segundo, pode-se pensar que esta discussão toda permite que a ciência controle demais a exegese. Esta seria uma grave acusação. Mas, tentar correlacionar os dados da Escritura e os da natureza não é desonrar a autoridade bíblica e, sim, honrar a Deus como Criador e aferrar-nos à nossa tarefa de interpretar Seus modos de falar. Na Escritura Ele nos deixa descobrir por nós mesmos pormenores tais como se “ as asas do vento” e “ as janelas do céu” são literais ou metafóricas, e em que sentido o mundo não pode ser abalado (SI 96:10, AV: “ motivo”) ou o sol sai diariamente “ a percorrer o seu caminho” (SI 19:5,6). Algumas destas questões são respondidas tão logo levantadas; outras somente à medida que o conhecimento geral progride;13 em sua maior parte, elas são doutrinariamente neutras. Afirmamos a nossa infalibilidade, não a
nos recusamos a conferir as nossas respostas fatuais com as da pesquisa independente.
Terceiro,  os interesses  e métodos da Escritura e da ciência,   contudo, diferem tão largamente  que,  em  quaisquer  dos  seus pormenores, são mais bem estudados à parte. Suas descrições do mundo são tão distintas (e cada qual tão legítima) como o retrato feito por um artista e o diagrama de um anatomista, sendo que nenhum quadro misto o retratará satisfatoriamente, pois o terreno comum de ambos consiste apenas na realidade total de que tratam.
Não é possível exagerar a ênfase de que a Escritura é o veículo perfeito da revelação de Deus, que é o que nos interessa aqui. E seu arrojado afã seletivo, como o de uma grandiosa pintura, é sua força. Ler a Bíblia com um olho posto em qualquer outro relato é obscurecer a sua imagem e ficar sem a sua sabedoria. Para termos a apresentação feita pelo próprio Deus dos princípios da humanidade nos termos em que eles nos interessam mais profundamente, não precisamos olhar nada além da interpretação que deles faz o Novo Testamento.

IV — Teologia de Gênesis

Em Gênesis há material suficiente para um substancial livro sob es­ se título. Aqui vamos considerar abreviadamente apenas três dos seus temas, a saber, Deus, o homem e a  salvação.

a. Deus.

Desde o início, Gênesis nos confronta com o Deus vivo, Deus inequivocamente pessoal. Os verbos do capítulo inicial expressam uma energia mental, de vontade e de julgamento que exclui toda a questão de conceber a Deus “ na categoria do ‘isto’ em lugar do ‘Tu’” (para copiar a frase de Emil Brunner1). E o livro continua a dar esta ênfase em seu relato da constituição do homem à imagem de Deus, e do  persistente interesse de Deus por relações pessoais com os Seus  servos.
Segundo, Ele é o único Deus, o Criador e Senhor Soberano sobre tudo que existe. Se os últimos capítulos de Isaías, o locus classicus do monoteísmo explícito, afirmam isto com veemência, em Gênesis a questão de outras divindades simplesmente não aparece — exceto no único episódio de Jacó fugindo de Labão, onde, para um ouvido atento, Labão pode ser ouvido invocando um deus separado, por sua parte na
aliança com Jacó (ver coment. de 31:53), e onde imagens fazem breve e ignominioso aparecimento, sucessivamente roubadas, servindo de as­ sento e enterradas (31:19,30,34; 35:4). A narrativa da criação estabeleceu a matéria em foco, e a história subsequente confirma que Deus é tão senhor dos acontecimentos no surgimento e na queda das nações (15:14,16; 25:23) como na concepção de uma criança ou no chamamento de um seguidor. O tempo e o espaço, o pecado e mesmo a morte (5:24) não podem competir com Ele, quer opere por meio de milagres patentes, quer mediante providência oculta. E esta é a fé, não só do narrador, mas também das personagens principais, que O proclamam Criador e Juiz de todos (14:19,22; 18:25) e Regente capaz de pôr em ordem as situações mais intratáveis (45:5-8).
Terceiro, Seus meios são perfeitos. A série de expulsões e cataclismos em Gênesis declara que o Céu não pode fazer armistício com o pecado, seja o pecado de lesa-divindade, como a incredulidade e a jactância (como aconteceu no Éden e em Babel), ou as faltas contra o homem, como a violência, a luxúria e a traição. Contudo, Sua justa ira é também pesar (cf. 6:6). Seus juízos são suavizados pela misericórdia (3:21; 4:15; 6:8; 18:32; 19:16,21; etc.) e demoram a sobrevir (15:16). (Seu interesse pela recuperação do pecador é discutido abaixo, na seção c. 3.) Igualmente, se Sua justiça contém amor, Seu amor inclui exigência moral. Há um vestígio de desafio nisto, mesmo no paraíso terrestre (cf. coment. de 2:8-17), e Abraão deveria descobrir, depois de um longo período, e de modo supremo no monte Moriá (capítulo 22), que ser amigo de Deus exigia dele tudo quanto possuía, ainda que lhe fosse devolvido.
Quarto, Ele se nos revela a Si próprio. Ordenando, conversando e, acima de tudo, entrando em aliança, Ele sempre é Aquele que se dá, em alguma medida. Nunca é objeto distante que os homens buscam tateando. Neste livro Ele é conhecido por muitos nomes, além do termo geral Deus e do nome pessoal Yahweh.2 Alguns são títulos que exprimem facetas do Seu ser (Altíssimo, 14:18-22, título frequente nos Salmos; Todo-Poderoso, 17:1 — ver nota — e alhures, também frequente em Jó; Eterno, 21:33; cf. Is 40:28). Outros comemoram um momento especial de encontro (Deus que vê, 16:13, quando se revelou a Hagar; Deus, o Deus de Israel, 33:20, lembrando o novo nome dado a Jacó, cf. 32:28; El-Betel, ou Deus de Betel, 35:7, em memória do sonho de Jacó). Ainda outros declaram um relacionamento empenhado (Deus de Abraão, 28:13, etc.; Temor de Isaque, 31:42,53; Poderoso de Jacó, 49:24).  Estas três classes de título correspondem aos três principais   elementos de toda a revelação — doutrinário, histórico e pessoal. Finalmente, podemos notar pelas indicações ocasionais, nas expressões “ o Anjo do Senhor” ou “ de Deus” e “ o Espírito de Deus”, que a unidade de Deus não é monolítica.  Um estudo das passagens “ Anjo do Senhor” (relacionadas na nota de rodapé) não dá lugar à dúvida de que a expressão indica Deus mesmo, visto em forma humana. O que se deve aduzir é que “ Anjo”, que significa “ mensageiro”, implica em que Deus, fazendo-se visível, é ao mesmo tempo Deus enviado.
No Velho Testamento não se faz nada quanto a este paradoxo, mas não nos deve surpreender que esse aparente absurdo desaparece no Novo Testamento. Exatamente como “ o Espírito de Deus” era uma expressão veterotestamentária aguardando seu esclarecimento completo no Pentecoste, assim“ o Anjo do Senhor”, como expressão referente significação somente à luz daquele “que o Pai... enviou ao mundo”, o Filho preexistente.

b.  O Homem.

1. O homem perante Deus. Uma vez que este assunto é discutido conforme seus vários aspectos vão aparecendo no comentário dos capítulos 1-3, basta mencionar aqui os lugares onde isso é feito.
(1)  Constituição do homem: ver comentário de 1:26 e 2:7.
(2) A vocação do homem: ver principalmente o comentário de 2:8- 17, mas também o último parágrafo do comentário de 1:26, e 3:22.
(3) A queda do homem: ver o cap. 3, principalmente as observações introdutórias sobre o capítulo, e os comentários dos versículos 6 e 7.
(4) A situação do homem: ver comentário de 3:16, e a nota adicional sobre o capítulo (acerca do pecado e do sofrimento).2. O Homem na Sociedade. Apesar de toda a ênfase que Gênesis dá ao indivíduo, com Deus chamando os homens pelo nome e buscando os desprezados, o modelo que o livro apresenta para a vida humana não é o do místico solitário ou franco-atirador, mas o de um ser social que vive dentro de certo padrão de responsabilidades. Já no Éden se pode discernir o princípio desse padrão, com suas três dimensões de coisas, pessoas e autoridade, em relação às quais o homem deve cumprir normalmente a sua vocação e glorificar a Deus. Â medida que o livro prossegue, o padrão tanto se desenvolve como sofre distorção. Desenvolve-se em que o tempo e a população crescente enriquecem o seu conteúdo; sofre distorção em que o pecado leva perturbação a toda parte.

(1) Coisas.

Um importante elemento da vocação original do homem consistia em “ cultivar” e “ guardar” (2:15) seu meio-ambiente imediato, e dominar, bem como encher a terra (1:28). Dessas expressões, o vigor deles comparável ao da rica fertilidade da terra descrita em 1:11 e sua abundância de recursos minerais vislumbrada em 2:11, depreende-se que o homem recebeu a bênção de uma imensa obra criadora desde o início. Se esta era uma perspectiva convidativa, o pecado do homem e a maldição de Deus transformaram-na em grande medida numa carga, com a miséria como chefe de serviço e a morte como a palavra final (3:17-19). O trabalho em si não foi um legado da queda; é-o somente em sua nova característica de fadiga.
O quadro subsequente é do multicolorido progresso, tal como o experimentamos ainda, e o trabalho e as posses do homem são apresentados como instrumentos que podem ser usados para o bem ou para o mal, e não como fins em si mesmos. As artes e ofícios civilizados não são aclamados como panacéia, nem evitados porque descendentes de Caim os inventaram. Contudo, vemos qual deles foi apreciado por Lameque, o tirano (4:22-24), e que novos terrores isso consequentemente lançou sobre a raça! À medida que a narrativa se desenrola, a capacidade artística e fabril do homem ora é bênção, ora maldição, pois serve a Deus na construção da arca e O desafia em Babel. Quanto às possessões, são vistas à mesma luz, sendo obtidas das mãos de Deus e ofereci­ das como dízimos em Sua honra (14:18-20; 28:22), mas não devem ser aceitas incondicionalmente (“ para que” tu, rei de Sodoma, “não digas: Eu enriqueci a Abrão”, 14:23). Acima de tudo, essas coisas não devem tornar-se a meta de ninguém, como aconteceu com Ló, para sua ruína, nem devem tornar-se a obsessão de ninguém, como sucedeu com Labão, para sua completa corrupção.
Pode-se aduzir que, nas narrativas patriarcais, parte das aflições foi retirada da antiga maldição lançada sobre a terra, como para Caim algo lhe foi acrescentado (4:11,12). Houve fomes de verdade, e pelo menos para Jacó, amargos apertos (31:40). Mas houve também excepcionais bênçãos que chamaram a atenção dos seus contemporâneos em cada geração, tanto de Abraão (21:22) como de Isaque (26:12-16,28), Jacó (30:27,30) e José (39:5). Talvez seja para que vejamos nisto um fugaz antegozo da bênção geral que, segundo a promessa, haveria de vir a no final: nada menos que, a suspensão da maldição e a anulação da queda.

(2) Pessoas.

No Éden o companheirismo é apresentado como uma necessidade humana primária, necessidade que Deus se dispôs a satisfazer criando não uma duplicata de Adão, mas seu oposto e complemento, e unindo os dois, homem e mulher, em perfeita harmonia. Limitaremos o presente estudo a esta relação humana fundamental.
O rompimento da harmonia entre o homem e a mulher, não por desacordo mútuo, mas por seu conluio contra Deus, provou de uma vez quão dependente ela era de Sua participação invisível. Sem Ele, daí por diante o amor seria imperfeito, e o casamento gravitaria em direção ao relacionamento “ subpessoal” prefigurada pelos termos “ desejo” e “ governará” (3:16; ver comentário desta passagem).
Embora o restante do livro confirme essa tendência, mostra ao mesmo tempo a graça repressora de Deus. Pois através de todo o livro de Gênesis o casamento é sólido e duradouro, e o próprio fato de que o verbo “ conhecer” (4:1, etc.) é empregado para referir-se à relação sexual dá a ideia de que era originalmente pessoal antes que carnal, ainda que o termo tenha-se degenerado (19:5,8) tornando-se simples eufemismo. Contudo, contra essa estabilidade deve-se antepor o fato de que raramente há uma família, das descritas com alguma municiosidade, que não seja ferida por invejas assassinas, em sua maior parte refletindo conflitos entre os pais.
A poligamia em parte é a culpa disso, mas a própria poligamia é sintoma de uma desequilibrada noção do matrimônio, segundo a qual é uma instituição em que a raison d ’être última da mulher é ter filhos. Enquanto que Deus criou a mulher primeiro e acima de tudo para co-participação, a sociedade com efeito fez dela um meio para um fim, ainda que nobre, e gravou seu modo de ver nos contratos matrimoniais. Foi reconhecidamente um conceito que as mulheres parecem ter com­ partilhado (16:2; 30:3,9), e um arranjo que Deus não contestou. Mas o seu preço, nas relações humanas, poderia ser muito alto, como o demonstra o capítulo 30, entre outros. De modo semelhante, a prática matrimonial do levirato, que se tornaria uma obrigação sob a lei mosaica, ilustra no capítulo 38 as tensões ocasionadas por uma forma de união que não passava de um mecanismo de procriação, mesmo quando se faz a devida avaliação dos caracteres inescrupulosos envolvidos nessa narrativa particular. Qualquer que fosse o valor dessas instituições no seu tempo — e algum valor não se lhes pode negar — somente confirmam a sabedoria da ordenança básica que se acha em 2:24.

(3) Autoridade.

A responsabilidade de governar (à parte do domínio do homem sobre os animais) parece, à primeira vista, emergir somente depois da queda. Germinalmente, porém, tem suas raízes na fundação da sociedade humana, como 1 Co 11:3,8 o expõe, na prioridade de Adão em relação a Eva.
Como vimos acima ao discutir o tema do casamento, uma nota mais desagradável introduziu-se no relacionamento por ocasião da que­ da (3:16), e o primeiro que se ouve expressá-la é Lameque, descendente de Caim (4:19,23). Sua linguagem bombástica chama a atenção para o elemento da força bruta que é o lado obscuro de toda autoridade num mundo decaído. Pois, enquanto que Deus é a fonte do governo humano, e o ordenou para fins de ordem e decência (Rm 13:1-7; 1 Pe 2:13,14), os poderes que estão a cavaleiro de uma dada situação geral­ mente devem, em grande parte, sua posição, sendo eles considerados de outro ângulo, à agressividade de homens ambiciosos. Para um exemplo mais puro de autoridade, temos de voltar-nos para os patriarcas, cuja chefia da sua pequena comunidade devia tudo à ordenação divina. Em parte eles tinham esta prerrogativa simplesmente como pais, fato que se evidencia bem nos incidentes registrados em 9:20, onde se vê que Cão, filho de Noé, trouxe maldição à sua progénie por haver desonrado seu pai, enquanto Sem e Jafé tomaram todo o cuidado para evitar essa impiedade. Naquele momento, a honra de Noé residia na dignidade do seu ofício de pai; toda outra dignidade o abandonara. Entretanto, Deus manteve a sua autoridade. Contudo, de Abraão em diante, tiveram o poder adicional de, antes de sua morte, transmitir as promessas divinas a um ou outro dos seus filhos. A história da bênção de Isaque a Jacó e Esaú ilustra tanto o poder inerente ao seu ofício (pois ele não poderia revogar a bênção que dera, 27:33), como o fato de que a bênção não de­ pendia dos seus méritos pessoais.
Mas no mundo exterior, os patriarcas não exerciam autoridade nenhuma. Não sendo sequer cidadãos de plenos direitos, tinham de fazer todos os arranjos que podiam mediante tratados privados (por exemplo, sobre os direitos do uso de águas, 21:30; 26:15) ou alianças (como a de Abraão e Aner, etc., 14:13) ou aquisições (23:4; 33:19). Embora reprovassem o casamento misto com gente de famílias cananéias (24:3; 26:34) e se mantivessem separados da imoralidade flagrante (14:23; 34:7), amoldavam-se às leis e costumes locais, cientes de que não tinham direito de agir como críticos sociais, nem de pretender cargos. Somente Ló ousou querer subir no mundo, e conseguiu um assento à “ entrada” da cidade (19:1), o que se mostrou ineficiente quando chegou a hora da prova (19:9).
José constitui a única exceção patente dessa regra. Sua promoção veio sem ser procurada e era tão claramente resultante da ação de Deus que ele não hesitou em aceitá-la e a mostrar-se igualmente servo de Deus e de Faraó. Onde Moisés se tornou salvador do seu povo renunciando ao Egito, José se tornou salvador do seu povo, em seu contexto completamente diverso, precisamente empenhando toda a sua energia e sabedoria na promoção dos interesses desse país.
e de Gênesis para com o governo emerge, de fato,   substancialmente como o do Novo Testamento, em que o governo humano é defendido como ordenação divina, e seus oficiais como servos de Deus, embora se exija que o povo de Deus viva, não somente como “ peregrinos e forasteiros” (1 Pe 2:11), mas também  como  cidadãos cooperati­vos cuja “ prática do bem” (1 Pe 2:15) silencia a  crítica.

c.  Salvação.

A graça deve constituir o princípio deste tópico, e Gênesis   revela que a graça, longe de ser mera resposta ao pecado, é fundamental para a própria criação. Isso transparece na decisão de conduzir “ muitos filhos à glória” envolvida na formação do homem à imagem de Deus e na preparação de um mundo no qual a filiação poderia ser levada à maturidade (ver comentário de 2:8-17), e a imortalidade estaria ao alcance do homem (2:9; 3:22). A entrada do pecado introduz na cena outros aspectos da graça, nas medidas tomadas por Deus para preservar a humanidade em algum nível de decência e ordem, e levar certos homens a entrarem em aliança com Ele, por meio dos quais abençoaria finalmente o mundo (18:18). Como “ Salvador” (isto é, Preservador) “ de todos os homens” ,6 Ele é apresentado em Gênesis restringindo a corrupção e a anarquia produzidas pelo pecado, por meio da disciplina do trabalho duro e da mortalidade (3:17, 22), do emprego construtivo dos recursos naturais (3:21), das sanções da lei (9:4-6) e da capacidade de reconhecer obrigações morais (c/. o uso que Abimeleque fez de expressões morais em 20:5,9), como também por meio da influência direta dos Seus servos (por exemplo, 50:20). Como Salvador “ especialmente dos fiéis” (ou “ dos que creem”), Ele revela Sua graça escolhendo-os, chamando-os, justificando-os, estabelecendo aliança com eles e ensinando-lhes os Seus caminhos. Estas atividades vêm resumidas nas duas últimas seções seguintes.
Eleição. Rm 9:6-13 mostra que Gênesis deixa indubitável a soberana escolha de Deus, mediante as narrativas do nascimento de Isaque e de Jacó. Particularmente Jacó foi assinalado em detrimento de Esaú “ ainda antes de haverem nascido, e sem que tivessem feito nem o bem nem o mal”. Longe de serem voluntários fortuitos, esses homens deviam sua existência à intervenção de Deus (pois, como Sara, Rebeca era estéril), e a escolha divina foi mantida contra uma longa história de vacilações e intrigas paternas. A mesma iniciativa divina levantou todos os libertadores, desde Sete, o “ designado” sucessor de Abel (4:25), passando por Noé (cujo papel foi profetizado por ocasião do seu nascimento, 5:29) e Abraão (chamado para longe do seu país e da sua parentela), até José,  enviado” , contrariamente a todas as intenções humanas,  paraconservar... um remanescente” da família escolhida (45:7,8).
Contudo, é importante notar, de passagem, que a escolha de Isa- que e de Jacó, antes de nascerem, e a correspondente rejeição de Ismael e de Esaú, estavam explicitamente relacionadas com a função deles, não com a sua salvação ou perdição. Isto é especialmente claro no caso de Ismael, rejeitado numa capacidade e aceito na outra. Quando Abraão orou: “ Oxalá viva Ismael diante de ti”, a resposta de Deus foi “ Não” ao pedido implícito de que tomasse o lugar de Isaque, mas foi “ Sim” às palavras em seu sentido literal. ... eu te ouvi: abençoá-lo-ei...” (17:18-21). A eleição, em Gênesis, refere-se ao fato de o homem estar ou não na linha de sucessão que levava a Cristo, a “ semente” que seria para bênção das nações (Rm 9:5; G13:16).
3. Recuperação do pecador. Desde o momento da queda, os efeitos mortais do pecado constituem um dos principais temas de Gênesis, mostrando sua imediata força repulsora entre o homem e Deus, seu crescente domínio do homem, culminando na depravação geral evidente no dilúvio, e suas várias explosões na forma de presunção em Babel, de decadência em Sodoma, e, no âmbito familiar, de todos os pecados do homem constantes do decálogo.
A obra salvadora de Deus não é menos completa nem menos variada. Sua maneira de buscar o pecador pode ser mediante a direta convicção de pecado (seja pelo interrogatório pessoal dirigido a Adão e a Caim, seja pela enigmática prova que quebrantou os irmãos de José em 42:21; 44:16), ou mediante a pura graça que produziu a surpresa reação de Jacó em Betel. Mas é Deus, e não o homem, quem busca. Ló é leva­ do à segurança porque “ achou mercê” ou “ graça” (19:19) quase que a despeito de si próprio. E também é a graça que dá início a toda a história de Noé (6:8).
Da parte do homem, poderíamos ser tentados a supor (menos quanto à indicação sobre Noé que acabamos de mencionar) que a retidão do culto e da vida era o passaporte que assegurava a sua aceitação, até chegarmos à afirmação que põe fim à especulação, a saber, que Abraão foi justificado pela fé (15:6; cf. Rm 4:1-5,13-25) — pronunciamento que lança luz não só sobre cada período subsequente, mas também sobre cada período antecedente, deixando claro que, desde o primeiro caso, a fé fora indispensável para o acesso a Deus (Hb 11:4).
Mas em Gênesis a salvação é muito mais que simples aceitação. Plenamente desenvolvida, é uma intimidade com o Céu, de matizes tão variados como os personagens que a desfrutam. Homens tão diferentes como Enoque, para quem se derreteu a barreira da morte; Abraão, “ o amigo de Deus” , cuja devoção foi provada até um ponto quase que além de toda possibilidade de se aguentar; o seu servo Eliezer (capítulo 24; cf. 15:2), com sua fé reta, semelhante à do centurião; e Jacó, cuja carreira foi virtualmente “ a domesticação de uma víbora” , sintetizada na luta que travou em Peniel. E essa intimidade não era somente uma afinidade de sentimentos e idéias, mas a relação assumida e firmada numa aliança, na qual Deus prometia ser o Deus da descendência deles (“ Serei o seu Deus”, 17:7), e o homem respondia: “ O Senhor será o meu Deus” (28:21).
Na esfera do caráter e da conduta em relação aos seres humanos, a salvação também vai além de uma justiça meramente imputada. Numa época em que não havia lei, Noé ficou sozinho em sua integridade (6:9), e em contato com Sodoma Abraão evitou até as riquezas da cidade por amor a Deus (14:22,23), enquanto que Ló se apôs à sua corrução (19:7-9; cf. 2 Pe 2:7,8), embora ao fazê-lo tenha revelado possuir um código moral tristemente desequilibrado. Uma insensibilidade semelhante a essa, em Abraão e Isaque, poderia ter-lhes granjeado o desprezo dos pagãos em certas ocasiões. Mas, se a natureza daqueles homens era tão falível como a dos seus contemporâneos, pela graça eles podiam elevar-se a altitudes imensuravelmente maiores. A intercessão de Abraão por Sodoma, como a de Judá por Benjamim, demonstra um interesse altruístico que é próprio dos santos, de Moisés a Paulo, enquanto que a paciência, a pureza, a sabedoria e o amor de José para com os seus inimigos, são pouco menos que semelhantes às virtudes de Deus.
Quanto ao aspecto final da salvação, a libertação do último inimigo, Gênesis mostra apenas débeis delineamentos. “ És pó e ao pó tornarás” tem um toque de finalidade, mas o contexto deixa uma porta entreaberta, pois uma vez Deus tinha soprado a vida nesse mesmo pó. Por duas vezes também há vislumbres mais diretos do Seu poder sobre a morte: uma vez quando Enoque foi tomado (5:24), e outra quando Abraão compreendeu que Deus poderia trazer Isaque de volta dos mortos (“ voltaremos para junto de vós”, 22:5: cf. Hb 11:19).
Contudo, estas lições eram para outra época. Nesse estágio, a esperança era dirigida por Deus rumo ao crescimento da família escolhida, à posse da terra e à bênção das nações. Se nesse meio tempo a morte era recebida tranquilamente pelos patriarcas, era em grande parte porque o sepultamento feito no túmulo da família antecipava a entrada daquela família em sua herança (cf. 47:29; 50:24); pois a “ semente” escolhida é que era investida da promessa e da missão, não qualquer desses indivíduos como tais. “ Certamente Deus vos visitará” (50:25). Esta esperança bastava. A partir do seu cumprimento, franquear-se-ia, sem falta, a plenitude da salvação como a conhece o Novo Testamento. Gênesis contenta-se em vê-la de longe e, nesse ínterim, em interessar-se pelas nascentes deste rio, antes que pelo estuário e pelo oceano distantes.

GÊNESIS - Introdução e Comentário - REV. DEREK KIDNER, M. A. - Sociedade Religiosa Edições Vida Nova ,Caixa Postal 21486, São Paulo - SP, 04602-970

A TRI—UNIDADE DE DEUS NO VELHO TESTAMENTO - por Stanley Rosenthal
No verso 2 do Salmo 90, notamos que muito antes do "princípio", quando foram criados os céus e a terra, desde a eternidade das eternidades, "Elohim" (plural) já "era". Ele não apareceu nesse tempo como uma força geradora, mas já "era". "TÚ ÉS DEUS".

O termo “trindade” vem sendo usado faz aproximadamente mil e seiscentos anos, para tentar explicar a natureza de Deus. Mas, a escolha desse vocábulo específico foi infeliz e incorreta. Quando os cristãos usam a palavra “trindade” (que significa, simplesmente, “três”), inconscientemente comunicam aos ouvintes um conceito politeísta (a crença ou a adoração a uma pluralidade de deuses). A palavra “trindade” foi cunhada a fim de referir-se à pluralidade que há em Deus, ao mesmo tempo em que manteria o pensamento da unidade divina. Foi uma escolha bem intencionada, mas infeliz.
Atualmente, muitos não-cristãos supõem que essa doutrina significa que a cristandade acredita. em três deuses, e não em um só. No seu âmago, entretanto, esse ensino na realidade em nada difere da doutrina judaica central sobre a unidade de Deus. Para descrever corretamente o verdadeiro conceito bíblico da natureza de Deus, deveríamos usar o vocábulo “Tri-unidade”, em lugar de trindade, O termo “Tri-unidade” transmite a idéia de que Deus é um só, ao mesmo tempo em que consiste em três pessoas.
Isso de maneira alguma indica a crença na existência de três deuses; antes, indica uma crença em total consonância com os ensinamentos da lei e dos profetas. Apesar de estar acima de nossa capacidade de experimentar, ou, quanto a muitos aspectos ao menos de compreender plenamente esse fenômeno, essa é, não obstante, a posição da Bíblia. Se quisermos entender esse conceito, em qualquer medida, teremos de voltar-nos para as Escrituras com esta simples indagação: “Que diz o Senhor?”
 

A Unidade Composta de Deus

A unidade de Deus é ensinada nas páginas do Antigo Testamento. Vintenas de passagens, na lei e nos profetas, convergem a fim de prover-nos uma irrefutável evidência de pluralidade, dentro da unidade de Deus.

Pluralidade na Shema

O povo judaico com freqüência faz objeção à
 Tri-unidade de Deus por causa daquilo que acreditam ser-lhes ensinado na Shema. Para a maior parte dos israelitas, a Shema é o coração mesmo do judaísmo. Trata-se daquela passagem fundamental que se encontra no livro de Deuteronômio:

“Shema Yisroel Adonai Elohenu Adonai Echad ...”

“4 Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. 5 Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.” (Dt 6:4-5)
A palavra
 Shema é o primeiro vocábulo hebraico dessa passagem, e significa “ouve”. A premissa aceita entre os judeus é que essa declaração ensina que Deus é indivisivelmente uno. Conseqüentemente, eles levantam a seguinte objeção: “Não posso crer nessa pessoa, Jesus, que os cristãos consideram Deus”. Para eles, a Shema parece haver silenciado para sempre o argumento que envolve a crença cristã histórica na deidade de Jesus. Entretanto, um exame cuidadoso do trecho de Deuteronômio 6:4 na verdade estabelece, ao invés de refutar, a pluralidade de Deus. Uma completa revisão do texto hebraico revela essa verdade acima de qualquer dúvida razoável. O incrível é que a Shema é uma das mais pode rosas declarações em favor da tri-unidade de Deus que se pode encontrar na Bíblia inteira. A própria palavra que alegadamente argumenta contra o ensino da tri-unidade de Deus realmente afirma que em Deus há pluralidade, pois a última palavra hebraica da Shema é echad, um substantivo coletivo, em outras palavras, um substantivo que demonstra unidade, ao mesmo tempo que se trata de uma unidade que contém várias entidades. Poderíamos citar um bom número de exemplos.
Em Gênesis 1:5, Moisés empregou essa palavra ao descrever o primeiro dia da criação:
 “Chamou Deus à luz Dia, e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia”. A palavra aí traduzida por “primeiro” é a palavra hebraica echad. Aquele primeiro dia, é claro, consistiu em luz e trevas - manhã e tarde.
Em Gênesis 2:24, Deus revelou o que se fazia necessário para um casamento feliz. Ele instruiu marido e mulher a tornarem-se
 “os dois uma só carne”, indicando que aquelas duas pessoas unir-se- iam, formando perfeita e harmônica unidade. Em tal caso, novamente, a palavra hebraica é echad. O ponto é claro, portanto — echad é sempre usada para indicar unidade coletiva, uma unidade em sentido composto.
Em Números 13, Moisés registrou o relato sobre os doze espias hebreus que tinham sido enviados para espiar a terra de Canaã. Quando retornaram daquela missão, de acordo com o versículo 23, eles pararam em Escol, onde
 “cortaram um ramo de vide com um cacho de uvas” A palavra que aqui aparece como “um’ em “um cacho” novamente é echad, no hebraico. Mas, como é evidente, esse único cacho de uvas consistia em muitas uvas.
Por semelhante modo, em Esdras 2:64, registram as Escrituras:
 “Toda esta congregação junta foi de quarenta e dois mil trezentos e sessenta”. A palavra hebraica aqui traduzida por “toda”, na expressão “toda esta congregação”, é a palavra hebraica echad. E evidente que aquela congregação de Israel, embora fosse uma só, compunha-se de muitos indivíduos. De fato, nada menos de 42.360 israelitas a compunham!
Jeremias, grande profeta de Judá, no capítulo 32 de seu tratado, inspirado pelo Espírito de Deus, empregou a mesma palavra hebraica, echad, a fim de denotar uma unidade composta. Lemos nos versículos 38 e 39:
 “Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho ...” A referência feita por Jeremias a “um só coração” e a “um só caminho”, envolve a inteira nação de Israel. Assim, muitos, coletivamente falando, são considerados como somente um.
O que é mais interessante nisso tudo é que há outra palavra hebraica que significa “unidade absoluta”. Essa outra palavra hebraica é yachid. Em Gênesis 22:2, Abraão é instruído:
 “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto..:” O termo aqui traduzido em português por “único” no hebraico é “yachid”. Esse vocábulo hebraico é novamente usado nos versículos 12 e 16 desse mesmo capítulo. Havia apenas um filho de Abraão que Deus reconhecia. Isaque era o filho da promessa — não havia outro. Nesse sentido, pois, yachid estabelece singularidade absoluta: um e somente um.
Também, em Provérbios 4:3, Salomão assevera:
 ”teu era filho em companhia de meu pai, tenro, e único diante de minha mãe”. Davi, por sua vez, escreveu em Salmos 22:20: “Livra a minha alma da espada, e a minha predileta da força do cão.”. Onde temos “minha predileta” literalmente, no hebraico, está “minha única”, sendo usada a palavra hebraica “yachid”.

Também encontramos escrito em Juizes 11:34:“Vindo, pois, Jefté a Mispa, a sua casa, saiu-lhe a filha ao seu encontro, com adufes e com danças: e era ela filha única; não tinha ele outro filho nem filha”. Jeremias declara, em 6:26 de seu livro:
 “O filha do meu povo, cinge-te de cilício, e revolve-te na cinza; pranteia como por um filho única.’ De novo, lê-se em Amós 8:10: “...farei que isso seja como luto por filho único..’ E novamente, em Zacarias 12:10, onde se lê palavras ditas pelo próprio Senhor Deus: “...olharão para mim, a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito...”.
Percebemos, portanto, que os escritores sagrados, inspirados pelo Espírito de Deus, dispunham de duas palavras hebraicas que podiam escolher, quando queriam comunicar a verdade acerca da natureza de Deus. E claro que Yahweh selecionou a palavra sagrada que O identifica com a idéia de pluralidade. Esse substantivo coletivo sempre foi escolhido, e não o singular absoluto. A preferência dada a echad, ao invés de yachid, não deixa margem para dúvida quanto ao sentido que Deus nos queria transmitir.

Pluralidade no Nome de Deus

Em nossa Bíblia
 portuguesa, os tradutores, ao traduzirem as palavras hebraicas El e Elohim, fizeram-no com “D” maiúsculo, “Deus”. No hebraico, essas palavras significam ambas “Todo-poderoso”.
Ambos esses nomes, na verdade, são uma só palavra. Todavia, El é a forma singular, enquanto que Elohim é a forma plural da mesma palavra. Particularmente importante é o fato que dentre as 2.750 vezes em que essas palavras são empregadas no Antigo Testamento, Elohim, a forma plural, é em pregada por nada menos de 2.500 vezes. 
 
Êxodo 20 provê para nós um excelente exemplo. Nessa passagem, Moisés estava transmitindo os Dez Mandamentos de Deus ao povo de Israel.
 Yaweh, pois, declara ali: “Eu sou o Senhor teu Deus... Não terás outros deuses diante de mim” (vv. 2 e 3). Nessa declaração, “Deus” e “deuses” são idênticas no original hebraico, isto é, Elohim. A variação que se vê na tradução portuguesa deve-se ao fato que os tradutores, apesar de traduzirem a segunda ocorrência da palavra por “deuses’ no primeiro caso preferiram traduzir EIohim no singular, “Deus”.
Gramaticalmente, no hebraico pelo menos, seria igualmente aceitável ter sido traduzida essa passagem como: “Eu sou o Senhor teus Deuses... Não terás outros deuses diante de mim”.
Isso posto, essa questão de pluralidade, quanto ao nome divino, deve ser reconhecida como uma importante questão, que precisamos levar
 em conta. O livro de Gênesis fornece-nos uma excelente ilustração. Somente no relato sobre a criação, a palavra hebraica E/oh/ri é usada por cerca de trinta e duas vezes, aludindo à obra divina da formação dos céus e da terra.
Outra instância disso encontra-se na própria
 Shema Ali o substantivo “Deus” é o termo hebraico Elohenu. Ora, Elohenu reflete tanto o pronome plural, em “nosso” Deus, como a forma plural, Elohim.
Impõe-se novamente a pergunta: Por qual razão Deus preferiu coerentemente a forma plural Elohim, a fim de demonstrar a Sua unidade? O uso de uma forma singular não transmitiria, com maior clareza, o conceito de singularidade? O fato, entretanto, é que Deus preferiu comunicar, por intermédio de Moisés, a idéia de pluralidade dentro de Sua unidade.

Um Ponto no Livro de Gênesis

A pluralidade, nos pronomes pessoais, quando utilizada em relação a nosso Senhor, adiciona uma prova ao conceito da
 tri-unidade de Deus. Uma vez mais, pomo-nos a examinar o registro de Gênesis, em busca de evidências. Três passagens demonstram esse ponto:
“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem conforme a nossa semelhança... Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou: homem e mulher os criou”
 (Gênesis 1:26,27).
Logo no começo, podemos observar a seleção da palavra hebraica Elohim como forma do substantivo usado nesse versículo; Elohim estava pronto para criar o homem. Em consonância com essa escolha, pois, foi inserido o pronome pessoal plural, “nós” (subentendido no verbo “façamos”) e o adjetivo possessivo plural “nossa” (por duas vezes).
Dr. David L. Cooper estabeleceu um ponto válido, ao observar que os substantivos hebraicos “semelhança’ e “imagem” estão ambos no singular, o que indica que tanto a pessoa que falava como a pessoa a quem se falava era uma e a mesma pessoa. E as sim a conclusão é muito iluminadora: A idéia de pluralidade (“nós” e “nossa”) é fundida com termos no singular (“semelhança” e “imagem”), assim demonstrando aquilo que podemos denominar de unidade coletiva, de unidade composta. Isso é reforçado no versículo 27, onde Deus refere-se a Si mesmo usando pronomes pessoais no singular “sua?’ e “ele” (ele, subentendido em “criou”).
Deve-se compreender que somente Deus é capaz de criar — isso se evidencia por todo o volume da Bíblia. Visto que isso é verdade, então quem está em foco dentro da declaração: “Façamos NÓS o homem à NOSSA imagem, conforme a NOSSA semelhança”? Só há uma conclusão lógica.
“...Eis que o homem se tornou como um de nós.., o Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do
 Éden’ (Gênesis 3:22,23). Adão e Eva haviam transgredido contra Yahweh. A reação do Senhor Deus foi expulsá-los do jardim do Éden. Notemos que Deus observou que o homem “...se tornou como um de NÓS’ (o pronome pessoal no plural), razão pela qual o homem precisava ser expulso.
O terceiro ponto a ser salientado encontra-se no relato sobre a dispersão da humanidade, quando da construção da torre de Babel.
 “Vinde, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem.., Destarte o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra..:’ (Gênesis 11:7,8). Uma vez mais o pronome pessoal plural “nós’ é empregado (subentendido nos dois verbos, “desçamos” e “confundamos”). A isso se segue uma referência a Deus, no singular.
“... desçamos. “.

Tri-Unidade ou Politeísmo?

Uma pergunta emerge das páginas do Antigo Testamento: Devemos crer
 em um [único] Deus que consiste em mais de uma pessoa, ou devemos aceitar o politeísmo? Uma breve investigação em algumas poucas passagens bíblicas pode ilustrar as alternativas que se abrem diante de nós.
No Salmo 45, o rei de Israel é apresentado como se fosse Deus. Lemos especificamente, nos versículos 6 e 7:
 “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de eqüidade é o cetro do teu reino, Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros”. Visto que a primeira palavra Deus, sublinhado [este sublinhado foi perdido na cópia, Hélio o colocou], está no imperativo [correção: vocativo], destaca-se a indagação: Quem é o Deus de Deus?
Novamente, em Salmos 110:1, diz o rei Davi:“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos de baixo dos teus pés”.
 A pergunta que deve ser feita quanto a essa passagem é: A quem Davi dirigia-se como o seu Senhor? Quando Davi compôs esse sal mo, ele era o monarca de Israel. Não havia outro maior do que Davi em Israel, exceto Deus. Quem, pois, deve ser considerado Senhor de Davi? E para quem Deus estava falando?
Em Gênesis 18 e 19, Moisés registrou a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra. Evidentemente, através dos dois capítulos, que o próprio Senhor apareceu a Abraão como um dos três homens que o visitaram. No trecho de Gênesis 19:24 lemos:“Então fez o Senhor chover enxofre e fogo, da parte do Senhor, sobre Sodoma e Gomorra”.
 Inquestionavelmente, essa referência bíblica identifica duas pessoas distintas. Uma vez mais, a escolha se destaca: politeísmo ou a tri-unidade de Deus!
Temos a certeza de que a Bíblia não ensina o politeísmo. E simplesmente intransponível o abismo entre o ensino da
 tri-unidade de Deus e o conceito de muitas divindades. Acusar alguém que os cristãos acreditam em três deuses é algo destituído de base. O politeísmo concebe e ensina deuses que são entidades independentes umas das outras — deuses que a todo tempo entrechocam-se com outros deuses, em seus objetivos. Mas, dentro da tri-unidade de Deus sempre há uma absoluta unidade de desejo, de desígnio e de execução. Todas as referências bíblicas mostram Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo operando em perfeita união. Basta esse fato para vermos a grande diferença que há entre aqueles dois conceitos.

O Messias Reconhecido como Deus

“6 Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. 7 Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto.” (Is 9:6-7)
 
Esses versículos mostram-nos explicitamente que Aquele sobre cujos ombros estará o governo, e por intermédio de quem chegarão a este mundo a justiça, a paz e a retidão, é, ao mesmo tempo, Deus e homem. Como criança ainda, Ele nasceu na nação de Israel. Isso dá a entender, de maneira enfática, a humanidade do Messias. Ao mesmo tempo, porém, ele também é ali reconhecido como o verdadeiro Deus, por ser o Filho dado por Deus. Além disso, essa criança, esse Filho, é chamado de “Deus Forte”. Acrescente-se a isso que lhe são conferidos outros títulos que só cabem legitimamente a Deus. Pois Ele é designado “Maravilhoso”, “Conselheiro”, “Pai da Eternidade” e “Príncipe da Paz”.
Jeremias aliou-se a Isaias, ao insistir que o Messias é Deus em carne humana.
“5 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra. 6 Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA.” (Jr 23:5-6)
Não há dúvidas que essa declaração refere-se ao Messias que procederia da linhagem de Davi. Na qualidade de Rei de Israel, Ele haveria de trazer justiça, retidão e paz a esta terra. Quem realizará tudo isso? De conformidade com essa porção da Palavra de Deus, será o Renovo justo de Davi ( o Messias) — Yahweh-tsidkenu, “Senhor Justiça Nossa”. Visto que Deus deixa absolutamente claro que não existem deuses além dEle mesmo, como pode ríamos compreender que Ele chamou Seu servo, o Messias, de Deus? Isso só pode ser compreendido quando percebemos que esse Filho de Deus, esse Renovo justo, na realidade é Deus.

O Messias é Eterno

Em um sentido limitado, algumas das qualidades ou atributos de Deus são exibidos na Sua criação, particularmente na humanidade. Não obstante, há muitas outras características que residem exclusivamente no próprio Deus. A eternidade é um dos atributos designado somente a Deus. Diferente dos homens, ou de qualquer substância existente no universo criado, Deus não somente existe para sempre, mas também não teve começo — Ele sempre existiu. Deus revelou-se a Moisés chamando a Si mesmo de
 “Eu sou o que Sou” (Êxodo 3:14) — uma declaração cujo propósito era o de mostrar ao Seu servo atemorizado a passada, a presente e a futura existência de Sua divina pessoa. Deus simplesmente existe! Por semelhante modo, há muitas outras passagens, no Antigo e no Novo Testamento, que informam-nos que antes de qualquer coisa vir à existência, Deus já estava lá.
Tendo esse fato em mente, voltamos agora a nossa atenção para os ensinos bíblicos que abordam a questão da pré-existência do Messias. Não somente Ele deveria nascer como um ser humano, em algum ponto histórico do tempo, mas também, de acordo com o profeta Miquéias, o Messias (o Filho de Deus) tem as suas “saídas desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Escreveu esse profeta judeu, em 5:2 do livro que tem seu nome:
 “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.” (Mq 5:2) Assim, o local do nascimento do Príncipe que viria foi predito séculos antes que Ele aparecesse neste mundo. O Messias surgiria na cena humana não simplesmente como fruto do ventre de uma virgem, mas também procederia das regiões da eternidade, onde Ele sempre [existiu, existe, e] existirá, eternidade a fora.
É importante que entendamos que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento destroçam o errôneo conceito do nascimento físico de Jesus como se isso tivesse constituído a Sua origem, o Seu começo. A Bíblia nunca ensina tal coisa, em parte alguma. Por igual modo, as Escrituras nunca sustentam a tese de que Maria é a mãe de Deus, visto que Deus nunca nasceu. Deus sempre existiu. O que o Novo Testamento revela-nos, paralelamente ao Antigo Testamento, é que Deus manifestou-se em carne, como ser humano. Maria foi a mulher judia que Deus escolheu para dar à luz Àquele que é o Deus encarnado — o eterno Filho de Deus.

O Messias Foi Adorado

Somente Deus pode ser adorado, com toda a legitimidade. Deus proíbe a adoração direta a qualquer outro ser ou objeto, tanto nos céus quanto na terra. Em Salmos 118:8 somos instruídos quanto a esse particular:
 “É melhor confiar no SENHOR do que confiar no homem.” Mais dogmático ainda mostra-se o profeta Jeremias, o qual citou Deus a dizer “5 Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR! ... 7 Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR.” (Jr 17:7) 
No entanto, em certas porções das Escrituras, encontramos o Messias aceitando adoração da parte dos homens. Davi deixa isso perfeitamente claro no Salmo 2. Ali ele identifica o Messias como o Filho de Deus, e, em seguida, instrui que o Rei-Messias deveria ser adorado (v. 12). Isso pode ser chocante para o seguidor das Escrituras — a menos que ele compreenda a
 tri-unidade de Deus. Então torna-se lógica e escriturística aquela admoestação de Davi, que recomenda: “Beijai [ o Filho..]
Deus deixou perfeitamente claro que o Seu Filho, o Messias, tem todo o direito de ser adorado. Isso, por sua vez, significa que Cristo é Deus. Se não fosse uma realidade, então a única alternativa que nos restaria seria acreditar que o Deus que nos adverte a não reverenciar ao homem, estava contradizendo-se ao ordenar-nos tal coisa. Naturalmente, Deus não estava se contradizendo. Ao contrário, estava frisando esse ponto uma vez mais: o Messias é Deus.

Uma Palavra Final

Temos compartilhado de certo número de momentosos fatos — verdades que são capazes de libertar nossas mentes, se estivermos dispostos a rejeitar as crenças restritivas, agrilhoadas às tradições humanas, para então considerarmos objetivamente as Sagradas Escrituras. A Palavra de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, ensina-nos que o Senhor onipotente é uma personalidade triúna. Quanto a esse detalhe, o judaísmo bíblico (por meio das Escrituras do Antigo Testamento) e o cristianismo bíblico estão em total acordo.
Os crentes que acreditam na Bíblia não são politeístas. Antes, a doutrina deles é tão autenticamente monoteísta quanto o é a doutrina do judaísmo bíblico. Na verdade, se não entendermos o conceito
 da tri-unidade de Deus, nos sentiremos inteiramente perdidos na tentativa de explicar grande par te dos ensinos do Antigo Testamento.
O ponto crucial do problema inteiro repousa, em última análise, sobre a explicação do impacto exercido pela vida e pelo ministério de Jesus Cristo. Por mais de dois milênios, Ele tem cativado os corações dos homens e tem dominado a história da humanidade. Se quisermos ser perfeitamente honestos, como poderíamos explicar a pessoa de Cristo, à parte do fato que Ele é Aquele que foi anunciado por Isaías como o Deus forte.


Questionário da Lição 1, Gênesis, o Livro da Criação Divina (pronto só na Quinta-Feira a noite)
4º trimestre de 2015 - O Começo de Todas as Coisas - Estudos Sobre O Livro de Gênesis
Comentarista da CPAD: Pr. Claudionor Correa de Andrade
Complementos, ilustrações, questionários e vídeos: Ev. Luiz Henrique de Almeida Silva
Complete os espaços vazios e marque com"V" as respostas Verdadeiras e com"F" as Falsas, conforme a revista da CPAD. 


Referências Bibliográficas (outras estão acima) Bíblia de estudo - Aplicação Pessoal.
Bíblia de Estudo Almeida. Revista e Atualizada. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.
Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. Texto bíblico Almeida Revista e Corrigida.
Bíblia de Estudo Pentecostal. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida, com referências e algumas variantes. Revista e Corrigida, Edição de 1995, Flórida- EUA: CPAD,
GÊNESIS - Introdução e Comentário - REV. DEREK KIDNER, M. A. - Sociedade Religiosa Edições Vida Nova ,Caixa Postal 21486, São Paulo - SP, 04602-970
Gênesis a Deuteronômio - Comentário Bíblico Beacon - CPAD - O Livro de Gênesis - George Herbert Livingston, B.D., Ph.D.
Revista CPAD - Lições Bíblicas - 1995 - 4º Trimestre - Gênesis, O Princípio de Todas as Coisas - Comentarista pastor Elienai Cabral


FONTE PAZ DO SENHOR  

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